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abril 25, 2007
Após visita, MAC aprova Detran, sua nova sede, por Fabio Cypriano, Folha de São Paulo
Após visita, MAC aprova Detran, sua nova sede
Matéria de Fabio Cypriano, originalmente publicada na Folha de São Paulo, no dia 25 de abril de 2007
Diretora do Museu de Arte Contemporânea da USP elogia o espaço, que vai abrigar a instituição e ganhará reformas
Idéia é abrir o novo local em 2009; último andar do prédio-sede, com vista panorâmica de São Paulo, pode ganhar restaurante
A direção do Museu de Arte Contemporânea da USP, em sua primeira visita ao prédio do Detran, conduzida pelo diretor do órgão, Ruy Estanislau, anteontem, aprovou as condições do edifício para abrigar a instituição. A mudança foi anunciada, na semana passada, pelo secretário estadual de Cultura, João Sayad.
"Ficamos entusiasmados, vimos o prédio em detalhes, e a infra-estrutura é totalmente adequada, as condições museológicas são muito boas, além de o edifício estar em ótimas condições de conservação", diz Lisbeth Rebollo Gonçalves, diretora do MAC.
Durante a visita, Gonçalves verificou não só que o Detran tem condições de abrigar a coleção moderna do museu, que pode ser distribuída no prédio principal, com nove andares -são 21,8 mil m2, apesar de um pé direito relativamente baixo, de 3,7 m-, mas que o acervo de arte contemporânea pode ser exibido no pavilhão anexo, com cerca de 4.600 m2 e pé direito superior a 8 m, o que é bastan- te adequado para obras como instalações, que caracterizam a produção recente de vários artistas.
Há outros quatro anexos disponíveis, e a direção do MAC acredita que, no conjunto, cheguem a mais 2.400 m2. Com isso, o museu passa a contar com cerca de 28 mil m2. O edifício-sede foi inaugurado em 1954, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer.
"Todo o complexo do Detran ficará com o museu, até mesmo um auditório, que está em ótimas condições e possui 370 lugares. Com isso, poderemos dispor o acervo de forma adequada, e até mesmo criar residências artísticas", diz a diretora do MAC.
Outro detalhe que animou Gonçalves foi descobrir a existência de dois grandes cofres, que poderão receber as obras-primas do acervo, algumas delas cotadas em valores que chegam a milhões de dólares, como o auto-retrato de Modigliani, feito em 1919, uma das mais valiosas do museu.
O MAC possui cerca de 8.000 obras, além de manter a guarda da coleção do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira, com mais cerca de 1.500 trabalhos, especialmente fotografias.
Não há ainda previsão para a saída do Detran, mas a diretora acredita que ocorra em breve e já tem previsão para a inauguração do novo MAC: "Vamos saber em breve quando o Detran irá desocupar o prédio, recebemos hoje as plantas, mas gostaríamos de abrir o museu em abril de 2009, quando o MAC irá comemorar 46 anos".
Segundo Gonçalves, os custos da reforma do local e da implantação do museu estão sendo acertados entre a reitoria da USP e a Secretaria de Estado da Cultura.
"Sabemos que há um grande empenho do governo do Estado. É provavel que eles mesmos indiquem o arquiteto responsável pela reforma, mas creio que o [Oscar] Niemeyer será consultado."
Na visita, a diretora ficou surpresa com a vista panorâmica da cidade que se tem do último andar do edifício-sede. "Creio que se pode pensar em montar um bar, uma livraria ou mesmo um bom restaurante aqui", afirmou.
Atualmente, além da sede na USP, o MAC dispõe de uma parte do edifício da Bienal de São Paulo, que fica de frente para o local do novo museu, onde a instituição organiza exposições e tem parte de seu acervo. "Por enquanto, nosso foco é o novo prédio, não pretendemos desocupar nada, até mesmo para verificar a adequação das novas instalações. Esse é um debate futuro."
Com a nova sede, a diretora do MAC acredita que o museu entre em nova fase.
"É emocionante pensar o que se fez em 44 anos, em situações precárias e com a falta de identidade por não se ter uma sede com visibilidade. Agora, tudo isso vai mudar", diz Gonçalves.
abril 24, 2007
Reeleito, presidente da Bienal é investigado, por Mario Cesar Carvalho e Fabio Cypriano, Folha de São Paulo
Reeleito, presidente da Bienal é investigado
Matéria de Mario Cesar Carvalho e Fabio Cypriano, originalmente publicada na Folha de São Paulo no dia 21 de abril de 2007
Pires da Costa contratou revista da qual é dono para publicar textos da fundação; ele diz que preço é inferior aos de mercado
Ministério Público investiga caso; durante a eleição, escolhido disse que já usou dinheiro próprio para cobrir rombos da instituição
O empresário Manoel Pires da Costa foi reeleito anteontem presidente da Fundação Bienal pela terceira vez em uma situação inédita. Ele está sob investigação do Ministério Público pelo fato de a Bienal ter contratado uma empresa dele, o que levanta suspeitas de desvios, e o conselho de administração da instituição não chegou a um consenso para aprovar as contas do ano passado.
Como as contas haviam sido reprovadas pelo conselho fiscal, que analisa as finanças da fundação, decidiu-se que uma comissão de ex-presidentes da Bienal julgará a lisura dos gastos de 2006. Numa espécie de compensação simbólica pelas contas colocadas sob suspeição, o conselho de administração aprovou um voto de confiança no presidente.
A vitória folgada de Pires da Costa (39 votos a favor, 7 contra e uma abstenção) não traduz com precisão o clima tenso da reunião, que durou cinco horas e meia.
O presidente chegou a dizer que as restrições do conselho fiscal atingiam sua honra. Afirmou que jamais tirou proveito financeiro da Bienal. Em tom de desabafo, disse que já usou dinheiro próprio para cobrir rombos da Bienal. O balanço da fundação aponta um déficit de R$ 1,03 milhão no ano passado.
O presidente da Bienal ficou contrariado porque o conselho fiscal fez três tipos de crítica à sua gestão:
1. Considerou parte das práticas de governança da Bienal "inconveniente pelos padrões normalmente exigidos a pessoas jurídicas";
2. Apontou que Pires da Costa contratou uma empresa, a TPT Comunicações e Editora, da qual é dono, para editar a revista "Bien'art". A TPT recebe cerca de R$ 125 mil por mês da Bienal por textos sobre eventos ligados à fundação (cada página custa R$ 25 mil). A Bienal paga mais R$ 15 mil por mês à TPT por serviços de assessoria de imprensa;
3. Avaliou que a contratação da TPT fere o artigo 6º do estatuto da fundação, que proíbe presidentes ou diretores de fazerem negócios com empresas das quais são sócios.
Essas desobediências "por si só originam uma situação de impedimento de aprovação das contas e da conduta da diretoria executiva", diz o relatório do conselho fiscal, integrado pelo médico Sebastião de Almeida Prado Sampaio, o advogado Manoel Whitaker Salles, o promotor aposentado Carlos Francisco Bandeira Lins e o empresário Julio Landmann.
Whitaker Salles diz que não faz sentido a revista receber recursos da Bienal, sem aprovação do conselho, enquanto os catálogos da última exposição não foram publicados. Desde 1951, quando foi realizada a primeira mostra, é a primeira vez que a Bienal termina sem ter catálogos.
"Como o presidente da Bienal pode fazer um contrato consigo próprio?", disse ele antes da eleição.
O primeiro questionamento sobre a revista "Bien'art" foi feito em setembro pelo conselheiro e colecionador Adolfo Leirner. A ata registra o seguinte: "Sr. Pires da Costa informa que foi contratada uma empresa especializada através de uma concorrência (...). Informa que para maiores esclarecimentos sobre esse assunto marcará uma reunião para apresentar todos os detalhes de como funciona a revista "Bien'art"".
Em nenhum momento, o presidente da Bienal informou o mais importante, segundo o conselho fiscal: que ele era o dono da revista.
Há 20 dias, quando reconheceu que era o dono da revista, Pires da Costa recebeu a recomendação de um conselheiro, o advogado Arnoldo Wald Filho, de fazer uma autodenúncia junto ao Ministério Público.
Anteontem, na reunião que reelegeu o presidente, dois promotores da Curadoria de Fundações, órgão do Ministério Público que fiscaliza fundações, apresentaram a primeira auditoria feita na Bienal.
Segundo assessores de Pires da Costa, o promotor disse que, numa primeira análise, não encontrara provas de que a revista trazia prejuízos à fundação.
Procurado por dois dias seguidos pela Folha, o promotor Ayrton Grazzioli não foi encontrado para confirmar o teor da auditoria. Ainda de acordo com assessores de Pires da Costa, os promotores vão analisar agora se os preços pagos pela Bienal à revista seguem os padrões de mercado.
A investigação do Ministério Público corre sob sigilo por envolver as finanças de uma empresa privada.
