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fevereiro 12, 2015
Tomie Ohtake, grande dama da arte nacional, morre aos 101 anos em SP por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Tomie Ohtake, grande dama da arte nacional, morre aos 101 anos em SP
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo, Caderno Ilustrada, em em 12 de fevereiro de 2015.
Morreu a artista plástica Tomie Ohtake. Ela estava internada havia mais de uma semana por causa de uma pneumonia no hospital Sírio Libanês, em São Paulo, onde chegou a sofrer uma parada cardíaca depois de aspirar líquido gástrico e respirava desde terça (10) com a ajuda de aparelhos. Uma das figuras mais relevantes da história da arte brasileira, conhecida como a grande dama da pintura nacional, Tomie tinha 101 anos.
Seu corpo será velado no Instituto Tomie Ohtake, centro cultural na zona oeste de São Paulo, das 8h às 14h desta sexta (13), em evento aberto ao público. Ela será cremada em cerimônia fechada para a família também nesta sexta.
Entre o gesto e a geometria, a artista criou ao longo de seis décadas de carreira um vocabulário único, calcado na relação entre a forma e a cor. Ela despontou na cena artística do país nos anos 1960, trilhando um caminho independente no momento em que o abstracionismo geométrico chegava a seu auge.
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Tomie, que nasceu em Kyoto, no Japão, e se mudou para São Paulo em 1936, começou a pintar nos anos 1950, quando ainda seguia o estilo figurativo em voga entre outros artistas imigrantes reunidos no grupo Seibi, que tentava escapar aos rigores da arte acadêmica, embora permanecesse fiel a gêneros clássicos na pintura.
Logo depois, em meados da década de 1950, ela deu início à exploração da cor e da geometria. Mário Pedrosa, mais influente crítico de arte daquela época, reconheceu nos traços da artista ecos do projeto construtivo que via surgir entre os artistas concretos em São Paulo e, mais tarde, entre os neoconcretistas no Rio.
Tomie, em sua última entrevista à Folha, em novembro de 2013, lembrou que à época tentaram encaixar sua obra na vertente concretista, mas ela nunca entrou para o movimento. "Sempre desenhei curvas e retas, mas faço tudo com a mão, então não fica perfeito", disse. "Gosto de fazer formas livres."
De fato, mesmo em suas composições mais geometrizantes, Tomie mantinha os acasos do gesto, formas fluidas que às vezes se diluem no espaço ao redor ou sobressaem com força em meio aos redemoinhos de cor.
Nos anos definitivos de sua carreira, ao longo da década de 1960, a artista realizou o maior número de experimentos e reflexões sobre o comportamento das formas num plano. Algumas composições lembram a obra do expressionista abstrato Mark Rothko, um dos maiores nomes do cenário norte-americano, com campos de cor que parecem vibrar sobre o plano da tela.
Embora esse efeito de vibração tenha aparecido na obra de Tomie só duas décadas depois, sua destreza no traço já era evidente na gênese de seu projeto plástico, com formas homogêneas e chapadas construídas com pinceladas que cobriam toda a superfície do quadro.
Também no início dos anos 1960, a artista realizou uma de suas séries mais célebres, as "Pinturas Cegas", telas que pintou vendada, numa crítica ao racionalismo exacerbado então em voga. Em 1961, Tomie também participou da Bienal de São Paulo pela primeira vez, tendo voltado ao evento outras sete vezes, sendo a última delas a edição de 1998, organizada por Paulo Herkenhoff.
O crítico que hoje dirige o Museu de Arte do Rio ainda é um dos maiores entusiastas da obra de Ohtake. Revendo a trajetória artística da artista, ele estabeleceu um vínculo entre as telas cegas e os círculos que surgiram na última década do trabalho da artista, uma alusão ao zen-budismo que se dá, em seu processo criativo, como uma forma de "vivenciar a própria imperfeição".
Esse elemento recorrente na obra da artista, que ela associava à sensação de paz, muitas vezes surge nos quadros como traço definidor, uma arquitetura frágil que se impõe sobre o caos ao redor.
Depois de abrandar sua obsessão pelos tons frios que marcaram o início da carreira e ampliar sua paleta para tons mais alegres, Tomie passou a criar, nos anos 1980 e 1990, composições calcadas no efeito de vibração.
Tomie também se destacou no campo da escultura, criando formas monumentais que em muitos aspectos lembram o traço fluido da caligrafia japonesa. Sua obra ocupa pontos fulcrais da geografia paulistana, como a empena cega de um prédio no Anhangabaú, a estação Consolação do metrô e a entrada do aeroporto internacional de Guarulhos.
Nos últimos anos de sua vida, Tomie seguiu trabalhando. Seu ateliê, uma parte da casa onde vivia projetada pelo filho Ruy Ohtake, seguiu atulhado de peças inéditas até a abertura de sua última exposição no centro cultural que leva seu nome em novembro de 2013.
"Nunca pensei que estaria viva aos cem anos, mas essa idade chegou sem que eu sentisse nada", disse a artista, há dois anos. "Só sei que gosto muito de trabalhar e fico feliz pintando."
Além de Ruy, Tomie deixa o filho Ricardo Ohtake, diretor do centro cultural que leva o nome da artista, e dois netos.
fevereiro 9, 2015
Incertezas e catástrofes vão orientar a próxima edição da Bienal de São Paulo por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Incertezas e catástrofes vão orientar a próxima edição da Bienal de São Paulo
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo, Caderno Ilustrada, em em 4 de fevereiro de 2015.
Jochen Volz quer medir o imensurável. Não importa se o mundo explodir atingido por um cometa ou se for sugado para dentro de um buraco negro -a única certeza do curador da próxima Bienal de São Paulo é que a incerteza vai presidir o futuro próximo.
Em tom resignado, e com frieza germânica, o alemão à frente da mostra que começa em setembro do ano que vem traça o diagnóstico de um planeta em autodestruição, atravessado por crises na ética e na política e pela devastação ambiental como um dos pontos de partida de sua mostra.
Mas faltando mais de um ano para a abertura do evento, o tema "medidas da incerteza" soa menos como conceito e mais como óbvia constatação de quem acaba de assumir o comando de uma das maiores exposições de arte contemporânea do mundo.
Volz, que se divide entre Londres e Belo Horizonte, já foi um dos curadores do Instituto Inhotim, no interior de Minas Gerais, e dirige agora a Serpentine, na capital britânica, um dos espaços artísticos mais relevantes do mundo. Também está à frente da retrospectiva da sérvia Marina Abramovic, que abre no mês que vem no Sesc Pompeia.
Mas sua edição da Bienal de São Paulo, orçada em R$ 29 milhões e que terá como curadores-adjuntos a sul-africana Gabi Ngcobo, a brasileira Júlia Rebouças e o dinamarquês Lars Bang Larsen, ainda parece longe de tomar forma.
Tem ecos com temas explorados por bienais recentes -catástrofes climáticas orientaram a última Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, e a destruição do planeta pelo homem na atual era geológica, conhecida como antropoceno, foi assunto da Bienal de Taipé, no ano passado.
Também soa como o oposto do que Volz tentou fazer na Bienal de Veneza de seis anos atrás, que ele organizou com o sueco Daniel Birnbaum. À época, sua mostra falava em construir novos mundos, enquanto agora Volz reconhece a entropia -e a sensação melancólica de fim do mundo- como um leitmotiv central.
"É um índice do fracasso", diz Volz, em português, na primeira entrevista coletiva para anunciar a mostra. "A entropia determina a proximidade de um sistema de seu ponto de equilíbrio, descreve a perda de informação, indicando maior probabilidade de comportamentos inesperados quando buscamos a estabilidade como baluarte. É o fim do mundo como nós o conhecemos."
Ou seja, a mostra de Volz, pautada por palavras chave como subjetividade, fantasmas, sinergia, ecologia e medo, parece, à primeira vista, refletir o esgotamento de assuntos a serem tratados por uma bienal em tempos de crise econômica e energética e em paralelo à proliferação de mostras do tipo pelo mundo.
É como se na saturação do calendário artístico, com feiras e bienais que se espelham em cada canto do globo terrestre, surgisse um anseio por uma espécie de tábula rasa, a vontade de implodir as certezas em busca de um frescor cada vez mais difícil de atingir.
São esforços que ficam a meio caminho entre o surgimento de um novo universo criativo e o retorno nostálgico a estruturas do passado como fonte de novidade, o que explica o fetiche pela ruína que contamina a arte contemporânea e que deve pautar também a próxima Bienal.
Mas Volz também aponta para novos caminhos, adiantando que muitas das obras serão inéditas e que uma parte delas será exposta on-line, indo além do pavilhão do parque Ibirapuera.
Nenhum artista foi mencionado na primeira apresentação da Bienal, mas Volz deu a entender que a presença de brasileiros, entre eles nomes históricos, será grande, o que deve satisfazer galeristas infelizes com a última edição da mostra, organizada pelo britânico Charles Esche, que priorizou nomes periféricos.
"No Brasil, acasos e incertezas são muito presentes", diz Volz. "Mais do que uma mercadoria, a arte pode alargar horizontes. Vou trabalhar com artistas que abalam e destroem aquilo que se dá como certo, aceitam o ambíguo. Na arte, tudo bem não saber."
fevereiro 8, 2015
Medidas da Incerteza' é o tema da 32.ª Bienal de São Paulo, em 2016 por Camila Molina, Estado de S. Paulo
Medidas da Incerteza' é o tema da 32.ª Bienal de São Paulo, em 2016
Matéria de Camila Molina originalmente publicada no jornal Estado de S. Paulo, Caderno Cultura, em 4 de fevereiro de 2015.
Curador alemão Jochen Volz apresentou seu projeto inicial para a mostra e parte da equipe que vai desenvolver sua proposta baseada em questionamentos sobre o presente
"Medidas da Incerteza" é o título provisório da 32.ª Bienal de São Paulo, marcada para ocorrer em 2016. Na manhã desta quarta-feira, 4, o alemão Jochen Volz, curador responsável pela edição, apresentou para a imprensa as linhas iniciais de seu projeto para a exposição, ou melhor, o esboço temático que dará a base para desenvolver a mostra. Como lembrou o historiador de arte, vivemos já na época definida como a do "Antropoceno", no primeiro século em que se falou da possibilidade de as ações do próprio homem desencadear a extinção da espécie humana. Ideias em torno de desordem e equilíbrio, ecologia e medo, mudanças climáticas, inteligência coletiva, fantasmas, sinergia e subjetividade foram citadas como gatilhos para a concepção da mostra.
O curador convidado elogiou o privilégio de ter quase dois anos para desenvolver seu projeto para a 32.ª Bienal de São Paulo e anunciou, por ora, os cocuradores que já integram sua equipe, a brasileira Júlia Rebouças (sua colega no Instituto Inhotim, em Minas Gerais, do qual Jochen Volz foi diretor artístico entre 2005 e 2012); a sul-africana Gabi Ngcobo; e o dinamarquês Lars Bang Larsen. "Outros serão confirmados ao longo do processo", afirmou o alemão. Com larga experiência no Brasil, Volz também foi um dos curadores da 27.ª Bienal de São Paulo, em 2006, que teve direção artística de Lisette Lagnado, e da 53.ª Bienal de Arte de Veneza, em 2009, ao lado de Daniel Birnbaum.
Jochen Volz, atualmente, diretor de programação da Serpentine Galleries em Londres (com compromissos na instituição inglesa até junho, conta), concorda que o tema escolhido para a 32.ª Bienal seja muito amplo, mas rechaçou que trazer questões como a ameaça do fim do mundo para o conceito da mostra indique algum "ponto de vista negativo". "Apontar e aprender a lidar com a incerteza é mais interessante", disse. Sem citar artistas, afirmou que há no Brasil criadores que desde as décadas de 1950 e 60 trabalham na questão "da medida e do acaso" e que seu sonho é colocar nomes históricos na exposição.
Na apresentação, ainda, o curador destacou algumas características que da edição, como a interdisciplinaridade e "a ênfase em trabalhos novos". "Muitos projetos serão executados nos local, alguns deles de forma coletiva", definiu no texto produzido para a apresentação. A realização de seminários públicos ao longo de 2016 para que se possa discutir "aspectos chaves do projeto global" - entre eles, por exemplo, arquitetura e urbanismo, experimentos radicais de educação, citou - e a vontade de "testar" obras online estão na proposta curatorial. Residências e bolsas no Brasil e no exterior para os participantes também foram citadas.
O presidente da Fundação Bienal de São Paulo, Luis Terepins, afirmou que o orçamento da instituição para 2015 e 2016 será de R$ 34 milhões, calculando que R$ 29milhões serão destinados ao projeto da 32.ª edição. "Na reforma estatutária, pela primeira vez criamos um comitê de captação de recursos", disse na coletiva. Segundo o empresário, em seu segundo mandato à frente da instituição, o recente desligamento de Stela Barbieri da coordenação do educativo da Bienal (desde a 29.ª Bienal) foi uma escolha da própria artista e educadora. Sobre a exposição do Pavilhão Brasil na próxima Bienal de Veneza, em maio, produzida pela entidade, contou que o compromisso da Funarte para a representação nacional no evento é de R$ 600 mil. Para este ano, os curadores Luiz Camillo Osorio e Cauê Alves escolheram como representantes oficiais do País os artistas Antonio Manuel, Berna Reale e André Komatsu.
