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abril 1, 2015
Janine fala em aproximar a educação ao mundo da cultura, em sua primeira entrevista após indicação por Agência Brasil, O Globo
Janine fala em aproximar a educação ao mundo da cultura, em sua primeira entrevista após indicação
Matéria de Agência Brasil originalmente publicada no jornal O Globo em 1 de abril de 2015.
Novo ministro da Educação participou do programa Observatório da Imprensa, na TV Brasil
RIO - Em sua primeira entrevista depois da indicação anunciada pela presidente Dilma Rousseff para a pasta da Educação, o filósofo Renato Janine, falou da sua visão da educação brasileira e da ideia de aproximá-la do mundo da cultura.
- Acredito na educação como libertação. Saber não é uma transmissão de conteúdos, não é uma padronização. Penso que um dos pontos importantes é como a gente aproxima isso do mundo da cultura - disse em entrevista ao jornalista Alberto Dines, no programa "Observatório da Imprensa", da TV Brasil, que foi ao ar na noite desta terça-feira.
- O mundo da educação é muito mais regulado, porque há cursos, currículos, nota, diploma. Estou fazendo uma esquematização muito simples. O mundo da cultura, você pode ver [o filme] Lincoln, do [diretor Steven] Spielberg, é uma aula sobre escravagismo e abolição. Aula mesmo seria diferente - acrescentou Janine, lembrando que o aprender tem se tornado mais uma obrigação e menos um prazer.
Professor titular de ética e filosofia política da Universidade de São Paulo (USP), o ministro toma posse no próximo dia 6 e disse estar empolgado com sua nova missão e confessou que, para ele, foi uma “enorme surpresa” a indicação da presidenta para que ele assumisse a pasta.
- Estou empolgado. Foi uma surpresa. Realmente eu não esperava. Houve algumas postagens no Facebook em favor do meu nome, mas também em favor de outros nomes.
O novo ministro também fez reflexões sobre a democracia brasileira e as recentes manifestações de rua. Considerando que a democracia depende de instituições, mobilização política e cultura política, o professor avaliou que o país ainda enfrenta problemas no terceiro quesito.
- O problema é a cultura política. Política quer dizer que não existe um lado totalmente certo e outro totalmente errado. Você tem preferências. Tem de ter pelo menos dois grupos divergentes, apresentando propostas diferentes. Mas ambos dignos, ambos legítimos - destacou.
- A tendência para escassez de cultura política é achar que a origem de todos os males está sempre na corrupção. E sempre o corrupto é o partido que não gostamos. É o outro. Quando vejo esse tipo de discurso, a recusa de diálogo, me parece coisa infantil - explicou.
Sobre como analisaria o reaparecimento de movimentos fascistas, Janine informou que vê na atualidade muita liberdade, mas também insegurança. E que, ao contrário de décadas atrás, as pessoas não vivem mais dentro de um pacote de identidade, que antes trazia garantias.
- No passado, cada um de nós vivia em um pacote identitário. A gente nasceu na classe média. Tinha umas três ou quatro carreiras universitárias para fazer. Iríamos escolher uma, casar no rito religioso. Tudo está pronto e você não sai dele - observou.
- De repente, nada mais é obrigatório. Você pode dar vazão ao que você é e ao que você quer. Ficamos em situação mais instável, mas com maior liberdade, com maior possibilidade de realização pessoal, mas, estranhamente, com maior possibilidade de frustração. Acho que esse horizonte assusta muito.
O futuro ministro acrescentou que, após receber a indicação para assumir a pasta, recebeu muitas mensagens. Um pequeno número delas cobrando disciplina na sala de aula e até a expulsão de alunos em determinadas situações.
- Olho e penso que eles estão falando de condutas horríveis, que não podem ser toleradas. Concordo. Mas a demanda principal é saber se colocar ordem na bagunça vai resolver. Isto não existe. Este não é um projeto pedagógico, não é um projeto de país - disse. - No Brasil, há uma certa ideia muito antiga de que, com um homem providencial, autoritário, mal-humorado, despótico, tudo vai funcionar.
Para sempre por Fred Coelho, O Globo
Para sempre
Coluna de Fred Coelho originalmente publicada no jornal O Globo em 1 de abril de 2015.
Como pode uma administração que se diz sensível ao patrimônio artístico e histórico da cidade ter cogitado passar por cima de uma escultura pública
Na última semana, um evento com rápidas idas e vindas nos apontou o sintomático lugar que as artes visuais ocupam no imaginário oficial do poder público carioca. Estou falando sobre a quase destruição da escultura de Waltercio Caldas (“Escultura para o Rio”), localizada no Centro da cidade. A ideia, até o momento em que escrevo, foi revogada. O fato, porém, é que ela veio de técnicos ligados à prefeitura do Rio de Janeiro. O motivo era o até então inegociável traçado do VLT. Como pode uma administração que se diz sensível ao patrimônio artístico e histórico da cidade ter cogitado passar por cima de uma escultura pública, também gestada e instalada por uma prefeitura (projeto “Esculturas urbanas”) na década de 1990?
Provavelmente muitos pensam que, em uma cidade conflagrada e militarizada como o Rio de Janeiro (enquanto existirem tanques na Maré, vivemos sob intervenção militar), uma obra de arte não é assunto sério frente aos milhares de problemas do nosso cotidiano. Mais que isso, muitos podem até dizer que o progresso, essa máquina faminta, não pode ser impedido frente a duas torres de pedras portuguesas.
Bem, talvez seja aí que reside o busílis da questão. Sabemos que a arte contemporânea, em geral, vive em baixíssima conta popular. Sua suposta aura elitista (alimentada por excessos que a ligam a um mercado milionário), sua pouca comunicação com o senso comum (em textos e abordagens curatoriais às vezes mais complexas do que as próprias obras) e seu necessário deslocamento crítico frente ao olhar do público (afinal, não se trata de trabalhos que querem comunicar o óbvio) já são elementos que, de certa forma, a colocam em um espaço muito frágil em disputas como essa. Atitudes como a da prefeitura só reforçam esse estereótipo ao mostrar equivocadamente à população o quão descartável pode ser uma obra desse porte. Vale lembrar que, nos últimos dias, um vagão do futuro VLT ficou exposto na Cinelândia para visitação. Quantos dos que foram ver esse “objeto estético” visitariam a obra de Waltercio? Pergunta retórica, claro, pois isso não importa. Se o VLT tem sua utilidade na promessa de um transporte público de qualidade, a “Escultura para o Rio” está lá justamente para marcar um contraponto crítico na narrativa produtiva da cidade.
Por sugerirem que uma escultura como a de Waltercio (ou de Ivens Machado, Amilcar de Castro, Angelo Venosa, Burle Marx, Aluísio Carvão ou Franz Weissmann, alguns dos principais artistas plásticos que ocupam o espaço público) não tem valor permanente para o bem comum da cidade, e por cogitarem a primazia de um “bonde futurista” nas nossas necessidades coletivas, a prefeitura emite um sinal distorcido para a população. Reduz o entendimento sobre arte pública a estátuas homenageando grandes nomes da cultura ou painéis de artistas pop ocupando fachadas de empresas. Creio que o caminho deveria ser o contrário. Ou, pelo menos, complementar.
Se os discursos sobre a arte apontam um espaço fechado (e caro) de fruição, isso se deve muito mais aos formatos propostos em sua apresentação do que às demandas populares pela sua presença. Basta constatarmos que o Centro e a Zona Sul estão cheios de galerias, museus e obras públicas, enquanto não há praticamente nenhuma presença institucional ou privada em bairros da Zona Norte, Zona Oeste e adjacências. Aqui, o campo de possibilidades é vasto para quem pensa a arte como uma forma de multiplicação de olhares, e não de concentração de riquezas.
Existem atualmente projetos que buscam aproximar essas experiências e superar as supostas distâncias naturalizadas entre a população e os espaços convencionais da arte. São iniciativas que vão no caminho contrário do poder público e da lógica das megaexposições cujas filas são sinal de sucesso. Galerias no Borel (fruto das ações do coletivo Boreart) e no Chapéu Mangueira, galpões como o Bela Maré, na Nova Holanda, ocupações do coletivo Norte Comum e intervenções como os azulejos do coletivo Muda são apenas algumas das formas exemplares que devemos valorizar para entender o lugar orgânico das artes visuais nos múltiplos cotidianos da cidade.
Para fechar um texto cujo tema daria dezenas de colunas, voltemos ao momento em que Waltercio Caldas foi convidado para realizar sua obra. Imagino que o movimento inicial tenha sido elaborar algo que, por se enraizar no solo das ruas — e no caso da obra dele, literalmente fazê-la nascer da calçada — fosse permanente. Suas colunas brancusianas de pedras portuguesas aspiram o céu e nos fazem olhar o azul dos dias em uma avenida entupida de dióxido de carbono e esmagada pela memória fantasmagórica do extinto Morro do Castelo. Elas estão lá justamente para que possamos fruir sua invisibilidade monumental e para zelar pela beleza fugaz de nossos dias. Para sempre.
março 30, 2015
Novo curador do Tomie Ohtake chega com a missão de arrasar quarteirões por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Novo curador do Tomie Ohtake chega com a missão de arrasar quarteirões
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na revista Serafina do jornal Folha de S. Paulo em 29 de março de 2015.
Já passa das dez horas da noite quando Philip Larratt-Smith desce do quarto, todo de moletom, com o cabelo enrolado amarrado atrás da cabeça.
Numa sala de reuniões do hotel Fasano, em São Paulo, ele conta o que pretende fazer agora que virou uma espécie de curador internacional -e à distância- do Instituto Tomie Ohtake.
Mas, antes de qualquer conversa, é preciso lembrar que Philip, 36, não é um novato na cena paulistana. Esse canadense radicado em Nova York pode ser visto no restaurante Spot sempre que está em São Paulo. Foi ele quem organizou as mostras de Andy Warhol, na Estação Pinacoteca, e de Louise Bourgeois e Yayoi Kusama, no centro cultural em Pinheiros que agora o contratou.
Não seria exagero dizer que, depois de Bourgeois, Kusama e Salvador Dalí, o Tomie Ohtake entrou na onda das mostras blockbuster, fazendo frente a outros espaços da cena nacional, como a Pinacoteca do Estado, que acaba de trazer Ron Mueck, e o Centro Cultural Banco do Brasil, que abriu há pouco uma retrospectiva de Picasso em São Paulo e se prepara para receber Kandinsky logo mais, nas filiais de Belo Horizonte e SP.
Nessa equação, Philip, que ainda estudava literatura grega e latina em Harvard quando conheceu a escultora francesa Louise Bourgeois, em 2001, entra como peça-chave. Amigo de Louise, morta há cinco anos, obcecado por Warhol e por sua "identificação patológica" com o sonho americano, e íntimo de estrelas controversas da arte contemporânea, como a artista japonesa Yayoi Kusama e a fotógrafa americana Nan Goldin, famosa por seus registros dos submundos de Nova York e Berlim, o curador tem o trânsito que o centro cultural almeja para criar uma programação dos sonhos -e de bilheterias alucinadas.
"Não existe nenhum artista fora do mercado hoje. Quando entrei no mundo da arte, essa ainda era uma cena alternativa. Tudo que eu sabia de Louise Bourgeois é que ela era uma velha que esculpia aranhas gigantes", diz Philip.
"Mas hoje esse mundo todo está cheio de dinheiro. Se fizer um teste de pureza a cada passo que dou como curador, vai ser impossível trabalhar. Não assino embaixo de tudo o que o mercado faz, mas decidi lutar pela expressão sem assumir uma posição política, para não correr o risco de ser hipócrita."
O curador entende bem esse risco. Na época em que ainda se sentia um "turista" no meio artístico, decidiu provocar o embargo dos Estados Unidos a Cuba montando mostras de artistas como Bourgeois, Warhol e o fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe em Havana. "Eram exposições que pretendiam ser uma ponte entre os dois países", diz o curador. "Mas hoje sinto que Havana vai se tornar uma Disneylândia."
Ele diz que se identifica com ideias da esquerda, mas que é difícil escapar da força do dinheiro e do mercado da arte, que paga seu salário e garante a agenda sempre lotada.
Depois da entrevista, viajaria a Paris, para compromissos profissionais e onde seria fotografado para Serafina por Nan Goldin, voltaria a Nova York e seguiria sua série de viagens. "Minhas alianças políticas são diferentes agora", diz. "Não é que tenha feito uma jornada da esquerda à direita, mas acredito ter perdido o encanto com isso."
Essa perda de paciência com os que ainda reivindicam uma segregação entre arte e mercado parece explicar os interesses atuais do canadense. Ele prepara para o Tomie Ohtake mostras do fotógrafo japonês Hiroshi Sugimoto, famoso por suas representações de uma natureza em miniatura, e da fotógrafa americana Diane Arbus, conhecida por seus personagens bizarros.
Ou seja, Philip tenta se distanciar da realidade para mergulhar em universos paralelos, talvez menos perigosos do que a política. "Gosto dessas situações em que a linha entre arte e vida não é tão fixa", diz o curador. "Não gosto de arte que se parece com fragmentos do noticiário. Vou atrás de coisas que podem me nutrir e quem sabe até me matar."
