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setembro 10, 2014
Crítica: Bienal de São Paulo apresenta um tom político raro no Brasil por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Bienal de São Paulo apresenta um tom político raro no Brasil
Crítica de Fabio Cypriano originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 6 de setembro de 2014.
Obras da exposição recorrem à ironia e ao humor para falar de temas sérios
A MOSTRA FAZ A MELHOR OCUPAÇÃO DO PAVILHÃO DA BIENAL JÁ REALIZADA NOS ÚLTIMOS ANOS, DANDO NÃO SÓ AMPLO ESPAÇO ÀS OBRAS, MAS CRIANDO LUGARES DE CONVIVÊNCIA
Não parece coincidência que a 31ª Bienal de São Paulo tenha tantas obras sobre religiosidade e, em particular, sobre evangélicos, no momento em que o Brasil pode vir a ter uma presidente evangélica.
De fato, há uma temperatura jornalística na exposição, organizada por um time de curadores estrangeiros, Charles Esche, Galit Eilat, Nuria Enguita Mayo, Oren Sagiv e Pablo Lafuente, que se preocuparam em falar do contexto onde a Bienal ocorre.
Talvez por isso, a exposição tenha tantos vídeos, afinal é a mídia que mais pode se aproximar do caráter documental, embora demande tempo, o que nem todo visitante está disposto a gastar. Mas deveria.
Nesse sentido, o coração da Bienal se torna o "Video Trans Americas", um mapeamento da América Latina em vídeo, feito pelo chileno Juan Downey (1940-1993), entre 1973 e 1979.
Radicado em Nova York, em busca de suas raízes, Downey decidiu atravessar todo o continente, durante esses seis anos, registrando de grupos urbanos a povos da selva, mas sempre buscando projetar as imagens nesses locais, instaurando uma ética de troca.
PANFLETÁRIO
Esses procedimentos, do registro e da troca, de certa forma atravessam a mostra, às vezes em obras com caráter didático, às vezes até panfletário, mas que se sustentam em um tom político raro em terras brasileiras, especialmente após a 30ª Bienal, que evitou qualquer possibilidade de conflito.
Um dos trabalhos exemplares nesse sentido é "Apelo", um vídeo de Clara Ianni realizado em parceria com Débora Maria da Silva, mãe de uma vítima das ações de esquadrões da morte, em São Paulo, em 2004.
Gravado no cemitério Dom Bosco, em Perus, criado em 1971 para receber corpos das vítimas do regime militar, "Apelo" aponta que a truculência sofrida pela classe média naquele período não foi alterada na periferia nos dias atuais.
Menos contundente, mas mais complexo, a videoinstalação "Contando as Estrelas", da israelense Nurit Sharett, constrói-se por um mosaico de depoimentos dos chamados "anussim", cristão novos descendentes dos judeus que foram forçados a se converter ao catolicismo no período da Inquisição no Brasil.
Nesse trabalho, Sharett revela os traumas surgidos em decorrência da violência da Igreja Católica no período colonial, a partir de histórias atuais, novamente unindo passado e presente na mostra em São Paulo.
Contudo, é importante salientar, não se trata apenas de uma reunião de obras engajadas.
OCUPAÇÃO
A mostra faz a melhor ocupação do pavilhão da Bienal já realizada nos últimos anos, dando não só amplo espaço às obras, mas criando lugares de convivência.
Isso ocorre tanto no térreo, área aberta e mais voltada a ações propostas pelos curadores, quanto no primeiro andar, onde conjuntos de sofás estão dispostos para encontros mais íntimos.
Com isso, a organização do espaço expositivo coincide com a maneira de trabalho dos curadores na elaboração mostra, que se baseou em encontros por diversas cidade do país.
Assim, o dispositivo expositivo funciona como uma metalinguagem do processo do elaboração da Bienal.
Finalmente, para uma exposição com caráter tão politizado, muitas das obras recorrem à ironia e ao humor para tratar de temas sérios. É o caso do coletivo argentino Etcétera em parceria com León Ferrari, que pede em uma petição ao papa o fim do inferno, ou da curadoria "Deus é Bicha", organizada pelo peruano Miguel López.
"Como falar de coisas que não existem", um dos títulos dessa edição do evento, ele mesmo já é uma ironia. Afinal, poucas foram as Bienais que conseguiram de forma tão urgente e radical falar de coisas que existem.
Crítica: Bienal de Arte de São Paulo - A arte da reflexão por Daniela Labra, O Globo
Bienal de Arte de São Paulo - A arte da reflexão
Crítica de Daniela Labra originalmente publicada no jornal O Globo em 7 de setembro de 2014.
Ideias e ativismo assumem papel de protagonistas na mostra, em lugar de um painel de obras contemporâneas
SÃO PAULO - A recém-inaugurada 31ª Bienal de São Paulo propõe um formato novo, de caráter eminentemente político, com muitos elementos para instigar e incomodar os visitantes. Tendo pela primeira vez uma equipe curatorial formada por estrangeiros, a mostra traz 81 projetos de mais de 100 artistas de 34 nacionalidades, em programa idealizado pela equipe do curador Charles Esche. A mostra fica em cartaz até o dia 7 de dezembro.
Ao entrarmos no Pavilhão da Bienal vemos algumas instalações resultantes de processos colaborativos entre coletivos de artistas e ativistas, e uma estrutura para receber atividades como debates, performances e shows artísticos e de movimentos socioculturais. No andar térreo, os trabalhos se colocam de modo esparso, e alguns se postam como pontos de leitura e pesquisa sobre ações ativistas e situações de convulsão social. Como aponta a curadoria, esta exposição não se funda em objetos, mas em pessoas que trabalham com outras, colaborativamente, e pode ser compreendida mais como um processo aberto a indagações, ações, reflexões críticas e políticas pela arte do que um panorama artístico internacional. Por sua vez, seu título acompanha essa premissa, sendo também um jogo aberto a possibilidades poéticas e reflexivas. Como (...) coisas que não existem, traz parênteses que podem ser preenchidos por muitos verbos: ver, falar, procurar, celebrar, e invoca a potência da arte e sua habilidade de influenciar a vida, o poder e credos.
A maioria dos projetos expostos, muitos realizados para a ocasião, aborda assuntos políticos, religiosos, sexuais, ecológicos, educativos, indicando que as tais "coisas que não existem" são situações da vida cotidiana palpitantes mas invisibilizadas por sistemas e culturas de exclusão e preconceito. Os curadores defendem uma Bienal sobre o estado de "virada" do mundo contemporâneo, onde é necessário se afastar dos estabelecidos parâmetros da modernidade, o que vem a ser um discussão bem europeia. Ancorada nessa ideia, a proposta curatorial minimiza os "critérios estéticos do modernismo" e parece também minimizar a modernidade brasileira, cuja história se afastou dos parâmetros estabelecidos pelo pensamento europeu assim que nasceu no espaço social.
Essa busca por outros critérios, menos estéticos, talvez justifique a boa quantidade de trabalhos políticos mas pouco interessantes do ponto de vista plástico-visual, e outros que são muito literais no seu ativismo e exageram na composição de instalações cenográficas. Além disso, há instalações estranhamente ruins, que na verdade funcionam apenas quando ativadas por performances, como é o caso de Espacio para Abortar, do coletivo boliviano Mujeres Creando.
Como em outras edições recentes, a 31ª Bienal tem atividades que ocorrem no interior do pavilhão e intervenções espalhadas no Parque do Ibirapuera. Não há artistas estelares, e os históricos são poucos, mas entre eles se destaca a poética sala do polonês Edward Krasinki (1925-2004), e os filmes do espanhol Val del Omar, filmados na ditadura franquista, nos anos 1950. Entre as obras recentes, chama a atenção a sala Dios Es Marica, organizada por Miguel Angel Lopez, com trabalhos queer dos anos 1970-80, de artistas ibero-americanos. Um dos trabalhos mais impactantes é "Inferno", filme de ar épico da israelense Yael Bartana que critica as estratégias da indústria da fé na disputa por poder. Também é destaque a videoinstalação em multicanais do coletivo russo Chto Delat.
Os curadores replicam temáticas na moda nos países centrais, e conseguem se manter algo isentos das influências do mercado de arte que guia o movimento da internacionalização da arte brasileira nos últimos anos. Assim, há a integração de artistas desconhecidos no Sudeste, com visualidades em princípio pouco comerciais, como é o caso do paraense Éder Oliveira, que pintou um mural no Pavilhão com retratos de criminosos, tal como realiza nas ruas de Belém. A diversidade das nacionalidades da equipe deu um aspecto multicultural bastante apropriado, e permitiu com que obras políticas de distintos contextos sejam apresentadas.
Charles Esche é um nome conhecido na cena internacional atual e se destaca por desenvolver projetos que problematizam formatos engessados. Nesse sentido, sua Bienal questiona o modelo das bienais mais tradicionais em um mundo tomado pelo modelo excludente do capitalismo. Ainda assim, como qualquer ator influente no sistema da arte, não escapa da contradição de apontar as mazelas da sociedade contemporânea, consumista e elitista, enquanto recebe o patrocínio do banco privado mais lucrativo do país, cujo texto institucional na exposição afirma que é bom investir em cultura por que #issomudaomundo.
