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fevereiro 6, 2014
Pedra no sapato do Guggenheim, Walid Raad vem à Bienal por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Pedra no sapato do Guggenheim, Walid Raad vem à Bienal
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 2 de fevereiro de 2014.
Dias antes desta entrevista, o artista libanês Walid Raad enviou uma série de regras para a conversa. Ele não poderia ser gravado nem fotografado e pediu para ler as anotações do jornalista.
Raad, 46, um homem magro de cabeça raspada, tem a fala pausada e calculada. Usa metáforas cheias de belas imagens para descrever o mais sangrento dos episódios, da mesma forma que suas obras dissecam a violência que corrói o Oriente Médio com uma frieza ímpar.
Numa delas, ele chegou a inventariar os modelos de carros mais comuns usados em ataques com bombas e exibiu diagramas detalhados do motor e do chassi desses automóveis —em vez de mostrar a explosão, deixava ver só dados técnicos do veículo.
Mas desde que ergueu a voz contra o Guggenheim, liderando um boicote à construção da filial do museu norte-americano em Abu Dhabi, por causa de denúncias de abusos aos trabalhadores da obra, Raad evita aparecer.
Talvez daí a paranoia diante desta conversa. Um dos primeiros nomes escalados para a Bienal de São Paulo, que começa em setembro, Raad está na cidade pesquisando para criar uma obra nova.
Ele quer investigar as relações entre a comunidade árabe do país e a cena artística, em especial a presença de artistas da região na Bienal. Muito antes da febre em torno de arquivos que se multiplicam em exposições pelo mundo, a obra de Raad sempre girou em torno da pesquisa e manipulação de dados.
No Brasil, não será diferente. Depois de fuçar os documentos acumulados em 30 edições da mostra paulistana, Raad pensa em mostrar uma versão distorcida dessa presença árabe na exposição.
"Olhando para esses arquivos, alguns fatos, figuras e gestos chamam a atenção", diz Raad. "É como se me chamassem para intervir neles."
Nesse ponto, Raad pode inventar a presença de artistas que nunca estiveram na Bienal, criar biografias falsas ou mesmo mudar a repercussão que algumas obras tiveram.
É uma investigação sobre o estado atual da arte "árabe" -as aspas são dele- no mundo, que serve ao mesmo tempo para tentar mudar sua interpretação, como se voltasse no tempo para extirpar preconceitos já arraigados.
Na onda da construção de museus que varre países emergentes, em especial na Ásia e no Oriente Médio, onde arte se tornou um símbolo de "distinção social", Raad está preocupado com o impacto da criação de novos significados e contextos para a produção visual da região.
"Tenho a sensação que o trabalho dos últimos 20 anos dos artistas da região está sendo sequestrado pela pressa em inventar uma história 'árabe' num contexto em que a arte se vê no meio de grandes fortunas", diz Raad. "Estamos no meio da transição."
É também uma transição em sua própria obra, que se distancia de uma descrição analítica da vida em "cidades sob constante ameaça", como sua Beirute natal, para avaliar o que significa ser artista hoje no Oriente Médio.
MELHORES OBRAS E LEIS
Daí o boicote ao Guggenheim. "Esses novos museus [uma filial do Louvre entre eles] no Oriente Médio estão desatentos a como uma obra de arte pode ser afetada pelo que acontece na região", diz.
Raad então se juntou aos artistas que estavam na lista de aquisições do Guggenheim, evitando vender obras ao museu até que a situação dos trabalhadores, que denunciaram viver em regime de semiescravidão, fosse regularizada.
"Se eles querem construir a melhor infraestrutura para a arte, isso não deve incluir o método de construção? Se Abu Dhabi quer as melhores obras, não deveria seguir as melhores leis trabalhistas? Senti que só trabalhando juntos teríamos alguma voz."
Carioca ocupa Guggenheim de Bilbao por Camila Molina, Estado de S. Paulo
Carioca ocupa Guggenheim de Bilbao
Matéria de Camila Molina originalmente publicada no jornal Estado de S. Paulo em 31 de janeiro de 2014.
Museu ganha retrospectiva do artista Ernesto Neto
Dançando debaixo de uma árvore, olhando-a como se fosse um pulmão, o artista Ernesto Neto descobriu, como conta, uma frase – “A Terra é o corpo”. Escrita em néon e em círculo, é ela que vai receber os visitantes da grande exposição que o carioca inaugura no próximo dia 13 no museu Guggenheim de Bilbao, Espanha.
O Corpo Que Me Leva, título da mostra, apresenta obras criadas pelo brasileiro desde 1989, como o trabalho Copulônia, uma de suas primeiras experiências com formas orgânicas, neste caso, feitas de meias de nylon que carregam esferas de chumbo – “semente de tudo”, ele a exibiu pela primeira vez na Galeria Macunaíma da Funarte, no Rio –, até a monumental Leviathan Thot (Fêmea) de 2006. Dependurada no átrio do edifício, na “garganta” do espaço interno do museu – que, do lado de fora, é a expressão máxima da arquitetura espetaculosa de Frank Gehry –, a instalação faz menção ao organismo feminino e ao monstro do mar descrito no Antigo Testamento.
“Acho que a gente tem visto a Terra como imagem, e há anos trabalho com essa transição do corpo para a paisagem, da paisagem para o corpo. Precisamos ver a Terra como um corpo para termos com ela uma interlocução mais profunda, menos extrativista. A exposição é calcada nesse pensamento”, diz Ernesto Neto, que participa agora da montagem da mostra, concebida com a curadora-chefe do Guggenheim Bilbao, a belga Petra Joos. Não se trata de uma retrospectiva, prefere definir o artista, prestes a completar 50 anos e desde a década de 1990 celebrado na cena internacional. “A exposição não é pensada linearmente, é um acontecimento atemporal.”
A mostra, considerada uma das maiores individuais do brasileiro no exterior (não há itinerância prevista), é formada por nove núcleos. Leviathan Thot (Fêmea), já exibida na França, é tão grande, que será apresentada em Bilbao apenas em um quinto de seu tamanho, ficando a 55 metros de altura com suas formas molengas feitas de nylon, bolas de espuma e de areia. Debaixo da instalação estará Olhando o Céu (2013), com “macas-carrinhos de bate-bate” para o visitante se deitar e ver, em movimento, a obra.
A exposição, em cartaz até 18 de maio, é também pensada como um organismo, conta o escultor, mas de um colibri – ou como nove partes de uma “abelha-beija-flor” (com cabeça, antenas, asas, enumera). “Eu e Petra pensamos no que seria importante mostrar e fomos encaixando as coisas no espaço”, conta. Há, por exemplo, uma versão de sua obra Tambor, que ocupou o Museu de Arte Moderna de São Paulo em 2010, e outras criações participativas.
Diversão. Tendo como “grande avó” a artista Lygia Clark e seu conceito de participação do público na obra de arte, os trabalhos de Ernesto Neto são criações sensoriais (principalmente, suas peças feitas com especiarias), pensados para a relação com o corpo e estimulados pela reflexão sobre o brasileiro e a miscigenação. “Precisamos estudar os índios, os africanos, a conexão da nossa cultura com a japonesa”, afirma. Ele cita como uma novidade em sua pesquisa a experiência recente que teve em agosto no Acre, quando visitou a comunidade indígena Huni Kuin. Para o índio, “a cultura se transforma em natureza e a natureza em cultura”, explica Ernesto Neto – dessas reflexões, surgiu a frase “A Terra é o corpo”, seu comentário atual para o título da famosa instalação de Lygia Clark, A Casa É o Corpo, de 1968 (uma época de “interiorização” que agora “se expande para uma camada ecológica”).
“Nosso colibri quer muito voar, beijar as flores, trazendo pólen daqui para lá. Que a vida nos carregue! Chega de venerar a morte”, afirma Ernesto Neto. “Me perguntaram sobre o caráter de viver, divertir, aproveitar, que existe no meu trabalho. Acho que Jesus defendia que devíamos nos divertir. A polícia matou Jesus e eu não gosto de quem mata as pessoas libertárias”, diz o artista, fazendo referência, também, aos protestos que ocorrem desde o ano passado em todo o mundo.
