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julho 29, 2005
Arte polêmica, por Joaquim Ferreira dos Santos
Arte polêmica
Nota de Joaquim Ferreira dos Santos, publicada originalmente na coluna Gente Boa do Jornal O Globo do dia 29 de julho de 2005
A direção do Instituto Cultural Telemar quis censurar a videoinstalação de Leonardo Galvão na mostra "Programação de Mídias Eletrônicas". Freqüentadores reclamaram das imagens eróticas. Os curadores conseguiram driblar a proibição. Uma plaquinha informa agora que o trabalho exibe cenas fortes de sexo explícito.
julho 28, 2005
Serra reduz programação cultural de CÉUS, por Luciane Scarazzati
Serra reduz programação cultural de CÉUS
Matéria de Luciane Scarazzati, originalmente publicada na Folha de São Paulo do dia 28 de julho de 2005
Construídos para serem espaços de educação para as crianças e de lazer para a comunidade, os CEUs (Centros Educacionais Unificados) tiveram atividades culturais reduzidas desde janeiro, no governo José Serra (PSDB).
A reportagem visitou 10 dos 21 escolões entre quarta e sexta-feira da semana passada e constatou alterações na programação teatral e de cinema. A revisão dos contratos de segurança em unidades da zona sul também levou à redução da quantidade de vigilantes --de oito para cinco em cada turno.
Até dezembro, eram contratadas pela Secretaria da Cultura peças profissionais para serem apresentadas nos finais de semana. O catálogo de filmes para as sessões de cinema incluía novidades.
Desde janeiro, porém, as peças teatrais são somente de grupos da comunidade ou contatados pelos coordenadores das escolas. O catálogo de filmes não foi atualizado --as atrações são repetidas.
Com capacidade para 2.400 alunos, cada um dos 21 CEUs também tem um roteiro de aulas e cursos para a comunidade.
Em 2004, último ano do governo Marta (PT), a agenda de atividades estava movimentada. Havia aulas de iniciação artística --teatro, artes plásticas, dança e música. Mas os contratos com esses educadores acabaram em 31 de dezembro.
Entre janeiro e abril, foram mantidas as aulas em unidades que tinham voluntários ou professores contratados em regime diferenciado. Foi só em maio que novos profissionais chegaram.
Todos os CEUs possuem estúdios para fotografia e cinema, que estão equipados. São poucas as unidades, porém, que usam esse material, porque faltam profissionais. Em 2004, parcerias com a iniciativa privada garantiram a realização de alguns cursos.
No CEU Paz, na zona norte, a falta de pessoal levou à paralisação de atividades da oficina na padaria e no estúdio de foto. O material para revelação do laboratório do CEU São Rafael, na zona leste, não foi usado até agora.
Os CEUs Casa Blanca e Meninos, na zona sul, estão entre os que sofrem com a falta de professores e técnicos de educação física. No CEU Aricanduva, na zona leste, a pista de skate fica tomada pela terra quando há chuva.
Alunos e moradores reclamam. "A comunidade está perdendo espaço", diz a telefonista Delfina Custódio da Silva, 49, vizinha do escolão de Aricanduva.
Outro lado
A prefeitura afirma que está retomando as atividades culturais nos CEUs e que o quadro de profissionais e a agenda estarão completos até agosto.
A Secretaria da Cultura diz que avalia a contratação de peças profissionais e uma nova série de filmes para a programação do segundo semestre.
A chefe-de-gabinete da Secretaria da Educação, Maria Lúcia Tajal, diz que houve "interrupção" das aulas de iniciação artística por falta de pagamento da gestão Marta Suplicy (PT), no ano passado, e também por causa do fim do contrato dos arte-educadores.
Os professores não receberam os salários de pelo menos dois meses do final de 2004. A equipe petista diz que honrou pagamentos e deixou dinheiro em caixa para contas que venceriam em janeiro.
A troca de titulares da pasta da Cultura (Emanoel Araújo foi substituído por Carlos Augusto Calil) também teria atrapalhado as contratações.
Enviado por Oliver Cauã Cauê olivercauacaue@hotmail.com
Calil afirma que CCSP não era prioridade, por Valmir Santos
Calil afirma que CCSP não era prioridade
Matéria de Valmir Santos, originalmente publicada na Folha de São Paulo do dia 28 de julho de 2005
O secretário municipal da Cultura de São Paulo, Carlos Augusto Calil, 54, rebateu as críticas do ex-titular da pasta Celso Frateschi. Disse que o orçamento do Centro Cultural São Paulo chegou a R$ 8,5 milhões por meio de emendas orçamentárias, com apoio da Câmara Municipal.
Em 2004, porém, metade do orçamento teria sido congelada, "com agravante da constrangedora dívida deixada, no valor de R$ 1,4 milhão, de um total de R$ 20 milhões, que só estamos saldando agora".
"Sou grato à gestão anterior por nos ter permitido promover a revitalização do CCSP, que contou com apoio privado. Os recursos extra-orçamentários passaram de R$ 93 mil em 2001 para R$ 1,05 milhão em 2004. O CCSP não foi prioridade da gestão passada", diz ele.
Segundo Calil, o Museu da Cidade (que ocuparia o Palácio das Indústrias) teve recursos da Petrobras para sua implantação, mas não lhe foram previstos orçamento regular e funcionários, o que considera "irresponsabilidade". "Em situação semelhante, foram criados pela gestão anterior a Galeria Olido e o Museu Afro Brasil."
O secretário diz que promoverá atividades nos Centros Educacionais Unificados.
Segundo ele, o projeto de reforma da biblioteca Mário de Andrade estava incompleto. "Não foram previstas a restauração do edifício e a reforma da estrutura da biblioteca, hoje bastante comprometida, com graves problemas de infiltrações nas lajes."
Enviado por Oliver Cauã Cauê olivercauacaue@hotmail.com
Frateschi mergulha em dilemas éticos, por Valmir Santos
Frateschi mergulha em dilemas éticos
Entrevista de Valmir Santos, originalmente publicada na Folha de São Paulo do dia 28 de julho de 2005
Ex-secretário municipal da Cultura estréia no dia 4 peça baseada em Dostoiévski e comenta crise do PT e gestão Serra
Três dias depois do final da gestão do PT na Prefeitura de São Paulo (2001-2004), o ator e ex-secretário da Cultura Celso Frateschi já mergulhava na adaptação teatral de um conto do russo Fiodor Dostoiéski (1821-1881), "Sonho de um Homem Ridículo".
É a história algo surrealista de um sujeito ensimesmado, às turras com a autoconsciência do ridículo que o assombra desde a infância. No espetáculo solo, Frateschi, 53, transformou o protagonista em funcionário público, como que sublinhando a lida com o poder que ele mesmo experimentou. Daí a recrudescente atualidade do texto em meio à crise que abala o PT e o governo Lula.
Na viagem onírica que o projeta para outro planeta, o homem dostoievskiano parece ir ao longe para melhor enxergar a Terra, a si e a seus semelhantes, num processo de dor e tristeza, busca de uma verdade possível no reino das aparências éticas.
A seguir, trechos da entrevista com Frateschi, 35 anos de teatro.
Folha - Você saiu da secretaria, converteu o protagonista em funcionário público. O projeto tem a ver com sua experiência com o poder?
Celso Frateschi - Sem dúvida nenhuma. O bom do teatro é isso: é uma profunda reflexão sobre a vida. Eu não imaginava que fosse acontecer o que está acontecendo dentro do PT. E o texto resultou de uma violência, de uma contundência, de uma contemporaneidade, do ponto de vista ético -que é questão básica em Dostoiévski, que nem de longe pensei que ia ter essa força que tem.
Folha - Como vê a atual crise política do país?
Frateschi - O destino da história do PT está colocado numa encruzilhada que pode ser fundamental para o país. Torço para que se punam os culpados. O medo é que se perca o foco nessa briga contra a corrupção. Claro que fico triste e preocupado em ver gente histórica do partido, como o [José] Genoino, que não teve nada pessoalmente, mas fez uma ação que gerou uma confusão do cão.
É por isso que "Horácio" vem a calhar [texto do alemão Heiner Muller, outro solo do ator]. Horácio vence a guerra por Roma e, entusiasmado, acaba matando também a irmã, noiva do homem com quem duelou.
Ele é julgado pelos romanos, que sabiamente lhe dão o louro, como herói, mas também o machado, como assassino. É uma crueldade que a história demanda. Tem de ser assim. São dirigentes de cerca de 800 mil filiados, de 50 milhões de pessoas que acreditaram e votaram no presidente.
Folha - Depois que deixou a secretaria, teve encontros com Emanoel Araújo ou Carlos Augusto Calil [respectivamente, o ex e o atual secretário da Cultura]?
Frateschi - Com o Emanoel tive vários, antes de ele assumir. Foi surpreendente a virada de discurso dele, até uma reação patética, mas ele já pediu desculpas públicas, até lhe mandei flores. Acho que foi vítima do [José] Serra, mal informado pelo gabinete. Tenho o maior respeito pelo Emanoel.
Com o Calil, surpreendeu-me muito, de forma negativa. Ele participou do governo, não precisava ter invertido tanto, principalmente no que diz respeito à [biblioteca] Mário de Andrade. Usou números errados. Ele sabe que o que conseguiu fazer no Centro Cultural São Paulo, por exemplo, foi porque o orçamento pulou de R$ 2 milhões para R$ 8 milhões, e fui eu quem fiz isso, não foi à toa. Não tive contato com ele nem quero.
Folha - Sua atuação administrativa foi marcada pela reafirmação de políticas públicas. Essa filosofia pode ser disseminada?
Frateschi - Deixei uma contribuição para ser analisada positiva ou negativamente por qualquer governo. Hoje, você tem um governo [na cidade de São Paulo] que se pauta para ser contrário ao governo anterior.
Infelizmente, os programas de cultura não foram votados, sempre ficam na sombra dos outros programas. Vejo com muita tristeza alguns abandonos, como o Museu da Cidade, que tem verba depositada no Instituto Florestan Fernandes, cerca de R$ 6 milhões, R$ 7 milhões, e dinheiro do BID para ser reformado, R$ 15 milhões ou R$ 20 milhões, e todas as ações são de pé no freio, de não se tocar o Museu da Cidade por ser uma marca do governo anterior. A própria Galeria Olido, que tinha dinheiro de patrocinador, e não da prefeitura.
E a maior tristeza de todas, de chorar, que é o abandono dos CEUs, uma visão pedagógica que compreendia cultura, esporte e educação. Eles descaracterizaram, malharam tanto, que a primeira ação foi tirar a responsabilidade da ação cultural da Secretaria da Cultura. Isso é jogar fora os 21 centros culturais. E isso com dinheiro constitucional, não tem como falar que não tem. Com a Mário de Andrade foi a mesma coisa, todo o processo de reativação descaracterizou o trabalho já feito. O problema é quando o debate não atinge o nível propositivo e sim o da desqualificação.
Enviado por Oliver Cauã Cauê olivercauacaue@hotmail.com
Falta de verba ameaça museu afro, por Fabio Cypriano
Falta de verba ameaça museu afro
Matéria de Fabio Cypriano, originalmente publicada na Folha de São Paulo do dia 28 de julho de 2005
Secretário de Cultura afirma que instituição "contraria a Constituição"
Aberto no dia 23 de outubro do ano passado, no parque Ibirapuera, uma das últimas inaugurações da gestão Marta Suplicy, o Museu Afro Brasil, pode encerrar suas atividades antes de completar um ano. Com patrocínio da Petrobras de cerca de R$ 4,2 milhões, a instituição tem apoio garantido apenas até o próximo domingo.
Segundo Carlos Augusto Calil, secretário municipal de Cultura, em nota divulgada ontem, o museu foi criado "contrariando o que determina a Constituição Federal" e "sem que fossem garantidos à instituição recursos orçamentários ou quadro de funcionários, necessários à sua continuidade e estabilidade".
O secretário de Cultura, ainda segundo a nota, afirma que há três alternativas para a preservação da instituição: a criação do museu, em nível municipal, mediante lei a ser enviada à Câmara de Vereadores, destinando-lhe dotação orçamentária e quadro de pessoal, tornando-se assim um museu municipal; sua criação como uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) ou, ainda, como uma fundação de direito privado a ser instituída a partir da vontade de seu curador, em ambos os casos independente do poder e das verbas municipais.
Em qualquer um dos casos, a solução para o impasse não se resolve a curto prazo, situação que inviabiliza a manutenção de 47 funcionários no museu. Como solução emergencial, no entanto, Calil diz contar com "recursos remanescentes do patrocínio da Petrobras [que] serão aplicados para mantê-lo vivo e bem aberto".
Entretanto, de acordo com Paulo Cauhy, do Instituto Florestan Fernandes, organização responsável pela implantação do museu, "a verba remanescente está empenhada em projetos em curso e, para ser usada na manutenção da instituição, eles precisam ser cancelados e a alteração aprovada pelo Ministério da Cultura e pela própria Petrobras". Caso isso ocorra, estariam disponíveis R$ 115 mil.
"Com esse dinheiro conseguimos funcionar por, no máximo, mais dois meses", diz Emanoel Araujo, criador e diretor do museu, que não vê com bons olhos a proposta da transformação do museu em fundação ou Oscip. "Esse museu trata de um assunto que deveria ser parte fundamental de uma política pública, pois é um tema relevante da nossa história e esse é um país onde essa questão sempre é adiada. Claro que o museu está baseado numa coleção que é minha, mas ele é mais do que isso", afirma Araujo. Mesmo assim, o curador diz que vai resistir: "Só sairemos como Antonio Conselheiro em Canudos: abatidos por canhão".
Enviado por Oliver Cauã Cauê olivercauacaue@hotmail.com
