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maio 19, 2006

Vereadores e padres tentam censurar exposição em de Evandro Prado em Campo Grande

coca11-1.jpg

Vereadores e padres tentam censurar exposição em de Evandro Prado em Campo Grande

Mostra Paradoxos Brasil
Evandro Prado
Habemus Cocam

11 de maio a 30 de junho de 2006

MARCO - Museu de Arte Contemporânea de MS
Rua Antônio Maria Coelho 6000, Parque das Nações Indígenas, Campo Grande - MS
67-326-7449 ou museu@marco.brte.com.br
www.evandroprado.com.br

Carta de Evandro Prado ao Canal Contemporâneo

A exposição foi aberta no dia 11 de maio, e desde então tenho sido ressaçada pela igreja católica, e por pessoas ligadas a grupos católicos conservadores.

Esta semana foi colada na pauta da câmara municipal de Campo Grande, por um vereador católico para ser votada pelos demais, uma moção de repúdio a exposição, e pedindo o cancelamento da mesma dos 21 vereadores somente 1 se manifestou a meu favor, zelando pela liberdade de expressão. A moção não foi votada, por falta de tempo hábil.

No entanto o vereador e o grupo conservador de católicos (padres, irmãs e jovens) prometem para dia 18 colocar na pauta novamente a moção, e entrar com uma liminar na justiça pedindo o cancelamento da exposição.

Estou enviando em anexo algumas notícias publicadas nos meios de comunicação locais.

Peço pela publicação de uma nota sobre este sério caso de tentativa de censura que parte de vereadores e de padres.


linques:

Paulo Siufi fará ato de repúdio à exposição de Evandro Prado, por Redação/PC

Obras dão teor "sagrado" a refrigerante e criam polêmica, por Paulo Fernandes

Igreja faz abaixo-assinado contra obras polêmicas, por Paulo Fernandes

Imagens de símbolos católicos retratados por Evandro Prado causam revolta, Assessoria de imprensa do vereador Paulo Siufi

Sessão fecha sem aprovação da Moção de Repúdio apresentada por Siufi, Assessoria de imprensa do vereador Paulo Siufi

Paulo Siufi fará ato de repúdio à exposição de Evandro Prado, por Redação/PC
Matéria publicada no dia 16 de maio de 2006

Nesta quarta-feira (dia 17), o vereador Paulo Siufi juntamente com a Igreja Catolica edtará realizando um ato de repúdio a Exposição do Artista Plastico Evandro Prado, pois entendemos que as artes em exposição no Marco, degrinem e profanam a Igreja Católica e aos Católicos de Campo Grande. O vereador Paulo Siufi fará uma moção de repúdio e usará a tribuna para pedir o cancelamento deste evento. Este ato será realizado às 9h30, na Câmara Municipal de Campo Grande.


Obras dão teor "sagrado" a refrigerante e criam polêmica, por Paulo Fernandes
Matéria originalmente publicada no sítio Campo Grande News, no dia 16 de maio de 2006

O vereador Paulo Siufi (PRTB) comunicou, através da assessoria de imprensa, que vai fazer uma moção de repúdio à exposição Religião do Consumo, do artista plástico Evandro Prado, exposta desde quinta-feira à noite no Marco (Museu de Arte Contemporânea), em Campo Grande.

Evandro expôs 21 pinturas e 13 objetos (montagens de materiais). O trabalho é baseado em um texto do Frei Beto. "Ele constata que nossa sociedade cultua certas marcas como se fosse religião. Ela faz um culto a mercadoria e ao dinheiro. As pessoas tem trocado seus valores", diz.

Para o artista, que teve a ousadia de substituir o sagrado coração de Jesus por uma latinha da coca-cola, católicos como o vereador Paulo Siufi não entenderam a mensagem contida na obra.

O artista diz que é cristão e defende o direito do vereador de ser contra a sua obra. No entanto, ele diz que tem recebido mensagens eletrônicas de muitas pessoas que o chamam, entre outras coisas, de nazista e amigo do demônio. "É desagradável receber esse tipo de e-mail; saber que tem pessoas que estão me odiando", afirma.

Ele estima que cerca de 500 pessoas já tenham visitado a exposição; 300 delas na abertura. A previsão é de que a exposição Religião do Consumo continue até o final de junho.

No entanto, Paulo Siufi pretende usar a tribuna da Câmara de Campo Grande amanhã para pedir o cancelamento da exposição.


Igreja faz abaixo-assinado contra obras polêmicas, por Paulo Fernandes
Matéria originalmente publicada no sítio Campo Grande News, no dia 17 de maio de 2006

O Apostolado Defesa Católica está colhendo assinaturas para um abaixo-assinado contra a exposição Religião do Consumo, do artista plástico Evandro Prado, que desde quinta-feira à noite está no Marco (Museu de Arte Contemporânea), em Campo Grande. Estão expostas 21 pinturas e 13 objetos (montagens de materiais) em que latinhas de refrigerante Coca-Cola tomam o lugar de Nossa Senhora Aparecida e dos sagrados corações de Jesus e Maria. O documento reivindica aos organizadores e patrocinadores do evento, o cancelamento da exposição. Cópias do abaixo-assinado já circulam na internet.

Em um manifesto, o Apostolado diz que "os quadros demonstram sem qualquer reserva, ofensas às imagens de Jesus Cristo e Nossa Senhora Aparecida", "profanando ícones sacros" e fazendo uma "afronta pública contra a Igreja Católica". "Cremos que esta exposição ultrapassa os limites da 'liberdade de expressão', tanto pregada pelos artistas de nosso tempo.", traz trecho do manifesto.

O trabalho de Evandro Prado é baseado em um texto do Frei Beto numa crítica à sociedade que cultuaria marcas em vez de santos. Para o artista, a Igreja não entendeu o sentido da obra. As assessorias jurídicas da Arquidiocese de Campo Grande, do vereador Paulo Siufi (PRTB) e até mesmo da Coca-Cola, que é "santificada" no trabalho de Evandro, estudam a possibilidade de ingressar amanhã com uma liminar contra a exposição.


Imagens de símbolos católicos retratados por Evandro Prado causam revolta, pela Assessoria de imprensa do vereador Paulo Siufi
Nota publicada no dia 16 de maio de 2006

A comunidade católica de Campo Grande está revoltada com a exposição "Habemus Cocam", instalada desde o dia 11 de maio no espaço cultural do Museu de Arte Contemporânea (MARCO), com previsão para permanência de mais 30 dias. As obras de arte são interpretadas como uma profanação às imagens sagradas de Nosso Senhor Jesus Cristo, Nossa Senhora Aparecida, Papa João Paulo II e de outros signos representativos da Santa Igreja Católica.

O vereador Paulo Siufi (PRTB), representante da comunidade católica na Câmara Municipal de Campo Grande, preparou uma Moção de Repúdio à exposição, que será apresentada para votação amanhã (17) durante a Sessão Ordinária, a partir das 9 horas da manhã, solicitando o cancelamento da exposição dos quadros assinados pelo artista plástico Evandro Prado, cujas imagens fazem menção aos símbolos sagrados da comunidade Católica.

Representantes da igreja Católica e o Grupo de Defesa Católica organizado por jovens católicos estarão presentes à sessão para manifestarem sua indignação.

No entendimento do vereador Paulo Siufi, o direito à liberdade de expressão é assegurado pela Constituição Federal, base de um Estado Democrático de Direito, e sempre deve ser respeitada. "Porém o direito a liberdade é igualmente assegurado pela Carta Magna, devendo, portanto, a aplicação desses preceitos constitucionais ser balizada a fim de harmonizá-los, tendo sempre em mente que deve haver fronteira entre o fim do direito de um e o início do direito do outro. Neste caso está havendo desrespeito com todos os Católicos", diz o vereador, acrescentando que o espaço cultural Marco tem finalidades sociais distintas, sendo fomentador da educação e da cultura da sociedade campo-grandense, portanto deve haver neutralidade no propósito de construir uma consciência regular que preserva os bons costumes.

Na opinião de católicos, como José Carlos dos Santos, 22 anos, estudante de Direito, o mundo passa por uma crise de intolerância. Fatos como este podem ser entendidos como falta de respeito ao próximo e isso não deve ser incentivado. "Esse tipo de atitude (expor quadros que profanam símbolos católicos) mesmo que não seja com essa intenção, não deve ser incentivada. Precisamos promover convivências harmoniosas", destaca José Carlos.

Já para Valdecir Messias Machado, católico praticante da comunidade Senhor do Bonfim, as imagens são deploráveis. "Não se deve fazer, com uma coisa séria, uma propaganda do que ela não é. Em religião não há certo ou errado, mas deve haver respeito com o que se acredita. Brincar com coisa assim é muito sério. Graças a Deus vivemos num país de paz", desabafa Valdecir.

O autor
Procurado para falar sobre a polêmica que as obras estão gerando, Evandro Prado, autor das peças que estão expostas no Marco, disse que já recebeu centenas de e-mails de repúdio ao seu trabalho. De criação religiosa, o artista disse que não é católico, mas também não está brincando com os símbolos católicos. Afirmou que a leitura correta das obras se faz a partir de um raciocínio crítico ao consumismo. "O uso da figuras da igreja é para mostrar que os valores estão sendo trocados, ao invés de valorizar os ensinamentos de Deus, as pessoas cultuam o consumismo. As empresas têm mais poder que a Igreja", afirmou Evandro.

De acordo com Evandro é preciso ter um pouco de conhecimento sobre arte. O trabalho é conceitual e visual, não pode ser encarado somente como uma obra plástica, é preciso saber sobre o conceito. "Gosto da icnografia religiosa e já fiz uma série de trabalhos usando esse conceito". A exposição tem três segmentos, idolatria ao consumismo, capitalismo e comunismo e arte e publicidade.

Para os católicos a leitura não é diferente, o trabalho tem um forte apelo visual e sobre ele, a partir dos valores de cada indivíduo, se constrói o conceito que se desejar. É difícil alguém parar diante de um quadro, ler a sua interpretação em um manual e depois formar sua opinião. O que se vê nestas telas, para um católico é chocante, já para um espírita talvez não incomode e para o autor é uma forma de dizer alguma coisa.

Na opinião do estudante Felipe Nery da Silva, existem outras formas de passar a mesma mensagem, sem perder a iconografia que o autor tanto valoriza. "É natural que o trabalho esteja ofendendo a opinião católica porque realmente os quadros estão desrespeitando as imagens que tem significado forte para essa religião", conclui Felipe Nery.

Carlos Kuntzel
Assessoria de imprensa do vereador Paulo Siufi


Sessão fecha sem aprovação da Moção de Repúdio apresentada por Siufi, pela Assessoria de imprensa do vereador Paulo Siufi
Nota publicada no dia 17 de maio de 2006

Sob protestos do vereador Cabo Almi (PT), o Grande Expediente da Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Campo Grande de hoje (17), foi encerrada pelo Presidente da Casa, vereador Youssif Domingos, sem a aprovação da Moção de Repúdio à exposição dos "Habemus Cocam", do artista plástico Evandro Prato. O documento será votado amanhã (18).

Durante a palavra livre, o vereador Paulo Siufi (PRTB) manifestou sua indignação quanto aos insultos à igreja Católica provocados pela profanação das imagens sagradas de Nosso Senhor Jesus Cristo, Nossa Senhora Aparecida, Papa João Paulo II e de outros signos representativos da Santa Igreja Católica, aliados a imagens do refrigerante Coca-cola.

O posicionamento de Siufi foi apoiado, em aparte, pelos vereadores Professor Rinaldo, Edil Albuquerque, Cabo Almi, Pastor Sérgio e Carlos Marun, que acrescentou também a sua luta pelo respeito aos feriados religiosos, como Sexta-feira Santa, Natal e Dia de Finados. "Tudo isso são símbolos importantes e precisam do respeito. Repudio os quadros de Evandro Prato, porém sou contra a censura", destacou Marun.

Siufi considerou a posição dos colegas e salientou que, como representante da Igreja Católica na Câmara, também não tem intenção de censurar a obra. "Vamos utilizar os meios legais, entrando com uma ação na justiça para que os direitos da Igreja Católica sejam assegurados", lembrou.
Apenas o vereador Athayde Nery se posicionou contra a Moção de Repúdio dizendo que em momento algum a obra ofende os símbolos católicos.

O padre Mário Panziero, que acompanhou a sessão, lembrou que o respeito aos símbolos não se restringe à igreja. Os ícones gráficos que representam a nação, como é o caso a bandeira nacional, também merecem o mesmo respeito. O padre explicou que a igreja católica não cultua imagens, mas sim o que as imagens representam. "Por detrás de cada símbolo desses, há uma palavra, uma leitura, geralmente baseada na história de vida daquela pessoa ali representada, portanto distorcer os significados é uma agressão", explicou o Padre. "Nem tudo pode ser permitido em nome da arte. Como cidadão e como sacerdote apoio a manifestação de Siufi pela defesa da moralidade, do certo, do justo e do descente", concluiu.

"A Igreja não é retrograda, está sim buscando respeito aos seus valores e a Câmara Municipal, casa do povo, é um bom lugar para que esse tipo de 'humilhação' ao catolicismo seja barrado", concluiu Siufi, amassando uma folha com reproduções das imagens dos quadros de Evandro Prado.Vários padres e representantes de comunidades católicas estiveram presentes à Sessão para acompanhar os trabalhos.

Carlos Kuntzel
Assessoria de Imprensa Vereador Paulo Siufi

Posted by João Domingues at 3:07 PM | Comentários (4)

Marcia X e o CCBB - Censura e/ou a lógica do sistema?, por Paulo Paes e Luiz Camillo Osorio

Marcia X e o CCBB - Censura e/ou a lógica do sistema?

Paulo Paes (artista) e Luiz Camillo Osorio (crítico de arte)

(Este texto foi escrito há mais de duas semanas e foi tentada a sua publicação na imprensa. O tom do artigo visa um público mais abrangente. Não tendo sido possível, achamos importante circulá-lo pelo meio de arte através do canal contemporâneo, para que a discussão não seja prematuramente interrompida e possa ganhar novos desdobramentos políticos).

A polêmica envolvendo o CCBB e a classe artística pela retirada da obra "Desenhando em terços" de Márcia X da exposição "Erótica" passa ao largo da questão que está na raiz do problema. É claro que a atitude do CCBB de retirar a obra antes mesmo de uma manifestação da justiça quanto à ação movida pela Opus Christi merece repúdio. Abre um precedente perigoso em relação a todo tipo de intolerância e mobilização de grupos de interesse para a retirada de obras de arte de exposições.

Não é a primeira vez que algo desta ordem acontece e há casos simbólicos que merecem ser lembrados. Um deles, de uma exposição nos Estados Unidos do fotógrafo Robert Mapplethorpe fechada por ser considerada imoral e que acabou levando o diretor do museu ao tribunal. Neste caso, a direção do museu foi solidária ao artista e defendeu a autonomia daquele espaço de arte, o museu, como um espaço de liberdade e experimentação. O resultado do julgamento foi pedagógico: o diretor foi inocentado uma vez que a liberdade de expressão artística não deveria estar sujeita a considerações de ordem moral.

No entanto, para além da precipitação, um tanto covarde, do CCBB neste episódio recente, este seu posicionamento acabou mostrando a lógica por trás do fomento à cultura. O centro cultural em questão é um braço das atividades do Banco do Brasil, que atua em um ramo - o mercado financeiro - com notória aversão ao risco e que viu, com a paranóia típica do setor, a sua principal atividade ser prejudicada por uma atividade secundária, a atuação cultural. É bom que se diga também que o CCBB, entre os centros culturais brasileiros, é um dos que mais têm contribuído para a qualificação do circuito e para a ampliação de público. De modo que esta situação só mostra a precariedade e a falta de autonomia de nossas instituições culturais.

O que sobressai nesse quadro, mais que a censura pontual à obra de Márcia X, é o quão equivocado é o sistema de financiamento público das atividades culturais, pois sistematicamente entrega na mão de entidades privadas com interesses diversos, dinheiro do contribuinte para que elas atuem como gestores e assim formulem a política cultural do país. Usar como um dos argumentos para o afastamento da obra, a ameaça de que muitos correntistas iriam retirar suas contas do banco, é de uma clareza assustadora. Isto não é só o CCBB, é bom insistir, mas é a lógica vigente quando os responsáveis pela política cultural transferem para o setor privado toda a decisão do que vai ser investido - se o dinheiro fosse todo ele privado, tudo bem, mas não é o caso. Não se trata de defender intervencionismo estatal ou retirar autonomia do investimento privado, longe disso, mas de se exigir mais transparência e aprimoramento na transferência de dinheiro de renúncia fiscal para a cultura.

A obra da Márcia X já estava em exibição quando foi identificada como "incômoda". Cabe perguntar diante disso: Será que o catálogo da exposição Erótica continuará a ser vendido ou o CCBB retirará de circulação e assumirá o prejuízo? Sugestão: doe às bibliotecas de arte. Quantas obras e exposições nem chegaram a ser apresentadas porque "obras-problema" foram identificadas a tempo? Será que uma atividade tão complexa e importante quanto a produção de cultura não mereceria uma entidade autônoma para discutir publicamente critérios e processos de seleção, levando-se sempre em consideração a excelência e a democratização do acesso?

O obscurantismo dos critérios que pautam a atuação cultural das entidades privadas que investem o dinheiro público da cultura, impede o avanço da discussão e dá no que deu. Já está mais do que na hora desse sistema ser reformulado. Além disso, é hora também de se superar uma série de rixas ideológicas e privilégios constituídos para tratar o dinheiro público investido em cultura de forma mais democrática e frutífera. As acusações de intervencionismo quando o atual governo quis começar uma discussão nesta direção foi de uma precipitação preocupante. Assim como o encolhimento do MinC e sua demora no aprimoramento da lei. Enquanto esta discussão não acontecer de pouco adianta ficarmos revoltados com o episódio do CCBB. Faz parte da lógica do sistema.

Posted by João Domingues at 1:14 PM

maio 16, 2006

"Blogs transformaram a comunicação", entrevista de Lucia Leão a Ernane Guimarães Neto, Folha de São Paulo

"Blogs transformaram a comunicação"

Entrevista de Lucia Leão a Ernane Guimarães Neto, originalmente publicada na Folha de São Paulo, Caderno Mais, do dia 14 de maio de 2006

Para a pesquisadora brasileira Lucia Leão, da PUC-SP, diários na web não são mais vistos como "mentirinha" e oferecem canal alternativo à grande mídia

Os blogs representam uma alternativa confiável aos meios de comunicação de massa, defende Lucia Leão, professora de comunicação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e artista multidisciplinar. "É mais fácil ficar bem-informado navegando por esses atalhos do que esperar a notícia sair. Isso é uma grande transformação nas formas de comunicação", defende a professora, freqüentadora de blogs e que os utiliza em sala de aula.

Em entrevista à Folha, a organizadora de "O Chip e o Caleidoscópio -Reflexões sobre as Novas Mídias" (ed. Senac) aponta as características específicas que fazem do blog uma forma independente de comunicação e apresenta tendências da comunidade blogueira no Brasil.

Folha - Os blogs não são apenas uma mania passageira?

Lucia Leão - Não, acho que está sendo o caminho que a web achou; é uma evolução, uma transformação da web.

Folha - Eles se constituem uma forma autônoma de comunicação?

Leão - É isso mesmo. Se pegarmos a história do jornal, é interessante recordar. O jornal também tinha essa cara. O editor, o chefe do jornal, é hoje o editor desses blogs. Os jornais não eram tão grandes. Há um pouco dessa volta às origens, de ouvir a voz do autor, seus valores.

Folha - O ambiente "etéreo" da internet não compromete a credibilidade do trabalho?

Leão - Não, porque a credibilidade está relacionada com o que a gente chama de reputação, a confiança que se dá a um blog, e não a outros. Tem a ver com ética: você confia naquele cara, e se estiver errado alguém vai falar. O blog também tem "erramos". Chamo isso de regulação que emerge, pois a própria web regula. Quando você visita esses sites, em geral tem indicações. Por exemplo o site Turbulence, que existe há muito tempo e agora faz um blog com notícias (www.turbulence.org/blog). Você sabe quem são aquelas pessoas. Elas existem.

Tenho insistido nisto: durante muito tempo, as pessoas achavam que o ciberespaço é "mentirinha", um mundo de faz-de-conta, de fantasia. Hoje a gente saiu dessa fase.

Estamos na fase em que o ciberespaço é apenas um prolongamento da cultura. É lógico que há lugares em que as pessoas podem usar o alter ego para se sentir à vontade -o que também há no mundo real.

Não há nada no ciberespaço que não corresponda ao mundo real. Quando comecei a insistir nisso, as pessoas me olhavam como se fosse um extraterrestre. Quando se faz uma transferência de dinheiro na sua conta, aquilo ocorre de fato. Quando você publica alguma coisa com seu nome, tem que responder por aquilo.

Folha - A cultura e o mercado do Brasil têm capacidade para absorver mais os blogs, como ocorre nos EUA?

Leão - Sim, claro. O que acho interessante são os blogs que acabam criando comunidades. O blog está lá, faz divulgação e você que se interessa por aquele assunto começa a entrar lá para estar bem-informado. Ainda tem pouca gente fazendo isso, em comparação com a Europa. Eu mesma sou professora e não dou conta: às vezes meu blog fica sem ser atualizado.

Uso muito para aula, ponho o que está acontecendo na aula no blog, mas gostaria de ter um blog mais organizado. Acabo não tendo tempo. Alguns pesquisadores de fora mantêm regularidade. O pesquisador Mark Bernstein, por exemplo, dá a isso o nome de "web viva": você sabe que vai entrar lá e sempre tem alguma coisa nova.

Folha - É o que faz as pessoas optarem por criar um blog, e não um site?

Leão - Com certeza. É mais prático, tem recursos de envio por celular. Para fazer sites, há aqueles "templates" [modelos para facilitar a construção], mas isso acabou atendendo a outro tipo de usuário. O usuário do blog quer realmente agilidade, mobilidade para trocar informações rapidamente.

Folha - Isso cria uma forma de comunicação específica?

Leão - Sim. A troca de atalhos é bem legal. Especialmente na área de software livre: com os links, você vai navegando de um site para outro e vendo muita notícia interessante. É mais fácil ficar bem-informado navegando por esses atalhos do que esperando a notícia sair. Essa é uma grande transformação nas formas de comunicação. Ninguém está muito preocupado com a forma, mas sim com a notícia.

Folha - No Brasil, os blogs têm se apoiado muito no Orkut?

Leão - Bem observado. O Orkut acaba sendo uma maneira fácil de atrair pessoas para um site, até melhor, por exemplo, do que o Google. É uma tática de comunicação mais pontual. Tive uma aluna de pós-graduação cujo trabalho era sobre design e jornalismo. Ela fez um blog e ninguém visitava, ela enviava e-mails e ninguém entrava [no blog]. Ela pôs no Orkut e num dia teve 200 visitas. Atingiu mais pessoas interessadas no tema.

Folha - Notícias na mídia ajudaram a fazer crescer o movimento dos blogs?

Leão - Acho que é independente. Não digo que não haja alcance, há gente que entra num blog porque viu na mídia impressa, mas em geral é coisa que acaba acontecendo no ato de navegar ou por e-mail.

E as revistas, como a "NovaE", listam blogs e acabam criando uma "gangue" de blogs. A comunidade tem o poder de divulgar novos blogs.

Folha - E os jornalistas que são pagos para fazer blogs? Isso vai funcionar no Brasil?
Leão - Acho que sim. Há vários blogs muito bons, como o de Hermano Vianna (www.overmundo.com.br).

Folha - Que comunidades estão prósperas na elaboração de blogs no Brasil?

Leão - As mais antigas são justamente as que estão à margem das mídias oficiais. Por exemplo, no Canal Contemporâneo (www.canalcontemporaneo.art.br), que é uma espécie de blog da arte contemporânea, não vai estar ali quem está nas grandes exposições.

Com softwares livres é a mesma coisa: as pessoas estão ali buscando um canal para se desenvolver. Também as questões ecológicas e de solidariedade funcionam muito bem. É sempre sobre aquilo que os meios de comunicação de massa não oferecem.

Folha - Que pesquisas há sobre blogs no Brasil?

Leão - Houve um encontro sobre blogs no ano passado, em SP. A mania de fazer fotos, chamada de escopofilia, é um fenômeno que está ocorrendo. Quem viaja publica no fotolog -as pessoas estão vivendo mais em razão de tirar fotos do que de ter experiências. Isso se tornou um fenômeno grande entre os jovens.

Folha - Blog e fotolog são coisas distintas? Têm objetivos diferentes?

Leão - Sim, o fotolog tem a idéia de mostrar. É misto de paixão pela imagem e exibicionismo. No Brasil não se chegou a isso, mas há uns cinco anos, na febre das webcams, as pessoas deixavam a câmera no quarto on-line 24 horas. Era generalizado.

Folha - Há fidelidade às comunidades blogueiras?

Leão - Se você está interessado no assunto e descobre um blog bom, você volta a ele.

Posted by João Domingues at 11:27 AM | Comentários (2)