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janeiro 14, 2014
Museu de R$ 80 milhões, aberto em 2013, tem rachaduras e falha no piso por Marco Aurélio Canônico, Folha de S. Paulo
Museu de R$ 80 milhões, aberto em 2013, tem rachaduras e falha no piso
Matéria de Marco Aurélio Canônico originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 13 de janeiro de 2014.
Inaugurado em março do ano passado, o MAR (Museu de Arte do Rio) está com rachaduras de extensões variadas em diferentes áreas da construção e com uma parte do seu piso afundada no hall de saída do pavilhão de exposições, o prédio principal.
Erguido ao custo de R$ 79,5 milhões, o museu pertence à Prefeitura do Rio e fica na praça Mauá (centro).
As rachaduras estão em vários pontos, como no teto da cabine onde fica a bilheteria e o guarda-volumes, numa guarita de segurança e, no caso mais crítico, no hall de saída do prédio principal.
Neste local, o afundamento do piso é nítido, podendo ser visto nas portas de saída, que ficaram tortas.
ESCAVAÇÕES
Parceria da Prefeitura do Rio com a Fundação Roberto Marinho, à qual o município destinou cerca de R$ 62 milhões por serviços nos dois prédios do museu, o MAR fica em cima de um terreno que está sendo escavado e dinamitado.
As escavações estão sendo feitas para criar o Túnel do Binário (com 1.480 metros de extensão), uma das principais obras do bilionário projeto de revitalização da zona portuária carioca, o chamado Porto Maravilha.
Questionadas pela Folha, nem a Concessionária Porto Novo, responsável pelas obras do Porto Maravilha, nem a Fundação Roberto Marinho esclareceram se os problemas no museu estão relacionados à escavação do túnel ou a outras explosões na região, como a feita para demolir o elevado da Perimetral (a cerca de 1 km do MAR).
"Não é possível afirmar ainda conclusivamente que o afundamento de parte do pavimento do MAR foi causado pelas obras do túnel", disse Geraldo Filizola, engenheiro e projetista estrutural do museu.
Em nota enviada por e-mail, a fundação disse que "as equipes técnicas da Fundação Roberto Marinho, responsável pela concepção do projeto, e da Prefeitura/Cdurp, responsáveis pela execução das obras do Túnel Binário, estiveram em contato durante toda a construção do Museu de Arte do Rio para garantir a sinergia entre essas duas importantes obras para a revitalização da região portuária."
Também por e-mail, a Porto Novo disse que "são realizadas vistorias cautelares nos imóveis no entorno do projeto, assim como o monitoramento por instrumentos específicos".
LAUDO TÉCNICO
Segundo a fundação, os problemas foram detectados em outubro passado e, desde então, "estão sendo monitorados pela equipe técnica da Fundação Roberto Marinho, pelo projetista estrutural do projeto e também por uma empresa especializada de consultoria".
"O laudo apresentado concluiu que as trincas encontradas nas paredes internas do prédio de exposições do MAR são trincas na alvenaria, provenientes da acomodação do solo ocorrida após a conclusão das obras, já que se trata de construções de épocas diferentes -a marquise tombada da reserva técnica, o prédio de exposições e a nova estrutura do hall de saída do mesmo prédio", diz o comunicado.
Na mesma nota oficial, a fundação informa que as "trincas observadas não possuem características estruturais e não atingem as estruturas, limitando-se às alvenarias. Portanto, não apresentam risco para o prédio do museu, seus funcionários e visitantes. Os reparos já estão sendo providenciados".
No entanto, só após a conclusão do estudo que apontará as causas do problema será possível definir quem irá pagar pelos reparos, segundo a fundação.
RAIO-X
Museu de Arte do Rio
CUSTOS
Inaugurado em 1º de março de 2013, o museu custou
R$ 79,5 milhões e tem um orçamento anual de
R$ 25,6 milhões (pagos
pela prefeitura) + R$13,6 milhões (captação via Lei Rouanet)
ESTRUTURA FÍSICA
Com capacidade para 1.712 pessoas, o museu tem dois prédios ligados por uma cobertura de concreto suspensa. O destinado às exposições fica no palacete D. João 6º, erguido entre 1913-18 e hoje tombado; a Escola do Olhar, hospedada em edifício modernista dos anos 1940, com salas de aula, auditório e biblioteca, é destinada a formação de educadores da rede pública
janeiro 13, 2014
Tate refaz ode ao silêncio da artista plástica Mira Schendel por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Tate refaz ode ao silêncio da artista plástica Mira Schendel
Crítica de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 11 de janeiro de 2014.
Depois de uma série de salas fechadas, com obras expostas frente a frente, surge um respiro luminoso. São as peças translúcidas de Mira Schendel, que pendem do teto diante das janelas com vista para a catedral de St. Paul, do outro lado do Tâmisa.
Suas constelações de letras sobre folhas quase transparentes prensadas entre chapas de acrílico flutuam iluminadas pela luz do sol, numa espécie de dança amortecida.
Esse parece ser o ponto fulcral da retrospectiva que a Tate Modern, em Londres, dedica à artista suíça radicada no Brasil. É a manifestação física da ideia de uma arte em que "pouco importa o objeto, mas sim a luz e as sombras", como já afirmou a artista.
Schendel, morta aos 69, em 1988, tem agora na capital britânica a maior mostra de sua trajetória, a mesma que virá em julho à Pinacoteca do Estado, em São Paulo.
É um contraponto necessário e acachapante à algazarra carnavalesca que o circuito global costuma associar ao Brasil, terra das esculturas sensuais de Ernesto Neto e das cores estridentes das pinturas de Beatriz Milhazes.
Em mais de 250 obras, Schendel orquestra uma ode ao silêncio, das primeiras naturezas-mortas que pintou nos anos 1950, com figuração tímida, já em direção à abstração, aos trabalhos do fim da carreira, nos anos 1980, com sarrafos que saltam da superfície da tela em alusão à brutalidade da ditadura.
Nas palavras do poeta Haroldo de Campos, Schendel criou uma "arte de vazios, onde a extrema redundância começa a gerar informação original". É, por isso, uma arte contra a ansiedade, que desacelera e detém o olhar com formas que parecem sempre estar num tom rebaixado.
É como se Schendel mostrasse não uma obra plástica concluída, mas uma latência da forma. Isso transparece com nitidez em suas primeiras paisagens, em que só uma linha sugere o horizonte, separando o céu das trevas.
Também está nas "Droguinhas", delicados emaranhados de papel que parecem ilustrar o caos criativo por trás de uma obra, e no "Trenzinho", uma série de folhas brancas enfileiradas ao longo de uma linha. São obras que parecem acolher devaneios de terceiros, como alvos da projeção de desejos.
Essa sensação ganha força na megainstalação "Ondas Paradas de Probabilidade", uma chuva de fios de náilon que domina uma sala inteira.
Mostrada pela primeira vez na Bienal de São Paulo de 1969 —a edição boicotada por artistas do mundo todo em repúdio à ditadura—, a peça corroborava o silêncio imposto da época, ao ocupar sem de fato preencher o espaço vazio, com uma presença mais fantasmal do que física.
Nesse ponto, cabe fazer uma única ressalva à mostra. Numa série de salas pequenas, a Tate dividiu a obra de Schendel em capítulos estanques, como se isolados no tempo, quando uma leitura fluida de suas peças faria maior justiça ao conjunto.
Mas isso não anula aquilo que o crítico britânico Guy Brett enxergou como "elemento elétrico" de suas peças, capazes de abalar todo o ambiente ao redor delas.
