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dezembro 12, 2008
Abaixo-Assinado: Libertem A Pichadora Caroline Pivetta Da Mota
Destinatário: Fundação Da Bienal De São Paulo E Ministério Público Do Estado De São Paulo
No dia da abertura da 28ª Bienal de Artes de São Paulo, 40 pichadores entraram no Pavilhão e "atacaram" com seu design gráfico todo particular o segundo andar o prédio, o local que estava o chamado "vazio" proposto pela curadoria que consistia de paredes e pilastras brancas. Na ocasião, a pichadora Caroline Piveta Mota foi a única detida sob a alegação de depredar o patrimônio público. Acusada de se associar a "milicianos" para "destruir as dependências do prédio", a jovem continua presa.
O que nós, agentes culturais, estranhamos é que existe um paradoxo nesse caso, pois se trata de patrimônio público, mas também de uma mostra de arte contemporânea, local propício para esse tipo de manifestação desde o começo do século 20.
Como escreveu o professor e artista Artur Matuck: "As paredes foram pichadas e repintadas e a mostra não foi prejudicada. Independente da discussao estética, se a pichaçao é ou não arte, se se justifica ou não, a atuação deste grupo ao invadir o prédio da Bienal com um grupo de pichadores, foi também um ato expressivo, foi inequivocamente uma manifestaçao cultural. [...] Uma discussão ampla e bem informada sobre o fenômeno cultural da pichaçao é relevante desde que na medida em que não é validado enquanto expressao artistica pode ser considerado como vandalismo e justificar repressão".
Repressão essa que faz Caroline estar presa até hoje e ainda pegar uma pena de 3 anos.
Por isso pedimos: LIBERTEM A PICHADORA CAROLINE PIVETTA DA MOTA!
To: Fundação Da Bienal De São Paulo And The Public Prosecutor’s Office Of The State Of São Paulo
On the day of the opening of the 28th São Paulo Biennial, 40 pichadores (taggers) entered the Pavilion and ‘attacked’ the second floor of the building with their particular graphic designs. The second floor hosted the so-called ‘void’ proposed by the curators and it consisted of while walls and pillars. At the occasion, the tagger Carolina Pivetta Mota was the only person to be arrested under the allegation of vandalizing a public heritage site. Accused of associating with ‘militia men’ in order to ‘destroy the building’, the young girl is still imprisoned.
We believe there is a paradox in this case, for although the pavilion is indeed a cultural heritage site, it also hosted a contemporary art exhibition, which has been a suitable setting for this type of manifestation since the early 20th century.
As professor and artist Artur Matuck wrote: ‘The walls were tagged and subsequently repainted and the show was not negatively affected. Leaving aside any aesthetic debate – whether tagging is art or not, if it is justified or not – the action of the group of taggers that invaded the Biennial building was also an expressive act, it was undoubtedly a cultural manifestation. […] An ample and well informed discussion about tagging as a cultural phenomenon is relevant insofar as it is not validated as an artistic expression and can be considered as vandalism, justifying repression’.
It is because of this type of repression that Caroline is still in prison and runs the risk of being condemned to 3 years in jail.
This is why we ask: FREE THE PICHADORA CAROLINE PIVETTA DA MOTA!
dezembro 11, 2008
Novas rotas para artistas viajantes, por Paula Alzugaray, Revista Isto É
Novas rotas para artistas viajantes
Matéria de Paula Alzugaray, originalmente publicada na Revista Isto É edição 2039, no dia 26 de novembro de 2008
Artistas viajantes
Cresce o trânsito de artistas brasileiros e estrangeiros em programas de residências
O artista viajante foi o antecessor do documentarista. Por séculos, transitou a Terra Brasilis, registrando em desenhos e pinturas as pessoas, os animais, as plantas. A prática arrefeceu no final do século 19 com o advento do cinema e das novas mídias, mas hoje ganha novo fôlego com as residências artísticas. Como nas Missões Artísticas do passado, os programas de residências querem ampliar horizontes. Em um mundo atravessado por meios de comunicação, deslocamentos e migrações, o artista residente é convidado a desenvolver projetos a partir de vivências em novos territórios e a refletir sobre a cultura globalizada que nos envolve.
Durante dois meses, o videoartista argentino Federico Lamas, de 29 anos, fez um trabalho a partir da janela de seu apartamento na Praça Patriarca, em São Paulo. Contemplado pelo programa Videobrasil de residências, Lamas ficou hospedado no Edifício Lutetia, que desde 2006 já recebeu 58 artistas internacionais dentro do projeto da Residência Artística FAAP. “Não tenho sede de turismo e São Paulo não tem uma torre Eiffel para se conhecer. A torre Eiffel aqui são as pessoas”, diz ele. Em um exercício diário de voyerismo sobre os personagens da cidade, o artista mapeou os predicadores da Praça Patriarca e produziu um vídeo ficcional a partir de imagens documentais, intitulado Vete al Diablo.
Em São Paulo, Lamas conviveu com o espanhol Javier Peñafiel, de 44 anos, convidado da 28ª Bienal de São Paulo, que também habitou o Lutetia durante dois meses, a convite da Fundação Bienal, instituição parceira das residências da FAAP. “Escolhi trabalhar com a agenda, porque é uma coisa muito paulistana”, diz Peñafiel. Sua Agenda do fim dos tempos drásticos propõe uma nova divisão do tempo semanal e foi realizada sob medida para combater o estresse da vida paulistana. O trabalho consiste em um vídeo, um livro e uma “conferencia dramatizada”, em que a atriz Marisa Orth foi chamada para preencher as páginas em branco da agenda.
“As residências estão diretamente relacionadas ao processo de globalização, significam ampliação de acesso à informação, disseminação, mas também podem ser resposta e este mesmo processo, uma espécie de resistência a este modelo, pois permitem trocas mais diretas entre os artistas”, diz Marcos Moraes, coordenador da Residência Artística FAAP. Fortalecer ações de intercâmbio é a meta desses programas que proliferam no Brasil. O interesse nesse tipo de prática é tão grande que São Paulo sediou essa semana o I Encontro Iberoamericano de Residências Artísticas Independentes, do qual participaram 13 programas brasileiros, onze de outros países da America Latina e três da Espanha. Entre os brasileiros, participaram o recém-lançado programa do Laboratória de Novas Mídias do MIS, e o SPA das Artes, de Recife.
Evento referencial da produção artística pernambucana, que todo ano preenche Recife com atividades e exposições, o SPA das Artes esse ano criou uma Bolsa de Incentivo à Residência Artística, contemplando seis artistas de diferentes cidades do Brasil com R$ 2,5 mil. Entre eles, estava a paulistana Maíra Vaz Valente, que ocupou faixas de pedestres com guarda-chuvas vermelhos e cadeiras de metal na intervenção-performance Movimentos para atravessar a multidão. A experiência, efêmera, durou poucas horas. Mas os resultados são levados pelo artista viajante de volta para casa. “O trabalho nunca se encerra em uma só leitura”, diz Maíra que continua elaborando novas intervenções para “questionar a inércia da multidão urbana”.
Colaborou Fernanda Assef
Roteiros
Poéticas do deslocamento
DESLOCAÇÕES, 4 PERSPECTIVAS CONTEMPORÂNEAS PORTUGUESAS/ Instituto Camões, Brasília/ até 12/12
A União Européia recebe, em média, 400 mil pedidos de asilo por ano, mas é cada vez mais comum a criação de leis para dificultar a entrada de estrangeiros. Portugal é o país-membro que mais recebe imigrantes de países que não pertencem à UE.
Acredita-se que existam mais de 70 mil imigrantes morando no país. Migração tornou-se um foco constante da atualidade e a arte contemporânea não está alheia a esse debate. O tema é abordado na mostra Deslocações, em que quatro fotógrafos portugueses interpretam aos sentidos diversos das experiências migratórias hoje. Na vídeo-instalação 38 Minutos de Antropologia, José Carlos Teixeira colhe depoimentos, em tom confessional, de imigrantes que não se deixam revelar e aparecem em imagens fragmentadas. Mais do que observar, a exposição convida a um permanente deslocamento, para experimentar o sentir-se estrangeiro.
Exposição evidencia influência de Weissmann, por Mario Gioia, Folha de São Paulo
Exposição evidencia influência de Weissmann
Matéria de Mario Gioia, originalmente publicada na Folha de São Paulo, no dia 11 de dezembro de 2008
Mostra no Tomie Ohtake destaca esculturas realizadas na década de 50
Nome decisivo da escultura brasileira, artista morreu em 2005; individual tem 14 peças, incluindo três trabalhos mais recentes
Ele foi professor de Amilcar de Castro, assinou o "Manifesto Neoconcreto", fez parte do grupo Frente e sua escultura é uma grande influência para artistas como Waltercio Caldas e José Resende. Mesmo assim, suas exposições não são tão freqüentes e, só agora, três anos depois de sua morte, é que ele ganha uma mostra representativa de sua obra.
Franz Weissmann (1911-2005), um dos nomes decisivos da escultura brasileira, tem 14 peças em exibição no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, na mostra "Franz Weissmann - Experimentação e Lirismo", que é aberta hoje a convidados, às 20h.
Com curadoria do crítico carioca Marcus Lontra, ex-diretor do MAM-RJ (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro), a seleção não é uma retrospectiva, mas um recorte de trabalhos importantes do artista, em especial os da década de 50, quando Weissmann estava na linha de frente da arte construtiva no Brasil.
"Foi naquele período que Weissmann efetivamente começou a elaborar alguns conceitos centrais de sua obra, como o uso do vazio. Escolhi três outras esculturas, de 2003, para mostrar o quanto aqueles trabalhos dos anos 50 dialogam com força com peças que foram feitas mais de 50 anos depois", afirma o curador.
Essas três esculturas selecionadas por Lontra estão no centro de uma das salas expositivas do instituto, são de aço inox e estão lado a lado de trabalhos famosos de Weissmann, como as Colunas Neoconcretas, os Cubos e os Fios.
"É engraçado ver como algumas de suas esculturas mais recentes parecem pedir um tamanho maior.
Weissmann quer mais é que o público passe debaixo delas, participe espacialmente da escultura. Por isso, gostava tanto de sua obra pública em seus últimos anos", conta o curador.
Alguns dos trabalhos mais célebres de Weissmann podem ser vistos em espaços públicos, como na praça da Sé, no Memorial da América Latina e no jardim do Museu de Arte Brasileira, na Faap, em São Paulo, e também no Parque da Catacumba, no Rio de Janeiro.
Com um recorte significativo da produção do artista nos anos 50, Lontra desenhou uma exposição menos colorida e mais geométrica. "Mas isso não quer dizer que ele era partidário de um racionalismo estanque. Vejo sua obra como filiada a um modernismo contaminado, ele usa a precisão das formas e trabalha o vazio com planejamento, mas se deixa influenciar por outros elementos não-previstos", avalia o curador.
Assim, uma das Torres feitas pelo artista em 1957 e presente em "Experimentação e Lirismo" parece derivar de uma Coluna, de 1952, e perder um pouco da sua rigidez. "Um construtivista não deixaria essa Torre tão aberta, com esse ar livre. Suas obras anteriores se fechavam nelas mesmas, mas a Torre aponta que Weissmann era sensível a algo menos planejado e controlado", diz Lontra.
Professor
Austríaco radicado desde 1921 no Brasil, Weissmann morou no norte do Paraná, em São Paulo, em Belo Horizonte e no Rio, cidade onde passou a maior parte da sua vida. Em 1948, começa a dar aulas de desenho e escultura na Escola do Parque, em BH, para alunos que se tornariam grandes nomes da arte brasileira, como Amilcar de Castro (1920-2002), Mary Vieira (1927-2001) e Farnese de Andrade (1926-1996). Na escola, onde fica até 1956, convive com Guignard (1896-1962), que o chamara para o cargo.
Nos anos 50, começa a ter ligações com a arte construtiva, influenciado pela "Unidade Tripartida", escultura do suíço Max Bill exibida na primeira edição da Bienal de São Paulo, em 1951. Na segunda edição do evento, em 1953, já apresenta "Cubo Vazado" -presente na exposição do Tomie- e, dois anos depois, faz parte do grupo Frente, ao lado de nomes como Ivan Serpa (1923-1973) e Lygia Clark (1920-1988), que organizará importantes mostras de arte concreta no Brasil, como as ocorridas no MAM paulistano e no do Rio em 1956 e 1957.
"O interessante é que ele vai buscar novos caminhos.
Faz estruturas "amassadas" nos anos 60, vai testando mais cores nos anos 70. E nunca deixa de experimentar", afirma o curador.
Ministro da Cultura pede a Serra libertação de pichadora da Bienal, por Diógenes Muniz, Folha on line
Ministro da Cultura pede a Serra libertação de pichadora da Bienal
Matéria de Diógenes Muniz, originalmente publicada no Folha on line, no dia 11 de dezembro de 2008
O ministro da Cultura, Juca Ferreira, pediu ao governador José Serra (PSDB) que ajude a libertar Caroline Pivetta da Mota, 23, presa há mais de 40 dias por pichar as paredes da Bienal, no parque Ibirapuera. Ferreira ligou anteontem para Serra e para o presidente da Fundação Bienal, Manoel Francisco Pires da Costa, pedindo intervenção imediata.
Caroline foi uma das 40 visitantes que, no dia 26 de outubro, atacou com spray o prédio da Bienal em protesto contra o que ficou conhecido como o "andar vazio".
Dependendo do julgamento, pode ficar presa até a próxima Bienal, em 2010. O artigo 62 da Lei de Crimes Ambientais (destruição de patrimônio cultural) prevê pena de um a três anos.
"Caso a menina não seja libertada, teremos que deflagrar uma segunda fase [de ações]. O ministério pode dar assistência jurídica a ela, no sentido de garantir sua defesa", afirmou Ferreira à Folha Online.
Segundo ele, "é um escândalo uma pessoa ficar presa esse tempo todo porque fez uma intervenção gráfica". A advogada da jovem, Cristiane Sousa Carvalho, diz que a Caroline só continua presa por não ter conseguido comprovar residência fixa, tampouco ocupação legal.
As respostas do governador e da Bienal foram "positivas" e "atenciosas", de acordo com o ministro. "O Serra alegou que as coisas não funcionam assim, de mandar soltar e a pessoa já sair, mas me disse que vai ver o que pode fazer", afirmou.
O ministro disse discordar da "agressividade" das manifestações de pichadores. "Enfeiam a cidade, mas são manifestações de grupos que querem fugir do anonimato sinalizando sua existência, sua territorialidade. Confesso que não tenho muita simpatia, mas não acho que seja caso de polícia."
Em comunicado oficial divulgado ontem, a Fundação Bienal negou novamente ter "qualquer ingerência sobre a liberdade da jovem".
"Não cabe à fundação "retirar queixa" ou pedir "relaxamento da prisão", já que a jovem foi presa no ato do delito (flagrante) e a decisão pela sua permanência na prisão, ou mesmo a intensidade da pena aplicada ao caso, é da Justiça."
"A única responsabilidade da fundação, neste caso, foi acionar a polícia e registrar boletim de ocorrência", afirma a nota. O governo não se manifestou até a conclusão desta edição.
O segundo pedido de liberdade provisória de Caroline será julgado hoje.
Em entrevista à Folha Online na última semana, de dentro do presídio, a jovem disse que picha "para o povo olhar e não gostar". "A gente não queria estragar as obras, mesmo porque não tinha obra. A obra nós que íamos fazer."
dezembro 10, 2008
Abaixo-Assinado: SOS Museu Imperial em defesa de Maria de Lourdes Horta
Destinatário: Ministro da Cultura - Juca Ferreira
Carta aberta ao Exmo. Senhor Ministro da Cultura,
O MUSEU QUE SE VÊ, E O QUE ESTÁ POR TRÁS DO QUE NÃO SE VÊ...
As imagens podem ser muito mais convincentes do que as palavras. Quem vai ao Museu Imperial (MI), em Petrópolis, vê, com seus próprios olhos, uma instituição pública exemplar, que recebe uma média anual de 300 mil visitantes, e escolhida, em quinto lugar, à frente do Maracanã e da Praia de Ipanema, como uma das "Sete Maravilhas" do Estado do Rio de Janeiro.
A museóloga Maria de Lourdes Parreiras Horta, servidora pública federal concursada, há 43 anos no serviço público e há 17 à frente do MI, implantou um modelo de gestão, em parceria com a sociedade civil, que trouxe benefícios visíveis ao museu e ao patrimônio público, com novos serviços oferecidos à população, como a educação patrimonial aos grupos escolares, o espetáculo de "Som e Luz", restaurante, loja de produtos culturais, serviço de "audioguides", sala de cinema e o projeto “O museu que não se vê”. Essas atividades incrementaram a visitação ao museu e à cidade de Petrópolis, incentivando o turismo e a atividade hoteleira no município, fazendo do MI atualmente uma das âncoras mestras do turismo no Estado do Rio.
A excelência da instituição se traduz em números: o MI responde hoje por mais de 50% da arrecadação de todo o IPHAN (incluindo os demais museus federais), recolhendo aos cofres públicos, anualmente, cerca de R$1.500.000,00, oriundos de sua bilheteria.
Desde 1991, o MI conta com uma Sociedade de Amigos (SAMI), criada por iniciativa de Maria de Lourdes, para apoiar o desenvolvimento de sua missão institucional. A Diretoria da SAMI é composta de personalidades públicas de renome internacional, alguns entre os mais importantes empresários do país, que emprestam de forma graciosa o seu tempo e reputação em prol do MI, da cidade de Petrópolis e da cultura do país. As atividades desenvolvidas em parceria com a SAMI, reconhecida em 2005 como uma OSCIP, e que não recebe nem um centavo de verba pública, geram receita extraordinária de cerca de mais de R$1.000.000,00 por ano, integralmente aplicados no MI, e com rigorosa prestação anual de contas ao Ministério da Justiça.
Esses recursos complementares gerados pela SAMI em benefício exclusivo do MI permitem, por exemplo, a aquisição de peças para o acervo, restauro de peças raras, aquisição de materiais e equipamentos e contratação de serviços técnicos (uma média de 100 profissionais ao ano, como restauradores, pesquisadores, pedagogos, técnicos, pintores, entre outros). Esse modelo inovador de parceria do privado em prol do público deu uma nova imagem ao órgão, ajudando a fazer do MI uma referência nacional e internacional. Em 1999, graças à sua excelente imagem e competência técnica, o MI recebeu a maior doação de um acervo particular ao acervo público na história do país, a Casa Geyer e sua coleção "brasiliana". No mesmo ano, o Suplemento de Artes do New York Times publicou matéria indicando o Museu como um dos "5 Tesouros Escondidos" no mundo.
O esmero no atendimento e os serviços oferecidos resultam em um número cada vez maior de visitantes, e conseqüentemente em uma arrecadação cada vez maior, em um círculo virtuoso que só traz benefícios aos visitantes do MI e à cidade de Petrópolis, que atribui ao sucesso do MI mais da metade do seu fluxo de turistas.
Infelizmente, essa história de sucesso foi interrompida. A partir de denúncias anônimas e insinuações, foi instaurado um processo administrativo disciplinar para averiguar supostas “irregularidades” na gestão do MI em sua parceria com a SAMI, sugerindo “indícios” de improbidade administrativa. Sem que tenha havido especificação das suspeitas que sobre ela recaem, Maria de Lourdes foi arbitrariamente afastada da direção do MI, e passou a ser alvo de denúncias anônimas e reportagens injuriosas que ofendem sua longa história de dedicação ao serviço público e a todos aqueles com quem ela construiu uma carreira de sucesso e um museu que não deixa nada a dever aos grandes museus internacionais. Todas as iniciativas empreendidas em parceria com a SAMI foram suspensas, trazendo imediato dano à vida e à economia da região, e a perda do emprego de vários funcionários, da noite para o dia.
É inaceitável que uma carreira consistente seja interrompida com base em acusações desprovidas de fundamento, muitas vezes de autoria desconhecida, e com um claro intuito político de remover Maria de Lourdes do seu cargo. Sem conseguir acusá-la de incompetente ou ineficiente, recorrem a instrumentos covardes de intimidação característicos de sistemas autoritários. Não é apenas Maria de Lourdes que está sofrendo o prejuízo de tais manobras, mas também todos os que levam a cultura a sério neste país.
Maria de Lourdes, precursora da educação patrimonial no Brasil, é referência na área de museus em todo o país, reconhecida internacionalmente e exemplo sólido de gestão profissional do patrimônio público. Merece todas as honras, todo o nosso respeito e toda a nossa admiração. Entretanto, vê-se covardemente acuada por manobras torpes dos que pretendem denegrir a sua história de abnegada dedicação ao serviço público. Não podemos assistir calados a tamanha injustiça.
QUE O MINISTÉRIO DA CULTURA VENHA A PÚBLICO, O QUANTO ANTES, PARA CORRIGIR ESTES DISPARATES!
dezembro 8, 2008
MAM revê 60 anos com mostra grandiosa, por Fabio Cypriano, Folha de São Paulo
MAM revê 60 anos com mostra grandiosa
Matéria de Fabio Cypriano, originalmente publicada na Folha de São Paulo, no dia 8 de dezembro de 2008
"MAM 60", que comemora os 60 anos do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), na Oca, é uma exposição imperdível. Com curadoria de Annateresa Fabris e Luiz Camillo Osório, membros do conselho consultivo do museu, está longe de ser uma comemoração burocrática da efeméride da instituição.
Organizada em três pisos, "MAM 60" tem início com um relato sobre a constituição do museu, em uma mescla de documentos e obras. Nesse segmento, algo que poderia ser enfadonho revela-se precioso documento histórico: um retrato da Guerra Fria, quando o Museu de Arte Moderna de Nova York esforçava-se em criar vínculos com o Brasil.
Nesse primeiro andar, são destaques as obras de alguns artistas relevantes para a constituição da arte moderna, como George Grosz, Kurt Schwitters e Alexander Calder. Tais trabalhos, hoje pertencentes ao MAC da USP, são representativos da primeira crise do museu, em 1963, quando seu criador, Ciccillo Matarazzo, transferiu a coleção do MAM para a USP, além de sua coleção pessoal e a de Yolanda Guedes Penteado.
Essa crise representou o fim da coleção moderna do museu, reorganizado por vários intelectuais, entre eles o crítico Mario Pedrosa. A mostra acerta ao não valorizar esses poucos e fracos trabalhos modernos do acervo, mas justamente a fase que começa a partir de então.
De forma delicada, o acervo contemporâneo é apresentado a partir de eixos nominados por artistas com forte presença na coleção, nos outros dois andares. A exceção é o primeiro núcleo, Nova Figuração, destacando produção nacional que torna o pop uma tendência de contestação ao regime militar, ao contrário do pop americano.
A partir daí, a mostra desenvolve-se em núcleos como Lívio Abramo, que apresenta uma rica constituição de gravadores como Antonio Henrique Amaral, Roberto Magalhães e Oswaldo Goeldi. Outro grupo traz fotógrafos experimentais, como Thomaz Farkas e Geraldo de Barros. Mais do que núcleos temáticos, os agrupamentos criam diálogos instigantes como, por exemplo, apresentando, lado a lado, fotografias conceituais de Carla Zacagnini e outras mais voltadas à performance, de Lenora de Barros.
No último andar, dois percursos são criados, um tendo por princípio o multimídia Flávio de Carvalho, e outro pelo pintor Alfredo Volpi. Em cada um, novos diálogos são sugeridos, e um dos mais significativos é a "Série Trágica. Minha Mãe Morrendo" (1947), de Carvalho, próxima aos vidros estilhaçados de Iran do Espírito Santo. O acervo do MAM tem lacunas, mas a mostra revela que é possível apresentá-lo de forma grandiosa, ao propor novas formas de observá-lo.
Teatro em alta definição, por Paula Alzugaray, Revista Isto É
Teatro em alta definição
Matéria de Paula Alzugaray, originalmente publicada na Revista Isto É edição 2038, no dia 19 de novembro de 2008
Robert Wilson dirige celebridades e atores independentes em vídeo-retratos operísticos. Voom Portraits – Robert Wilson/ SESC Pinheiros, SP/ até 1/2/09
Ícone da vanguarda norte-americana, Robert Wilson se notabilizou pela reconstrução da linguagem operística. Madame Butterfly, Parsifal, A Flauta Mágica, nenhum clássico resistiu ao seu tratamento multimídia. Em 1976, ele reiniciou definitivamente o gênero da ópera com a criação de Einstein on the Beach, em colaboração com o músico Phillip Glass. Mas Bob Wilson é um desses artistas inclassificáveis, que não se adequam a categorias artísticas pré-concebidas. Atribuem-se a ele as atividades de diretor, coreógrafo, performer, designer de luz e vídeo-artista. Na exposição que trouxe-o ao Brasil, ele exerce com maestria cada uma dessas funções. Wilson não está em São Paulo para a apresentação não de uma peça teatral, mas de uma série de mini-operetas, exibidas dentro de televisores de plasma, ou projetados na parede, em dimensões monumentais.
Os “vídeo-retratos” aqui expostos têm quase sempre o formato clássico dos retratos da pintura pós-renascentista. São verticais e representam o retratado em sua totalidade, petrificados em uma pose estática e com o olhar direcionado para o pintor – ou o fotógrafo. De fato, poderíamos estar diante de pinturas hiper-realistas, se os personagens não executassem micro-coreografias diante da câmera de alta definição de Robert Wilson, desempenhando gestos mínimos como vestir uma máscara de lobo, mascar chicletes, ou marcar o compasso da trilha sonora com o pé esquerdo. Os retratos foram realizados durante uma residência artística de Wilson na emissora de televisão de alta definição Voom e poderiam, segundo o diretor, “ser vistos na tevê, em galerias, museus, estações de metrô, hotéis, aeroportos, ou mesmo no quadrante de um relógio de pulso”. Posam para os retratos pop stars como Winona Ryder, Brad Pitt, Isabella Rosselini e a princesa Caroline de Mônaco. Mas também há atores cult, como Steve Buscemi, que posa como carniceiro, e anônimos, como o mecânico Norman Paul Flemming. Nas trilhas sonoras, colaboram Lou Reed e Tom Waits.
Bate papo
Almir Mavignier
Pintor em branco e preto
O pintor carioca Almir Mavignier, 83 anos, fez carreira na Europa e se naturalizou alemão em 1981, mas é parte da história da arte brasileira. Quando deixou os colegas Abraham Palatnik e Ivan Serpa para ir estudar na Alemanha, há 57 anos, a Bienal de São Paulo estava em sua primeira edição e o abstracionismo ganhava espaço por aqui. “Estrangeiro na Alemanha e estranho no Brasil”, esse cidadão do mundo expõe em São Paulo até 13/12, na DAN galeria.
O que você está expondo em São Paulo?
Muitos dos quadros dessa exposição têm mais de 27 anos. A idéia de pintar em preto-e-branco surgiu quando conheci uma galeria em Düsseldorf inteiramente branca. Essa experiência despertou questionamentos. O que é a cor? O que é a forma? Nasceu o conceito de libertação da cor de sua forma, através de efeitos com luz.
Sente-se mais alemão ou brasileiro?
Em 1969, fui selecionado para representar a Alemanha na Bienal de São Paulo. Meus colegas alemães ficaram pálidos com a notícia. Eu era um brasileiro expondo no meu pais, mas era um estrangeiro naquele departamento. Infelizmente, não recebi nenhum prêmio. A Bienal foi criada para valorizar os artistas brasileiros, permitindo a concorrência com os grandes nomes internacionais. Um brasileiro representando a Alemanha, com 30 quadros, era algo muito forte. Foi uma situação muito estranha, mas foi uma exposição belíssima. Eu me sinto um corpo estranho aqui.
Fernanda Assef
Roteiros
Cuidado: contém videoarte
Container art /Parque Villa Lobos, SP/ até 28/11
A presença de 24 containeres industriais espalhados sobre o gramado de um parque é, no mínimo, desconcertante. Conhecer seu conteúdo será, no entanto, bem mais intrigante. Dentro de cada container encontra-se uma seleção do melhor do atual vídeo experimental brasileiro. Nesse museu modular a céu aberto, montado no Parque Villa Lobos até o próximo sábado, o público assiste a trabalhos de 50 artistas e encontra desde produções com equipamentos sofisticados e tecnologia de ponta, até vídeos produzidos com meios domésticos e portáteis, como celulares, webcams e câmeras de bolso. “O vídeo é um meio super utilizado como suporte e o container, que é um espaço ambíguo e modular, permite ampliar as possibilidades de diálogos. É como brincar de lego”, diz o artista multimídia Lucas Bambozzi, que assina a curadoria da mostra com o videoartista Cao Guimarães.
