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julho 6, 2014
Mostra apresenta um novo Nuno Ramos por Audrey Furlaneto, O Globo
Mostra apresenta um novo Nuno Ramos
Matéria de Audrey Furlaneto originalmente publicada no jornal O Globo em 1 de junho de 2014.
Em ‘Ensaio sobre a dádiva’, artista ‘instaura momento menos épico’ em sua carreira
Uma menina enche um copo com água do mar. Da praia, segue para um bar. Deixa o copo no balcão. Uma mulher no mesmo bar se levanta, sai de cena e ressurge com um violoncelo, para então entregá-lo à menina do copo. Está feita a troca: um copo d’água por um violoncelo.
O roteiro, escrito por Nuno Ramos no livro “Ensaio geral”, de 2007, foi decupado (por ele e por Eduardo Climachauska) e transformado em filme neste ano. É exibido agora diante da escultura de um barco de quase dez metros que equilibra, de um lado, um violoncelo; do outro, um copo d’água. O barco se lança pelo vão central da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, onde o artista paulistano acaba de inaugurar a exposição “Ensaio sobre a dádiva”, em cartaz até 10 de agosto.
Há tensão — cinco metros da embarcação estão para fora do beiral e avançam no vão central do prédio projetado pelo arquiteto português Álvaro Siza — e grande escala, recorrentes na obra de Nuno. Para o artista de 54 anos, no entanto, a mostra inaugura algo de novo em sua trajetória, um novo cujo sentido exato ele ainda tenta definir.
— Sinto que é uma exposição muito importante para mim, porque talvez instaure um momento menos sublime, menos épico, menos “ó”, menos Nuno nesse sentido. É mais alegre, mais lúdica, cheia de ecos, menos impressionante no sentido físico — diz o artista.
Nos últimos anos, Nuno tem sido, de fato, épico. Em 2012, com o artista e parceiro Climachauska, ele instalou um globo da morte dentro de uma galeria carioca. Conectou-o a imensas prateleiras com objetos quebráveis e fez girarem, dentro dele, duas motocicletas. No mesmo ano, o artista enterrou na lama réplicas das casas onde nasceu, onde nasceram seus filhos e onde vive, tudo isso dentro de uma galeria em Belo Horizonte, que precisou ter o piso rebaixado para acolher a obra.
Antes ainda, em 2011, levou dois aviões monomotores embrenhados em troncos de árvores para dentro do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio e os cobriu com sabão (fabricado no próprio museu). Em 2009, ele já havia instalado uma fábrica de sabão numa galeria do Rio (usou, então, três toneladas do material para cobrir dois barcos, com sete e 11 metros de comprimento).
Agora, embora utilize uma embarcação de dez metros para “Copod’águaporvioloncelo” e um trilho de montanha-russa (em “Cavaloporpierrô”), ambos projetando-se pelo vão da Fundação Iberê Camargo, os materiais não derretem, não são reduzidos a cacos por alguma ação violenta inesperada, nem são soterrados pelo artista.
As obras são feitas de, como diz ele, formas “nomeáveis”, como o violoncelo e o copo d’água, e “individualizadas”, como o cavalo de carrossel que figura em uma das pontas do trilho de montanha-russa (na ponta oposta a ele, há um aparelho de som de onde saem canções sobre pierrôs — a escultura simboliza, assim, a troca de um cavalo por um pierrô, também retratada num filme diante da peça).
— Estou mais distante do tema da fusão, de o material fazer muito (pela obra). Talvez eu esteja num momento em que as coisas estão mais “individuadas”, não estou precisando afundar, derreter, desfazer... O copo d’água, o violoncelo, o cavalinho são o que são: eles mesmos. Isso é diferente para mim. Já tinha lidado com objetos antes, mas eram sempre objetos se fundindo. As coisas perdiam a individuação e estavam relacionadas pela fusão, pelo derretimento ou pela quebra — explica. — Agora, os objetos estão se oferecendo, e eu gosto dessa ideia de troca em que as coisas são equivalentes. Essa exposição passa uma certa distância com relação à matéria e sinto que vai me permitir me apropriar de coisas.
Nuno conta que sua mulher, Sandra, fez uma análise sobre essa mudança que lhe agradou:
— Ela diz que eu saí do luto da minha mãe e que cheguei a uma coisa mais alegre, mais jocosa, e fiquei feliz com isso. Achei que é uma identidade nova.
A mãe do artista, a historiadora Dulce Helena Pessoa Ramos, morreu subitamente, em janeiro de 2011. Pouco depois da morte, Nuno passou meses no ateliê criando desenhos que acabaram por rodear instalações feitas com breu derretido na mostra “Hora da razão”, realizada na Caixa Cultural do Rio no início deste ano. Na exposição, “lágrimas” de breu escorriam sobre redomas de vidro e, dentro delas, cantores entoavam, ao som de violão, versos melancólicos como “Se eu deixar de sofrer, como é que vai ser para me acostumar?”, do samba “Hora da razão”, do compositor Batatinha (1924-1997).
O luto, Nuno lembra, também marcou a exposição “Ai, pareciam eternas (3 lamas)”, em que afundou as casas de sua vida na lama, e ainda o rondou quando criou o inventário de objetos da mostra “O globo da morte de tudo”.
Em “Ensaio sobre a dádiva”, talvez os materiais apareçam mais “à moda Nuno” apenas na última sala que o artista ocupa na Fundação Iberê Camargo. Nesse ambiente, há morfina e glicose circulando por mangueiras translúcidas entre réplicas (em alumínio e latão) das instalações “Copod’águaporvioloncelo” e “Cavaloporpierrô”. A glicose é referência à “vitalidade”, e a morfina faz alusão ao “sono e ao torpor”, nas palavras dele.
— Há (nas réplicas) uma espécie de neutralização das trocas. Parecem um pouco uma crisálida, como duas lagartas trocando líquidos. E são também uma dádiva, uma etapa a mais das trocas — completa.
Em toda a exposição, Nuno partiu do conceito de trocas que não são motivadas por lucros, “que põe em relação coisas sem que haja essa abstração chamada valor”. Ele se inspira sobretudo na obra “Ensaio sobre a dádiva”, do sociólogo e antropólogo francês Marcel Mauss (1872-1950), publicado pela primeira vez em 1925, que trata de sistemas de trocas em sociedades primitivas. O autor aborda um “sistema de dádivas” em que as trocas materiais se dão “sob o signo da espontaneidade” — e, sob esse regime, não há disparate em se trocar um copo d’água por um violoncelo, ou um cavalo por um pierrô.
Da dádiva, Nuno passou ao “movimento entre ordem e desordem, construção e ruína” na exposição “É isto um homem?”, que foi aberta ontem, na reinauguração do Museu da Imigração, em São Paulo. O ponto de partida do artista é o livro homônimo de Primo Levi (1919-1987), clássico dos relatos da Segunda Guerra — em especial, o trecho em que o autor amaldiçoa os tijolos, citando a palavra em diferentes idiomas, criando, assim, “uma maldição dupla: ao trabalho e à diversidade de línguas”, segundo Nuno.
No Museu da Imigração, ele encena a passagem do livro de Levi com duas obras: 1) uma redoma de vidro e, dentro dela, um tijolo sobre uma cadeira e uma caixa de som, que repete, em loop, a palavra tijolo em diferentes idiomas; 2) a caçamba de uma carreta carregada com 27.500 tijolos (fabricados especialmente para a obra de arte) que, levemente torcida, deixa cair parte de sua carga no chão.
Trajetória de Abraham Palatnik é exibida em mostra no MAM por Camila Molina, Estado de S. Paulo
Trajetória de Abraham Palatnik é exibida em mostra no MAM
Matéria de Camila Molina originalmente publicada no jornal Estado de S. Paulo em 2 de julho de 2014.
Artista é considerado o pioneiro da arte cinética
Em 1953, o escritor Rubem Braga alertou aos leitores da Revista Manchete que não deixassem de ver, no fundo de uma exposição no Museu de Arte Moderna, um quartinho escuro onde se passava um "cineminha". "A fita (que não é fita) leva 3 minutos e 24 segundos. Não há figuras, mas apenas formas coloridas que se movem, criando composições contínuas, que vão se modificando lentamente." Era a descrição de um Aparelho Cinecromático de Abraham Palatnik, uma das mais belas invenções da arte brasileira.
Já naquela época, o artista, pioneiro da arte cinética no Brasil, era reconhecido como um dos mais originais (termo do crítico Mário Pedrosa) em atividade. Hoje, aos 86 anos, Palatnik, nascido em Natal, no Rio Grande do Norte, mas residente no Rio, produz diariamente, e está totalmente focado, como conta o curador Felipe Scovino, em sua obra atual, basicamente, nas pinturas da série W, composições de ripas de madeira cortadas a laser, coloridas com acrílica. E, sendo assim, uma delas, feita este ano, está presente na mostra Abraham Palatnik - A Reinvenção da Pintura, retrospectiva que o Museu de Arte Moderna (MAM) inaugura nesta quarta-feira, 2, e que perpassa a trajetória do criador.
Felipe Scovino e Pieter Tjabbes assinam a curadoria da exposição, já apresentada em Brasília e em Curitiba antes de chegar a São Paulo, ampliada. Seguindo um percurso cronológico, a exibição começa com um conjunto raro de pinturas e carvões figurativos - naturezas-mortas e retratos -, que Palatnik realizava na década de 1940. Mas já é uma história conhecida o fato de o artista ter pensado em "começar de novo" sua arte depois da impactante visita que realizou, na época, ao Hospital Psiquiátrico Pedro II, no Rio, a convite do colega Almir Mavignier. No local, conheceu as obras de esquizofrênicos tratados pela dra. Nise da Silveira.
A retrospectiva coloca, assim, esses trabalhos antigos de Palatnik de frente para os de dois pacientes, Emygdio de Barros e Raphael Domingues. É a menção a um episódio crucial em sua carreira, o salto para a invenção. É o momento em que o artista une sua destreza para as máquinas (reconhecida quando desempenhou curso de mecânica de motores em Tel-Aviv na década de 1940) e sua ligação com o pictórico, nunca abandonada. "Seu olhar é sempre para a pintura", afirma Scovino, e por isso a menção ao gênero no título da exposição.
Seguindo o percurso da mostra, uma sala, surpreendentemente, reúne um conjunto de quatro Aparelhos Cinecromáticos. Tjabbes calcula que há, no mundo, cerca de apenas dez dessas históricas criações dos anos 1950 e 60.
Depois deles, um ambiente aberto e central no museu abriga 15 Objetos Cinéticos de Palatnik, delicadas engrenagens com seus mecanismos expostos e audíveis, feitas com ímãs, fios de metal e figuras coloridas de fórmica produzidas, principalmente, entre 1966 e 67. Munidas, agora, de temporizadores, as máquinas terão funcionamento revezado durante a mostra, com intuito de preservá-las.
"É sempre importante o lado artesanal de sua obra e o fato de ele se sentir artesão perpassa toda a mostra", diz Tjabbes sobre o artista. Dessa maneira, vemos o trânsito natural e fascinante que Palatnik faz entre o bidimensional e o tridimensional em sua pesquisa dedicada à questão do movimento, seja criando máquinas, peças de design ou composições com ripas de madeira ou cartões cortados e barbantes.
A ideia de pintura ampliada em conversa com o inventor
Convidado pelo MAM a realizar para a Sala Paulo Figueiredo do museu uma mostra com obras do acervo da instituição que dialogassem com a produção de Abraham Palatnik, o curador Felipe Scovino diz ter fugido do que seria óbvio, ou seja, centrar seu olhar para os cinéticos. "O primeiro viés dessa exposição é uma ideia de pintura ampliada", ele diz, referindo-se à própria característica da obra de Palatnik, que sempre se muniu do ensejo pictórico na realização de trabalhos diversos – alguns deles, até escultóricos – como Objetos Cinéticos, Aparelhos Cinecromáticos e sua série W, amplamente expostos na presente retrospectiva.
A primeira obra referencial da curadoria de Scovino em Diálogos com Palatnik, também em cartaz até 15 de agosto, é Nota Sobre Uma Cena Acesa ou Os Dez Mil Lápis (2000), de José Damasceno, um trabalho em que o artista carioca cria uma imagem tridimensional com o uso de lápis fincados na parede, representando a silhueta de um homem olhando um quadro. "É uma síntese, uma obra que envolve uma dinâmica de pintura e que entra também em um segundo viés, o da manufatura, que está em Palatnik", afirma.
O cinetismo, de forma mais direta, é colocado através de esculturas de Willys de Castro e Sergio Camargo, mas outro conceito foi desenvolvido por Scovino na seleção das obras da coleção do MAM, o do "signo construtivo". A mostra, assim, vai se costurando com criações de Geraldo de Barros, Jac Leirner, Aluísio Carvão, Nelson Leirner e Raymundo Colares, para citar alguns.
