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Como atiçar a brasa

 


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agosto 31, 2013

Quem arquivará a internet para as futuras gerações? por Carlos Eduardo Entini, Estado de S. Paulo

Quem arquivará a internet para as futuras gerações?

Matéria de Carlos Eduardo Entini originalmente publicada no jornal Estado de S. Paulo em 24 de agosto de 2013.

Brasil não preserva sua web, enquanto alguns países avançam no arquivamento digital

Atestado de nascimento do Brasil, a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal foi preservada durante mais de 500 anos em lugares diferentes. Atualmente arquivada na Torre do Tombo, sede do Arquivo Nacional de Portugal, a carta de 1.500 está acessível digitalmente a qualquer interessado, em qualquer lugar do mundo. Cinco séculos depois, numa era onde tudo se converge para a internet, qual a garantia que os conteúdos produzidos originalmente em formato digital estarão disponíveis para as gerações futuras? No momento, nenhuma.

Com 20 anos de internet, o Brasil ainda não conta com nenhuma instituição, legislação, diretriz ou esforço que garanta que conteúdos produzidos na web sejam vistos como patrimônio cultural e, assim, coletados, catalogados e armazenados. Símbolo da relevância digital deste começo de século 21, a memória das recentes manifestações de junho, paradoxalmente, só está garantida nos formatos impressos.

Pela natureza efêmera da internet, sites desaparecem ou são atualizados frequentemente. O apagão da memória da internet já pode ser sentido. Dificilmente seria possível contar a história e analisar as eleições presidenciais a partir dos sites dos candidatos. Desde 1998, já se foram quatro eleições presidenciais com a presença da internet e nada foi coletado e sistematizado.

O problema não é só do Brasil. Poucos países têm política ou instituições voltadas para o arquivamento web. Algumas iniciativas tem sido tomadas para minimizar o apagão. A mais antiga delas é o Internet Archive, de 1996. Através do Waybackmachine a instituição tem armazenado 347 bilhões de URLs de cerca de 40 países, inclusive o Brasil com 2,5 bilhões de capturas. No fim de 2012, o conteúdo total representava 10 petabytes, informa Kristine Hanna, diretora do Internet Archive, em entrevista ao Estadão Acervo. Em 1996, foi a vez da Austrália coletar o conteúdo produzido e que fazia referência ao país. O exemplo foi seguido pela Suécia, no ano seguinte. Hoje, as instituições pioneiras estão reunidas no Consórcio Internacional de Preservação da Internet, (IIPC na sigla em inglês).

Fundado em 2003, o IIPC é uma organização virtual, colaborativa, descentralizada, como a internet. Como informa o site, ele atua na construção de tecnologias e conhecimento para o novo desafio de armazenar sistematicamente o mar de informações produzidos na web. O Consórcio reúne cerca de 40 instituições (bibliotecas, arquivos, Internet Archive) de 30 países - nenhum da América Latina. A sua missão é coletar, preservar e tornar acessível o conteúdo da internet para as futuras gerações.

A quantidade enorme de sites arquivados, e o tempo que o Waybackmachine tem atuado, pode causar uma sensação de conforto. Mas o projeto do Internet Archive tem suas limitações e não é possível depositar nele a memória da rede. O critério de armazenamento são os sites mais populares, e por questões de direitos autorais dos EUA, o Waybackmachine só existe porque é uma organização sem fins lucrativos. As leis de copyright americanas não permitem o armazenamento de conteúdo, mesmo o da internet.

Se o IIPC tem o objetivo comum preservar a web e desenvolver ferramentas comuns, cada membro tem atuado de maneira distinta. Em contraposição ao modelo americano, a França foi o primeiro país a tratar o arquivamento web como questão de Estado e o conteúdo da internet como patrimônio cultural.

Utilizando a figura jurídica do depósito legal, na qual todo produtor de conteúdo cultural (livro, jornal, disco, cd, dvd, software etc) deve entregar uma cópia à Biblioteca Nacional Francesa, em 2006 também foi incluído na lei a internet francesa. Outros países seguiram o exemplo, entre eles Dinamarqua e Espanha.

O Depósito Legal foi instituído na França em 1537 pelo rei Francisco I (1494-1547) como resposta a outra revolução que foi o surgimento da prensa. Da mesma maneira que acontece hoje com a internet, a prensa derramou uma quantidade enorme de documentos. E para guardar a memória e saber tudo o que se publicava, a Biblioteca Real - hoje Biblioteca Nacional Francesa - devia ter um exemplar de cada impresso produzido no reino. No Brasil o depósito legal existe desde 1825, mas o envio da produção digital não se adaptou aos novos tempos, "vale observar que a legislação disciplina que tudo que seja publicado no país deva ser enviado à Biblioteca, não especificando o suporte; portanto, em tese, deveríamos receber tudo o que é produzido digitalmente também", informa por e-mail, Luciana Grings, da Biblioteca Nacional. "A grande dificuldade tem sido adaptar o depósito de material digital ao fato de que a lei não está regulamentada e que ainda não temos a capacidade de armazenamento que esta ação demanda", completa a bibliotecária.

Com a adaptação da lei francesa, todo o domínio '.fr' e tudo o que se produz sobre a França por força da lei deve ser coletado e armazenado. E a Biblioteca Nacional Francesa, depositária legal do conteúdo produzido no pais, é a responsável pela coleta e arquivamento do conteúdo web . Mesmo sem a obrigação legal, desde 2006 a BnF vem arquivando sua web. Hoje, são 20 bilhões de URLs ocupando 370 Terabytes.

Direitos autorais. Assim como no caso de outras mídias, o depósito legal não significa a supressão dos direitos autorais. Daí um paradoxo: para se consultar o conteúdo web francês é necessário ir à BnF. Em breve, “os arquivos departamentais de Cayenne, capital da Guiana Francesa, também darão acesso. Portanto os arquivos da web francesa estarão justamente ao lado do Brasil”, brinca Clément Oury, chefe do Depósito Legal Digital da BnF em entrevista ao Estadão Acervo.

Coleta e análise. Além da coleta por domínio, por exemplo '.fr', '.br', ou por mais populares como é feito pelo Waybackmachine, muitas instituições adotaram o arquivamento por assunto. A criação de 'coleções', como também é conhecido o processo, nada mais é aquilo os arquivos sempre fizeram quando criam pastas, seja de assuntos ou personalidades. Na França, a seleção de conteúdo é descentralizada. Cada biblioteca regional pode indicar um assunto que considera relevante para que a BnF faça a captura. Os responsáveis pela aquisição de livros na BnF também são outros profissionais que indicam quais assuntos devem ser arquivados.

Massa de dados. Ainda segundo Oury, que também é tesoureiro do IIPC, os desafios de hoje no arquivamento web é indexar a massa de informação. Atualmente é nem tudo é possível pesquisar por palavras-chave. Em quase todas as instituições que disponibilizam pesquisa on-line é necessário entrar com o endereço. No caso das coleções frequentemente as páginas são indexadas por assunto, autor ou fonte. É o caso das diversas coleções da Biblioteca do Congresso dos EUA. Quando existe indexação surge uma nova possibilidade de pesquisa, "o pesquisador que trabalha com web não quer apenas achar sites antigos para ler, ele quer também a possibilidade de fazer uma cartografia dos sites. Por exemplo, ele quer analisar vários sites de política saber qual deles tem ligações com outros sites de política", explica Oury.

*Colaborou Liz Batista

Posted by Patricia Canetti at 5:56 PM

Brasil no circuito da arte por Tamara Menezes, Istoé

Brasil no circuito da arte

Matéria de Tamara Menezes originalmente publicada na revista Istoé em 23 de agosto de 2013.

Movimento em alta nas galerias do País: novos consumidores são atraídos pela atmosfera hoje mais descontraída do mercado, pelas possibilidades de investimento ou até pela busca de status intelectual

Um novo consumidor de arte vem frequentando cada vez mais galerias, cursos e exposições no Brasil. O fenômeno se deve a um intercâmbio de mão dupla: tanto as feiras e galerias especializadas estão menos herméticas, com formato mais descontraído e próximo do perfil brasileiro, quanto os potenciais compradores já não parecem se sentir intimidados a frequentar esses lugares. Claro, a estabilidade econômica e a migração de classes para cima fazem toda a diferença. Com isso, o País entrou na rota de galerias importantes, como a americana Gagosian e a britânica White Cube, e as feiras internacionais oferecem obras para diferentes bolsos e gostos. Resultado: calcula-se que cerca de 15% do total de visitantes compra algo ao fim da visita. Os preços variam das centenas aos milhões de reais. Segundo Brenda Valansi, organizadora da feira ArtRio – cuja próxima edição acontece entre 5 e 8 de setembro no Rio de Janeiro –, para muita gente, o gelo foi quebrado. “Depois de adquirir a primeira peça, a pessoa vê que não precisa ser um intelectual para escolher e se apaixonar”, afirma. “As feiras permitem ao neófito ver maior número de trabalhos e comparar”, diz Fernanda Feitosa, diretora da SP Arte, em São Paulo.

O binômio necessário continua sendo cultura e dinheiro. Mas a novidade está no consumidor, que revê seus conceitos. Segundo Mario Cohen, da carioca Pequena Galeria 18, carros, joias e roupas eram os símbolos de status. Hoje, porém, “ter uma obra de arte demonstra, além de status, cultura”. Guilherme Pinho, advogado mineiro de 36 anos, é um dos novatos que perderam o medo de ingressar no mercado. “Sempre tive vontade de investir em arte. Só não sabia que era tão acessível, muito mais do que eu esperava”, diz. A nova geração de compradores participa, ainda, de clubes de colecionadores que promovem palestras, visitas especializadas a exposições e ateliês, viagens temáticas e obtêm descontos na forma de pagamento. “Muitos são pessoas recém-estabelecidas financeiramente, que adquirem obras de seus artistas favoritos ou simplesmente estão à procura de um trabalho que os represente”, afirma Laura Marsiaj, da galeria que leva seu nome, no Rio de Janeiro.

Marc Kraus, 43 anos, dono de uma agência de viagem, conta que sofreu “bullying cultural” quando quis iniciar uma coleção, por conta da idade – tinha 36 anos – e do seu visual, com tatuagens. Apesar da intimidação inicial, persistiu e hoje é um feliz proprietário de peças de arte contemporânea. “O olhar do investidor, o olhar do colecionador e do apaixonado têm que combinar. Não penso em vender. Minha coleção ilustra minha vida”, diz. A paulistana Elvira Bauer, maquiadora de 51 anos, foi impulsionada pela identificação com as obras – uma gravura de Regina Silveira e uma xilogravura de Samico que custaram R$ 4 mil e foram pagas em dois cheques pré-datados.

Victoria Gelfand-Magalhães, diretora da galeria Gagosian, importante multinacional presente em sete países, explica que iniciantes na arte têm padrão de comportamento semelhante nos países emergentes. “Começam procurando obras de seus conterrâneos, porque lhes são familiares. Com o amadurecimento do mercado, o colecionador se torna internacional”, afirma. Responsáveis por 38% das vendas de arte contemporânea no ano passado, as feiras têm ainda isenção do ICMS – 18% sobre o valor da obra. Mesmo assim, com taxas de importação e seguro obrigatório, a tributação de peças estrangeiras chega a 42% sobre o total. A crise financeira internacional de 2009 estimulou o mercado de arte em países como Rússia, China, Índia e Brasil. Também a instabilidade da Bolsa de Valores, em imóveis e no câmbio, levou novos clientes aos estandes de arte. A negociação de obras consagradas, as chamadas “blue chips”, chamou a atenção das grandes galerias. Arte se tornou uma opção estável, portátil, tangível e rentável para investir dinheiro em meio à volatilidade dos mercados financeiros.

“Peças mais baratas podem, em oito ou dez anos, valorizar até 15 vezes. Só opções de investimento de alto risco oferecem esse retorno”, afirma Alexandre Murucci, organizador da feira Artigo Rio. Com a procura, aumentaram os preços das “blue chips” também – Beatriz Milhazes já teve quadro vendido por R$ 4,2 milhões, maior valor para um artista brasileiro vivo. O pesquisador de arte Marcio Roiter lamenta quando as obras são avaliadas pela perspectiva de valorização e não por valor intrínseco e beleza. “Arte não é ação ao portador, é prazer”, afirma.

Posted by Patricia Canetti at 5:52 PM

Para que serve a Lei Rouanet? por Leonardo Brant, Cultura e Mercado

Para que serve a Lei Rouanet?

Artigo de Leonardo Brant originalmente publicado no Cultura e Mercado em 28 de agosto de 2013.

Não existe uma orientação clara sobre a função pública do principal mecanismo de financiamento à cultura do país no cenário político, econômico e cultural. A Lei Rouanet deve estimular a economia da cultura, deve fomentar e promover a diversidade cultural ou garantir os direitos e liberdades culturais aos cidadãos? Deve financiar a nossa precária infraestrutura, induzir o empreendedorismo, sustentar a classe artística, manter os nossos museus funcionando, desenvolver as indústrias criativas?

A ausência de estratégia tem uma explicação. Enquanto o Estado não declara para que serve, a renúncia fiscal vira remédio para todos males, mesmo sem curar nenhum. Por enquanto, sabemos que é um excelente instrumento de comunicação empresarial, no caso do mecenato privado, e uma torneira que irriga o clientelismo político, no caso do Fundo Nacional de Cultura e do mecenato estatal. A cartilha “Cultura é um bom negócio” ainda impera, justamente porque nenhuma outra foi editada depois dela.

Sem definir exatamente o propósito da Lei Rouanet não podemos avaliar o seu sucesso ou fracasso. Tampouco podemos estabelecer metas, monitorar o sistema, aprimorá-lo, azeitar a máquina para produzir mais resultados, simplesmente porque não sabemos onde queremos chegar, com parâmetros objetivos. Tanto que a gestão do mecanismo é 100% focada no acesso ao sistema e em sua inegável melhoria processual. O que não se discute, avalia e corrige são os efeitos culturais e econômicos daquilo que ela produz.

Está claro que a Lei Rouanet não atende a nenhum dos objetivos estratégicos aqui levantados. Como instrumento de estímulo à economia é insuficiente, pois concentra todo o dinheiro na produção cultural, atrofiando as relações de mercado. É inócuo para promover a diversidade, já que concentra a decisão nas mãos de grandes empresas, grandes proponentes e do próprio governo, com seus grupos de sustentação. E não atua diretamente nos direitos e liberdades culturais porque não é um sistema articulado. Cada projeto tem seu objetivo próprio, pontual, isolado. Poderia ser orientado e coordenado pelo Estado.

O processo de discussão e construção do mecanismo que revoga a Lei Rouanet e cria o Procultura é um avanço em termos de reduzir os efeitos colaterais da Lei Rouanet. Mas ainda é um remédio que não cura qualquer doença, não revigora e não propõe nada de concreto para a cultura brasileira. Continua cheia de boas intenções mas carente de propósitos.

Posted by Patricia Canetti at 5:42 PM

Moda é cultura por Marta Suplicy, Folha de S. Paulo

Moda é cultura

Artigo de Marta Suplicy originalmente publicado no jornal Folha de S. Paulo em 29 de agosto de 2013.

As pessoas se expressam de diferentes maneiras e a moda faz parte dessa forma de se mostrar.

Não é difícil, olhando a vestimenta das mulheres do século 19, perceber seu papel na sociedade e distinguir as desigualdades nas classes sociais. A moda traduz muito da vida e cultura da história de um povo, assim como a gastronomia. Basta pensar na nossa culinária, na judaica e, por que não, nos Estados Unidos e seus hambúrgueres.

A cadeia produtiva da moda é gigantesca: dos botões aos zíperes. Das costureiras às fábricas têxteis. Das pequenas confecções aos ateliês dos famosos. Das vendedoras aos estilistas. São milhares de pessoas dinamizando a economia e criando empregos.

A moda também gera símbolos. Marcas que, de tão importantes, se tornam até sinônimo da cultura do país. Atraem turistas, agregam valor a outros produtos e se, combinadas com gastronomia, música, monumentos, potencializam uma imagem positiva e contribuem para o "soft power" do país.

No Brasil começamos a entender recentemente esse poder da moda. As "fashion weeks" se consolidaram graças ao esforço de alguns e toda a cadeia produtiva se beneficia.

No Ministério da Cultura o maior instrumento de fomento é a Lei Rouanet. Mas a moda não conseguia captar. O que faltava? Apresentar projetos de acordo com as previsões da lei. O MinC estabeleceu quatro critérios para aceitar projetos: promover internacionalização (impacto na imagem Brasil), ter simbologia brasileira (mostrar raízes e tradição), formar novos profissionais (estilistas ou na cadeia produtiva), ou ainda preservar acervos.

O primeiro a apresentar projeto com base nesses critérios foi Pedro Lourenço, jovem estilista já com reputação para participar da Semana da Moda em Paris.

Como ministra, chamei para mim a decisão, pela simbologia de quebrar um paradigma na afirmação que moda é cultura; por entender a importância da repercussão de um brasileiro estar nesse desfile (cobertura midiática), abertura e interesse pela nossa indústria da moda e para a construção de uma imagem de um Brasil criativo, moderno e atraente. Queremos um Brasil que transcenda o país do Carnaval, sol e biquíni.

Pedro Lourenço é beneficiado, assim como Herchcovitch ou Ronaldo Fraga? Certamente, pela exposição que terão. Entretanto, sem esses criadores, e outros que agora virão (espero as estilistas que trabalham com rendas nordestinas), nós não teremos condição de projetar nossas milhares de confecções charmosas que, com o tempo, darão alegria a tantas mulheres como quando hoje compram algo "francês".

Essa marca/país nasceu depois de enorme esforço da França na promoção de seus criadores (subsídios e exposições nos principais museus) e da genialidade de alguns deles: Dior, Chanel, Lacroix, Saint Laurent, para citar alguns. Exposições com esses ícones "vendem" o país.

A porta está aberta. Muitos passarão, sem tanto estardalhaço, para ampliar a marca Brasil, aumentar investimentos, exportar nossos produtos, gerar emprego e renda para brasileiros.
Torço para que os nossos, que agora podem sair fortalecidos pelo apoio no incentivo fiscal propiciado pela Rouanet, consigam patrocinadores, concretizem seus sonhos, mas, mais que isso, se consagrem símbolos de um Brasil pujante, criativo e iluminado.

Todos seremos beneficiados.

MARTA SUPLICY é ministra da Cultura. Senadora licenciada (2011-2018), foi prefeita de São Paulo (2001-2004) e ministra do Turismo (2007-2008)

Posted by Patricia Canetti at 5:36 PM

agosto 29, 2013

Setores culturais reagem ao uso da lei Rouanet na moda por Juliana Gragnani, Folha de S. Paulo

Setores culturais reagem ao uso da lei Rouanet na moda

Matéria de Juliana Gragnani, com colaboração de Pedro Diniz, originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 28 de agosto de 2013.

Produtores teatrais pedem reunião com ministra da Cultura em documento

Associações alegam que desfiles de roupas são uma 'concorrência desleal' em relação a espetáculos de teatro

O uso da Lei Rouanet em benefício de desfiles de moda, liberado pelo Ministério da Cultura na semana passada, causou as primeiras reações de setores culturais.

Entidades do teatro devem enviar nesta semana um ofício à ministra Marta Suplicy. O documento critica a autorização para que os estilistas Pedro Lourenço, 23, Alexandre Herchcovitch, 42, e Ronaldo Fraga, 46, tentem captar mais de R$ 7 milhões via Rouanet --que é um mecanismo de fomento à cultura por meio de renúncia fiscal.

No texto, a APTI (Associação de Produtores Teatrais Independentes) e a Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro pedem uma reunião com a ministra.

Presidente da APTI, o ator e diretor Odilon Wagner afirma que não vê problemas na inclusão da moda na Lei Rouanet, desde que o benefício vá para a parte criativa dos artistas do setor e não para a "promoção" de suas obras por meio de desfiles.

"É muito comum outras áreas quererem entrar na calha da lei. Sofremos uma concorrência muito desleal", diz.

A decisão de aprovar os projetos de moda foi tomada por Marta depois de a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, que decide quem pode captar via Lei Rouanet, ter indeferido o pedido de incentivo para dois desfiles de Pedro Lourenço na semana de moda de Paris, em outubro deste ano e março de 2014.

"Os desfiles têm publicidade espontânea enorme, e os empresários poderão aplicar seu dinheiro nisso. O teatro não tem como fazer merchandising nos espetáculos", diz Eduardo Barata, presidente da Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro.

Os projetos de Fraga e Herchcovitch nem sequer foram votados pela comissão:foram aprovados em caráter de urgência por Marta. Segundo a ministra, os desfiles fortalecerão a imagem do país no exterior.

DISCUSSÃO CORPORATIVA

O diretor do Museu da Cidade de São Paulo, Afonso Luz, que integrou a secretaria de Políticas Culturais e hoje é um dos responsáveis por intermediar a relação entre nomes da moda e o ministério, critica a ideia comum de que o setor seja elitista.

"Se alguém pede [o incentivo], é porque precisa. Essa discussão é mais corporativa. Ser reconhecido como setor cultural e não usufruir dos benefícios públicos disponíveis é como não ter cidadania. Moda não se resume à indústria do luxo", diz.

"O problema é que, na hora de dividir o bolo [da Lei Rouanet], ninguém quer compartilhar", afirma o estilista Ronaldo Fraga. Para ele, "a moda precisa de incentivo fiscal", e o Ministério da Fazenda e o do Desenvolvimento deveriam abrir as portas para os estilistas.

"Mas, se o primeiro passo veio do Ministério da Cultura, ótimo, qual é o problema? A lei não vai resolver o problema da indústria, porque ela já está perdida", diz Fraga.

A Lei Rouanet já foi centro de outras polêmicas. Em 2006, a companhia canadense Cirque du Soleil foi autorizada a captar R$ 9,4 milhões, apesar do valor alto de seus ingressos. Em 2011, a cantora Maria Bethânia obteve autorização para captar R$ 1,3 milhão para fazer um blog. Alvo de críticas nas redes sociais, desistiu do projeto.

Durante os debates sobre o projeto de Lourenço na Cnic, a associação teatral já havia enviado uma carta à comissão, que dizia que os desfiles "provocariam distorções imediatas e uma insuperável assimetria concorrencial com os segmentos culturais na disputa por verbas".

Em 2012, o setor teatral captou cerca de R$ 252 milhões pela lei de incentivo fiscal, representando quase 20% do total distribuído por meio da Rouanet.

A moda, por sua vez, captou R$ 168 mil, ou 0,01% do total (veja quadro ao lado).

Embora não haja políticas públicas específicas para o setor da moda, o Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior faz investimentos na área por meio do Texbrasil (Programa de Exportação da Indústria da Moda Brasileira).

Até agora, R$ 125 milhões foram investidos em ações para a moda, como o financiamento de desfiles de marcas brasileiras no exterior. Parte dos recursos sai de investimentos privados.

Cursos e doações são a contrapartida dos novos projetos

Os projetos que permitem aos estilistas Pedro Lourenço, Alexandre Herchcovitch e Ronaldo Fraga captar recursos da Lei Rouanet para seus próximos desfiles preveem como contrapartida a doação das roupas para acervos de museus e a realização de workshops em faculdades de moda e exposições.

Como resultado de sua "Mostra de Moda Brasileira em Paris: Internacionalização da Criatividade", o designer Pedro Lourenço irá ministrar cursos gratuitos de moda nas instituições paulistanas Anhembi Morumbi, Senac e Santa Marcelina, segundo o projeto.

O Museu da Cidade de São Paulo também deverá receber o curso, além de parte das 75 peças que formam as coleções a serem apresentadas em Paris. O projeto prevê a doação de roupas ao Museu Carmen Miranda, no Rio.

Tema recorrente em desfiles e símbolo de um conceito de brasilidade tipo exportação, a cantora inspira a coleção de Lourenço.

O designer Alexandre Herchcovitch também irá oferecer cursos para estudantes como contrapartida.

A "antropofagia cultural" e a relação entre os valores estéticos do Ocidente e da Europa serve se base para a coleção do estilista.

Herchcovitch deve abrir seleção de estágio para 20 alunos de faculdades de moda.

De acordo com o texto enviado ao governo, todas as roupas serão doadas.

O Ministério da Cultura deverá indicar outras instituições que devem receber parte da coleção de peças, além do Museu da Cidade de São Paulo, do Museu de Moda do Rio de Janeiro e do Senac de São Paulo.

O desfile de Alexandre Herchcovitch em Nova York, que será gratuito, prevê a presença de apenas 200 convidados, entre público e "formadores de opinião". Em São Paulo, serão 500 pessoas.

"Quem nunca teve acesso a um desfile, agora terá", diz Herchcovitch.

Já Ronaldo Fraga, que pesca inspiração para suas próximas temporadas nas obras do artesão Espedito Seleiro e dos escritores João Cabral de Melo Neto e Mário de Andrade, pretende realizar uma exposição, ainda sem local e datas definidos, depois do primeiro desfile na São Paulo Fashion Week.

Assim como Herchcovitch, Fraga apresenta coleções na semana de moda paulistana e irá doar peças para museus e ministrar oficinas.

"A apresentação será aberta, fora da Bienal [do Ibirapura, onde ocorre o evento]. Procuro um lugar onde caibam mil pessoas", diz o estilista mineiro. As peças serão confeccionadas em parceria com bordadeiras de Tabira, interior de Pernambuco.

(PEDRO DINIZ)

Posted by Patricia Canetti at 10:07 AM

Beatriz Milhazes ao vivo por Nani Rubin, O Globo

Beatriz Milhazes ao vivo

Matéria de Nani Rubin originalmente publicada no jornal O Globo em 27 de agosto de 2013.

Beatriz Milhazes - Meu bem, Paço Imperial, Rio de Janeiro, RJ - 30/08/2013 a 27/10/2013

Muito falada, mas pouco vista no Brasil, a mais cara artista viva do país reúne 61 obras no Paço, 11 anos após sua última grande mostra no Rio

RIO - Quem leu as páginas de cultura de jornais, sites e blogs nos últimos anos deve estar cansado de saber que Beatriz Milhazes é a mais cara artista brasileira viva. Que pinturas como “Meu limão” (2000) e “O mágico” (2001) alcançaram cifras milionárias em leilões de casas como Sotheby’s e Christie’s. Que há fila, entre os endinheirados de bom gosto, para comprar uma tela sua. Que arabescos, mandalas, flores e ouro se repetem em sua produção, compondo obras de colorido exuberante, que todo mundo parece conhecer, de tanto ver em imagens, impressas ou digitais, que acompanham notícias sobre a artista. Parece conhecer, ressalta Beatriz.

— Ninguém conhece de fato a obra de um artista se não a vir ao vivo — ela diz. — Outro dia uma pessoa me falou que conhecia minha obra, perguntei a que exposições tinha ido, e ele respondeu que nunca havia visto uma. Então não conhece. Para conhecer tem que ver a escala, a matéria, a manufatura.

É, portanto, uma oportunidade de ouro (e arabescos, flores, mandalas...) a exposição “Meu bem”, que será inaugurada nesta quinta-feira, às 18h30m, no Paço Imperial. Estarão lá 60 pinturas, gravuras e colagens, feitas entre 1989 e 2013, além de um móbile de nove metros de altura, “Gamboa I”, produzido especialmente para o local. A artista de 53 anos — que fala sobre sua obra hoje, às 20h, na Casa do Saber O GLOBO, ao lado de Lauro Cavalcanti, diretor do Paço, em evento com ingressos já esgotados — festeja sua primeira grande exposição na cidade desde 2002, quando ocupou o CCBB com 22 trabalhos. É a mostra que marca seus 30 anos de carreira, contados a partir da primeira exposição, em 1983. Mas é, principalmente, a maior panorâmica da artista.

Autor de ensaios sobre Beatriz e curador da exposição “Panamericano”, montada no ano passado no Malba, em Buenos Aires, o francês Frédéric Paul optou por uma mostra centrada na pintura, mas com um diálogo com a gravura e a colagem, que aos poucos foram introduzidas. Os trabalhos anteriores a 1989 ficaram de fora. Ele explica a escolha:

— Esse é o ano em que ela começa a usar a técnica do decalque. É nesse momento que algo muda em seu trabalho. Antes, fazia uma referência forte às artes decorativas, ao período histórico brasileiro, imperial, com rendas, bordados. Mas a partir de 1989 sua pintura se torna menos espontânea e mais distanciada. Ela parte para a abstração.

Basicamente cronológica, a exposição faz alguns saltos. Já na abertura, Paul pôs uma tela do ano-marco, “Me perdoa... te perdoo” (1989) ao lado de uma recém-saída do ateliê no Horto: “Lavanda” (2012/2013), para mostrar como a primeira “antecipa de forma espantosa a problemática” que vai percorrer mais tarde a obra da artista. Em outra sala, ele reuniu a pintura “O sonho de José” (2003/2004), a colagem “Ginger, candy” (2006) e a gravura “Havaí” (2003), as três com uso marcante do arabesco. Na última sala, a tela “Domingo” (2010) está ao lado de uma série de gravuras nas quais o curador identifica uma “tentação pela arte cinética”: listras e estrias de cores vibrantes revelam o desejo do movimento.

Visão particular das quatro estações

A maioria das obras não foi vista no Brasil. Além de “Meu limão” (leia abaixo) e “O mágico”, há, entre outras, “Beleza pura” (2006), “Dancing” (2007) e o conjunto de quatro telas “Gamboa seasons” (2010), pintado para uma exposição na Fundação Beyeler, em Basel, na Suíça. Ela, que sempre quis fazer uma série “quatro estações”, tema tradicional na arte, exultou quando o diretor da fundação lhe pediu algo especial. “Agora é o meu momento”, pensou, esbarrando, no entanto, numa espécie de impossibilidade.

— A ideia da mudança das temperaturas sempre me estimulou, mas percebi que era uma coisa mais da minha imaginação, apesar de passar temporadas longas fora e vivenciar estações variadas. Então me baseei na minha experiência no Rio. Em vez de mudanças de estação, fiz variações de calor — conta.

Participante da mítica exposição “Como vai você, Geração 80?”, em 1984, no Parque Lage, uma celebração da pintura após a efervescência da arte conceitual no país nos anos 1960 e 70, Beatriz foi aos poucos agregando outros meios em seu trabalho: em 1996, as gravuras; em 2003, as colagens e peças para arquiteturas específicas, como painéis para a loja da editora Taschen em Nova York ou o metrô de Londres; e, no ano seguinte, objetos tridimensionais.

Um deles, “Gamboa I”, é certamente um destaque, pelo encantamento que produz. São cinco móbiles, com miçangas, flores de tecido, colagens com espelhinhos, contas “e o que mais o Sérgio encontrar na Saara”. Sérgio Faria, ex-colaborador da carnavalesca Rosa Magalhães, encontrou bastante coisa, e, a partir de um desenho de Beatriz, ele a mãe da artista, a historiadora da arte Glauce Milhazes, montaram a obra, que ocupa a Sala dos Archeiros, com luz natural entrando pela cúpula.

Como muitas outras obras, o “Gamboa I” tem uma história por trás. O primeiro móbile que fez foi um cenário para o espetáculo “Tempo de verão”, da irmã, a coreógrafa Marcia Milhazes, e passou a ser assediada por curadores.

— Vários quiseram levar a peça para exposições — conta Beatriz. — Mas disse que não, ela foi feita em outro contexto.

Finalmente, a artista concordou em criar um para a bienal Prospect.1, em Nova Orleans. “Gamboa” percorreu exposições em Nova York, Basel e Lisboa, e hoje está numa coleção particular em Berlim.

— Antes, eu era uma pintora fazendo cenários. Agora, os cenários começam a dialogar com meu universo de arte — diz.

O universo de arte de Beatriz se amplia. A artista, que pratica musculação para poder enfrentar o embate da pintura (“é onde dispendo mais energia”), está desenvolvendo sua primeira peça-escultórica, na mesma Durham Press onde imprime suas gravuras, na Pensilvânia. A peça, em grande escala, será em acrílico e alguns metais pintados, formando volumes físicos isolados que dialogam entre si, com os mesmos motivos recorrentes em suas telas.

Filme e livro em 2014

Este ano, Beatriz vai mostrar pela primeira vez a escultura. Ela estará ao lado de de pinturas recentes na exposição que fará em novembro na Fortes Vilaça, em São Paulo, sua galeria brasileira (ela trabalha também com galerias em Londres, Nova York e Berlim). Em setembro de 2014, abre uma mostra panorâmica no novíssimo Pérez Art Museum Miami, museu de arte moderna na cidade projetado pelos arquitetos suíços Herzog & de Meuron, que será inaugurado em dezembro deste ano. Também em 2014, estão previstos os lançamentos de um livro sobre sua obra pela Taschen e um filme de José Henrique Fonseca (“Um épico”, brinca ela, devido à produção arrastada, “culpa” da agenda lotada). A tal agenda lotada, comum a um pequeno grupo de artistas internacionalizados da sua geração, como Adriana Varejão e Vik Muniz, e que faz suas exposições serem bastante espaçadas no Brasil, é explicada por ela de forma muito simples:

— O Brasil é só um ponto a mais no circuito internacional. às vezes, falando isso, você parece meio pedante, mas a minha realidade é essa, não tenho como fazer diferente. Até porque sou muito cuidadosa com o que faço. Não faço qualquer mostra. Aqui, por exemplo. Já que vamos fazer, tem que ser a melhor.

Posted by Patricia Canetti at 10:00 AM

Galerias cariocas, as grandes incentivadoras da ArtRio por Nice Jourdan, O Globo

Galerias cariocas, as grandes incentivadoras da ArtRio

Matéria de Nice Jourdan originalmente publicada no jornal O Globo em 19 de agosto de 2013.

Na primeira edição da feira, algumas das galerias mais importantes do circuito não acreditaram no mercado de artes da cidade

RIO - Quando o projeto da ArtRio foi lançado em 2011, muita gente duvidou do potencial da iniciativa e achou que o Rio de Janeiro não teria um mercado que comportasse uma feira de artes desse padrão. Reconhecidamente atrás do maior polo cultural do país, São Paulo, o mercado de artes carioca ainda não possuía um tipo de plataforma estabelecido para comercialização de obras. De cara, algumas das maiores galerias paulistas não toparam, ou simplesmente não acreditaram na ideia. A questão era: por que sair da cidade para um território desconhecido? No Rio, a coisa tomou proporções diferentes e a noticia foi recebida com entusiamo por todos do cenário cultural. A proposta parecia se encaixar com a necessidade do momento. Era o passo que faltava para um salto na internacionalização dos rumos do mercado de artes contemporânea. Agora, em apenas três anos, a ArtRio já é considerada a segunda maior feira do país em volume de negócios, de acordo com a pesquisa feita pelo programa Latitude.

— Achei que era uma iniciativa que o Rio precisava há muito tempo. Sempre existiu uma insatisfação por não haver um tipo de movimento como esse no Rio. A SP Arte já existe há 10 anos e a Bienal há 50. O resultado aqui passou das expectativas — conta Mercedes Viegas, diretora da galeria que leva seu nome.

O resultado foi muito maior do que o esperado em termos de venda - com obras negociadas entre R$ 2 mil a 7 milhões -, colocando a cidade na agenda cultural dos grandes colecionadores e ampliando um mercado interno.

O número de galerias aumentou - de 83 para 101. Não é um crescimento considerável, mas a organização priorizou o conteúdo, a qualidade dos expositores e o conforto de todos. A distribuição dos estandes aconteceu de forma democrática e heterogênea - as cariocas Lurixs e Anita Schwartz se encontram ao lado das gigantes Gladstone (NY), Pace (NY), Gagosian (NY), por exemplo.

— A ArtRio teve um sucesso estrondoso na primeira edição. Já no segundo ano, todas as galerias que não participaram compareceram. A feira internacionalmente está crescendo e ganhando mais visibilidade - Afirma Ricardo Rego, diretor da Galeria Lurixs, que acredita numa concorrência entre os modelos de feira paulista e carioca. — Na última feira de SP, a organização deu um salto grande, de certa forma motivada pelo sucesso que o Rio fez. Assim como a feira do Rio buscou um padrão na SP Arte — esclarece o galerista.

Para a galerista Anita Schwartz, o diferencial para um evento como este é a qualidade das obras e dos espaços. A concorrência ocorre de forma saudável. O público comprador carioca está crescendo, assim como os colecionadores. Cada vez mais os novos compradores estão educando o olhar para tornarem-se possíveis colecionadores. Além disso, o rumo que modelo do evento apresenta um tom mais educativo, principalmente quando passou a receber visitações de escolas e de pessoas em busca de programas de lazer.

— O mercado do Rio renasce totalmente revigorado. As pessoas comuns tiveram um interesse total na feira. Aqui, além do papel comercial, a feira também tem o papel institucional e educativo. No final de semana a visitação é mais voltada para o público comum. A arte contemporânea é lúdica e acessível. As pessoas querem interagir — conta Liecil Oliveira, da Galeria Athena, sobre o interesse do grande número de visitantes do evento.

Posted by Patricia Canetti at 9:56 AM | Comentários (1)