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Como atiçar a brasa

 


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agosto 31, 2017

Para Aracy Amaral, artistas contemporâneos sofrem ‘dificuldade autoral’ por Paulo Henrique Pompermaier, Cult

Para Aracy Amaral, artistas contemporâneos sofrem ‘dificuldade autoral’

Matéria de Paulo Henrique Pompermaier originalmente publicada na revista Cult em 23 de agosto de 2017.

Aracy Amaral não vê nada que a “fascine” na arte contemporânea brasileira. Por isso, a crítica e curadora de arte passou dois anos sem organizar novas exposições – foram mais de 50 ao longo de seus 87 anos.

Na última, a 34º edição do Panorama da Arte Brasileira do MAM-SP, trouxe a arte pré-histórica do Brasil em diálogo com artistas contemporâneos, que na opinião de Amaral andam “sem rumo”.

“Uma tendência hoje é a arte recorrer cada vez mais ao vídeo, à fotografia, à apropriação de outras imagens, e não à criatividade. É uma edição de coisas já vistas, seja nos meios de comunicação de massa, na televisão ou no cinema. Sinto uma dificuldade autoral muito forte”, afirma.

Essa “crise”, ela diz, estaria em alguma medida relacionada a um sentimento de perplexidade dos artistas diante do atual cenário político, econômico e social brasileiro, condensado dia após dia em “avalanches informacionais que nos sepultam”.

“Há tantos níveis de informação, tantas fontes diversas e contraditórias que nos rodeiam. Deve ser difícil para um jovem artista saber que caminhos tomar, quais influências adotar. Tanto já foi dito, tanto já foi explorado, que imagino que um jovem fique perdido, a não ser que tenha uma vida interior muito intensa”.

Vem daí seu interesse em voltar os olhos para manifestações artísticas populares, que em sua opinião são capazes de resistir a crises e rupturas sem se tornarem repetitivas.

É o caso, por exemplo, de três ceramistas guaranis paraguaias, cujas obras (são 114 ao todo) serão expostas na Galeria Millan a partir de 2 de setembro na mostra Das mãos e do barro, cuja curadoria é assinada por Amaral.

“Você olha para essas mulheres de 50 e poucos anos e elas têm uma coerência de percurso. Não se sentem mexidas por nenhum baque emocional no entorno delas que as fizeram subitamente mudar de rumo. Essa legitimidade eu acho respeitável.”

A curadora conheceu o trabalho de Julia Isídrez, Ediltrudis Noguera e Carolina Noguera enquanto fazia a curadoria da Trienal do Chile, em 2009. As artistas conservam uma técnica de esculpir o barro do período pré-colonial, transmitida de mãe para filha ao longo de gerações.

“Espero que essa exposição faça as pessoas refletirem sobre o valor do trabalho manual, da mão, e não apenas do cérebro e nem apenas da informação recebida por outras vias que não a tradição”, diz.

Uma das mais importantes críticas de arte do país e professora-titular de História da Arte da FAU-USP, Amaral se debruçou principalmente sobre a obra de Tarsila do Amaral e dos modernistas da Semana de 1922. Além da curadoria de Das mãos e do barro, ela também é a homenageada na Ocupação do Itaú Cultural, que vai até domingo (27).

Das mãos e do barro, Galeria Millan, São Paulo, SP - 04/09/2017 a 30/09/2017

Posted by Patricia Canetti at 4:45 AM

agosto 21, 2017

Marketing não deveria comandar Lei Rouanet, diz diretor do Sesc por Raul Juste Lores, Folha de S. Paulo

Marketing não deveria comandar Lei Rouanet, diz diretor do Sesc

Entrevista de Raul Juste Lores originalmente publicada no jornal Folha de São Paulo em 21 de agosto de 2017.

Com uma unidade recém-inaugurada no centro paulistano, na rua 24 de Maio, e várias outras a caminho, o diretor-regional do Sesc-São Paulo, o ex-seminarista e gestor cultural Danilo Santos de Miranda, 74, já se acostumou com o apelido de "verdadeiro ministro da Cultura do Brasil".

O orçamento da instituição neste ano é de R$ 2,3 bilhões (parte da receita vem da cobrança sobre folhas de pagamento; veja quadro abaixo). Já a pasta em Brasília teria quase R$ 2,7 bilhões (não fosse o congelamento de verbas).

No cargo desde 1984, Santos de Miranda afirma à Folha que "trabalha pensando como se nunca fosse sair daqui", ao ser questionado sobre uma eventual aposentadoria.

Diz que nunca foi convidado para ser ministro, que não teria "entusiasmo" pelo cargo no quadro atual e que a cultura não deve ser só administradora de artes e patrimônio.

Ele também defende mudanças na Lei Rouanet e critica a influência dos departamentos de marketing das empresas na destinação de verbas. Em 2016, esse que é o principal mecanismo de fomento à cultura do país injetou cerca de R$ 1,1 bilhão no setor.

"Seria melhor que houvesse um fundo com parte dos recursos dessas leis a ser investidos por decisão do administrador público, com critérios, mais equânime", afirma.

*

Folha - O sr. já declarou que nunca foi convidado para ser ministro da Cultura. Gostaria?

Danilo Miranda - Nunca, nunca. Fui cogitado várias vezes, mas não por quem tem o poder de convidar [risos]. Toda ação é política, mas nunca me envolvi na política partidária. Só iria no caso de um projeto mais amplo, de cultura que representasse crescimento e desenvolvimento na administração pública. Hoje, a cultura é vista como administração de artes e patrimônio.

O que precisaria mudar?

Precisa ter papel mais relevante, na educação, nos planos econômicos. Jacques Lang, quando foi convidado pelo então presidente François Mitterrand a ser ministro da Cultura, respondeu: "só aceito se for o primeiro-ministro da Cultura, para tudo".

A Cultura tem que estar presente na discussão sobre presídios, drogas, hospitais. Já compartilhou um único ministério com a Educação, hoje tem seu próprio ministério, o que acho bom, mas tem que trabalhar com Educação também. Nesse quadro atual, não teria nenhum entusiasmo.

Desde o século retrasado, governos se preocupam mais com o ensino superior, onde só chega uma minoria, que com o ensino fundamental. Na política cultural, não acontece o mesmo, os impostos pagam a cultura da elite?

Para mim, a cultura deveria trabalhar mais no campo do fomento do que na realização. Não é distribuir dinheiro para que os artistas realizem seus projetos. É pequeno. A lei de incentivo precisa ser aprimorada e desenvolvida. A indústria cultural não pode prevalecer sobre o interesse público. Só se tivesse relevância.

Como fazer isso?

As leis de incentivo distribuem recursos atendendo também a interesses empresariais. Acho que a balança com os dois pratos deveria pender mais para o interesse público. Na prática, não acontece, são os departamentos de marketing que têm mais poder. Fica tudo concentrado no eixo Rio-São Paulo.

Seria melhor que houvesse um fundo com parte dos recursos dessas leis a ser investidos por decisão do administrador público, com critérios, mais equânime.

A Cultura sofreu cortes nos mandatos de Ana de Hollanda, Marta Suplicy e Juca Ferreira, mas parece que a classe artística só se mobilizou contra ministros da pasta no governo Temer. Houve partidarização?

Hoje, os cortes são generalizados. Antes, eu achava que o problema dos recursos para a cultura era de má gestão. Hoje, falta tudo.

O sr. está há 33 anos no cargo. Não pensa em se aposentar?

Já deveria pensar, mas não penso. Gosto de trabalhar nas tensões e contradições. Penso que posso ser demitido hoje pelo presidente da Federação do Comércio [Abram Szajman], que tem essa prerrogativa. Trabalho pensando como se nunca fosse sair daqui. Nas novas unidades, no dia a dia, na programação. Penso que ainda tenho muita energia.

Sucessões têm sido dramáticas no Brasil, dos sucessores se voltando contra quem os indicou, ou dos líderes que não formaram ninguém. O sr. pensa nisso?

O bom gestor cuida da ação atual e prepara pessoas em seu entorno que possam assumir seu papel. Penso estar fazendo isso. Vários poderiam me substituir. Mas sou realista. Não vou decidir quem vai me suceder. Provavelmente, será quem suceder o Szajman. Mas temos muitos quadros preparados aqui.

No momento de crise, há várias vozes pedindo o corte da contribuição compulsória ao chamado "sistema S", do qual o Sesc faz parte. Daria para mudar esse imposto?

Mataria essas instituições. Não dá para sobreviver só com a contribuição dos usuários. Lazer, saúde, cultura e educação são direitos essenciais que precisam ser mantidos.

É um modelo exemplar e admirado em todo o mundo. Há problemas, sim, seres humanos erram, até na Igreja. Mas, no meio de escândalos diários, é raríssimo algum deles atingir o sistema S. Não é uma caixa preta, como dizem.

O empresariado reunido propôs ao Estado esse sistema. Foi uma proposta voluntária, ainda no governo Vargas, com o Senai. Depois, com o Dutra, surgem Sesi, Senac e Sesc.

Os próprios empresários sugeriram que fosse uma contribuição compulsória, de 1,5% da folha de pagamento dos setores de comércio e serviços, para o bem-estar do trabalhador.

No resto do Brasil, porém, o Sesc não se tornou a grande referência cultural que é em São Paulo. É problema de gestão?

O mais relevante em muitos Estados ainda é o que o Sesc faz. Mas a mídia está muito concentrada aqui em São Paulo, não é de hoje, então só o que acontece aqui repercute.

E aqui a arrecadação é maior, é normal que façamos mais. Mas nos antigos territórios, Amapá, Rondônia, os únicos teatros à época eram os do Sesc.

Por que a construção da unidade na 24 de Maio demorou tanto? Foi anunciada em 2002.

A aprovação da obra do prédio foi complicada e lenta. Tiramos a cúpula, construímos as lajes, que chamamos de praças superpostas.

Tem as exigências de qualquer construção no centro de São Paulo. Há muitos cuidados, de bombeiros à prefeitura paulistana, que são aprimorados, mas são mais lentos do que deveriam.

A decisão de colocar a piscina no alto também. É muito pesada. Tivemos que reforçar as fundações, criar quatro colunas muito largas, o prédio teve que afundar mais, o que abalava o entorno, de prédios mais antigos. Isso retardou. Tivemos que fazer estudos de viabilidade.

De quem foi a ideia da piscina?

Foi nossa, do Paulinho [o arquiteto Paulo Mendes da Rocha] e minha. A obra mesmo [que consumiu R$ 120 milhões] só começou em 2009, e é difícil, não entra caminhão pesado no calçadão, tivemos que tirar muito entulho, fazer as lajes no vazio só à noite. A construtora que venceu a concorrência teve problemas de caixa. Só dá para abrir quando está perfeito.

Alguns curadores queriam ocupar o prédio como estava, pré-reforma, essas ocupações dos anos 1960, que tanta gente gosta. Eu respeito, mas uma entidade que vive da contribuição compulsória das empresas precisa fazer um projeto acabado, e atrair muita gente.

Mais uma vez, dizem que um centro cultural e esportivo, como o novo Sesc, vai "revitalizar" a área. Mas Praça das Artes, Sala São Paulo e Pinacoteca pouco mudaram seus entornos. Dezenas de prédios vazios, e um deserto à noite e nos finais de semana. O que ainda falta?

Acho que há uma rede boa de equipamentos culturais, como esses que você citou, e também o Centro Cultural Banco do Brasil. Têm ótima programação e, de fato, melhoram o entorno.

Veja o Sesc Belenzinho. Saímos da Paulista e fomos para a zona leste, a maior da cidade, e não tão bem servida. Houve uma revisão da vizinhança. A pizzaria vizinha melhorou, a oficina mecânica mudou a fachada, as pessoas começaram a varrer as calçadas, a do cemitério era depósito de dejetos. Na 24 de Maio, um minimercado já foi aberto.

Mas o temor quanto à segurança e as ruas desertas a partir de um horário continuam.

Há um temor nas ações noturnas, as ruas ainda ficam vazias nos domingos e à noite. Temos que oferecer mais vigilância, mais segurança para quem vem. Tem que ter mais gente morando, mais lazer de qualidade, e não só no plano vulgar. Temos que nos perguntar porque ainda fica vazio fora do horário comercial.

Como diz o Paulo Mendes da Rocha, o medo induz o fascismo. Temos que resistir.

Posted by Patricia Canetti at 6:15 PM

Semana da Arte tem êxito e terá nova edição em São Paulo por Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

Semana da Arte tem êxito e terá nova edição em São Paulo

Matéria de Antonio Gonçalves Filho originalmente publicada no jornal O Estado de S.Paulo em 21 de agosto de 2017.

Galerias vendem bem na feira que acabou ontem e se descolou da crise

A feira em torno da qual foi organizada a Semana de Arte, que terminou ontem, no hotel Unique, funcionou como uma espécie de termômetro do mercado que, se não está propriamente aquecido, ao menos dá sinais de se descolar da grave crise econômica. Foram negociadas obras de arte de alto valor pelas 39 galerias convidadas pelo comitê curatorial da feira, formado pelos galeristas Luisa Strina e Thiago Gomide, o curador Ricardo Sardenberg e o empresário cultural Emilio Kalil. O êxito do evento pode ser medido pelo resultado comercial da própria galeria de Luisa Strina, que, segundo a marchande, teve de repor as obras do artista Marcius Galan já na sexta, segundo dia de funcionamento da feira, tendo vendido todos os trabalhos expostos em seu estande no dia da abertura.

Na mesma sexta-feira, 18, o marchand André Millan, da galeria que leva o nome de sua família, havia negociado duas peças da série Lizard, do escultor pernambucano Tunga (1952-2016) por preços módicos (US$ 100 mil e US$ 250 mil) se comparados às cotações de outras obras raras presentes na feira – entre elas esculturas nunca vistas (estavam numa coleção particular) da artista neoconcreta mineira Lygia Clark (1920-1988), à venda na Galeria Almeida e Dale (preços variando entre US$ 2 milhões e US$ 20 milhões).

A diferença fundamental entre essa pequena feira e outras internacionais de grande porte é que ela funciona com uma espécie de curadoria museológica, segundo a percepção de alguns visitantes e dos próprios galeristas. De fato, a disposição e o tamanho dos estandes, em geral ocupados por obras de um mesmo artista, facilitava a aproximação entre eles, permitindo um interessante diálogo. Foi o caso, por exemplo, de Antonio Dias, na Galeria Nara Roesler, e Amilcar de Castro (1920-2002), na Galeria Marília Razuk. Ou do venezuelano Jesús Soto (1923-2005) e o argentino León Ferrari (1920-2013) ambos ocupando o estande da Dan Galeria – uma associação formal que representou um achado do galerista Peter Cohn.

“O visitante, numa feira pequena, tem uma leitura mais coerente do próprio artista”, analisa Cohn, considerando que a atenção dos frequentadores não fica dispersa como nas megafeiras. “Organizar um estande com obras do mesmo artista é mais difícil”, admite, mas a concorrência entre as galerias diminui, pois os colecionadores já sabem o que buscar em cada uma delas. Assim, se o interesse deles convergia para o modernismo, os visitantes podiam encontrar obras raras de Flávio de Carvalho na Galeria Frente. Ou de Di Cavalcanti na galeria uruguaia Sur, que tinha à venda uma tela de grandes dimensões do pintor, produzida em 1952 para a fábrica de colchões Probel, que remete à estética do muralismo mexicano. O marchand Martin Castillo, proprietário da galeria Sur, não revelou o preço da pintura, mas ele deve girar em torno de R$ 4 milhões.

Os contemporâneos não ficaram muito distantes desse patamar. As obras mais caras de Antonio Dias, representado por trabalhos dos anos 1970 e 1980 na galeria Nara Roesler, custavam em torno de R$ 2 milhões. Uma escultura de Amilcar de Castro era oferecida pela galerista Marília Razuk por preço equivalente ao da tela de Di Cavalcanti. “Ainda não fechamos negócio, mas certamente ela será vendida”, diz ela.

Como é usual, muitas vendas são realizadas após o término das feiras. O colecionador, cujo perfil foi renovado com a entrada de jovens empresários no mercado, segundo ela, aproveita a feira para ver e decidir depois. “O público é basicamente o mesmo de outras feiras, mas, por ser pequena, vêm só os mais focados”, observa. “Não tem curiosos’, conclui.

A despeito de ser pequena, a feira da Semana de Arte atraiu 1.600 visitantes só no primeiro dia. “Tivemos até a visita de um joalheiro que, curiosamente, pediu a um curador para dar uma aula de arte aos seus vendedores”, conta a galerista Luisa Strina, que promete nova edição da feira sem ampliar seu tamanho. “Ela tem uma dimensão humana, não deixa o visitante exausto”, avalia um dos curadores, Emilio Kalil. “A feira veio para ficar, é um modelo produtivo para as galerias”, diz Ana Dale, sócia da Galeria Almeida e Dale.

Posted by Patricia Canetti at 5:56 PM

agosto 17, 2017

Dois novos centros culturais arranham o céu de São Paulo por Gustavo Simon, Marcelo Pliger e Silas Martí, Folha de S. Paulo

TERRA DE GIGANTES
Em integração com o entorno e com galerias na vertical, um Sesc no coração de SP e a torre de vidro do Instituto Moreira Salles, na Paulista, são os novos centros culturais da cidade

Reportagem de Gustavo Simon, Marcelo Pliger e Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 16 de agosto de 2017.

Recomendamos para esta super reportagem da Folha, após a leitura do texto, o mergulho nas fotografias, vídeo e simulações no original

INTRODUÇÃO
Dois novos centros culturais arranham o céu de São Paul

No coração da cidade, a poucos metros do Theatro Municipal, Paulo Mendes da Rocha acaba de desenhar o Sesc 24 de Maio, prédio com pele de vidro que se tornou um mirante do skyline histórico do centro. O espaço abre ao público no próximo sábado (19).

Na Paulista, a firma Andrade Morettin Arquitetos revisita o repertório de marcos da avenida mais famosa da metrópole, entre eles o Conjunto Nacional e o Masp, para criar uma torre envidraçada em integração com os espaços ao seu redor. A inauguração da sede está prevista para a segunda quinzena de setembro.

São lugares para a cultura que pulsam com o movimento da maior cidade do continente.

SESC 24 DE MAIO
Paulo Mendes da Rocha fez do Sesc um mirante do fluxo do centro de SP por Silas Martí

“Isso tudo já estava aqui”, diz Paulo Mendes da Rocha, num dos andares mais altos do novo Sesc 24 de Maio. “Era só dar uma arrumadinha.”

No caso, derrubar uma série de estruturas antigas, escavar o subsolo para construir um teatro, fincar quatro enormes pilares para sustentar uma piscina na cobertura, criar uma rede de rampas em zigue-zague para a circulação e depois selar tudo com uma pele de vidro.

Quem olha agora para o novíssimo centro cultural no coração de São Paulo não reconhece mais o prédio abandonado que estava ali há quase 20 anos e onde antes funcionou a antiga loja de departamentos Mesbla.

Mas a metamorfose radical levou tempo. Depois de arrematar o prédio num leilão, em 2001, o Sesc escalou Mendes da Rocha, vencedor do Pritzker, o maior prêmio mundial da arquitetura, para adaptar os espaços e criar uma sucessão de galerias de arte, salas de aula e ginástica, biblioteca, café e restaurante. É como se replicasse toda a força das ruas que se desenrolam lá fora numa pilha de 13 andares.

Oito anos depois, as obras, que consumiram R$ 120 milhões, começaram a sair do papel e acabaram levando mais oito anos para chegar à forma final. Atrasos com empreiteiras que se viram na mira da operação Lava Jato e dificuldades na escavação do subsolo e retirada de entulho empurraram para a frente a conclusão dos trabalhos.

Mas também permitiram um conhecimento profundo do espaço e dos arredores. Mendes da Rocha, que mantém seu escritório perto dali, no Instituto de Arquitetos do Brasil, e desenhou a marquise da praça do Patriarca do outro lado do viaduto do Chá, fez do Sesc 24 de Maio uma espécie de mirante estratégico dos fluxos intensos da região.

Nesse sentido, o arquiteto, que trabalhou ao lado de Marta Moreira, da firma MMBB, tentou levar para dentro de sua torre de concreto a sensação de flanar pelo centro –o Theatro Municipal e outros marcos da arquitetura paulistana, como os edifícios Copan e Itália, estão a poucos metros dali e podem ser vistos através da fachada de vidro.

O térreo, aliás, é aberto nas laterais e se transforma num atalho entre as ruas 24 de Maio e Dom José de Barros, que se cruzam ali. É como se levasse para o lado de dentro uma extensão da calçada num dos pontos mais fervilhantes da metrópole.

Mendes da Rocha também deslocou o maquinário e outras estruturas de apoio do prédio para uma torre de 20 andares ao lado, mantendo a fluidez entre as salas e galerias da torre principal.

Essa sensação de movimento desimpedido ainda continha rampa acima. Quem sobe rumo à cobertura vai avistando amplos espaços abertos, além de um terraço no meio do caminho, que deixa ver o vaivém dos corredores e escadas das galerias comerciais ao redor.

SESC, O PROJETO
Arquiteto pediu compra de edifício vizinho para abrigar parte técnica por Marcelo Pliger

Na década de 1990, o prédio que agora abriga o Sesc 24 de Maio era usado pela loja de departamentos Mesbla. A construção já havia sido ampliada anteriormente e possuía um fosso interno que ventilava os andares e iluminava a loja do térreo por meio de uma cúpula.

Os arquitetos decidiram então demolir as escadas e os banheiros existentes, além da cúpula central. O novo uso do edifício exigiria que essas funções fossem redimensionadas. As paredes que envolviam o prédio também foram retiradas.

No espaço interno do prédio, em formato de “U”, foram erguidos quatro pilares para sustentar uma piscina de 25x25 m acima da cobertura original do edifício. A área entre esses quatro pilares permitiu escavar o solo para construir um teatro de 245 lugares com entrada independente.

Para reduzir o uso dos elevadores, os andares foram ligados por rampas. Uma grande parede de vidro permite a entrada de luz natural, o que torna a caminhada entre os andares mais agradável. O térreo terá aberturas para as duas ruas.

O arquiteto do projeto, Paulo Mendes da Rocha, pediu ao Sesc que comprasse também um pequeno prédio vizinho: “O edifício maior será o nosso grande barco, mas o pequeno será o barquinho que conduzirá o barco ao porto”.

Ali, uma torre com depósitos, vestiários e equipamentos liberou o edifício principal para uso quase que exclusivo dos usuários do Sesc.

Durante a obra, os funcionários criaram um tripé de metal para sustentar mangueiras. Mendes da Rocha decidiu se inspirar na estrutura para desenhar os móveis da nova unidade.

INSTITUTO MOREIRA SALLES
Do IMS, a Paulista vira abstração filtrada pelos vidros da fachada por Silas Martí

Numa ponta da Paulista, entre duas estações de metrô, o novo Instituto Moreira Salles parece uma continuação da avenida para quem anda pela calçada.

Duas escadas rolantes na entrada viram uma extensão do movimento do lado de fora, levando a uma praça suspensa com vista panorâmica do skyline ao redor.

Sua fachada translúcida e o piso de pedras portuguesas do saguão elevado parecem reforçar a estratégia da firma Andrade Morettin Arquitetos de fazer dessa mais nova torre cultural da cidade uma extensão de seu entorno.

Enquanto a calçada que avança para dentro do volume construído ecoa o Conjunto Nacional e a relação entre os andares lembra o térreo da torre da Fiesp, a caixa de vidro com vista para a avenida repisa as táticas do Masp, obra-prima de Lina Bo Bardi.

Essas semelhanças só aumentam o impacto que o prédio, mesmo se ainda em construção, já exerce sobre seu entorno. Sua estrutura levíssima, de aço e concreto, sustenta um paredão de vidro que deixa à mostra um grande bloco vermelho lá dentro.

O volume, que abriga as três galerias de arte no alto do novo centro cultural, vira um corpo etéreo quando visto de fora -é o coração do museu que tem ainda ateliês na cobertura e uma biblioteca de fotolivros, auditório, salas de aula e um restaurante embaixo.

“Ele se alinha com a vida na Paulista, onde as pessoas se encontram”, diz Marcelo Morettin, metade da dupla que desenhou o prédio. “São Paulo pode ser muito hostil, não tem descanso, então aqui você reconquista a escala humana num lugar denso. Tem a mesma proposta de multiplicação do espaço público.” Ou de “horizontalizar o espaço vertical”, nas palavras de Lorenzo Mammì, o diretor artístico desse novo IMS.

Orçado em R$ 80 milhões e construído ao longo dos últimos quatro anos, o lugar deve se tornar agora a maior vitrine de um acervo com mais de 2 milhões de imagens, engrossando um corredor cultural com uma série de outras instituições de peso.

Três mostras –do americano Christian Marclay, do suíço Robert Frank, além de uma coletiva com artistas brasileiros, entre eles Bárbara Wagner, Jonathas de Andrade e Sofia Borges– vão ocupar suas galerias quando o espaço abrir as portas em setembro –a inauguração antes marcada para 21 de agosto foi adiada por um atraso nas obras.

Lá dentro, no entanto, as exposições ocupam espaços reservados, fechados à circulação que deve tomar conta das escadarias do prédio. Vista no caminho, entre uma exposição e outra, aliás, a Paulista vira uma abstração ruidosa e colorida filtrada pela casca de vidro da fachada.

“O prédio se torna às vezes mais vibrante”, diz Morettin. ”À noite, ele fica transparente e vira uma lanterna. Acaba criando uma atmosfera.”

IMS, O PROJETO
‘Vão’ no térreo e recepção elevada convidam visitantes a circular por Marcelo Pliger

A principal estratégia do projeto da nova sede do Instituto Moreira Salles em São Paulo foi transferir a tradicional recepção do térreo para o quinto andar, 15 metros acima do nível da avenida Paulista. O usuário que entra no edifício sobe imediatamente para esse espaço por meio de uma escada rolante.

Da recepção elevada, o público é distribuído para o auditório e a biblioteca de fotolivros, no andar de baixo, e para as salas de exposição, logo acima. No último andar do prédio, chamado de estúdio, serão dadas oficinas e cursos.

Elevadores e escadas de incêndio foram posicionados em um volume de concreto que percorre de cima a baixo a face noroeste do prédio e sustenta a caixa d’água. A reserva técnica e o estacionamento estarão localizados nos dois andares de subsolo.

Exceto pelo volume de concreto, toda a estrutura foi construída com aço. Os arquitetos aproveitaram a flexibilidade do material para criar aberturas entre os diferentes espaços da obra.

A fachada foi revestida por vidro translúcido. De dentro para fora, revela um panorama desfocado da cidade. De fora para dentro, permite ver as silhuetas dos usuários em movimento, emoldurados pelos pilares e vigas de aço.

O IMS optou por realizar uma concorrência fechada entre seis escritórios nacionais de arquitetura. Além dos vencedores Andrade Morettin, participaram do concurso spbr arquitetos, Arquitetos Associados, Bernardes Jacobsen, Studio MK27 e UNA Arquitetos.

A escolha foi feita por um júri presidido por Pedro Moreira Salles e composto por Karen Stein (editora, jurada do Prêmio Pritzker), Richard Koshalek (então diretor do museu Hirshhorn, de Washington, e membro do comitê que selecionou o projeto da Tate Modern de Londres), Jean-Louis Cohen (professor de história da arquitetura na New York University), Ricardo Legorreta (arquiteto mexicano morto em 2011, ex-jurado do prêmio Pritzker), André Corrêa do Lago (diplomata e crítico de arquitetura), Fernando Serapião (crítico de arquitetura e editor da revista Monolito) e Flávio Pinheiro (superintendente-executivo do IMS).

Reportagem: Silas Martí, Gustavo Simon e Marcelo Pliger / Imagens: Eduardo Knapp e Giovanni Bello / infografias e maquetes virtuais: Marcelo Pliger e Simon Ducroquet / Edição de vídeo: Giovanni Bello / Edição de fotografia: Daigo Oliva / Design e desenvolvimento: Angelo Dias, Rogério Pilker, Rubens Alencar e Thiago Almeida / Coordenação de arte: Daigo Oliva e Kleber Bonjoan

Posted by Patricia Canetti at 11:15 AM

agosto 15, 2017

Cindy Sherman abre seu Instagram. Qual é o lugar dessa rede social na arte por André Cabette Fábio, Nexo Jornal

Cindy Sherman abre seu Instagram. Qual é o lugar dessa rede social na arte

Matéria de André Cabette Fábio originalmente publicada no Nexo Jornal em 11 de agosto de 2017.

No início de agosto, a renomada artista visual abriu sua conta pessoal no Instagram para o público. O 'Nexo' conversou com duas pesquisadoras para discutir a plataforma para a arte

Conhecida pelos seus autorretratos conceituais, a artista nova iorquina Cindy Sherman é frequentemente descrita como “pioneira da selfie”. Desde a década de 1970, ela usa o próprio corpo, além de próteses, fantasias, maquiagem e edição, para criar personagens que representam arquétipos sociais, figuras históricas e, em muitos casos, grotescas. O MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York) disponibiliza on-line imagens da retrospectiva da obra da artista, que ocorreu em 2012.

No início de agosto, Sherman abriu para o público sua conta pessoal em uma rede social voltada para a fotografia, e com certa ênfase no autorretrato, o Instagram. Criada em 2010, a rede social permite adicionar filtros digitais a fotos e compartilhá-las. Usuários podem curtir as imagens e seguir e conversar entre si.

A conta de Sherman possui mais de 600 fotos. As mais antigas parecem ser voltadas para seu círculo íntimo, com retratos de viagens, obras de arte em galerias ao redor do mundo, cenários nevados e apresentações musicais. A série mais recente inclui, no entanto, selfies em que Sherman usa maquiagem, poses e distorções digitais em obras que parecem ter sido criadas especialmente para a rede.

Em uma delas, Sherman aparece na cama de um hospital com seu rosto aperfeiçoado com um filtro digital embelezador. Na postagem ela pergunta “estou curada, doutor?”. Em outras, seu rosto distorcido aparece cercado de reproduções caleidoscópicas, interagindo com um papagaio, ou em uma carranca com várias camadas de maquiagem.

Ao contrário de seus trabalhos fotográficos anteriores, em geral cuidadosamente produzidos em estúdio, essas fotos parecem ter sido tiradas em ambientes banais, e a edição, feita com recursos igualmente simples.

Segundo o jornal americano The New York Times, Sherman tem usado aplicativos para celular, como Facetune, que permite mudar o formato do rosto e adicionar traços como rugas e verrugas, e o Perfect365, que permite simular o uso de maquiagens.

Ao postar suas fotos, ela, em certa medida, volta atrás em uma avaliação que fez em 2016 em entrevista ao mesmo jornal americano. Questionada sobre como encarava o compartilhamento de fotos em redes sociais, ela afirmou: “me parece tão vulgar”.

O compartilhamento de fotos, e mesmo selfies, artísticas, como as de Sherman, não é algo exatamente novo e vem sendo executado no Instagram por incontáveis artistas, assim como usuários sem esse tipo de pretensão. Mas o fato de que um nome tão reconhecido em círculos de elite da arte aderiu à prática tem levantado a antiga questão “isso é arte?”, além do debate sobre o papel dessa rede social no mundo artístico.

O Instagram e o comércio artístico

Galerias de arte, como a Galeria Vermelho, em São Paulo, casas de leilão, como Christie's e Sotheby's, assim como colecionadores privados têm contas do Instagram. Muitos as utilizam para promover trabalhos que querem vender, ou para conhecer e entrar em contato com artistas de quem desejam comprar.

Em 2015, o leiloeiro suíço Simon de Pury afirmou: “há muitos artistas, colecionadores ou donos de galerias ou fotógrafos que o usam [o Instagram] muito ativamente, portanto ele permite que você veja previamente exposições que acontecem por todo o mundo, e trabalhos no minuto em que exposições são inauguradas”.

Em alguns casos, obras com valor de dezenas de milhares de dólares são anunciadas e vendidas com o intermédio da plataforma. Em um caso notório, o ator Leonardo DiCaprio teria comprado a obra “Nachlass”, do pintor Jean-Pierre Roy, por US$ 15 mil após tê-la visto no Instagram, segundo o site Creators, ligado ao grupo Vice.

Em novembro de 2016, a rede social começou a testar uma função que permitiria fazer compras dentro da própria plataforma, o que potencializaria e tornaria mais explícito seu uso comercial, mas ela não foi disponibilizada de forma generalizada até o momento.

Independentemente disso, muitos artistas a usam para promover obras que não são necessariamente feitas para a rede social. Em outros casos, postam trabalhos originais nela, como as selfies de Sherman, ou as pinturas da britânica Genieve Figgis, que lançou sua carreira na plataforma. Há também projetos inteiros feitos especificamente para o Instagram, em que artistas criam personas e executam performances que duram meses ou anos a fio.

Em um relato escrito para o site Vice, o artista visual canadense Brad Phillips escreveu: “no Instagram há uma dissolução liberadora das múltiplas barreiras que impediam jovens artistas de se conectarem com galerias e críticos do mundo real”, em um outro trecho, ele escreve que isso seria especialmente valioso para artistas que não se sentiriam inclinados a “jogar o tedioso e caro jogo que o mundo da arte exige —mudar para Nova York, ser efusivamente amigável em um milhão de aberturas de exposições”.

Em janeiro de 2016, o site Artsy, que, além de abrigar leilões, reúne dados sobre mercado da arte e conteúdo artístico, publicou um artigo mostrando como o Instagram vem afetando também o fotojornalismo.

Por exemplo: em 2015, a comunidade negra de Baltimore iniciou protestos contra a morte de um jovem negro sob custódia da polícia. Devin Allen, um morador de 26 anos de idade, fotografou o momento em que um jovem parecia estar fugindo de um enorme grupo de policiais em um protesto, e a postou em seu Instagram.

Sua cobertura viralizou, e a foto foi parar na capa da prestigiosa revista Time, abrindo caminho para a carreira de Allen como fotojornalista. Além disso, a cobertura feita via Instagram de fotógrafos veteranos também vinham trazendo novas perspectivas sobre o cenário de guerras.

As críticas à relação entre Instagram e arte

Apesar da capacidade de conectar tanto artistas prestigiosos quanto pouco conhecidos diretamente a seus públicos, o Instagram também é frequentemente alvo de questionamentos.

Criada em 2010, a plataforma não é uma tela em branco, mas uma empresa, comprada pelo Facebook em 2012 por US$ 1 bilhão. Assim como sua dona, o Instagram ganha dinheiro via anúncios pagos.

Apesar de haver artistas fazendo dinheiro usando a plataforma, há um número muito maior deles que produzem conteúdo de sucesso na rede, mas não conseguem monetizá-lo. Mesmo quando não traz dividendos para quem posta, esse tipo de atividade ajuda a manter o público em transe, acessando o aplicativo de forma constante, e a rede, valiosa.

Em 2016, ela já havia multiplicado em dezenas de vezes seu valor de mercado em comparação com aquilo pago pelo Facebook, e valia entre US$ 25 bilhões e US$ 50 bilhões, segundo reportagem da revista Forbes.

Em 2017, o Instagram possui mais de 600 milhões de usuários diários.

Assim como o Facebook, para manter essa base de usuários mais ampla o possível, ele possui restrições editoriais, e veta conteúdo excessivamente sexual, o que, pelos seus parâmetros, inclui mamilos femininos. Isso faz com que censure conteúdo postado por artistas e outros usuários, influindo diretamente no tipo da arte que abriga.
A arte postada na rede também é afetada por problemas existentes em outras áreas da internet. Phillips destaca que já se surpreendeu ao ver trabalhos seus serem compartilhados sem que ele fosse devidamente creditado, e que conhece artistas que tiveram obras reproduzidas em publicações sem terem sido informados, muito menos monetariamente compensados.

O Nexo pediu que duas pesquisadoras comentassem o papel exercido pelo Instagram no mundo da arte hoje.

Giselle Beiguelman é artista digital, pesquisadora e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo

Priscila Arantes é curadora do Paço das Artes e diretora adjunta do Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, além de professora de história e crítica da arte na pós-graduação da PUC (Pontifícia Universidade Católica)

Qual é o lugar do Instagram na arte hoje?

GISELLE BEIGUELMAN Para os artistas, o Instagram é um lugar não só de compartilhamento, mas também de produção. Muitas obras apropriam-se das rotinas -narrativas e de programação- do Instagram no seu processo de desenvolvimento e realização.

O On Broadway, do Lev Manovich e do Grupo de Pesquisa Software Studies, é certamente, o exemplo mais complexo desse tipo de apropriação. A partir da coleta de imagens postadas no Instagram com a localização da Broadway, foi criado um mapa da avenida que funciona como uma “metáfora visual” da cidade de Nova York.

No outro extremo, cito um projeto bem low tech, o “Livro de Instagram” da Paula Borghi, que posta uma série de redundâncias de outros “canais”, como o WhatsApp e Facebook. São “screen shots” de esperas, adiamentos, anúncios coloridos do Facebook, que quando vistos em conjunto e isolados do seu contexto original, criam um diário irônico de toda uma geração.

PRISCILA ARANTES A arte contemporânea é transdisciplinar, ela rompe a ideia de suportes específicos e se abre para a utilização de novos meios, como o Instagram. Você tem artistas que vão trabalhar além da pintura, da escultura e da performance e incorporam o vídeo, o digital, a fotografia da performance, como ocorre com a net.art [criada na década de 1990 por artistas que usavam a internet como meio].

Acho completamente natural que artistas como a Cindy Sherman utilizem as redes sociais e trabalhem com recursos do Instagram, que também é um espaço de circulação e exposição diferente da galeria ou do museu. Qualquer pessoa conectada e com um perfil pode ver a produção dela no Instagram.

O Instagram é uma empresa. Qual é a implicação disso para o que se produz e se posta nela?

GISELLE BEIGUELMAN O Arthur Scovino é um artista que usa sua conta do Instagram para uma performance fotográfica em rede que ele faz desde os tempos do Flickr. A performance começou como uma forma de afirmar sua natureza selvagem em detrimento a uma certa expectativa de civilidade que se tinha pela sua ascendência italiana.

São séries de retratos dele e de parceiros nus, nas quais ele investe na imagem "erótica-exótica". Diante dos atuais constrangimentos de censura algorítmica, hoje a performance assumiu um viés político.

Não existe arte sem risco e o #Nhanderudson testa cotidianamente os limites da rede. Segue firme e forte com seus mais de 16.000 seguidores. Em outras palavras, as corporações travam, os artistas se infiltram, encontram as rachaduras e expandem as frestas.

PRISCILA ARANTES Se você expõe um trabalho em um museu público e ele envolve um nu, você é obrigado a dar um informe devido à questão da faixa etária, assim como tem censura no cinema. É muito engraçado que o nu de uma pintura de 700 anos não tenha esse tipo de problema, mas se for em uma fotografia ele pode ser visto de outra maneira.

Não estou defendendo, mas quem publica no Instagram sabe que a rede tem implicações para a arte que se coloca lá, que há determinadas limitações, como haveria em outros lugares.

Tem também uma discussão que não é do campo da arte. O acervo de um museu é alimentado com doações, ou com prêmios aquisição [a compra de um trabalho por quem promove um concurso ou exposição artística]. Com o Instagram, por um lado você democratiza o acesso à arte, mas por outro, alimenta o banco de dados de uma empresa com informações, no caso, com a produção artística.

Precisamos pensar que as imagens no Instagram estão se integrando a um grande banco de acúmulo de informação de uma empresa privada. As informações de todos os usuários estão sendo coletadas.

Posted by Patricia Canetti at 10:59 AM

agosto 7, 2017

Ai Weiwei está no Brasil para planejar uma exposição de suas obras, O Globo

Ai Weiwei está no Brasil para planejar uma exposição de suas obras

Matéria originalmente publicada no jornal O Globo em 7 de agosto de 2017.

Artista chinês passou antes pela Argentina e pelo Chile

SÃO PAULO - O artista e ativista chinês Ai Weiwei está no Brasil em viagem "de reconhecimento". Acompanhado de Marcello Dantas, curador e diretor de programação da Japan House, Ai visitou no domingo de manhã a Oca, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, onde percorreu a exposição "Modos de ver o Brasil: Itaú Cultural 30 Anos". No mesmo dia, o artista também foi à Arena Palmeiras, onde testemunhou a derrota do time da casa perder para o Atlético Paranaense.

Nesta segunda, Ai percorreu o centro de São Paulo, conheceu o edifício Copan e comeu feijoada e pururuca. Tudo foi fartamente documentado nas redes sociais, especialmente na conta dele no Instagram.

Segundo a assessoria da Japan House, onde Dantas trabalha, o objetivo da viagem é levar Ai para conhecer alguns lugares que abrigariam uma exposição de seus trabalhos no futuro. Os detalhes, dizem eles, não foram definidos.

Antes, Dantas foi com o artista chinês para a Argentina, onde preparou uma exposição que será inaugurada em novembro na Fundação Proa, um museu particular no bairro de Boca. Depois, foram ao Chile, onde Ai expôs em 2013 uma tela de 900 metros quadrados dedicada ao poeta chileno Pablo Neruda, que foi amigo de seu pai, o também poeta Ai Qing.

Polêmico e engajado na luta pelos direitos humanos na China, Ai ficou preso durante três meses pelo governo, em 2011. Depois de liberado, teve seu passaporte caçado e ficou em prisão domiciliar. Só recuperou o documento novamente em 2015. Atualmente, seus trabalhos estão voltados para a crise de refugiados na Europa, tema sobre o qual fez um filme, "Human flow", que está na seleção oficial do próximo Festival de Veneza.

Posted by Patricia Canetti at 11:26 PM