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maio 31, 2015
Obra de Cildo Meireles é vendida por US$ 641 mil e bate recorde do artista em leilão da Christie's, O Globo
Obra de Cildo Meireles é vendida por US$ 641 mil e bate recorde do artista em leilão da Christie's
Matéria originalmente publicada no jornal O Globo em 28 de maio de 2015.
Pintura de espanhola naturalizada mexicana foi o grande destaque, com US$ 3,3 milhões
RIO - A Christie’s deu início na última quarta-feira, em sua filial de Nova York, à venda de obras latino-americanas, alcançando um faturamento de US$ 20,2 milhões. Entre os nomes do Brasil Cildo Meireles bateu seu recorde mundial em leilões com "Rodos", de 1978, arrematada por US$ 641 mil. A casa estimava receber ofertas entre US$ 250 mil e US$ 350 mil pela obra.
O resultado surge num momento importante para Cildo. Conforme antecipou o colunista Ancelmo Gois, a exposição que o artista plástico abriu na galeria Lelong, também em Nova York, tem obras à venda por US$ 2 milhões. Com isso, Cildo atinge o patamar de artistas como Beatriz Milhazes e Sérgio Camargo.
Além de Cildo, a famosa casa de leilões de Londres vendeu uma colagem de Judith Lauand, "Composição em fundo vermelho" (1966), por US$ 87,5 mil. A artista também bateu seu recorde em leilões.
A pintura surrealista "Vampiros vegetarianos", da espanhola naturalizada mexicana Remedios Varo, liderou os lances, sendo arrematada por US$ 3,3 milhões. O valor foi além da expectativa da Christie’s, que previa que o quadro sairia por algo entre US$ 1,5 e US$ 2 milhões. Nunca antes disponibilizado em um leilão, "Vampiros vegetarianos" foi produzido no auge da carreira de Remedios, em 1962.
Outras obras de destaque na noite foram as dos mexicanos Diego Rivera e Rufino Tamayo, dos chilenos Claudio Bravo e Roberto Matta, do uruguaio Joaquín Torres-García e do colombiano Fernando Botero.
As vendas continuam nesta quinta-feira.
Ciência e paixão por Paula Alzugaray
Ciência e paixão
Crítica de Paula Alzugaray originalmente publicada em Arte Visuais da revista Istoé em 29 de maio de 2015.
Rodolpho Parigi converte a galeria Nara Roesler, em São Paulo, em um museu de anatomias em mutação
Rodolpho Parigi - Levitação, Galeria Nara Roesler, São Paulo, SP - 23/05/2015 a 25/07/2015
Em 2004, uma análise científica da anatomia da mulher pintada na tela “A Grande Odalisca” (1814) determinou que a modelo foi representada por Jean-Auguste Dominique Ingres com cinco vértebras a mais do que um corpo humano convencional. O corpo modificado da Odalisca de Ingres serve hoje de parâmetro para as pesquisas do artista paulistano Rodolpho Parigi, em grande parte orientadas para representações reais e fictícias de corpos humanos e animais. É natural, portanto, tomar o desenho “La Grand Odalisque” (2015) como a principal porta de entrada para a exposição “Levitação”, terceira individual de Parigi na galeria Nara Roesler, em São Paulo.
Em sua versão paulistana, a Odalisca apresenta rigorosamente a mesma pose na qual foi representada em 1814, com a mesma coluna vertebral ampliada. Sua pele aveludada, no entanto, é como que rasgada por bisturis de precisão cirúrgica, dando visão à imagem quase-enciclopédica da musculatura e de tecidos nervosos. O pé esquerdo, que na versão neoclássica descansa sobre a outra perna, é aqui convertido na pata de um animal híbrido entre uma ave e um réptil. O trabalho está cercado por outros desenhos em grande dimensão de asas de libélulas, inseto frequentemente representado por Parigi por sua “carga de magia, liberdade, mudança, transmutação”. Os desenhos da série das libélulas são formados por corpos que articulam filigranas de asas à musculatura humana.
Na tensão gerada entre a rigidez dos músculos e a fragilidade das asas está implícito outro antagonismo central à poética de Parigi: as matérias carnais (sanguíneas) versus as imagens etéreas. Essas duas intenções – o carnal e o etéreo – se retroalimentam em cada uma das cerca de 20 obras expostas, em composições que atingem uma qualidade altamente erótica. O que está em pauta, afinal, é um cientificismo colocado em xeque pelo impulso sexual e onírico.
O erotismo é ainda a chave de leitura para Fancy Violence, alterego e personagem concebida pelo artista há cerca de dois anos, durante uma residência artística no Pivô, e que este ano concorre ao Prêmio Pipa, do Museu de Arte Moderna do Rio. A personagem frequentemente protagoniza performances em que o êxtase espiritual confunde-se ao sexual. Na abertura da exposição na galeria Nara Roesler, realizou a “Levitação”, que dá nome à mostra.
