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maio 4, 2006
BB cancela a exposição "Erotica" em Brasília: Informativo para a Imprensa
BB cancela a exposição "Erotica" em Brasília: Informativo para a Imprensa
Brasília (DF), 03 de maio de 2006
COMUNICADO À IMPRENSA
O Banco do Brasil informa que a exposição "Erótica - os sentidos na arte", visitada por 56 mil pessoas em São Paulo e por 90 mil no Rio de Janeiro, não ocupará as salas do Centro Cultural Banco do Brasil em Brasília, a partir de 15 de maio, conforme previsto.
Alguns artistas e colecionadores condicionaram, formalmente, a vinda de suas obras para o CCBB de Brasília à reintegração da obra "Desenhando em terços", retirada do CCBB-Rio de Janeiro, inviabilizando acordo entre o BB e a produtora Expomus para realização da mostra.
O Banco do Brasil lamenta esse desfecho, mas o considera um fato isolado, ao tempo em que ratifica sólido apoio à difusão da arte e da cultura, sempre com respeito à pluralidade e à diversidade.
O investimento e a atuação do Banco do Brasil em cultura conquistaram, ao longo dos anos, o respeito e o reconhecimento da mídia, do mercado cultural e, principalmente, do público.
Enviado por Banco do Brasil imprensa@bb.com.br
CCBB cancela etapa de Erotica em Brasília, por Bernardo Araujo
CCBB cancela etapa de 'Erotica' em Brasília
Matéria de Bernardo Araújo, originalmente publicada no Jornal O Globo, no dia 4 de maio de 2006
A exposição "Erótica - Os sentidos na arte", que já passou pelo Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo e no Rio, não chegará a Brasília, como estava previsto. Depois da polêmica relativa à censura da obra "Desenhando com terços", de Márcia X. - que foi retirada da mostra depois de protestos do grupo religioso Opus Christi - artistas como Franklin Cassaro e Rosangela Rennó decidiram retirar suas obras, e a exposição acabou cancelada.
- O que mais nos assusta é que o Banco do Brasil não reconheceu que praticou um ato de censura, e isso pode gerar um precedente perigoso - diz o artista plástico Márcio Botner, que liderou protestos da classe após a retirada da obra de Márcia. - Acreditamos que a arte deva abrir discussões, e nesse episódio não houve qualquer diálogo.
Ele diz que é importante distinguir o centro cultural de seu patrocinador.
- A decisão veio do Banco do Brasil, e foi tomada por pessoas que entendem de economia, não de cultura - diz. - É assustador também pensar que um centro cultural importante como o CCBB, que abriga técnicos em cultura, não tenha direito a opinião. Essa posição me lembra as atitudes de alguns dos nossos políticos, que tomam certas decisões e esperam que nada vá acontecer. Estamos pensando em entrar na Justiça contra o Banco do Brasil.
O Banco do Brasil comunicou o cancelamento da mostra, devido à retirada das obras, e divulgou uma nota pouco esclarecedora. Nela, diz tratar-se de "um fato isolado", e ratifica "sólido apoio à difusão da arte e da cultura, sempre com respeito à pluralidade e à diversidade".
maio 3, 2006
BB cancela a exposição "Erotica" em Brasília por Mario Cesar Carvalho
BB cancela a exposição "Erotica" em Brasília
Matéria de Mario Cesar Carvalho originalmente publicado na Folha Online em 3 de maio de 2006
Depois de três reuniões tensas, realizadas entre a semana passada e ontem, a direção do Banco do Brasil decidiu cancelar a exposição "Erotica - Os Sentidos na Arte" em Brasília. O motivo do cancelamento é o impasse causado pela censura a uma obra da artista plástica Márcia X que mostra dois pênis cruzados feitos com rosários religiosos. A mostra, que passou por São Paulo e pelo Rio, seria inaugurada no próximo dia 15.
Os diretores do Banco do Brasil não aceitaram a reintegração do trabalho de Márcia X na exposição. Com isso, colecionadores e artistas como Rosângela Rennó e Franklin Cassaro ameaçavam retirar suas obras da exposição. Não houve acordo.
"O Banco do Brasil lamenta esse desfecho, mas o considera um fato isolado, ao tempo em que ratifica sólido apoio à difusão da arte e da cultura, sempre com respeito à pluralidade e à diversidade", diz uma nota emitida pelo banco.
"Desenhando em Terços", o trabalho de Márcia X (1959-2005), foi retirado da mostra no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) do Rio no dia 19 de abril por causa das pressões de um grupo católico chamado Opus Christi. O Banco do Brasil diz ter recebido cerca de 800 e-mails com críticas à exposição, numa corrente coordenada pela Opus Christi.
A Folha apurou que religiosos da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) ligaram para diretores do banco e ameaçaram incluir a questão da obra de Márcia X em seus sermões. Grupos religiosos fizeram ameaças de encerrar contas e promover um boicote ao BB.
O conselho diretor do banco, formado pelo presidente e por sete vice-presidentes, julgou que havia uma ameaça à marca e aos negócios e optou pela censura. O temor principal era que o boicote adquirisse as proporções de uma bola de neve.
Ação judicial
O artista plástico Ricardo Ventura, viúvo de Márcia X, acha que a decisão do BB dará uma projeção que a obra talvez não tivesse se a exposição em Brasília fosse mantida: "Se o Banco do Brasil queria evitar que a obra fosse divulgada, o tiro saiu pela culatra. Já tem site na China comentando a censura ao trabalho".
O grupo de artistas ligado à galeria A Gentil Carioca, que coordenou o protesto contra o CCBB do Rio no último sábado, continuará a exigir que o banco faça uma retratação pública e assuma publicamente que praticou censura, segundo Márcio Botner.
"Se não houver a retratação, vamos processar o banco", anuncia Botner. "É chocante que o BB se dobre à pressão de um grupo obscurantista de católicos."
Um abaixo-assinado contra a censura à obra de Márcia X tem 800 assinaturas e o cancelamento da mostra em Brasília tende a aumentar o número de adesões, de acordo com ele.
Os artistas querem que o CCBB tenha autonomia para decidir as suas exposições.
A advogada da causa já foi escolhida. Trata-se de Deborah Sztajnberg, professora da Fundação Getúlio Vargas e do Ibmec, ambos no Rio. Será uma ação indenizatória, segundo ela, com o objetivo de "reparar os danos causados à imagem de Márcia X por essa decisão autoritária".
A ação será impetrada em nome de Ricardo Ventura, herdeiro da artista. "É um pesadelo, é um horror ter de recorrer à Justiça por causa disso, mas não podemos ficar quietos", diz ele.
Márcia X - Manifestação de 29 de abril, por Alex Hamburger

Márcia X - Manifestação de 29 de abril
Como participante efetivo na memorável manifestação de repúdio ocorrida no sábado passado, à retirada da obra "Desenhando com terços", de Márcia X., da exposição "Erótica" no CCBB, gostaria de deixar um registro 'caleidoscópico' daquela que foi uma rara e marcante mobilização de uma parcela significativa do meio local de artes visuais.
Como é de domínio público, a nossa cidade é pródiga em oferecer ao circuito artístico nacional valores do mais alto teor criativo, entretanto, quando se trata de questões que transcendem a produção individual rara e incompreensivelmente temos exemplos onde este segmento atuou e influenciou sobre a marcha da história.
Contudo, talvez até sob os eflúvios do próprio nome da deflagradora do processo (Márcia=marcha), e a partir de um quase fraternal encontro no Paço Imperial (sintomaticamente, outro marco pela liberdade existencial e de expressão),devidamente paramentados e totalmente identificados com o objeto da nossa 'causa', partimos suavemente na direção do local do protesto imbuídos da nossa tradição (ou do que achamos que assim seja, segundo me parece) de confrontação pacífica em defesa dos direitos democráticos da livre expressão de idéias.Uma vez na arena dos acontecimentos, o que se seguiu foi uma série de demonstrações exemplares de como se deve abominar a truculência da censura sem se utilizar das mesmas armas, pelo contrário, lançando mão da dialética, dos mais nobres valores humanos, hoje, diga-se de passagem, não mais quixotescos como a palavra e a ação ao vivo, o respeito mútuo ao contendor, o favorecimento à reciprocidade do diálogo e até ao improviso poético libertário, conduzidas que foram pelo Luis Andrade, nosso brilhante porta-voz e tradutor de nossos anseios.

Como não poderíamos deixar de cumprir, assim como ocorreu na manifestação inicial à revoltante decisão, dirigimo-nos em seguida ao local que estava reservado à obra 'castrada', onde as ocorrências de uma maneira geral ficaram por conta da inspiração momentânea, mas sempre tendo como crucial a nossa presença corpórea contestadora da iniqüidade cometida.
Foi alí que o nosso grito de protesto alcançou a sua mais alta intensidade. Diante da parede vazia onde antes estava a obra, um pequeno coletivo de 'artivistas' do grupo resolveu, ainda à guisa de incorformação, improvisar uma intervenção naquele espaço (a parte da parede de onde o trabalho foi defenestrado), imprimindo com spray sobre uma máscara uma reprodução da obra esconjurada. Imediatamente seguranças do órgão repressor procuraram entrar em ação na tentativa um tanto forçada de não permitir esse que era apenas um ato simbólico/nostálgico, uma vez que a direção da casa deixou explícito que a exibição da foto havia sido definitivamente proibida de ali figurar.
Entretanto, a intervenção foi rápida e incisiva, e estando um pouco a certa distância da 'área de conflito', tive uma visão dos acontecimentos apenas em perspectiva, e fiquei completamente surpreendido e extasiado, posto que é incomum tais atitudes em nosso circuito, com a coragem de personagens que tinha em conta como teoricamente frágeis, como Joana Ceko e Glória Seddon, que destemidamente 'peitaram' os seguranças que pretendiam impedir qualquer tipo de resposta à uma
mais do que justa indignação de um comunidade ferida no âmago das suas liberdades essenciais.
Queria ainda deixar bem claro que não escrevo em nome dos artistas presentes, mas apenas oferecer o meu testemunho de uma ação que reputo divisora de águas entre artistas e os demais segmentos da sociedade, numa demonstração nítida, pelo que pude presenciar, de que não aceitaremos facilmente certos tipos de injunções de quaisquer instâncias do poder constituído ou não.
Alex Hamburger
Rio, 1º de Maio de 2006
Dia Mundial do Trabalho

maio 2, 2006
Arte Crucificada - Editorial da Folha de S. Paulo
Arte Crucificada
Editorial da Folha de S. Paulo originalmente publicado em 29 de abril de 2006
O Banco do Brasil (BB) errou ao retirar da mostra "Erótica -Os Sentidos da Arte" o trabalho da artista Márcia X (1959-2005) que retratava dois pênis desenhados com terços religiosos. Ninguém obriga o BB a patrocinar eventos artísticos, muito menos exposições polêmicas como "Erótica", cujo insofismável teor sexual está anunciado no título.
Entretanto, uma vez que o banco decidiu lançar-se nessa empreitada, deve seguir as regras do jogo. E a praxe internacional não poderia estar mais bem estabelecida. Cabe à instituição financiadora definir o tema da exposição e designar seu curador. A partir daí, o responsável indicado, valendo-se preferencialmente de critérios estéticos, é o único apto a decidir o que entra e o que sai da mostra. A exclusão do trabalho de Márcia X se deu à revelia do curador, o que basta para qualificar a intervenção do BB como censura.
Católicos que tenham se sentido ofendidos com o desenho da autora têm o legítimo direito de protestar e até mesmo de ameaçar fechar suas contas na instituição bancária. Trata-se de manifestação não-violenta que faz parte do jogo democrático. O BB, contudo, deveria ter resistido à pressão e mantido-se fiel ao compromisso assumido com o meio artístico quando decidiu patrocinar a mostra. O banco não pode alegar que desconhecia o caráter polêmico de uma exposição dedicada ao erotismo.
A liberdade de expressão artística, garantida pelos artigos 5º, IX e 220, da Constituição, é um dos fundamentos do Estado democrático e existe justamente para assegurar que autores possam divulgar idéias ofensivas a parcelas significativas da sociedade. Com efeito, ninguém precisa de autorização legal para dizer o que todos querem ouvir.
Nesse episódio, a direção do BB meteu os pés pelas mãos. A um só tempo, mostrou que não tem apreço à liberdade artística, sacrifica princípios elevados ao menor sinal de pressão e, pior, não sabe bem o que financia com seus recursos.
Envie emeio para a Folha de S. Paulo e publique-o como comentário neste post do Como atiçar a brasa.
