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maio 29, 2006
As bailarinas voltam para casa, de Angélica de Moraes
As bailarinas voltam para casa
ANGÉLICA DE MORAES
Textos originais da matéria publicada na revista Bravo de maio de 2006
Masp realiza grande mostra de Edgar Degas para recuperar o prestígio do museu em grave crise institucional e financeira e pavimentar (re)eleições na instituição. As principais atrações são as esculturas do acervo, paradoxalmente pouco exibidas no país.
O Museu de Arte de São Paulo (Masp) é um dos quatro no mundo inteiro que possui a série completa de esculturas de bronze do francês Edgar Degas (1834 -1917), um dos mestres do impressionismo. São 73 peças, conjunto que só existe igual no Museu D'Orsay (Paris); no Metropolitan Museum (Nova York) e na Carlberg Gliptotek (Copenhague, Dinamarca). Ao contrário deles, no entanto, o Masp raramente exibe esses tesouros ao seu público. Motivo: costumam estar viajando, emprestados por bom dinheiro, para exposições no exterior. Vivem rodopiando mundo afora por causa das graves dificuldades financeiras da instituição. Agora, voltaram para casa. É a exposição Degas: O Universo de um Artista, que será inaugurada este mês e fica em cartaz até agosto. A turnê, porém, é por pouco tempo. É bom aproveitar, porque o magnífico elenco logo vai bater asas.
A dolorosa precariedade administrativa do Masp se reflete na programação e, por conseqüência, na visitação. Desde a grande mostra de pinturas do francês Claude Monet (1840-1926), em 1997, comemorativa do cinqüentenário do museu, o belo prédio suspenso por vigas vermelhas na avenida Paulista não consegue atrair visitação expressiva. Com enormes oscilações de qualidade na agenda, recebe média anual de 180 mil visitantes. Na exposição Monet, o público foi de 700 mil pessoas, recorde nunca mais alcançado.
Assim, mesmo com alguns acréscimos pontuais vindos principalmente de museus franceses de grande relevância, como o D'Orsay e o Picasso, as maiores atrações da exposição Degas são exatamente aquelas que deveriam ser as mais corriqueiras: as esculturas do artista pertencentes ao acervo da instituição, além de uma tela a óleo (Quatro Bailarinas em Cena) e duas obras sobre papel (pastel e carvão) estas sim bem conhecidas de quem freqüenta a coleção, no segundo andar do prédio. A jóia excepcional é a escultura Pequena Bailarina de 14 anos, também do acervo do Masp, que o artista realizou em 1880 em cera policromada e posteriormente foi fundida em bronze. A mimosa escultura é disputadíssima. Seu carnê de baile anda sempre cheio de pretendentes estrangeiros.
Há pouco tempo aconteceu uma grande exposição de Degas no Masp: Degas em Movimento, realizada em 1998 pelo historiador Luiz Marques. Naquela ocasião, como nos eventos do cinqüentenário e agora, a fórmula para organizá-la é a mesma: na falta de orçamento folgado para trazer muitos e bons trabalhos do exterior (que custam fortunas em transporte e seguro), completa-se o espetáculo com obras do museu. É recurso inteligente, que destaca a chamada prata (no caso, ouro maciço) da casa.
Para Degas, a fórmula é especialmente certeira, embora soe postiço acrescentar ao conjunto da mostra um retrato feito por Picasso e outro por Cézanne e, até, o brasileiríssimo acadêmico Rodolfo Amoedo (1857-1941), pertencente ao Museu Nacional de Belas Artes (RJ). Cézanne foi contemporâneo de Degas e, assim como este e Picasso (que apareceu depois na história), gostava de pintar retratos. Raciocínio meio tortuoso mas, enfim, sempre é bom ver Picasso e Cézanne, sob qualquer pretexto. E Amoedo? Bom, ele comparece com um dos temas prediletos de Degas: a observação de cenas urbanas, no caso, personagens em um café.
Outras atrações de peso, embora habituais no acervo -- como Ingres, Mantegna e Ticiano -- têm justificativa mais direta: foram autores que Degas, aprendiz de pintura, copiava no museu do Louvre. Claro que não exatamente essas obras. Então está combinado: é o máximo que o Masp pode fazer no momento, em esforço extremo para tentar recuperar público. Pode não ser a melhor das mostras do mestre impressionista, mas funciona para quem nunca viu nada dele ao vivo nem teve condições de viajar a Paris para emocionar-se com a maior coleção do gênero, no D'Orsay. Afinal, como o Masp, a maioria dos brasileiros não pode se dar certos luxos.
Eugênia Esmeraldo e Romaric Bruel são os curadores da mostra. Eugênia é um dos esteios remanescentes da antiga e competente equipe técnica do museu. Foi assistente direta por mais de uma década de Pietro Maria Bardi (1900 -1999), fundador e mais prestigiado diretor do museu. Romaric Bruel, ex-adido cultural do consulado da França no Rio de Janeiro, surgiu bem mais tarde na vida da instituição: quando o atual diretor, o empresário do ramo imobiliário e arquiteto Julio Neves, quis atrair multidões. (veja box anexo).
Autor de uma das obras fundadoras da modernidade, Edgar Degas é sempre garantia de visitação prazerosa aos olhos e ao coração. Mas é bom avisar que o tema das bailarinas, que o senso comum entende indissociável do artista, não foi bem assim. Na realidade, Degas não era um apaixonado pelas bailarinas mas pelo movimento, fosse o observado em espetáculo de balé, corrida de cavalos ou empregada doméstica passando roupas. O artista fazia até sutilíssimas anotações da mobilidade das expressões faciais, o que o tornou excelente retratista.
Se há hoje uma predominância de bailarinas em sua obra - e há -- isso se deve a fatores, digamos, práticos. Degas atendeu a uma demanda do mercado de arte, exatamente quando a fortuna da família (era filho de banqueiro) acabou. Não se imagine, porém, que houve concessões estéticas ditadas pela pressa do lucro. Degas era perfeccionista e, já então, artista consagrado e zeloso de sua reputação. Pintando ou modelando bailarinas, Degas era plenamente consciente de que impulsionava a arte de seu tempo e liderava um movimento.
Que razões, porém, fazem dessas graciosas personagens algo tão admirado? Uma delas é que há aí o resultado de um olhar moderno, descolado da tradição. Isso fica bem evidente em suas pinturas. Observe o enquadramento, o modo como a cena e os personagens ocupam os espaços da tela. Note que, assim como nas fotografias instantâneas, há figuras parcialmente capturadas no retângulo da imagem. O artista parece frisar que a realidade é muito maior, que não cabe inteira na representação possível dela. Observe os ângulos escolhidos para fixar esses instantes. Podem estar em plano aéreo, vendo a cena de cima para baixo, como a platéia dos camarotes de um teatro. Ou podem mergulhar no poço da orquestra para, de baixo para cima, focar o palco como detalhe e os músicos como assunto principal.
Esses enquadramentos não seriam possíveis se, na época em que foram realizados, a fotografia (inventada em 1839) já não estivesse estabelecendo um novo modo de comentar o mundo. Quanto ao fascínio pelo movimento (Degas foi contemporâneo de Étienne Maray , inventor da cronofotografia, precursora do cinema), cabe lembrar que o artista vivia em uma das maiores metrópoles de um mundo que, graças às máquinas da revolução industrial, ganhava um ritmo de vida acelerado. A velocidade passava a dominar a vida urbana e Degas foi dos primeiros a fazer dela um tema artístico.
De formação clássica, Degas iria adentrar o moderno. Ainda não louvava diretamente as máquinas como o faria, uma geração depois, o futurismo italiano. O pulso dos novos tempos foi sentido ainda na pele e nos músculos de seus modelos. Era a busca do equilíbrio e do ritmo que o fascinavam. Daí as aulas de balé e, na mesma medida, os cavalos de corrida. Um de seus seguidores diretos, o pintor Toulouse-Lautrec (presente na mostra com quatro obras, todas do acervo Masp) era um mulherengo. Degas era até algo misógino. Mas não lhe escapava a esfalfante rotina de adestramento a que eram submetidas as bailarinas, assim como os jóqueis e seus cavalos. Começava a emergir aí, nos estúdios sombrios e na poeira das pistas de corrida, um pouco do drama do indivíduo urbano confrontado com a dura rotina do cotidiano.
Uma obra emblemática desse viés é Absinto, tela do museu D'Orsay ausente da mostra mas na memória de milhões de aficcionados por artes visuais. Nela, o artista coloca uma mulher diante de um copo da bebida esverdeada, atrás de uma mesa de bar, olhar perdido e embaçado, profundamente desamparada, mesmo que ao lado de um homem tão alheado e introspectivo quanto ela. Alguém duvida que essa tela, de perspectiva oblíqua, está na origem e na formação de Edward Hopper (1882-1967), o pintor novaiorquino da solidão que brota dos bares, quintais e quartos suburbanos, também submetidos a luzes oblíquas?
Nessa linhagem, chegamos a outra genealogia: a da arte pop e da relação entre Degas e as esculturas do também novaiorquino George Segall (1924-2000), com donas de casa de rolinhos no cabelo e sacolas de supermercado. A cena, arrancada da realidade e imobilizada em gesso por Segal, como se fosse molde de modelo vivo, tem raízes na fundadora Bailarina de 14 Anos, do mestre impressionista francês. Como esclarece a historiadora e maior especialista em Degas no Brasil, Ana Magalhães, essa escultura foi modelada em cera e depois pintada (policromada) para simular cor da pele, recebeu uma peruca de fios de cabelo naturais, corpete de tecido, saia de tule e sapatilhas.
Degas assim agiu para ressaltar a verdade do personagem, que saltava da vida para a arte. Ao mesmo tempo, como bem observa Ana, "a escultura foi realizada em escala um terço menor do que o tamanho natural, para sublinhar que não é algo real mas algo que simula o real". Sutilezas modernas de Degas, que também foi precursor no uso de materiais perecíveis em suas esculturas, algo profundamente enraizado na arte contemporânea e no entendimento que o efêmero é condição natural desde que a primeira bomba atômica explodiu em Hiroshima.
Ainda conforme Ana Magalhães, o uso de materiais como estopa, pedaços de madeira e de cortiça, amalgamados com cera ou enrijecidos com gesso, eram corriqueiros na produção de Degas. Nesse aspecto, frisa a especialista, Degas foi mais moderno do que o colega de ofício e geração, Auguste Rodin (1840-1917), ainda apegado aos materiais tradicionais. Degas expunha suas esculturas em cera. As fundições em bronze foram quase todas realizadas após sua morte, pelos herdeiros preocupados em perenizar o legado.
Há muitas razões para nos demorarmos na contemplação dessas obras fascinantes.Várias delas são apontadas no catálogo organizado especialmente para a mostra por Ana Magalhães, com seis textos assinados por estudiosos de renome como o professor brasileiro Jorge Coli e o norte-americano Richard Kendall. Algo, afinal, que ficará disponível aos brasileiros quando o elenco de bailarinas retomar as intermináveis turnês pelo mundo, acossado por uma crise que não será jamais capaz de resolver. Sinal de uma orfandade que também é de todos nós, que amamos o Masp e nos preocupamos com seus desrumos.
De olho no calendário eleitoral
Mostra de Degas acontece em ano de eleição da diretoria presidida há mais de uma década por Julio Neves
Romaric Bruel é uma espécie de anabolizante do circuito museológico. Foi ele que trouxe para o Brasil um formato expositivo de farto sucesso de bilheteria. A chegada dessa fórmula aos museus nacionais ocorreu na individual que organizou, em 1995, com obras do escultor francês Auguste Rodin, para o Museu Nacional de Belas Artes do Rio (RJ) e Pinacoteca do Estado de São Paulo. "Já levei um total de 15 milhões de brasileiros a visitar museus", contabiliza o ex-diplomata francês, somando todas as mostras que fez desde então, um conjunto que inclui desde telas de Renoir e Monet até antigas chuteiras de Pelé.
Nos 38 dias que esteve em exibição na Pinacoteca, a mostra de Rodin gerou uma visitação de 150 mil pessoas. O suficiente para dar visibilidade incomum à instituição, fato que seu então diretor, Emanuel Araújo, soube agilmente capitalizar em patrocínios públicos e privados. Recursos que estão na origem de boa parte da confortável situação administrativa e financeira herdada e expandida pela atual direção.
Julio Neves, diretor do Masp, não teve igual performance, apesar de usar o mesmo anabolizante diversas vezes, em exposições até de nítido apelo popular, como Pelé: a arte do Rei, organizada em 2002 e que frustrou as expectativas: atraindo apenas 60 mil visitantes. A previsão era de 600 mil ingressos vendidos. Neves vai tentar novamente ganhar musculatura nas bilheterias do museu, desta vez com Degas.
Bilheterias, aliás, que agora são de aço escovado e migraram da discreta localização no interior do museu para atravancar com seu ar de shopping center um espaço que a autora do projeto arquitetônico do Masp, a mundialmente respeitada Lina Bo Bardi, planejou para ser um belo vão livre. Livre? Ainda tem balcão guarda-volumes, também em aço escovado, além de horrendos biombos de vidro emoldurados de preto.
Impossível conter o espanto: o prédio é tombado pelo patrimônio histórico nas três esferas da administração pública (município, estado e federação). O crédulo contribuinte imaginaria, só por causa disso, que atentados a essa arquitetura tão protegida legalmente fossem impossíveis de acontecer ou, pelo menos, uma vez acontecidas, de improvável permanência impune. Santa ingenuidade.
A exposição de Degas acontece, não por acaso, no mesmo ano em que a agenda do Masp prevê eleições da diretoria. Como nas eleições anteriores, há sempre uma mostra de envergadura, espécie de guarda-chuva artístico, usado para proteger de um escrutínio mais objetivo os critérios administrativos que estão na raiz da crise da instituição. Nas eleições passadas, em 2004, foi uma esdrúxula mostra denominada 100 Maravilhas: Impressionismo e Referências, salada de frutas em que o impressionismo entrava como a cereja no topo das fatias, para seduzir os incautos a engolir a gororoba visual. Não é o caso da atual mostra de Degas, em que os ingredientes foram reunidos com maior cuidado.
Julio Neves, aos 74 anos de idade e 12 anos na direção do museu, nunca precisou disputar votos com adversários. Desde que assumiu o cargo, inflou o conselho da instituição dos pouco mais de duas dezenas de integrantes vitalícios originais para os atuais 62. Mesmo assim, não se tem conhecimento de ninguém que queira disputar tão espinhoso fardo nem esteja disposto a contribuir efetivamente para botar no azul as finanças da instituição.
Sabe-se que o museu está afundado em dívidas trabalhistas (INSS, FGTS) e que vem atrasando sistematicamente o pagamento dos salários de seus poucos e abnegados funcionários. Em 2004, essa dívida chegou a atingir R$ 3,3 milhões, o que significava metade dos gastos totais da instituição.
A dupla de curadores da mostra Degas: o Universo de um Artista foi reforçada, a convite de Eugênia Esmeraldo, pela historiadora Ana Magalhães, especialista no artista francês, com tese de doutorado - sob orientação do historiador Walter Zanini, na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) -- focada no conjunto de esculturas de bronze. O trio curatorial, apoiado na genialidade de Degas, poderá atrair grande visitação ao Masp. Em total sintonia com a história e o perfil de acervo da instituição. Não é pouca coisa. Uma lástima que tanto esforço e talento possa ser apropriado para outros fins. Situação esquizofrênica que está longe de uma solução.
FIM
Histórico do Masp no Como atiçar a brasa
Histórico do Masp no Como atiçar a brasa
A "corda bamba" mencionada no texto de Cristina Freire, publicado na Folha em 30 de janeiro de 2005, parece prestes a romper... E a denúncia feita por Mario Cesar Carvalho, também na Folha, em 13 de junho de 2005, de que o Masp não havia recebido qualquer doação da iniciativa privada no ano passado, enquanto seu diretor reeleito, o arquiteto Júlio Neves, inaugurava o seu projeto para a nova loja Daslu, apontam para as relações confusas e perigosas em que vivem os museus brasileiros.
Masp pede socorro!
Ato protesto e carta denúncia publicados em 28 de outubro de 2004
Júlio Neves é reeleito por unanimidade no Masp
Matéria publicada originalmente na Folha de São Paulo do dia 30 de outubro de 2004
O museu público na corda bamba por Cristina Freire
Matéria publicada originalmente no Mais, Folha de S. Paulo, em 30 de janeiro de 2005.
A morte do Masp por Mario Cesar Carvalho e cartas dos leitores
Matéria originalmente publicada na Folha S. Paulo, Opinião, em 13 de junho de 2005, e as cartas no Painel do leitor em 14 de junho de 2005
Anos 50 produziram um "Machado coletivo" nas artes
Entrevista de Paulo Sergio Duarte a Marcos Augusto Gonçalves, Editor da Ilustrada, originalmente publicada na Folha de S. Paulo, Ilustrada, São Paulo, quarta-feira, 12 de abril de 2006
Masp na Folha de S. Paulo
Masp na Folha de S. Paulo
O novo sintoma da crônica enfermidade do Masp invade o jornal Folha de S. Paulo com matérias em diversas seções deste jornal, no Editorial, Dinheiro, Ilustrada, Mais. Vamos atiçar esta brasa: escreva para o "Painel do Leitor" da Folha de S. Paulo* e envie cópia para o Canal Contemporâneo, ou publique-a como comentário no blog "Como atiçar a brasa", junto ao post da matéria comentada.
* O "Painel do Leitor" recebe colaborações por e-mail (leitor@uol.com.br), fax (0/xx/11/3223-1644) e correio (al.Barão de Limeira, 425, 4º andar, São Paulo-SP, CEP 01202-900). As mensagens devem ser concisas e conter nome completo, endereço e telefone. A Folha se reserva o direito de publicar trechos.
Corte de luz do Masp leva promotoria a abrir investigação
Texto originalmente publicado no Editorial da Folha de S. Paulo em 25 de maio de 2006
O MASP reúne a principal coleção de arte moderna da América Latina. As 7.517 obras do acervo, entre as quais telas de Van Gogh, Picasso e Monet, são avaliadas em cerca de US$ 1,2 bilhão. Mas falta dinheiro para pagar a conta de luz.
Em razão de uma dívida de R$ 3,47 milhões com a Eletropaulo, o museu teve o fornecimento de energia elétrica cortado na terça-feira. Acumulada num período de sete anos de inadimplência, a dívida soma-se a um desfalque de R$ 414 mil referente à época em que o Masp recorreu a um procedimento inventivo: um "gato" para obter eletricidade.
É preciso que a direção do museu faça jus à subvenção que recebe da prefeitura e à importância do espaço para a cidade. Além de normalizar o atendimento ao público -até o momento, a energia tem sido fornecida por meio de geradores- é preciso garantir a preservação do acervo. Em muitos casos, uma ligeira alteração na refrigeração basta para danificar a obra.
Em que pese o histórico de dívidas acumulado pela atual gestão, é preciso lembrar que o museu galvaniza um conjunto de rivalidades no meio artístico que em nada contribui para melhorar o cenário. Ainda mais grave, a estagnação do Masp esbarra na rarefação da cultura de apoio às artes no Brasil. Forjado em moldes europeus, o museu ainda não encontrou no país um modelo de sustentação à altura de suas pretensões.
Recentemente, foi vetada a iniciativa do presidente do Masp de construir uma torre no prédio ao lado para garantir a captação de fundos. Diante da negativa, a direção do museu e os grupos que lhe fazem oposição deveriam ter envidado esforços para lançar um modelo alternativo e viável de financiamento. O Masp não pode fenecer em plena avenida Paulista, circundado de riqueza por todos os lados.
Corte de luz do Masp leva promotoria a abrir investigação
Matéria de Fabio Cypriano, originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo, Ilustrada, em 26 de maio de 2006
O Ministério Público abriu inquérito anteontem para investigar se o acervo do Museu de Arte de São Paulo, o Masp, corre risco de dano e segurança, porque a instituição está funcionando à base de geradores, por conta do corte de energia realizado pela Eletropaulo na última terça. O inquérito começou a ser cumprido ontem.
"Por causa das matérias de jornal que li ontem (anteontem), entre elas a da Folha, decidi instaurar inquérito para verificar se a coleção do Masp corre perigo, afinal trata-se de um patrimônio histórico e o acervo é tombado", afirmou o promotor de Justiça do Meio Ambiente, Luis Roberto Proença. Entre as áreas de responsabilidade da Promotoria do Meio Ambiente estão o patrimônio artístico e o cultural.
Proença afirma que sua "primeira preocupação é verificar se os geradores que estão sendo utilizados funcionam a contento, mantendo não só os equipamentos de climatização mas também os de segurança". Para tanto, o promotor já solicitou ao IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) que faça uma análise das condições dos geradores em uso pelo museu.
O promotor também expediu cartas pedindo dados a respeito do corte de energia à Eletropaulo e ao Masp. "Quero compreender a motivação do corte, mas não vou entrar na questão financeira nem avaliar a gestão do museu", disse Proença, que deu prazo de dez dias para obter as respostas.
Provável acordo
Na manhã de hoje, segundo a Eletropaulo, haverá uma reunião entre o comando da empresa e o presidente do Masp, Julio Neves. A Folha apurou que provavelmente haverá um acordo entre as duas partes, para que o fornecimento de energia seja retomado.
Julio Neves, que até ontem evitava atender a imprensa, marcou uma entrevista coletiva para às 11h30 de hoje -sua assessoria dissera que ele só se pronunciaria quando o caso estivesse solucionado.
A energia elétrica foi cortada às 7h da última terça devido à falta de pagamento de uma dívida de R$ 3,47 milhões, acumulada pelo museu nos últimos sete anos. Naquele dia, Neves reuniu-se com a diretoria da Eletropaulo, mas, segundo a concessionária, não apresentou uma proposta viável. Dois acordos já haviam sido rompidos pelo Masp, um em 2000 e outro em 2004, que previa 35 parcelas de R$ 21 mil, das quais só a primeira foi paga.
O Masp reconheceu as dívidas e disse que havia proposto pagá-las com "créditos tributários de terceiros". Segundo a Eletropaulo, a proposta não tem consistência jurídica.
Artigo de Luís Nassif, originalmente publicado no jornal Folha de S. Paulo, em 28 de maio de 2006
Algum tempo atrás, o sonho de status de dez em dez milionários brasileiros era ser do Conselho do MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York. Pouquíssimos conseguiram, pois necessitavam casar bom gosto, discrição, padrinhos influentes e... recursos financeiros. A contrapartida para ser aceito em tão prestigiosa instituição era a de contribuir para sua manutenção.
O Masp (Museu de Arte de São Paulo) é um dos melhores museus do mundo. Foi um ato benigno de megalomania do jornalista Assis Chateaubriand. Do Brasil, o acervo incorporou Anita Malfatti, Volpi, Lívio Abramo, Portinari, Flávio de Carvalho, Almeida Júnior entre muitos outros. Da França, importou Monet, Delacroix, Matisse, Toulouse-Lautrec, Marc Chagall, o basco Picasso, esculturas de Rodin. Da Itália, adquiriu Modigliani, Boticelli, Tiziano. Tem Rembrandt, Rubens, Bosch.
Durante algum tempo, o Masp serviu de álibi para as façanhas de Edemar Cid Ferreira, o banqueiro-mecenas responsável por um dos maiores rombos da história do sistema financeiro brasileiro. Mas foi um acidente de percurso. A diretoria do Masp é uma constelação de nomes tradicionais, uma elite discreta e de bom gosto.
O presidente é o arquiteto Júlio Neves, o "rei" da Faria Lima, um dos mais prestigiados e bem-sucedidos da praça. O vice é Plínio Salles Souto, o último dos gentil-homens e que, nos anos 50, estimulado por Assis Chateaubriand, contribuiu com um quadro relevante para o acervo do museu, se não me engano um Rembrandt.
O secretário-geral é João da Cruz Vicente de Azevedo, dono de um acervo portentoso, que inclui obras de Benedito Calixto. O tesoureiro é Luiz de Camargo Aranha Neto, sócio de uma das mais prestigiadas bancas de advocacia da praça. Entre os diretores, tem dona Beatriz Pimenta Camargo, que também é do "board" do MoMA. O sogro de sua filha é Aloisio Rebello de Araújo, dono da CBPO. E tem Manuel Francisco Pires da Costa, homem de finanças muito bem-sucedido e um bom intérprete de sambas-canções.
O Conselho Deliberativo é outra constelação onde brilham cirurgiões consagrados, como Adib Jatene e José Aristodemo Pinotti, publicitários de sucesso, como Alex Periscinotto e Nizan Guanaes, a condessa Graziella Leonetti, filha do conde Luiz Eduardo Matarazzo, o único do clã que manteve uma sólida fortuna imobiliária. Tem Pedro Franco Piva, da Klabin, o advogado Paulo José da Costa Júnior, o rico criador de gado Jovelino Mineiro, o banqueiro Antonio Beltrán Martinez.
Pois é essa casa, que honra tanto os seus membros, conselheiros e diretores, que orgulha São Paulo, que teve sua energia elétrica cortada por conta de um débito de R$ 3 milhões, muito para os mortais comuns, pouco para esse ilustre colegiado de ricos e notáveis.
Que tal começar a importar os aspectos mais sadios e meritórios da sociedade americana e de Wall Street, e os ilustres diretores e conselheiros começarem a correr o pires? Será uma maneira de demonstrar ao Brasil que os ricos de São Paulo vão muito além do provincianismo deslumbrado de uma Daslu.
Entrevista de Claude Mollard a Marcos Strecker e Mario Gioia, originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo, Mais, em 28 de maio de 2006
O francês Claude Mollard, fundador do Centro Cultural Georges Pompidou, diz que é uma "vergonha" a situação que vive o museu paulista
Para o francês Claude Mollard, fundador de um dos principais museus de arte contemporânea do mundo, o fechamento do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na última terça-feira, por falta de eletricidade foi "um escândalo" e "um absurdo".
Economista, sociólogo e especialista em gestão cultural, um dos criadores e ex-secretário-geral do Centro Cultural Georges Pompidou, o famoso Beaubourg, em Paris, Mollard foi, a partir de 1981, assessor do ministro da Cultura francês Jack Lang, que inaugurou uma nova política para os museus e as artes plásticas no país.
Criou e geriu várias instituições de artes na França, tendo presidido o Centro Nacional da Fotografia, entre outros. Veio ao Brasil para ministrar um curso sobre história da arte no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro.
Ele também é co-autor do lançamento "Frans Krajcberg -La Traversée du Feu" (Frans Krajcberg -A Travessia do Fogo, Isthme Éditions), a primeira biografia do artista plástico polonês naturalizado brasileiro. Mollard falou à Folha por telefone, do Rio.
FOLHA - O sr. acompanhou o incidente envolvendo o Masp? Já viu um museu dessa importância ficar fechado por falta de pagamento da conta de luz?
CLAUDE MOLLARD - É um absurdo. Nunca tinha ouvido falar de algo assim. Nem estou acreditando. Ou o museu está sem recursos porque o poder público não os está repassando ou cuidou mal do dinheiro. Ou a companhia de eletricidade é muito má. Dirijo um museu em Montparnasse. Certa vez, a prefeitura deixou de nos repassar dinheiro e a companhia telefônica cortou nossas linhas. Não éramos responsáveis, ligamos para a companhia e religaram no dia seguinte. É delicado, não vou abordar a questão política, dos responsáveis, mas observo o resultado. Não é normal. É um escândalo, uma vergonha.
FOLHA - Como o sr. avalia a manutenção dos museus no Brasil? Como é essa percepção no exterior? MOLLARD - A impressão que temos é a de que o Brasil não se interessa muito pelos seus museus. Há alguns anos, fui ao Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, no Rio, e estava chovendo. Havia um problema no prédio e caía água sobre uma múmia egípcia. Também há o episódio do incêndio que ocorreu no Museu de Arte Moderna, no Rio [em julho de 1978, quando cerca de 90% do acervo foi destruído]. Se isso continuar, não haverá mais museus no Brasil. Há a tentativa aqui de criar um museu dedicado às obras do escultor Frans Krajcberg, mas não há dinheiro. Os museus são essenciais para a educação, para os estudantes, para a história etc. Isso não quer dizer que não haja várias iniciativas importantes aqui. [O problema no Masp] não é bom para a imagem do Brasil. Acho que está claro que não é feito o suficiente. Parece que aqui há mais interesse pela música e pela dança. A arte brasileira é uma prioridade, é uma pena que o Masp esteja sem luz.
FOLHA - O que o sr. acha das formas de financiamento dos museus, da relação entre financiamento público e privado? O que o sr. achou da recente iniciativa de construir uma unidade do Guggenheim no Rio? MOLLARD - O problema do financiamento privado é que em um dia funciona, no outro não. Acho que seria bom se houvesse um novo museu de arte moderna no Rio. Mas sempre há o problema de dinheiro. É uma questão de prioridade.
Museus são importantes, falam da nação, das raízes. É necessário também que sejam feitas grandes exposições, que sejam financiadas. Quando fui assistente de Lang, transformamos a arte em prioridade. Gosto muito do Brasil, das artes brasileiras. Espero que volte a luz por aqui. "Fiat lux".
Texto de Teixeira Coelho, originalmente publicado no jornal Folha de S. Paulo, Mais, em 28 de maio de 2006
Nenhuma questão de cultura é apenas um caso singular, nenhuma questão de cultura se resolve apenas num formato estrutural. Caso e forma geral se combinam para gerar efeitos. Portanto, as saídas para uma questão cultural serão buscadas na convergência dos dois planos.
A questão Masp -hoje constrangedora para o museu mas também para toda a política cultural pública ao redor- inclui um caso singular a chamar a atenção geral: a ausência de um projeto curatorial de prazo pelo menos médio, distinto da simples inércia rotineira, tocado por um curador estável e que arme o diálogo do museu com sua coleção e com a arte da cidade e do mundo. Um projeto curatorial dá ao museu uma linha cultural que lhe desenha uma trajetória econômica.
Economia e idéia cultural andam juntas, mas é a idéia cultural que determina, não a economia, e é o projeto curatorial que aponta os rumos, não o inverso. Um museu se faz com uma idéia curatorial e se desfaz sem ela. Esse é um aspecto singular desse caso. O resto são detalhes, de discussão interna do museu ou não, mesmo porque, no resto, o Masp é largamente viável, se quiser.
Seria, porém, um erro cômodo supor que a questão Masp se resume a um aspecto e a alguns nomes ou incidentes. A forma geral do problema é sua dimensão sistêmica, determinante num país fragilizado como este. Por sua condição simbólica, o que ocorre no Masp é mais que a ponta do iceberg. Nem por isso constitui um caso isolado, contendo em si toda a origem de seu problema.
Na perspectiva do sistema da arte, a chamada crise do Masp, que não é só dele, remete, antes de nada, à rediscussão de um contrato social para os museus.
Admiti-lo significa aceitar que, no sistema da arte do qual os museus são cabeças-de-ponte (sobretudo fora daqui, porém aqui também), quase nada mais, em país fragilizado, pode ser feito por um único ator social. O Masp é privado, mas o privado, aqui, não dá conta.
O poder público, sozinho, sozinho -e fará melhor se entender que seu papel é adotar uma política cultural de cooperação com a sociedade civil para que ela alcance seus objetivos, como seu parceiro, e não seu concorrente.
À iniciativa privada, como ao terceiro setor, cabe entender que deve responder pelo que faz ("accountability") não só em termos de manejo do eventual dinheiro público usado como de projeto. E entender, de vez, que responsabilidade social pela cultura não significa só patrocinar exposições mas comparecer o tempo todo, mesmo quando o assunto não tem glamour (pagar conta de luz). E ao terceiro setor cabe arregaçar muito mais suas mangas culturais.
Carros e cultura
Nessa rediscussão do contrato social para os museus, o poder público poderia esclarecer, por exemplo, pois também ele deve prestar contas, por que a indústria automobilística (que pode se deslocar para a China a qualquer momento) recebe tantos poderosos incentivos (ganha o terreno, não paga impostos durante anos, tem financiamento público a juros amigos) enquanto o setor cultural, em que, no entanto, trabalham muito mais pessoas, fica apenas com os clássicos, limitados e criticados incentivos fiscais (e, no entanto, um museu nunca iria se deslocar para a China, nunca os recursos nele investidos se esfumariam da noite para o dia).
E caberia perguntar, a todos, por que este país, que tem no Sesc um modelo de política cultural bem-sucedida, coisa de Primeiro Mundo, não gera solução análoga para os museus -quer dizer, amparo público, gestão privada e significação social.
Há, claro, outros tópicos de caso a enfrentar: por que em Buenos Aires uma coleção ótima, embora reduzida (comparada ao que há aqui), consegue construir para si um museu novo, de primeira linha -o Malba- e aqui o Masp não consegue pagar a conta da luz? Por que Porto Alegre constrói um museu novo para Iberê Camargo (1914-94) e aqui o Masp não consegue pagar a conta de luz? O exemplo de Ciccillo Matarazzo [criador do Museu de Arte Moderna de São Paulo] está morto e esquecido? Por quê?
Vão livre
Esses dois casos estão, por certo, imersos em duas outras formas gerais. Nenhum configura uma pergunta que caiba só ao Masp responder.
No vão livre do Masp, que não pode ser só uma boa metáfora, há espaço para uma grande mesa redonda e três cadeiras para três personagens: poder público, iniciativa privada e sociedade civil. Uma quarta se reservaria a um convidado que não precisa ser apenas observador: o sistema S (Sesc, Sesi).
Na pauta, o novo contrato social dos museus: administração (mandatos de diretoria de museus públicos, participação do setor privado no museu público e vice-versa), finanças (incentivos, aportes diretos do setor público e do privado) e projeto curatorial (desenvolvimento da coleção, papel cultural, competências).
Sem um novo contrato -para todos os museus, públicos e privados-, nem museus hoje sem crise aparente (mas ela está ativa no coração do sistema) se verão livres de virar icebergs a derreter -não sem antes afundar mais uma ou outra idéia de cultura.
Carta Aberta Museu de Arte da Pampulha
Carta Aberta Museu de Arte da Pampulha
No dia 25 de maio de 2006, representantes da classe artística de Belo Horizonte reuniram-se no auditório do Museu de Arte da Pampulha, a fim de tomar conhecimento das razões que causaram o fechamento temporário desta Instituição.
Cerca de 200 pessoas - artistas, críticos de arte, professores e produtores - compuseram a assembléia, dispostos a estabelecer um diálogo franco e transparente com a diretora do MAP, Priscila Freire, e com Antonieta Cunha, presidente da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, procurando objetivar uma posição face à situação de crise que impede o pleno funcionamento do Museu.
A partir das colocações das duas dirigentes, ficou claro que essa crise tem sua raiz em uma antiga falha de entendimento do fato cultural, que atinge não somente o MAP, como a maioria das instituições voltadas para a produção e difusão artística no país. Gerada pela dificuldade de compreensão por parte da maioria dos governantes, esta falha evidencia a necessidade de se tratar as instituições artísticas, considerando suas especificidades e o fato de que a arte e a cultura (em todas as suas formas de manifestação e expressão) constituem referência vital para a "saúde" e o equilíbrio da sociedade.
Esta situação de fluxos e refluxos, que estabelece uma crise permanente no MAP, tem sido responsável pela desaceleração de sua atuação como propulsor e propagador de idéias transformadoras, neutralizando a vocação esteticamente revolucionária do conjunto da Pampulha sob cujo emblema nasceu, há cinqüenta anos, o próprio Museu de Arte.
O caráter experimental que o Museu vem imprimindo às suas atividades - e o tem feito em diversos momentos de sua história - foi acentuado nestes últimos quatro anos, com a lúcida e corajosa atuação de sua direção. Isto se reflete na história da arte brasileira contemporânea, o que projeta o MAP, de maneira inequívoca e fartamente comprovável, no panorama artístico internacional. Essa atuação traz, em seu bojo, prestígio não apenas para o Museu, como instituição, mas para o governo que o abriga como um de seus mais significativos equipamentos de atuação cultural, contribuindo para fixar Belo Horizonte como um dos pólos da atividade artística contemporânea.
A partir das explanações da presidente da Fundação Municipal de Cultura - instância mais alta da gestão da cultura do governo Fernando Pimentel - ficou claro que a crise do Museu se deve às dificuldades administrativas que a Fundação tem hoje em repassar, em tempo hábil, os recursos próprios, legalmente destinados ao MAP, os quais lhe garantiriam - mesmo que de maneira modesta - desenvolvimento de seu programa e projetos relevantes, como as exposições de arte contemporânea, a Bolsa Pampulha, a Ação Educativa e outros programas de extensão.
Embora não tenha sido bem esclarecido em quais instâncias administrativas esses repasses de recursos têm perdido a sua fluência, a presidente da Fundação garantiu que, em princípio, existe a vontade política da Prefeitura de manter recursos para a continuidade da agenda de atividades do Museu.
Em face desses esclarecimentos, a classe artística manifestou irrestrito apoio à direção do MAP, reivindicando a não interrupção do programa de exposições implementado a partir de 2002, assim como do Programa Bolsa Pampulha e demais projetos. Na mesma assembléia foi questionada a não aprovação de recursos pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura para o ano de 2006 para o Museu de Arte da Pampulha, recursos estes que vinham sendo destinados em anos anteriores e são de extrema importância para a manutenção dos programas do Museu.
Ao final da reunião - que teve uma ampla pauta de discussões - resolveu-se formar um grupo de artistas encarregados de elaborar um plano de reivindicações e sugestões a serem encaminhados à Presidente da Fundação Municipal de Cultura, Antonieta Cunha, e ao Prefeito Fernando Pimentel. Tal documento será entregue à direção do MAP, acompanhado das cartas de apoio e matérias veiculadas pela imprensa, comprovando a relevância local, nacional e internacional das atuais ações deste Museu.
A classe artística de Belo Horizonte agradece a todos o apoio a essa mobilização, gerada pelos artistas, comprovando que existe um desejo comum de continuidade das ações do MAP, vigentes desde 2002.
BELO HORIZONTE | 26 de maio | 2006
ADESÃO SOLIDÁRIA AO MOVIMENTO DE APOIO AO MAP:
PARA ADERIR: Envie os seus dados ao contato do Canal Contemporâneo- http://www.canalcontemporaneo.art.br/_v3/site/contato.php?idioma=br.
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* os dados marcados com asterisco serão apenas usados em documentos oficiais impressos, não sendo jamais publicados on-line.
LISTA DE PRESENÇA [25 de maio de 2006]:
Abraão Salatiel, Técnico Montagem | Adel Souki, Artista Plástica | Adriana Gontijo, Cenógrafa | Adriana Leão, Artista Plástica | Ana Amélia, Artista Plástica | Andréa Lanna, Artista Plástica | Andreline Sampaio, Advogada | Ariel Ferreira, Artista | Bernardo Souza, Antropólogo | Brígida Campbel, Artista | Carlos Normando, Arte Educador | Carolina Cabral, Arte Educadora | Carolina Cordeiro, Artista | Catina Garbis, Arte Educadora/MA | Cecília Adão, Estudante | Celeste Fontana, Bibliotecária | Cinthia Marcelle, Artista Plástica | Claudia Dodd, Artista | Cristiano Bickel, Artista Plástico | Cristina Quady, Artista Plástica | Daniel Cassin, Professor/ Artista Danielle de Paula, Estudante | Dário de Moura, Consultor Informática | Denise Lemos, Funcionária MAP | Domingos Sávio, Artista Plástico | Douglas Damas, Arte Educador | Eduardo Eckenfels, Fotógrafo | Elisa Campos, Artista Plástica | Elizabete Martins, Jornalista | Emmanuela Tolentino, Arte Educadora | Emmanuelle Grossi, Arquiteta | Fabiola Moulin, Artista Plástica | Flávia Albuquerque, Celma Albuquerque Galeria de Arte | Fernando Modesto, Estudante | Gabriela Guerra, Artista | Gavone Souza, Secretária MAP | Grazielle, Jornalista | Hélio Nunes, Artista | Izabela Gondim, Advogada | João Castilho, Fotógrafo | João Navarro, Artista Plástico | Junia May, Artista Plástica | Junia Penna, Artista Plástica | Lais Myrrha, Artista Plástica | Laura Belém, Artista Plástica | Letícia Grandinetti, Artista Plástica | Lucia Neves, arquiteta | Luiz Fernando Ferreira, Arquiteto | Luiz Flávio, Artista Plástico | Mabe Bethônico, Artista Plástica/ Professora | Manuel Carvalho, Artista | Marcel Diogo, Estudante | Marcelo Drummond, Professor | Márcio Sampaio, Artista Plástico | Marcone Moreira, Artista Plástico | Marcos Hill, Historiador/ Professor | Maria do Carmo Freitas, Professora | Maria Luisa Leal, Jornalista | Maria Angélica Melendi, Professora | Mariana Nagem, Estudante | Mariana Paz, Artista Plástica | Marília Andrés, Historiadora | Marina Melo, Estudante | Máximo Soalheiro, Artista Plástico | Messias Mendes, Estudante | Milene Chalfum, Artista Plástica/Professora | Nathália Vieira Serrano, Estudante | Nydia Negromonte, Artista Plástica | Patrícia Franca, Artista Plástica | Patrícia Leite, Artista Plástica | Paulo Bascala, Chefe Gabinete Arnaldo Godoy | Paulo Nazareth, Artista Plástico | Rafael Perpetuo, Artista | Renato Madureira, Artista Plástico | Ricardo Homen, Artista Plástico | Rivane Neuenschwander, Artista Plástica | Roberto Bethônico, Artista Plástico/Professor | Roberto Vieira, Artista Plástico | Ronaldo Braz, Agente Administrativo | Rosa Maria Ribeiro, Técnica Cultural | Sara Ramo, Artista Plástica | Simone Rosa, Produtora Cultural | Stephane Huchet, Professor | Talles Bodeschi, Artista | Tereza Daré, Estudante | Vera Pinheiro, Professora | Vicente Costa, Fotógrafo | Wagner Rossi, Artista Plástico | William Quintal, Arte Educador | YacyAra Franer, Professora.
O Corpo da Arte - É o seu silêncio que permite que tudo isso aconteça, por Bia Medeiros e Daniela Bezerra
O Corpo da Arte
É o seu silêncio que permite que tudo isso aconteça.
BIA MEDEIROS E DANIELA BEZERRA
19:30. 26 de maio de 2006. Brasília.
_ Alô!
_ Seguinte, nossa concentração em frente ao Clube de Golfe não vai ser possível. O local está cercado. São cinco carros da ROTAN. E tem montes de policiais armados. Já sei este é o nosso dia de ser PCC. Talvez a única glória, neste país.
_ Caramba! Onde vocês estão?
_ Estamos no estacionamento no CCBB. Está tudo cercado, mas eles não estão controlando os convites da entrada. Dá para entrar todo mundo. (Os convites para a entrada em vernissages de exposições no CCBB-Brasília são sempre muito controlados e a estratégia 2 era fazer deste controle um engarrafamento.) Avisa todo mundo que dá para entrar.
Muito tarde, muitos haviam desistido de participar por nunca receber os convites do CCBB, restritos às "autoridades" e à elite branca..
_ Esperamos vocês no estacionamento. Vem rápido, estamos cercados.
Mensagens de celular para todo mundo.
Fomos, entramos, éramos 15. Nós-cidadãos acima de tudo. Pagador de impostos, juros, multas e é claro correntistas de banco. Armados sim! De poesia, de arte, de vida e de amor àquilo que a cada dia escorre pelos dedos nos valores de mercado. Liberdade. De ser, de pensar, fazer a simples expressão. Existir sendo artista da vida. Ter um corpo e possuir outras fronteiras que afirmem não começo e término em minha pele. A sagrada ignorância estava e cercava todo o lugar.
É de sentar e chorar. Pura verdade: cinco carros, muita arma e muitas motos de polícia contra artistas protestando contra uma infeliz censura, que se revela cotidiana neste país cristão intimidado e covarde. Substituíram a exposição "Erótica" da qual constavam trabalhos de artistas brasileiros e outros, por uma outra de um artista estrangeiro "Picasso. Paixão e erotismo". Erotismo estrangeiro pode. Criticar a igreja e sua incansável e verdadeira pedofilia, não.
Impedir um artista de mostrar o seu trabalho, formular questões, propor pensamentos outros é destruir o seu trabalho ou torna-lo eterno para sempre.
Tínhamos 30 batas de padre na mala do carro. Aqueles que não tinham camisetas estampadas com as imagens do "Desenhando com terços" da Márcia X, as vestiram. Juntaram-se a nós mais uns 15 artistas e Lilith (Cyntia Carla). Caminhamos para a entrada da exposição: televisão, jornais, entrevistas. Aos poucos fomos pintando terços nas costas das batas de "padres". Diversos presentes se vestiram com as batas restantes. Entrevistas e mais entrevistas: pululavam repórteres e os policias armados olhando de longe. Formamos um grande círculo no centro do qual foram dispostas baguetes e pãezinhos formando dois grandes pênis. "Ave Mariíiiïiïiia", foi entoado repetidamente sem sair destas palavras, pois ninguém conhecia o resto da famigerada canção. Lilith comia bananas, outras pessoas do público pediam bananas e se juntavam a nós vestindo batas. O pão sagrado ao corpo e bananas, fálicas, macaco, homem-mulher nu. Zé Celso ainda não envelheceu. O Brasil teme a sua carne.
O pão foi distribuído: O Corpo da arte. O Corpo da arte. Alguns respondiam "Amém!" O gran final contou com a participação de uma lançadora de fogo, semidespida com um enorme "terço" trançado no corpo.
Numa semana onde o MASP fica, sem luz; numa semana onde se anuncia o provável fechamento do Museu da Pampulha, numa semana onde 40 dos 100 estudantes que participavam do 8º FONEP - Fórum Nacional das Entidades de Pedagogia em Goiânia, e foram protestar na frente do MEC em Brasília, contra a homologação das diretrizes curriculares do curso de Pedagogia, foram presos; numa quinzena onde o filme: "O código Da Vinci" quase foi censurado; numa quinzena onde se discute na Câmara Legislativa de Goiânia da possibilidade de se censurar a mostra "Rumos" organizada pelo Itaú Cultural, num semestre onde o livro "Brazilian Art" recebeu 1 milhão de reais do MINC para produzir um livro que deveria ser vendido por R$ 250,00 cada, ficamos apenas com questões: Um centro cultural que impõe limites à liberdade de pensamento, fazendo cerceamento da expressão por conta de alguns poucos pode ser chamado de
centro? E de centro cultural? Barbárie disfarçada na cultura, barbárie e sangue nas ruas. O que significa política cultural para Bancos que dizem fazer cultura sem integrar, em seus quadros, pessoal especializado em Arte? Qual é política cultural do governo Lula? Qual a posição, de fato, do MINC frente a todas estas realidades?
Lembremos, um novo museu foi construído em Brasília. Projetos curatoriais e políticas públicas para seu real funcionamento são amplamente ignorados.
Outra coisa: Será que a polícia sabe a diferença entre arte, artistas, estudantes e PCC?
Em que país será que vivemos? De que as "autoridades", e sua colega elite branca, têm medo? De tudo. Quando não se está seguro dos passos dados, porque não há rumo nem terreno traçado, a tudo se teme. Esperamos sinceramente que O Corpo da Arte possa leva-los ao paraíso para sempre perdido.
