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maio 29, 2006

As bailarinas voltam para casa, de Angélica de Moraes

As bailarinas voltam para casa

ANGÉLICA DE MORAES

Textos originais da matéria publicada na revista Bravo de maio de 2006

Masp realiza grande mostra de Edgar Degas para recuperar o prestígio do museu em grave crise institucional e financeira e pavimentar (re)eleições na instituição. As principais atrações são as esculturas do acervo, paradoxalmente pouco exibidas no país.

O Museu de Arte de São Paulo (Masp) é um dos quatro no mundo inteiro que possui a série completa de esculturas de bronze do francês Edgar Degas (1834 -1917), um dos mestres do impressionismo. São 73 peças, conjunto que só existe igual no Museu D'Orsay (Paris); no Metropolitan Museum (Nova York) e na Carlberg Gliptotek (Copenhague, Dinamarca). Ao contrário deles, no entanto, o Masp raramente exibe esses tesouros ao seu público. Motivo: costumam estar viajando, emprestados por bom dinheiro, para exposições no exterior. Vivem rodopiando mundo afora por causa das graves dificuldades financeiras da instituição. Agora, voltaram para casa. É a exposição Degas: O Universo de um Artista, que será inaugurada este mês e fica em cartaz até agosto. A turnê, porém, é por pouco tempo. É bom aproveitar, porque o magnífico elenco logo vai bater asas.

A dolorosa precariedade administrativa do Masp se reflete na programação e, por conseqüência, na visitação. Desde a grande mostra de pinturas do francês Claude Monet (1840-1926), em 1997, comemorativa do cinqüentenário do museu, o belo prédio suspenso por vigas vermelhas na avenida Paulista não consegue atrair visitação expressiva. Com enormes oscilações de qualidade na agenda, recebe média anual de 180 mil visitantes. Na exposição Monet, o público foi de 700 mil pessoas, recorde nunca mais alcançado.

Assim, mesmo com alguns acréscimos pontuais vindos principalmente de museus franceses de grande relevância, como o D'Orsay e o Picasso, as maiores atrações da exposição Degas são exatamente aquelas que deveriam ser as mais corriqueiras: as esculturas do artista pertencentes ao acervo da instituição, além de uma tela a óleo (Quatro Bailarinas em Cena) e duas obras sobre papel (pastel e carvão) estas sim bem conhecidas de quem freqüenta a coleção, no segundo andar do prédio. A jóia excepcional é a escultura Pequena Bailarina de 14 anos, também do acervo do Masp, que o artista realizou em 1880 em cera policromada e posteriormente foi fundida em bronze. A mimosa escultura é disputadíssima. Seu carnê de baile anda sempre cheio de pretendentes estrangeiros.

Há pouco tempo aconteceu uma grande exposição de Degas no Masp: Degas em Movimento, realizada em 1998 pelo historiador Luiz Marques. Naquela ocasião, como nos eventos do cinqüentenário e agora, a fórmula para organizá-la é a mesma: na falta de orçamento folgado para trazer muitos e bons trabalhos do exterior (que custam fortunas em transporte e seguro), completa-se o espetáculo com obras do museu. É recurso inteligente, que destaca a chamada prata (no caso, ouro maciço) da casa.

Para Degas, a fórmula é especialmente certeira, embora soe postiço acrescentar ao conjunto da mostra um retrato feito por Picasso e outro por Cézanne e, até, o brasileiríssimo acadêmico Rodolfo Amoedo (1857-1941), pertencente ao Museu Nacional de Belas Artes (RJ). Cézanne foi contemporâneo de Degas e, assim como este e Picasso (que apareceu depois na história), gostava de pintar retratos. Raciocínio meio tortuoso mas, enfim, sempre é bom ver Picasso e Cézanne, sob qualquer pretexto. E Amoedo? Bom, ele comparece com um dos temas prediletos de Degas: a observação de cenas urbanas, no caso, personagens em um café.

Outras atrações de peso, embora habituais no acervo -- como Ingres, Mantegna e Ticiano -- têm justificativa mais direta: foram autores que Degas, aprendiz de pintura, copiava no museu do Louvre. Claro que não exatamente essas obras. Então está combinado: é o máximo que o Masp pode fazer no momento, em esforço extremo para tentar recuperar público. Pode não ser a melhor das mostras do mestre impressionista, mas funciona para quem nunca viu nada dele ao vivo nem teve condições de viajar a Paris para emocionar-se com a maior coleção do gênero, no D'Orsay. Afinal, como o Masp, a maioria dos brasileiros não pode se dar certos luxos.

Eugênia Esmeraldo e Romaric Bruel são os curadores da mostra. Eugênia é um dos esteios remanescentes da antiga e competente equipe técnica do museu. Foi assistente direta por mais de uma década de Pietro Maria Bardi (1900 -1999), fundador e mais prestigiado diretor do museu. Romaric Bruel, ex-adido cultural do consulado da França no Rio de Janeiro, surgiu bem mais tarde na vida da instituição: quando o atual diretor, o empresário do ramo imobiliário e arquiteto Julio Neves, quis atrair multidões. (veja box anexo).

Autor de uma das obras fundadoras da modernidade, Edgar Degas é sempre garantia de visitação prazerosa aos olhos e ao coração. Mas é bom avisar que o tema das bailarinas, que o senso comum entende indissociável do artista, não foi bem assim. Na realidade, Degas não era um apaixonado pelas bailarinas mas pelo movimento, fosse o observado em espetáculo de balé, corrida de cavalos ou empregada doméstica passando roupas. O artista fazia até sutilíssimas anotações da mobilidade das expressões faciais, o que o tornou excelente retratista.

Se há hoje uma predominância de bailarinas em sua obra - e há -- isso se deve a fatores, digamos, práticos. Degas atendeu a uma demanda do mercado de arte, exatamente quando a fortuna da família (era filho de banqueiro) acabou. Não se imagine, porém, que houve concessões estéticas ditadas pela pressa do lucro. Degas era perfeccionista e, já então, artista consagrado e zeloso de sua reputação. Pintando ou modelando bailarinas, Degas era plenamente consciente de que impulsionava a arte de seu tempo e liderava um movimento.

Que razões, porém, fazem dessas graciosas personagens algo tão admirado? Uma delas é que há aí o resultado de um olhar moderno, descolado da tradição. Isso fica bem evidente em suas pinturas. Observe o enquadramento, o modo como a cena e os personagens ocupam os espaços da tela. Note que, assim como nas fotografias instantâneas, há figuras parcialmente capturadas no retângulo da imagem. O artista parece frisar que a realidade é muito maior, que não cabe inteira na representação possível dela. Observe os ângulos escolhidos para fixar esses instantes. Podem estar em plano aéreo, vendo a cena de cima para baixo, como a platéia dos camarotes de um teatro. Ou podem mergulhar no poço da orquestra para, de baixo para cima, focar o palco como detalhe e os músicos como assunto principal.

Esses enquadramentos não seriam possíveis se, na época em que foram realizados, a fotografia (inventada em 1839) já não estivesse estabelecendo um novo modo de comentar o mundo. Quanto ao fascínio pelo movimento (Degas foi contemporâneo de Étienne Maray , inventor da cronofotografia, precursora do cinema), cabe lembrar que o artista vivia em uma das maiores metrópoles de um mundo que, graças às máquinas da revolução industrial, ganhava um ritmo de vida acelerado. A velocidade passava a dominar a vida urbana e Degas foi dos primeiros a fazer dela um tema artístico.

De formação clássica, Degas iria adentrar o moderno. Ainda não louvava diretamente as máquinas como o faria, uma geração depois, o futurismo italiano. O pulso dos novos tempos foi sentido ainda na pele e nos músculos de seus modelos. Era a busca do equilíbrio e do ritmo que o fascinavam. Daí as aulas de balé e, na mesma medida, os cavalos de corrida. Um de seus seguidores diretos, o pintor Toulouse-Lautrec (presente na mostra com quatro obras, todas do acervo Masp) era um mulherengo. Degas era até algo misógino. Mas não lhe escapava a esfalfante rotina de adestramento a que eram submetidas as bailarinas, assim como os jóqueis e seus cavalos. Começava a emergir aí, nos estúdios sombrios e na poeira das pistas de corrida, um pouco do drama do indivíduo urbano confrontado com a dura rotina do cotidiano.

Uma obra emblemática desse viés é Absinto, tela do museu D'Orsay ausente da mostra mas na memória de milhões de aficcionados por artes visuais. Nela, o artista coloca uma mulher diante de um copo da bebida esverdeada, atrás de uma mesa de bar, olhar perdido e embaçado, profundamente desamparada, mesmo que ao lado de um homem tão alheado e introspectivo quanto ela. Alguém duvida que essa tela, de perspectiva oblíqua, está na origem e na formação de Edward Hopper (1882-1967), o pintor novaiorquino da solidão que brota dos bares, quintais e quartos suburbanos, também submetidos a luzes oblíquas?

Nessa linhagem, chegamos a outra genealogia: a da arte pop e da relação entre Degas e as esculturas do também novaiorquino George Segall (1924-2000), com donas de casa de rolinhos no cabelo e sacolas de supermercado. A cena, arrancada da realidade e imobilizada em gesso por Segal, como se fosse molde de modelo vivo, tem raízes na fundadora Bailarina de 14 Anos, do mestre impressionista francês. Como esclarece a historiadora e maior especialista em Degas no Brasil, Ana Magalhães, essa escultura foi modelada em cera e depois pintada (policromada) para simular cor da pele, recebeu uma peruca de fios de cabelo naturais, corpete de tecido, saia de tule e sapatilhas.

Degas assim agiu para ressaltar a verdade do personagem, que saltava da vida para a arte. Ao mesmo tempo, como bem observa Ana, "a escultura foi realizada em escala um terço menor do que o tamanho natural, para sublinhar que não é algo real mas algo que simula o real". Sutilezas modernas de Degas, que também foi precursor no uso de materiais perecíveis em suas esculturas, algo profundamente enraizado na arte contemporânea e no entendimento que o efêmero é condição natural desde que a primeira bomba atômica explodiu em Hiroshima.

Ainda conforme Ana Magalhães, o uso de materiais como estopa, pedaços de madeira e de cortiça, amalgamados com cera ou enrijecidos com gesso, eram corriqueiros na produção de Degas. Nesse aspecto, frisa a especialista, Degas foi mais moderno do que o colega de ofício e geração, Auguste Rodin (1840-1917), ainda apegado aos materiais tradicionais. Degas expunha suas esculturas em cera. As fundições em bronze foram quase todas realizadas após sua morte, pelos herdeiros preocupados em perenizar o legado.
Há muitas razões para nos demorarmos na contemplação dessas obras fascinantes.Várias delas são apontadas no catálogo organizado especialmente para a mostra por Ana Magalhães, com seis textos assinados por estudiosos de renome como o professor brasileiro Jorge Coli e o norte-americano Richard Kendall. Algo, afinal, que ficará disponível aos brasileiros quando o elenco de bailarinas retomar as intermináveis turnês pelo mundo, acossado por uma crise que não será jamais capaz de resolver. Sinal de uma orfandade que também é de todos nós, que amamos o Masp e nos preocupamos com seus desrumos.

De olho no calendário eleitoral

Mostra de Degas acontece em ano de eleição da diretoria presidida há mais de uma década por Julio Neves

Romaric Bruel é uma espécie de anabolizante do circuito museológico. Foi ele que trouxe para o Brasil um formato expositivo de farto sucesso de bilheteria. A chegada dessa fórmula aos museus nacionais ocorreu na individual que organizou, em 1995, com obras do escultor francês Auguste Rodin, para o Museu Nacional de Belas Artes do Rio (RJ) e Pinacoteca do Estado de São Paulo. "Já levei um total de 15 milhões de brasileiros a visitar museus", contabiliza o ex-diplomata francês, somando todas as mostras que fez desde então, um conjunto que inclui desde telas de Renoir e Monet até antigas chuteiras de Pelé.

Nos 38 dias que esteve em exibição na Pinacoteca, a mostra de Rodin gerou uma visitação de 150 mil pessoas. O suficiente para dar visibilidade incomum à instituição, fato que seu então diretor, Emanuel Araújo, soube agilmente capitalizar em patrocínios públicos e privados. Recursos que estão na origem de boa parte da confortável situação administrativa e financeira herdada e expandida pela atual direção.
Julio Neves, diretor do Masp, não teve igual performance, apesar de usar o mesmo anabolizante diversas vezes, em exposições até de nítido apelo popular, como Pelé: a arte do Rei, organizada em 2002 e que frustrou as expectativas: atraindo apenas 60 mil visitantes. A previsão era de 600 mil ingressos vendidos. Neves vai tentar novamente ganhar musculatura nas bilheterias do museu, desta vez com Degas.

Bilheterias, aliás, que agora são de aço escovado e migraram da discreta localização no interior do museu para atravancar com seu ar de shopping center um espaço que a autora do projeto arquitetônico do Masp, a mundialmente respeitada Lina Bo Bardi, planejou para ser um belo vão livre. Livre? Ainda tem balcão guarda-volumes, também em aço escovado, além de horrendos biombos de vidro emoldurados de preto.

Impossível conter o espanto: o prédio é tombado pelo patrimônio histórico nas três esferas da administração pública (município, estado e federação). O crédulo contribuinte imaginaria, só por causa disso, que atentados a essa arquitetura tão protegida legalmente fossem impossíveis de acontecer ou, pelo menos, uma vez acontecidas, de improvável permanência impune. Santa ingenuidade.

A exposição de Degas acontece, não por acaso, no mesmo ano em que a agenda do Masp prevê eleições da diretoria. Como nas eleições anteriores, há sempre uma mostra de envergadura, espécie de guarda-chuva artístico, usado para proteger de um escrutínio mais objetivo os critérios administrativos que estão na raiz da crise da instituição. Nas eleições passadas, em 2004, foi uma esdrúxula mostra denominada 100 Maravilhas: Impressionismo e Referências, salada de frutas em que o impressionismo entrava como a cereja no topo das fatias, para seduzir os incautos a engolir a gororoba visual. Não é o caso da atual mostra de Degas, em que os ingredientes foram reunidos com maior cuidado.

Julio Neves, aos 74 anos de idade e 12 anos na direção do museu, nunca precisou disputar votos com adversários. Desde que assumiu o cargo, inflou o conselho da instituição dos pouco mais de duas dezenas de integrantes vitalícios originais para os atuais 62. Mesmo assim, não se tem conhecimento de ninguém que queira disputar tão espinhoso fardo nem esteja disposto a contribuir efetivamente para botar no azul as finanças da instituição.

Sabe-se que o museu está afundado em dívidas trabalhistas (INSS, FGTS) e que vem atrasando sistematicamente o pagamento dos salários de seus poucos e abnegados funcionários. Em 2004, essa dívida chegou a atingir R$ 3,3 milhões, o que significava metade dos gastos totais da instituição.

A dupla de curadores da mostra Degas: o Universo de um Artista foi reforçada, a convite de Eugênia Esmeraldo, pela historiadora Ana Magalhães, especialista no artista francês, com tese de doutorado - sob orientação do historiador Walter Zanini, na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) -- focada no conjunto de esculturas de bronze. O trio curatorial, apoiado na genialidade de Degas, poderá atrair grande visitação ao Masp. Em total sintonia com a história e o perfil de acervo da instituição. Não é pouca coisa. Uma lástima que tanto esforço e talento possa ser apropriado para outros fins. Situação esquizofrênica que está longe de uma solução.

FIM

Posted by João Domingues at 11:27 AM | Comentários (2)

Histórico do Masp no Como atiçar a brasa

Histórico do Masp no Como atiçar a brasa

A "corda bamba" mencionada no texto de Cristina Freire, publicado na Folha em 30 de janeiro de 2005, parece prestes a romper... E a denúncia feita por Mario Cesar Carvalho, também na Folha, em 13 de junho de 2005, de que o Masp não havia recebido qualquer doação da iniciativa privada no ano passado, enquanto seu diretor reeleito, o arquiteto Júlio Neves, inaugurava o seu projeto para a nova loja Daslu, apontam para as relações confusas e perigosas em que vivem os museus brasileiros.

Masp pede socorro!
Ato protesto e carta denúncia publicados em 28 de outubro de 2004

Júlio Neves é reeleito por unanimidade no Masp
Matéria publicada originalmente na Folha de São Paulo do dia 30 de outubro de 2004

O museu público na corda bamba por Cristina Freire
Matéria publicada originalmente no Mais, Folha de S. Paulo, em 30 de janeiro de 2005.

A morte do Masp por Mario Cesar Carvalho e cartas dos leitores
Matéria originalmente publicada na Folha S. Paulo, Opinião, em 13 de junho de 2005, e as cartas no Painel do leitor em 14 de junho de 2005

Anos 50 produziram um "Machado coletivo" nas artes
Entrevista de Paulo Sergio Duarte a Marcos Augusto Gonçalves, Editor da Ilustrada, originalmente publicada na Folha de S. Paulo, Ilustrada, São Paulo, quarta-feira, 12 de abril de 2006

Posted by João Domingues at 11:14 AM

Masp na Folha de S. Paulo

Masp na Folha de S. Paulo

O novo sintoma da crônica enfermidade do Masp invade o jornal Folha de S. Paulo com matérias em diversas seções deste jornal, no Editorial, Dinheiro, Ilustrada, Mais. Vamos atiçar esta brasa: escreva para o "Painel do Leitor" da Folha de S. Paulo* e envie cópia para o Canal Contemporâneo, ou publique-a como comentário no blog "Como atiçar a brasa", junto ao post da matéria comentada.

* O "Painel do Leitor" recebe colaborações por e-mail (leitor@uol.com.br), fax (0/xx/11/3223-1644) e correio (al.Barão de Limeira, 425, 4º andar, São Paulo-SP, CEP 01202-900). As mensagens devem ser concisas e conter nome completo, endereço e telefone. A Folha se reserva o direito de publicar trechos.

Apagão no Masp

Corte de luz do Masp leva promotoria a abrir investigação

O MoMA e o Masp

Masp nas trevas

A ponta do Iceberg

Apagão no Masp

Texto originalmente publicado no Editorial da Folha de S. Paulo em 25 de maio de 2006

O MASP reúne a principal coleção de arte moderna da América Latina. As 7.517 obras do acervo, entre as quais telas de Van Gogh, Picasso e Monet, são avaliadas em cerca de US$ 1,2 bilhão. Mas falta dinheiro para pagar a conta de luz.

Em razão de uma dívida de R$ 3,47 milhões com a Eletropaulo, o museu teve o fornecimento de energia elétrica cortado na terça-feira. Acumulada num período de sete anos de inadimplência, a dívida soma-se a um desfalque de R$ 414 mil referente à época em que o Masp recorreu a um procedimento inventivo: um "gato" para obter eletricidade.

É preciso que a direção do museu faça jus à subvenção que recebe da prefeitura e à importância do espaço para a cidade. Além de normalizar o atendimento ao público -até o momento, a energia tem sido fornecida por meio de geradores- é preciso garantir a preservação do acervo. Em muitos casos, uma ligeira alteração na refrigeração basta para danificar a obra.

Em que pese o histórico de dívidas acumulado pela atual gestão, é preciso lembrar que o museu galvaniza um conjunto de rivalidades no meio artístico que em nada contribui para melhorar o cenário. Ainda mais grave, a estagnação do Masp esbarra na rarefação da cultura de apoio às artes no Brasil. Forjado em moldes europeus, o museu ainda não encontrou no país um modelo de sustentação à altura de suas pretensões.

Recentemente, foi vetada a iniciativa do presidente do Masp de construir uma torre no prédio ao lado para garantir a captação de fundos. Diante da negativa, a direção do museu e os grupos que lhe fazem oposição deveriam ter envidado esforços para lançar um modelo alternativo e viável de financiamento. O Masp não pode fenecer em plena avenida Paulista, circundado de riqueza por todos os lados.


Corte de luz do Masp leva promotoria a abrir investigação

Matéria de Fabio Cypriano, originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo, Ilustrada, em 26 de maio de 2006

O Ministério Público abriu inquérito anteontem para investigar se o acervo do Museu de Arte de São Paulo, o Masp, corre risco de dano e segurança, porque a instituição está funcionando à base de geradores, por conta do corte de energia realizado pela Eletropaulo na última terça. O inquérito começou a ser cumprido ontem.

"Por causa das matérias de jornal que li ontem (anteontem), entre elas a da Folha, decidi instaurar inquérito para verificar se a coleção do Masp corre perigo, afinal trata-se de um patrimônio histórico e o acervo é tombado", afirmou o promotor de Justiça do Meio Ambiente, Luis Roberto Proença. Entre as áreas de responsabilidade da Promotoria do Meio Ambiente estão o patrimônio artístico e o cultural.

Proença afirma que sua "primeira preocupação é verificar se os geradores que estão sendo utilizados funcionam a contento, mantendo não só os equipamentos de climatização mas também os de segurança". Para tanto, o promotor já solicitou ao IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) que faça uma análise das condições dos geradores em uso pelo museu.

O promotor também expediu cartas pedindo dados a respeito do corte de energia à Eletropaulo e ao Masp. "Quero compreender a motivação do corte, mas não vou entrar na questão financeira nem avaliar a gestão do museu", disse Proença, que deu prazo de dez dias para obter as respostas.

Provável acordo
Na manhã de hoje, segundo a Eletropaulo, haverá uma reunião entre o comando da empresa e o presidente do Masp, Julio Neves. A Folha apurou que provavelmente haverá um acordo entre as duas partes, para que o fornecimento de energia seja retomado.

Julio Neves, que até ontem evitava atender a imprensa, marcou uma entrevista coletiva para às 11h30 de hoje -sua assessoria dissera que ele só se pronunciaria quando o caso estivesse solucionado.

A energia elétrica foi cortada às 7h da última terça devido à falta de pagamento de uma dívida de R$ 3,47 milhões, acumulada pelo museu nos últimos sete anos. Naquele dia, Neves reuniu-se com a diretoria da Eletropaulo, mas, segundo a concessionária, não apresentou uma proposta viável. Dois acordos já haviam sido rompidos pelo Masp, um em 2000 e outro em 2004, que previa 35 parcelas de R$ 21 mil, das quais só a primeira foi paga.

O Masp reconheceu as dívidas e disse que havia proposto pagá-las com "créditos tributários de terceiros". Segundo a Eletropaulo, a proposta não tem consistência jurídica.


O MoMA e o Masp

Artigo de Luís Nassif, originalmente publicado no jornal Folha de S. Paulo, em 28 de maio de 2006

Algum tempo atrás, o sonho de status de dez em dez milionários brasileiros era ser do Conselho do MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York. Pouquíssimos conseguiram, pois necessitavam casar bom gosto, discrição, padrinhos influentes e... recursos financeiros. A contrapartida para ser aceito em tão prestigiosa instituição era a de contribuir para sua manutenção.

O Masp (Museu de Arte de São Paulo) é um dos melhores museus do mundo. Foi um ato benigno de megalomania do jornalista Assis Chateaubriand. Do Brasil, o acervo incorporou Anita Malfatti, Volpi, Lívio Abramo, Portinari, Flávio de Carvalho, Almeida Júnior entre muitos outros. Da França, importou Monet, Delacroix, Matisse, Toulouse-Lautrec, Marc Chagall, o basco Picasso, esculturas de Rodin. Da Itália, adquiriu Modigliani, Boticelli, Tiziano. Tem Rembrandt, Rubens, Bosch.

Durante algum tempo, o Masp serviu de álibi para as façanhas de Edemar Cid Ferreira, o banqueiro-mecenas responsável por um dos maiores rombos da história do sistema financeiro brasileiro. Mas foi um acidente de percurso. A diretoria do Masp é uma constelação de nomes tradicionais, uma elite discreta e de bom gosto.

O presidente é o arquiteto Júlio Neves, o "rei" da Faria Lima, um dos mais prestigiados e bem-sucedidos da praça. O vice é Plínio Salles Souto, o último dos gentil-homens e que, nos anos 50, estimulado por Assis Chateaubriand, contribuiu com um quadro relevante para o acervo do museu, se não me engano um Rembrandt.

O secretário-geral é João da Cruz Vicente de Azevedo, dono de um acervo portentoso, que inclui obras de Benedito Calixto. O tesoureiro é Luiz de Camargo Aranha Neto, sócio de uma das mais prestigiadas bancas de advocacia da praça. Entre os diretores, tem dona Beatriz Pimenta Camargo, que também é do "board" do MoMA. O sogro de sua filha é Aloisio Rebello de Araújo, dono da CBPO. E tem Manuel Francisco Pires da Costa, homem de finanças muito bem-sucedido e um bom intérprete de sambas-canções.

O Conselho Deliberativo é outra constelação onde brilham cirurgiões consagrados, como Adib Jatene e José Aristodemo Pinotti, publicitários de sucesso, como Alex Periscinotto e Nizan Guanaes, a condessa Graziella Leonetti, filha do conde Luiz Eduardo Matarazzo, o único do clã que manteve uma sólida fortuna imobiliária. Tem Pedro Franco Piva, da Klabin, o advogado Paulo José da Costa Júnior, o rico criador de gado Jovelino Mineiro, o banqueiro Antonio Beltrán Martinez.

Pois é essa casa, que honra tanto os seus membros, conselheiros e diretores, que orgulha São Paulo, que teve sua energia elétrica cortada por conta de um débito de R$ 3 milhões, muito para os mortais comuns, pouco para esse ilustre colegiado de ricos e notáveis.

Que tal começar a importar os aspectos mais sadios e meritórios da sociedade americana e de Wall Street, e os ilustres diretores e conselheiros começarem a correr o pires? Será uma maneira de demonstrar ao Brasil que os ricos de São Paulo vão muito além do provincianismo deslumbrado de uma Daslu.

Masp nas trevas

Entrevista de Claude Mollard a Marcos Strecker e Mario Gioia, originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo, Mais, em 28 de maio de 2006


O francês Claude Mollard, fundador do Centro Cultural Georges Pompidou, diz que é uma "vergonha" a situação que vive o museu paulista

Para o francês Claude Mollard, fundador de um dos principais museus de arte contemporânea do mundo, o fechamento do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na última terça-feira, por falta de eletricidade foi "um escândalo" e "um absurdo".

Economista, sociólogo e especialista em gestão cultural, um dos criadores e ex-secretário-geral do Centro Cultural Georges Pompidou, o famoso Beaubourg, em Paris, Mollard foi, a partir de 1981, assessor do ministro da Cultura francês Jack Lang, que inaugurou uma nova política para os museus e as artes plásticas no país.

Criou e geriu várias instituições de artes na França, tendo presidido o Centro Nacional da Fotografia, entre outros. Veio ao Brasil para ministrar um curso sobre história da arte no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro.

Ele também é co-autor do lançamento "Frans Krajcberg -La Traversée du Feu" (Frans Krajcberg -A Travessia do Fogo, Isthme Éditions), a primeira biografia do artista plástico polonês naturalizado brasileiro. Mollard falou à Folha por telefone, do Rio.

FOLHA - O sr. acompanhou o incidente envolvendo o Masp? Já viu um museu dessa importância ficar fechado por falta de pagamento da conta de luz?

CLAUDE MOLLARD - É um absurdo. Nunca tinha ouvido falar de algo assim. Nem estou acreditando. Ou o museu está sem recursos porque o poder público não os está repassando ou cuidou mal do dinheiro. Ou a companhia de eletricidade é muito má. Dirijo um museu em Montparnasse. Certa vez, a prefeitura deixou de nos repassar dinheiro e a companhia telefônica cortou nossas linhas. Não éramos responsáveis, ligamos para a companhia e religaram no dia seguinte. É delicado, não vou abordar a questão política, dos responsáveis, mas observo o resultado. Não é normal. É um escândalo, uma vergonha.

FOLHA - Como o sr. avalia a manutenção dos museus no Brasil? Como é essa percepção no exterior? MOLLARD - A impressão que temos é a de que o Brasil não se interessa muito pelos seus museus. Há alguns anos, fui ao Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, no Rio, e estava chovendo. Havia um problema no prédio e caía água sobre uma múmia egípcia. Também há o episódio do incêndio que ocorreu no Museu de Arte Moderna, no Rio [em julho de 1978, quando cerca de 90% do acervo foi destruído]. Se isso continuar, não haverá mais museus no Brasil. Há a tentativa aqui de criar um museu dedicado às obras do escultor Frans Krajcberg, mas não há dinheiro. Os museus são essenciais para a educação, para os estudantes, para a história etc. Isso não quer dizer que não haja várias iniciativas importantes aqui. [O problema no Masp] não é bom para a imagem do Brasil. Acho que está claro que não é feito o suficiente. Parece que aqui há mais interesse pela música e pela dança. A arte brasileira é uma prioridade, é uma pena que o Masp esteja sem luz.

FOLHA - O que o sr. acha das formas de financiamento dos museus, da relação entre financiamento público e privado? O que o sr. achou da recente iniciativa de construir uma unidade do Guggenheim no Rio? MOLLARD - O problema do financiamento privado é que em um dia funciona, no outro não. Acho que seria bom se houvesse um novo museu de arte moderna no Rio. Mas sempre há o problema de dinheiro. É uma questão de prioridade.

Museus são importantes, falam da nação, das raízes. É necessário também que sejam feitas grandes exposições, que sejam financiadas. Quando fui assistente de Lang, transformamos a arte em prioridade. Gosto muito do Brasil, das artes brasileiras. Espero que volte a luz por aqui. "Fiat lux".

A ponta do Iceberg

Texto de Teixeira Coelho, originalmente publicado no jornal Folha de S. Paulo, Mais, em 28 de maio de 2006

Nenhuma questão de cultura é apenas um caso singular, nenhuma questão de cultura se resolve apenas num formato estrutural. Caso e forma geral se combinam para gerar efeitos. Portanto, as saídas para uma questão cultural serão buscadas na convergência dos dois planos.

A questão Masp -hoje constrangedora para o museu mas também para toda a política cultural pública ao redor- inclui um caso singular a chamar a atenção geral: a ausência de um projeto curatorial de prazo pelo menos médio, distinto da simples inércia rotineira, tocado por um curador estável e que arme o diálogo do museu com sua coleção e com a arte da cidade e do mundo. Um projeto curatorial dá ao museu uma linha cultural que lhe desenha uma trajetória econômica.

Economia e idéia cultural andam juntas, mas é a idéia cultural que determina, não a economia, e é o projeto curatorial que aponta os rumos, não o inverso. Um museu se faz com uma idéia curatorial e se desfaz sem ela. Esse é um aspecto singular desse caso. O resto são detalhes, de discussão interna do museu ou não, mesmo porque, no resto, o Masp é largamente viável, se quiser.

Seria, porém, um erro cômodo supor que a questão Masp se resume a um aspecto e a alguns nomes ou incidentes. A forma geral do problema é sua dimensão sistêmica, determinante num país fragilizado como este. Por sua condição simbólica, o que ocorre no Masp é mais que a ponta do iceberg. Nem por isso constitui um caso isolado, contendo em si toda a origem de seu problema.

Na perspectiva do sistema da arte, a chamada crise do Masp, que não é só dele, remete, antes de nada, à rediscussão de um contrato social para os museus.

Admiti-lo significa aceitar que, no sistema da arte do qual os museus são cabeças-de-ponte (sobretudo fora daqui, porém aqui também), quase nada mais, em país fragilizado, pode ser feito por um único ator social. O Masp é privado, mas o privado, aqui, não dá conta.

O poder público, sozinho, sozinho -e fará melhor se entender que seu papel é adotar uma política cultural de cooperação com a sociedade civil para que ela alcance seus objetivos, como seu parceiro, e não seu concorrente.

À iniciativa privada, como ao terceiro setor, cabe entender que deve responder pelo que faz ("accountability") não só em termos de manejo do eventual dinheiro público usado como de projeto. E entender, de vez, que responsabilidade social pela cultura não significa só patrocinar exposições mas comparecer o tempo todo, mesmo quando o assunto não tem glamour (pagar conta de luz). E ao terceiro setor cabe arregaçar muito mais suas mangas culturais.

Carros e cultura
Nessa rediscussão do contrato social para os museus, o poder público poderia esclarecer, por exemplo, pois também ele deve prestar contas, por que a indústria automobilística (que pode se deslocar para a China a qualquer momento) recebe tantos poderosos incentivos (ganha o terreno, não paga impostos durante anos, tem financiamento público a juros amigos) enquanto o setor cultural, em que, no entanto, trabalham muito mais pessoas, fica apenas com os clássicos, limitados e criticados incentivos fiscais (e, no entanto, um museu nunca iria se deslocar para a China, nunca os recursos nele investidos se esfumariam da noite para o dia).

E caberia perguntar, a todos, por que este país, que tem no Sesc um modelo de política cultural bem-sucedida, coisa de Primeiro Mundo, não gera solução análoga para os museus -quer dizer, amparo público, gestão privada e significação social.

Há, claro, outros tópicos de caso a enfrentar: por que em Buenos Aires uma coleção ótima, embora reduzida (comparada ao que há aqui), consegue construir para si um museu novo, de primeira linha -o Malba- e aqui o Masp não consegue pagar a conta da luz? Por que Porto Alegre constrói um museu novo para Iberê Camargo (1914-94) e aqui o Masp não consegue pagar a conta de luz? O exemplo de Ciccillo Matarazzo [criador do Museu de Arte Moderna de São Paulo] está morto e esquecido? Por quê?

Vão livre
Esses dois casos estão, por certo, imersos em duas outras formas gerais. Nenhum configura uma pergunta que caiba só ao Masp responder.

No vão livre do Masp, que não pode ser só uma boa metáfora, há espaço para uma grande mesa redonda e três cadeiras para três personagens: poder público, iniciativa privada e sociedade civil. Uma quarta se reservaria a um convidado que não precisa ser apenas observador: o sistema S (Sesc, Sesi).

Na pauta, o novo contrato social dos museus: administração (mandatos de diretoria de museus públicos, participação do setor privado no museu público e vice-versa), finanças (incentivos, aportes diretos do setor público e do privado) e projeto curatorial (desenvolvimento da coleção, papel cultural, competências).

Sem um novo contrato -para todos os museus, públicos e privados-, nem museus hoje sem crise aparente (mas ela está ativa no coração do sistema) se verão livres de virar icebergs a derreter -não sem antes afundar mais uma ou outra idéia de cultura.

Posted by João Domingues at 11:14 AM

Carta Aberta Museu de Arte da Pampulha

Carta Aberta Museu de Arte da Pampulha

No dia 25 de maio de 2006, representantes da classe artística de Belo Horizonte reuniram-se no auditório do Museu de Arte da Pampulha, a fim de tomar conhecimento das razões que causaram o fechamento temporário desta Instituição.

Cerca de 200 pessoas - artistas, críticos de arte, professores e produtores - compuseram a assembléia, dispostos a estabelecer um diálogo franco e transparente com a diretora do MAP, Priscila Freire, e com Antonieta Cunha, presidente da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, procurando objetivar uma posição face à situação de crise que impede o pleno funcionamento do Museu.

A partir das colocações das duas dirigentes, ficou claro que essa crise tem sua raiz em uma antiga falha de entendimento do fato cultural, que atinge não somente o MAP, como a maioria das instituições voltadas para a produção e difusão artística no país. Gerada pela dificuldade de compreensão por parte da maioria dos governantes, esta falha evidencia a necessidade de se tratar as instituições artísticas, considerando suas especificidades e o fato de que a arte e a cultura (em todas as suas formas de manifestação e expressão) constituem referência vital para a "saúde" e o equilíbrio da sociedade.

Esta situação de fluxos e refluxos, que estabelece uma crise permanente no MAP, tem sido responsável pela desaceleração de sua atuação como propulsor e propagador de idéias transformadoras, neutralizando a vocação esteticamente revolucionária do conjunto da Pampulha sob cujo emblema nasceu, há cinqüenta anos, o próprio Museu de Arte.

O caráter experimental que o Museu vem imprimindo às suas atividades - e o tem feito em diversos momentos de sua história - foi acentuado nestes últimos quatro anos, com a lúcida e corajosa atuação de sua direção. Isto se reflete na história da arte brasileira contemporânea, o que projeta o MAP, de maneira inequívoca e fartamente comprovável, no panorama artístico internacional. Essa atuação traz, em seu bojo, prestígio não apenas para o Museu, como instituição, mas para o governo que o abriga como um de seus mais significativos equipamentos de atuação cultural, contribuindo para fixar Belo Horizonte como um dos pólos da atividade artística contemporânea.

A partir das explanações da presidente da Fundação Municipal de Cultura - instância mais alta da gestão da cultura do governo Fernando Pimentel - ficou claro que a crise do Museu se deve às dificuldades administrativas que a Fundação tem hoje em repassar, em tempo hábil, os recursos próprios, legalmente destinados ao MAP, os quais lhe garantiriam - mesmo que de maneira modesta - desenvolvimento de seu programa e projetos relevantes, como as exposições de arte contemporânea, a Bolsa Pampulha, a Ação Educativa e outros programas de extensão.

Embora não tenha sido bem esclarecido em quais instâncias administrativas esses repasses de recursos têm perdido a sua fluência, a presidente da Fundação garantiu que, em princípio, existe a vontade política da Prefeitura de manter recursos para a continuidade da agenda de atividades do Museu.

Em face desses esclarecimentos, a classe artística manifestou irrestrito apoio à direção do MAP, reivindicando a não interrupção do programa de exposições implementado a partir de 2002, assim como do Programa Bolsa Pampulha e demais projetos. Na mesma assembléia foi questionada a não aprovação de recursos pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura para o ano de 2006 para o Museu de Arte da Pampulha, recursos estes que vinham sendo destinados em anos anteriores e são de extrema importância para a manutenção dos programas do Museu.

Ao final da reunião - que teve uma ampla pauta de discussões - resolveu-se formar um grupo de artistas encarregados de elaborar um plano de reivindicações e sugestões a serem encaminhados à Presidente da Fundação Municipal de Cultura, Antonieta Cunha, e ao Prefeito Fernando Pimentel. Tal documento será entregue à direção do MAP, acompanhado das cartas de apoio e matérias veiculadas pela imprensa, comprovando a relevância local, nacional e internacional das atuais ações deste Museu.

A classe artística de Belo Horizonte agradece a todos o apoio a essa mobilização, gerada pelos artistas, comprovando que existe um desejo comum de continuidade das ações do MAP, vigentes desde 2002.

BELO HORIZONTE | 26 de maio | 2006

ADESÃO SOLIDÁRIA AO MOVIMENTO DE APOIO AO MAP:
PARA ADERIR: Envie os seus dados ao contato do Canal Contemporâneo- http://www.canalcontemporaneo.art.br/_v3/site/contato.php?idioma=br.
Coloque no assunto "Adesão à Carta aberta - Museu de Arte da Pampulha" e no campo comentários insira os seus dados completos:
nome completo*:
RG/órgão expedidor*:
nome profissional:
ocupação/qualificação:
cidade:
estado:
país de residência:
* os dados marcados com asterisco serão apenas usados em documentos oficiais impressos, não sendo jamais publicados on-line.


LISTA DE PRESENÇA [25 de maio de 2006]:

Abraão Salatiel, Técnico Montagem | Adel Souki, Artista Plástica | Adriana Gontijo, Cenógrafa | Adriana Leão, Artista Plástica | Ana Amélia, Artista Plástica | Andréa Lanna, Artista Plástica | Andreline Sampaio, Advogada | Ariel Ferreira, Artista | Bernardo Souza, Antropólogo | Brígida Campbel, Artista | Carlos Normando, Arte Educador | Carolina Cabral, Arte Educadora | Carolina Cordeiro, Artista | Catina Garbis, Arte Educadora/MA | Cecília Adão, Estudante | Celeste Fontana, Bibliotecária | Cinthia Marcelle, Artista Plástica | Claudia Dodd, Artista | Cristiano Bickel, Artista Plástico | Cristina Quady, Artista Plástica | Daniel Cassin, Professor/ Artista Danielle de Paula, Estudante | Dário de Moura, Consultor Informática | Denise Lemos, Funcionária MAP | Domingos Sávio, Artista Plástico | Douglas Damas, Arte Educador | Eduardo Eckenfels, Fotógrafo | Elisa Campos, Artista Plástica | Elizabete Martins, Jornalista | Emmanuela Tolentino, Arte Educadora | Emmanuelle Grossi, Arquiteta | Fabiola Moulin, Artista Plástica | Flávia Albuquerque, Celma Albuquerque Galeria de Arte | Fernando Modesto, Estudante | Gabriela Guerra, Artista | Gavone Souza, Secretária MAP | Grazielle, Jornalista | Hélio Nunes, Artista | Izabela Gondim, Advogada | João Castilho, Fotógrafo | João Navarro, Artista Plástico | Junia May, Artista Plástica | Junia Penna, Artista Plástica | Lais Myrrha, Artista Plástica | Laura Belém, Artista Plástica | Letícia Grandinetti, Artista Plástica | Lucia Neves, arquiteta | Luiz Fernando Ferreira, Arquiteto | Luiz Flávio, Artista Plástico | Mabe Bethônico, Artista Plástica/ Professora | Manuel Carvalho, Artista | Marcel Diogo, Estudante | Marcelo Drummond, Professor | Márcio Sampaio, Artista Plástico | Marcone Moreira, Artista Plástico | Marcos Hill, Historiador/ Professor | Maria do Carmo Freitas, Professora | Maria Luisa Leal, Jornalista | Maria Angélica Melendi, Professora | Mariana Nagem, Estudante | Mariana Paz, Artista Plástica | Marília Andrés, Historiadora | Marina Melo, Estudante | Máximo Soalheiro, Artista Plástico | Messias Mendes, Estudante | Milene Chalfum, Artista Plástica/Professora | Nathália Vieira Serrano, Estudante | Nydia Negromonte, Artista Plástica | Patrícia Franca, Artista Plástica | Patrícia Leite, Artista Plástica | Paulo Bascala, Chefe Gabinete Arnaldo Godoy | Paulo Nazareth, Artista Plástico | Rafael Perpetuo, Artista | Renato Madureira, Artista Plástico | Ricardo Homen, Artista Plástico | Rivane Neuenschwander, Artista Plástica | Roberto Bethônico, Artista Plástico/Professor | Roberto Vieira, Artista Plástico | Ronaldo Braz, Agente Administrativo | Rosa Maria Ribeiro, Técnica Cultural | Sara Ramo, Artista Plástica | Simone Rosa, Produtora Cultural | Stephane Huchet, Professor | Talles Bodeschi, Artista | Tereza Daré, Estudante | Vera Pinheiro, Professora | Vicente Costa, Fotógrafo | Wagner Rossi, Artista Plástico | William Quintal, Arte Educador | YacyAra Franer, Professora.

Posted by João Domingues at 10:35 AM | Comentários (1)

O Corpo da Arte - É o seu silêncio que permite que tudo isso aconteça, por Bia Medeiros e Daniela Bezerra

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O Corpo da Arte
É o seu silêncio que permite que tudo isso aconteça.

BIA MEDEIROS E DANIELA BEZERRA

19:30. 26 de maio de 2006. Brasília.
_ Alô!

_ Seguinte, nossa concentração em frente ao Clube de Golfe não vai ser possível. O local está cercado. São cinco carros da ROTAN. E tem montes de policiais armados. Já sei este é o nosso dia de ser PCC. Talvez a única glória, neste país.

_ Caramba! Onde vocês estão?

_ Estamos no estacionamento no CCBB. Está tudo cercado, mas eles não estão controlando os convites da entrada. Dá para entrar todo mundo. (Os convites para a entrada em vernissages de exposições no CCBB-Brasília são sempre muito controlados e a estratégia 2 era fazer deste controle um engarrafamento.) Avisa todo mundo que dá para entrar.

Muito tarde, muitos haviam desistido de participar por nunca receber os convites do CCBB, restritos às "autoridades" e à elite branca..

_ Esperamos vocês no estacionamento. Vem rápido, estamos cercados.

Mensagens de celular para todo mundo.

Fomos, entramos, éramos 15. Nós-cidadãos acima de tudo. Pagador de impostos, juros, multas e é claro correntistas de banco. Armados sim! De poesia, de arte, de vida e de amor àquilo que a cada dia escorre pelos dedos nos valores de mercado. Liberdade. De ser, de pensar, fazer a simples expressão. Existir sendo artista da vida. Ter um corpo e possuir outras fronteiras que afirmem não começo e término em minha pele. A sagrada ignorância estava e cercava todo o lugar.

É de sentar e chorar. Pura verdade: cinco carros, muita arma e muitas motos de polícia contra artistas protestando contra uma infeliz censura, que se revela cotidiana neste país cristão intimidado e covarde. Substituíram a exposição "Erótica" da qual constavam trabalhos de artistas brasileiros e outros, por uma outra de um artista estrangeiro "Picasso. Paixão e erotismo". Erotismo estrangeiro pode. Criticar a igreja e sua incansável e verdadeira pedofilia, não.

Impedir um artista de mostrar o seu trabalho, formular questões, propor pensamentos outros é destruir o seu trabalho ou torna-lo eterno para sempre.

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Tínhamos 30 batas de padre na mala do carro. Aqueles que não tinham camisetas estampadas com as imagens do "Desenhando com terços" da Márcia X, as vestiram. Juntaram-se a nós mais uns 15 artistas e Lilith (Cyntia Carla). Caminhamos para a entrada da exposição: televisão, jornais, entrevistas. Aos poucos fomos pintando terços nas costas das batas de "padres". Diversos presentes se vestiram com as batas restantes. Entrevistas e mais entrevistas: pululavam repórteres e os policias armados olhando de longe. Formamos um grande círculo no centro do qual foram dispostas baguetes e pãezinhos formando dois grandes pênis. "Ave Mariíiiïiïiia", foi entoado repetidamente sem sair destas palavras, pois ninguém conhecia o resto da famigerada canção. Lilith comia bananas, outras pessoas do público pediam bananas e se juntavam a nós vestindo batas. O pão sagrado ao corpo e bananas, fálicas, macaco, homem-mulher nu. Zé Celso ainda não envelheceu. O Brasil teme a sua carne.

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O pão foi distribuído: O Corpo da arte. O Corpo da arte. Alguns respondiam "Amém!" O gran final contou com a participação de uma lançadora de fogo, semidespida com um enorme "terço" trançado no corpo.

Numa semana onde o MASP fica, sem luz; numa semana onde se anuncia o provável fechamento do Museu da Pampulha, numa semana onde 40 dos 100 estudantes que participavam do 8º FONEP - Fórum Nacional das Entidades de Pedagogia em Goiânia, e foram protestar na frente do MEC em Brasília, contra a homologação das diretrizes curriculares do curso de Pedagogia, foram presos; numa quinzena onde o filme: "O código Da Vinci" quase foi censurado; numa quinzena onde se discute na Câmara Legislativa de Goiânia da possibilidade de se censurar a mostra "Rumos" organizada pelo Itaú Cultural, num semestre onde o livro "Brazilian Art" recebeu 1 milhão de reais do MINC para produzir um livro que deveria ser vendido por R$ 250,00 cada, ficamos apenas com questões: Um centro cultural que impõe limites à liberdade de pensamento, fazendo cerceamento da expressão por conta de alguns poucos pode ser chamado de
centro? E de centro cultural? Barbárie disfarçada na cultura, barbárie e sangue nas ruas. O que significa política cultural para Bancos que dizem fazer cultura sem integrar, em seus quadros, pessoal especializado em Arte? Qual é política cultural do governo Lula? Qual a posição, de fato, do MINC frente a todas estas realidades?

Lembremos, um novo museu foi construído em Brasília. Projetos curatoriais e políticas públicas para seu real funcionamento são amplamente ignorados.

Outra coisa: Será que a polícia sabe a diferença entre arte, artistas, estudantes e PCC?

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Em que país será que vivemos? De que as "autoridades", e sua colega elite branca, têm medo? De tudo. Quando não se está seguro dos passos dados, porque não há rumo nem terreno traçado, a tudo se teme. Esperamos sinceramente que O Corpo da Arte possa leva-los ao paraíso para sempre perdido.

Posted by João Domingues at 10:13 AM | Comentários (1)

maio 26, 2006

Obra de Marcia X considerada profana é proibida outra vez, do Globo Online

Obra de Marcia X considerada profana é proibida outra vez

Matéria de Luiz Ernesto Magalhães, originalmente publicada no Globo Online do dia 26 de maio de 2006

RIO - O prefeito Cesar Maia determinou nesta sexta-feira que a Comlurb e a Guarda Municipal removam os cerca de 70 cartazes espalhados pela cidade, em protesto contra a proibição da exibição da obra "Desenhando em Terços" da artista plástica Márcia X, no Centro Cultural Bando do Brasil.

O prefeito justificou a medida afirmando que os cartazes que exibem a imagem de dois rosários que formam a imagem de dois pênis sobrepostos é uma desrespeito ao sentimento religioso das pessoas. O prefeito decidiu também que caso alguma dessas imagens esteja sendo exibida em outdoor, a empresa será multada e perderá o direito de usar o espaço por seis meses.

Posted by João Domingues at 2:24 PM | Comentários (4)

maio 23, 2006

Encontro: Museu de Arte da Pampulha de Portas Fechadas

Encontro: Museu de Arte da Pampulha de Portas Fechadas
Considerem-se convidados todos aqueles que se sentirem comprometidos com o Museu de Arte da Pampulha, como profissionais e como cidadãos.

25 de maio, quinta-feira, 14h30

Museu de Arte da Pampulha
Av. Dr. Otacílio Negrão de Lima 16585, Belo Horizonte - MG
31-3277-7954 / 7946 ou map@pbh.gov.br

Desde o dia 22 de maio de 2006, o Museu de Arte da Pampulha está fechado por tempo indeterminado, interrompendo assim sua programação.

A evidente gravidade dessa situação levou muitas pessoas a buscar informações junto à Sra. Priscila Freire, diretora do MAP. Motivada pelas várias manifestações de solidariedade, a diretora se dispôs a receber os interessados, para maiores esclarecimentos sobre as causas desse acontecimento lastimável.

Reconhecendo ser o MAP uma instituição de referência e de fundamental importância para a vida artística e cultural da cidade de Belo Horizonte e do país, é necessário ressaltar a urgência de um posicionamento bem definido por parte das várias comunidades usuárias deste patrimônio.

Na atual circunstância, apoiar essa instituição que tem se destacado pelo estímulo e divulgação da arte contemporânea, é resguardar um espaço que estimula a busca de uma constante atualização.

Certamente, a presença do maior número de pessoas a essa reunião contribuirá para o início de uma discussão já bastante adiada sobre a participação mais efetiva da classe artística na gestão da política cultural da cidade.

Considerem-se convidados ao encontro do dia 25 de maio todos aqueles que se sentirem comprometidos com o MUSEU DE ARTE DA PAMPULHA, como profissionais e como cidadãos.

Enviado por Mabe Bethonico mabebethonico@uai.com.br

Posted by João Domingues at 10:25 AM | Comentários (1)

maio 19, 2006

Vereadores e padres tentam censurar exposição em de Evandro Prado em Campo Grande

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Vereadores e padres tentam censurar exposição em de Evandro Prado em Campo Grande

Mostra Paradoxos Brasil
Evandro Prado
Habemus Cocam

11 de maio a 30 de junho de 2006

MARCO - Museu de Arte Contemporânea de MS
Rua Antônio Maria Coelho 6000, Parque das Nações Indígenas, Campo Grande - MS
67-326-7449 ou museu@marco.brte.com.br
www.evandroprado.com.br

Carta de Evandro Prado ao Canal Contemporâneo

A exposição foi aberta no dia 11 de maio, e desde então tenho sido ressaçada pela igreja católica, e por pessoas ligadas a grupos católicos conservadores.

Esta semana foi colada na pauta da câmara municipal de Campo Grande, por um vereador católico para ser votada pelos demais, uma moção de repúdio a exposição, e pedindo o cancelamento da mesma dos 21 vereadores somente 1 se manifestou a meu favor, zelando pela liberdade de expressão. A moção não foi votada, por falta de tempo hábil.

No entanto o vereador e o grupo conservador de católicos (padres, irmãs e jovens) prometem para dia 18 colocar na pauta novamente a moção, e entrar com uma liminar na justiça pedindo o cancelamento da exposição.

Estou enviando em anexo algumas notícias publicadas nos meios de comunicação locais.

Peço pela publicação de uma nota sobre este sério caso de tentativa de censura que parte de vereadores e de padres.


linques:

Paulo Siufi fará ato de repúdio à exposição de Evandro Prado, por Redação/PC

Obras dão teor "sagrado" a refrigerante e criam polêmica, por Paulo Fernandes

Igreja faz abaixo-assinado contra obras polêmicas, por Paulo Fernandes

Imagens de símbolos católicos retratados por Evandro Prado causam revolta, Assessoria de imprensa do vereador Paulo Siufi

Sessão fecha sem aprovação da Moção de Repúdio apresentada por Siufi, Assessoria de imprensa do vereador Paulo Siufi

Paulo Siufi fará ato de repúdio à exposição de Evandro Prado, por Redação/PC
Matéria publicada no dia 16 de maio de 2006

Nesta quarta-feira (dia 17), o vereador Paulo Siufi juntamente com a Igreja Catolica edtará realizando um ato de repúdio a Exposição do Artista Plastico Evandro Prado, pois entendemos que as artes em exposição no Marco, degrinem e profanam a Igreja Católica e aos Católicos de Campo Grande. O vereador Paulo Siufi fará uma moção de repúdio e usará a tribuna para pedir o cancelamento deste evento. Este ato será realizado às 9h30, na Câmara Municipal de Campo Grande.


Obras dão teor "sagrado" a refrigerante e criam polêmica, por Paulo Fernandes
Matéria originalmente publicada no sítio Campo Grande News, no dia 16 de maio de 2006

O vereador Paulo Siufi (PRTB) comunicou, através da assessoria de imprensa, que vai fazer uma moção de repúdio à exposição Religião do Consumo, do artista plástico Evandro Prado, exposta desde quinta-feira à noite no Marco (Museu de Arte Contemporânea), em Campo Grande.

Evandro expôs 21 pinturas e 13 objetos (montagens de materiais). O trabalho é baseado em um texto do Frei Beto. "Ele constata que nossa sociedade cultua certas marcas como se fosse religião. Ela faz um culto a mercadoria e ao dinheiro. As pessoas tem trocado seus valores", diz.

Para o artista, que teve a ousadia de substituir o sagrado coração de Jesus por uma latinha da coca-cola, católicos como o vereador Paulo Siufi não entenderam a mensagem contida na obra.

O artista diz que é cristão e defende o direito do vereador de ser contra a sua obra. No entanto, ele diz que tem recebido mensagens eletrônicas de muitas pessoas que o chamam, entre outras coisas, de nazista e amigo do demônio. "É desagradável receber esse tipo de e-mail; saber que tem pessoas que estão me odiando", afirma.

Ele estima que cerca de 500 pessoas já tenham visitado a exposição; 300 delas na abertura. A previsão é de que a exposição Religião do Consumo continue até o final de junho.

No entanto, Paulo Siufi pretende usar a tribuna da Câmara de Campo Grande amanhã para pedir o cancelamento da exposição.


Igreja faz abaixo-assinado contra obras polêmicas, por Paulo Fernandes
Matéria originalmente publicada no sítio Campo Grande News, no dia 17 de maio de 2006

O Apostolado Defesa Católica está colhendo assinaturas para um abaixo-assinado contra a exposição Religião do Consumo, do artista plástico Evandro Prado, que desde quinta-feira à noite está no Marco (Museu de Arte Contemporânea), em Campo Grande. Estão expostas 21 pinturas e 13 objetos (montagens de materiais) em que latinhas de refrigerante Coca-Cola tomam o lugar de Nossa Senhora Aparecida e dos sagrados corações de Jesus e Maria. O documento reivindica aos organizadores e patrocinadores do evento, o cancelamento da exposição. Cópias do abaixo-assinado já circulam na internet.

Em um manifesto, o Apostolado diz que "os quadros demonstram sem qualquer reserva, ofensas às imagens de Jesus Cristo e Nossa Senhora Aparecida", "profanando ícones sacros" e fazendo uma "afronta pública contra a Igreja Católica". "Cremos que esta exposição ultrapassa os limites da 'liberdade de expressão', tanto pregada pelos artistas de nosso tempo.", traz trecho do manifesto.

O trabalho de Evandro Prado é baseado em um texto do Frei Beto numa crítica à sociedade que cultuaria marcas em vez de santos. Para o artista, a Igreja não entendeu o sentido da obra. As assessorias jurídicas da Arquidiocese de Campo Grande, do vereador Paulo Siufi (PRTB) e até mesmo da Coca-Cola, que é "santificada" no trabalho de Evandro, estudam a possibilidade de ingressar amanhã com uma liminar contra a exposição.


Imagens de símbolos católicos retratados por Evandro Prado causam revolta, pela Assessoria de imprensa do vereador Paulo Siufi
Nota publicada no dia 16 de maio de 2006

A comunidade católica de Campo Grande está revoltada com a exposição "Habemus Cocam", instalada desde o dia 11 de maio no espaço cultural do Museu de Arte Contemporânea (MARCO), com previsão para permanência de mais 30 dias. As obras de arte são interpretadas como uma profanação às imagens sagradas de Nosso Senhor Jesus Cristo, Nossa Senhora Aparecida, Papa João Paulo II e de outros signos representativos da Santa Igreja Católica.

O vereador Paulo Siufi (PRTB), representante da comunidade católica na Câmara Municipal de Campo Grande, preparou uma Moção de Repúdio à exposição, que será apresentada para votação amanhã (17) durante a Sessão Ordinária, a partir das 9 horas da manhã, solicitando o cancelamento da exposição dos quadros assinados pelo artista plástico Evandro Prado, cujas imagens fazem menção aos símbolos sagrados da comunidade Católica.

Representantes da igreja Católica e o Grupo de Defesa Católica organizado por jovens católicos estarão presentes à sessão para manifestarem sua indignação.

No entendimento do vereador Paulo Siufi, o direito à liberdade de expressão é assegurado pela Constituição Federal, base de um Estado Democrático de Direito, e sempre deve ser respeitada. "Porém o direito a liberdade é igualmente assegurado pela Carta Magna, devendo, portanto, a aplicação desses preceitos constitucionais ser balizada a fim de harmonizá-los, tendo sempre em mente que deve haver fronteira entre o fim do direito de um e o início do direito do outro. Neste caso está havendo desrespeito com todos os Católicos", diz o vereador, acrescentando que o espaço cultural Marco tem finalidades sociais distintas, sendo fomentador da educação e da cultura da sociedade campo-grandense, portanto deve haver neutralidade no propósito de construir uma consciência regular que preserva os bons costumes.

Na opinião de católicos, como José Carlos dos Santos, 22 anos, estudante de Direito, o mundo passa por uma crise de intolerância. Fatos como este podem ser entendidos como falta de respeito ao próximo e isso não deve ser incentivado. "Esse tipo de atitude (expor quadros que profanam símbolos católicos) mesmo que não seja com essa intenção, não deve ser incentivada. Precisamos promover convivências harmoniosas", destaca José Carlos.

Já para Valdecir Messias Machado, católico praticante da comunidade Senhor do Bonfim, as imagens são deploráveis. "Não se deve fazer, com uma coisa séria, uma propaganda do que ela não é. Em religião não há certo ou errado, mas deve haver respeito com o que se acredita. Brincar com coisa assim é muito sério. Graças a Deus vivemos num país de paz", desabafa Valdecir.

O autor
Procurado para falar sobre a polêmica que as obras estão gerando, Evandro Prado, autor das peças que estão expostas no Marco, disse que já recebeu centenas de e-mails de repúdio ao seu trabalho. De criação religiosa, o artista disse que não é católico, mas também não está brincando com os símbolos católicos. Afirmou que a leitura correta das obras se faz a partir de um raciocínio crítico ao consumismo. "O uso da figuras da igreja é para mostrar que os valores estão sendo trocados, ao invés de valorizar os ensinamentos de Deus, as pessoas cultuam o consumismo. As empresas têm mais poder que a Igreja", afirmou Evandro.

De acordo com Evandro é preciso ter um pouco de conhecimento sobre arte. O trabalho é conceitual e visual, não pode ser encarado somente como uma obra plástica, é preciso saber sobre o conceito. "Gosto da icnografia religiosa e já fiz uma série de trabalhos usando esse conceito". A exposição tem três segmentos, idolatria ao consumismo, capitalismo e comunismo e arte e publicidade.

Para os católicos a leitura não é diferente, o trabalho tem um forte apelo visual e sobre ele, a partir dos valores de cada indivíduo, se constrói o conceito que se desejar. É difícil alguém parar diante de um quadro, ler a sua interpretação em um manual e depois formar sua opinião. O que se vê nestas telas, para um católico é chocante, já para um espírita talvez não incomode e para o autor é uma forma de dizer alguma coisa.

Na opinião do estudante Felipe Nery da Silva, existem outras formas de passar a mesma mensagem, sem perder a iconografia que o autor tanto valoriza. "É natural que o trabalho esteja ofendendo a opinião católica porque realmente os quadros estão desrespeitando as imagens que tem significado forte para essa religião", conclui Felipe Nery.

Carlos Kuntzel
Assessoria de imprensa do vereador Paulo Siufi


Sessão fecha sem aprovação da Moção de Repúdio apresentada por Siufi, pela Assessoria de imprensa do vereador Paulo Siufi
Nota publicada no dia 17 de maio de 2006

Sob protestos do vereador Cabo Almi (PT), o Grande Expediente da Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Campo Grande de hoje (17), foi encerrada pelo Presidente da Casa, vereador Youssif Domingos, sem a aprovação da Moção de Repúdio à exposição dos "Habemus Cocam", do artista plástico Evandro Prato. O documento será votado amanhã (18).

Durante a palavra livre, o vereador Paulo Siufi (PRTB) manifestou sua indignação quanto aos insultos à igreja Católica provocados pela profanação das imagens sagradas de Nosso Senhor Jesus Cristo, Nossa Senhora Aparecida, Papa João Paulo II e de outros signos representativos da Santa Igreja Católica, aliados a imagens do refrigerante Coca-cola.

O posicionamento de Siufi foi apoiado, em aparte, pelos vereadores Professor Rinaldo, Edil Albuquerque, Cabo Almi, Pastor Sérgio e Carlos Marun, que acrescentou também a sua luta pelo respeito aos feriados religiosos, como Sexta-feira Santa, Natal e Dia de Finados. "Tudo isso são símbolos importantes e precisam do respeito. Repudio os quadros de Evandro Prato, porém sou contra a censura", destacou Marun.

Siufi considerou a posição dos colegas e salientou que, como representante da Igreja Católica na Câmara, também não tem intenção de censurar a obra. "Vamos utilizar os meios legais, entrando com uma ação na justiça para que os direitos da Igreja Católica sejam assegurados", lembrou.
Apenas o vereador Athayde Nery se posicionou contra a Moção de Repúdio dizendo que em momento algum a obra ofende os símbolos católicos.

O padre Mário Panziero, que acompanhou a sessão, lembrou que o respeito aos símbolos não se restringe à igreja. Os ícones gráficos que representam a nação, como é o caso a bandeira nacional, também merecem o mesmo respeito. O padre explicou que a igreja católica não cultua imagens, mas sim o que as imagens representam. "Por detrás de cada símbolo desses, há uma palavra, uma leitura, geralmente baseada na história de vida daquela pessoa ali representada, portanto distorcer os significados é uma agressão", explicou o Padre. "Nem tudo pode ser permitido em nome da arte. Como cidadão e como sacerdote apoio a manifestação de Siufi pela defesa da moralidade, do certo, do justo e do descente", concluiu.

"A Igreja não é retrograda, está sim buscando respeito aos seus valores e a Câmara Municipal, casa do povo, é um bom lugar para que esse tipo de 'humilhação' ao catolicismo seja barrado", concluiu Siufi, amassando uma folha com reproduções das imagens dos quadros de Evandro Prado.Vários padres e representantes de comunidades católicas estiveram presentes à Sessão para acompanhar os trabalhos.

Carlos Kuntzel
Assessoria de Imprensa Vereador Paulo Siufi

Posted by João Domingues at 3:07 PM | Comentários (4)

Marcia X e o CCBB - Censura e/ou a lógica do sistema?, por Paulo Paes e Luiz Camillo Osorio

Marcia X e o CCBB - Censura e/ou a lógica do sistema?

Paulo Paes (artista) e Luiz Camillo Osorio (crítico de arte)

(Este texto foi escrito há mais de duas semanas e foi tentada a sua publicação na imprensa. O tom do artigo visa um público mais abrangente. Não tendo sido possível, achamos importante circulá-lo pelo meio de arte através do canal contemporâneo, para que a discussão não seja prematuramente interrompida e possa ganhar novos desdobramentos políticos).

A polêmica envolvendo o CCBB e a classe artística pela retirada da obra "Desenhando em terços" de Márcia X da exposição "Erótica" passa ao largo da questão que está na raiz do problema. É claro que a atitude do CCBB de retirar a obra antes mesmo de uma manifestação da justiça quanto à ação movida pela Opus Christi merece repúdio. Abre um precedente perigoso em relação a todo tipo de intolerância e mobilização de grupos de interesse para a retirada de obras de arte de exposições.

Não é a primeira vez que algo desta ordem acontece e há casos simbólicos que merecem ser lembrados. Um deles, de uma exposição nos Estados Unidos do fotógrafo Robert Mapplethorpe fechada por ser considerada imoral e que acabou levando o diretor do museu ao tribunal. Neste caso, a direção do museu foi solidária ao artista e defendeu a autonomia daquele espaço de arte, o museu, como um espaço de liberdade e experimentação. O resultado do julgamento foi pedagógico: o diretor foi inocentado uma vez que a liberdade de expressão artística não deveria estar sujeita a considerações de ordem moral.

No entanto, para além da precipitação, um tanto covarde, do CCBB neste episódio recente, este seu posicionamento acabou mostrando a lógica por trás do fomento à cultura. O centro cultural em questão é um braço das atividades do Banco do Brasil, que atua em um ramo - o mercado financeiro - com notória aversão ao risco e que viu, com a paranóia típica do setor, a sua principal atividade ser prejudicada por uma atividade secundária, a atuação cultural. É bom que se diga também que o CCBB, entre os centros culturais brasileiros, é um dos que mais têm contribuído para a qualificação do circuito e para a ampliação de público. De modo que esta situação só mostra a precariedade e a falta de autonomia de nossas instituições culturais.

O que sobressai nesse quadro, mais que a censura pontual à obra de Márcia X, é o quão equivocado é o sistema de financiamento público das atividades culturais, pois sistematicamente entrega na mão de entidades privadas com interesses diversos, dinheiro do contribuinte para que elas atuem como gestores e assim formulem a política cultural do país. Usar como um dos argumentos para o afastamento da obra, a ameaça de que muitos correntistas iriam retirar suas contas do banco, é de uma clareza assustadora. Isto não é só o CCBB, é bom insistir, mas é a lógica vigente quando os responsáveis pela política cultural transferem para o setor privado toda a decisão do que vai ser investido - se o dinheiro fosse todo ele privado, tudo bem, mas não é o caso. Não se trata de defender intervencionismo estatal ou retirar autonomia do investimento privado, longe disso, mas de se exigir mais transparência e aprimoramento na transferência de dinheiro de renúncia fiscal para a cultura.

A obra da Márcia X já estava em exibição quando foi identificada como "incômoda". Cabe perguntar diante disso: Será que o catálogo da exposição Erótica continuará a ser vendido ou o CCBB retirará de circulação e assumirá o prejuízo? Sugestão: doe às bibliotecas de arte. Quantas obras e exposições nem chegaram a ser apresentadas porque "obras-problema" foram identificadas a tempo? Será que uma atividade tão complexa e importante quanto a produção de cultura não mereceria uma entidade autônoma para discutir publicamente critérios e processos de seleção, levando-se sempre em consideração a excelência e a democratização do acesso?

O obscurantismo dos critérios que pautam a atuação cultural das entidades privadas que investem o dinheiro público da cultura, impede o avanço da discussão e dá no que deu. Já está mais do que na hora desse sistema ser reformulado. Além disso, é hora também de se superar uma série de rixas ideológicas e privilégios constituídos para tratar o dinheiro público investido em cultura de forma mais democrática e frutífera. As acusações de intervencionismo quando o atual governo quis começar uma discussão nesta direção foi de uma precipitação preocupante. Assim como o encolhimento do MinC e sua demora no aprimoramento da lei. Enquanto esta discussão não acontecer de pouco adianta ficarmos revoltados com o episódio do CCBB. Faz parte da lógica do sistema.

Posted by João Domingues at 1:14 PM

maio 16, 2006

"Blogs transformaram a comunicação", entrevista de Lucia Leão a Ernane Guimarães Neto, Folha de São Paulo

"Blogs transformaram a comunicação"

Entrevista de Lucia Leão a Ernane Guimarães Neto, originalmente publicada na Folha de São Paulo, Caderno Mais, do dia 14 de maio de 2006

Para a pesquisadora brasileira Lucia Leão, da PUC-SP, diários na web não são mais vistos como "mentirinha" e oferecem canal alternativo à grande mídia

Os blogs representam uma alternativa confiável aos meios de comunicação de massa, defende Lucia Leão, professora de comunicação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e artista multidisciplinar. "É mais fácil ficar bem-informado navegando por esses atalhos do que esperar a notícia sair. Isso é uma grande transformação nas formas de comunicação", defende a professora, freqüentadora de blogs e que os utiliza em sala de aula.

Em entrevista à Folha, a organizadora de "O Chip e o Caleidoscópio -Reflexões sobre as Novas Mídias" (ed. Senac) aponta as características específicas que fazem do blog uma forma independente de comunicação e apresenta tendências da comunidade blogueira no Brasil.

Folha - Os blogs não são apenas uma mania passageira?

Lucia Leão - Não, acho que está sendo o caminho que a web achou; é uma evolução, uma transformação da web.

Folha - Eles se constituem uma forma autônoma de comunicação?

Leão - É isso mesmo. Se pegarmos a história do jornal, é interessante recordar. O jornal também tinha essa cara. O editor, o chefe do jornal, é hoje o editor desses blogs. Os jornais não eram tão grandes. Há um pouco dessa volta às origens, de ouvir a voz do autor, seus valores.

Folha - O ambiente "etéreo" da internet não compromete a credibilidade do trabalho?

Leão - Não, porque a credibilidade está relacionada com o que a gente chama de reputação, a confiança que se dá a um blog, e não a outros. Tem a ver com ética: você confia naquele cara, e se estiver errado alguém vai falar. O blog também tem "erramos". Chamo isso de regulação que emerge, pois a própria web regula. Quando você visita esses sites, em geral tem indicações. Por exemplo o site Turbulence, que existe há muito tempo e agora faz um blog com notícias (www.turbulence.org/blog). Você sabe quem são aquelas pessoas. Elas existem.

Tenho insistido nisto: durante muito tempo, as pessoas achavam que o ciberespaço é "mentirinha", um mundo de faz-de-conta, de fantasia. Hoje a gente saiu dessa fase.

Estamos na fase em que o ciberespaço é apenas um prolongamento da cultura. É lógico que há lugares em que as pessoas podem usar o alter ego para se sentir à vontade -o que também há no mundo real.

Não há nada no ciberespaço que não corresponda ao mundo real. Quando comecei a insistir nisso, as pessoas me olhavam como se fosse um extraterrestre. Quando se faz uma transferência de dinheiro na sua conta, aquilo ocorre de fato. Quando você publica alguma coisa com seu nome, tem que responder por aquilo.

Folha - A cultura e o mercado do Brasil têm capacidade para absorver mais os blogs, como ocorre nos EUA?

Leão - Sim, claro. O que acho interessante são os blogs que acabam criando comunidades. O blog está lá, faz divulgação e você que se interessa por aquele assunto começa a entrar lá para estar bem-informado. Ainda tem pouca gente fazendo isso, em comparação com a Europa. Eu mesma sou professora e não dou conta: às vezes meu blog fica sem ser atualizado.

Uso muito para aula, ponho o que está acontecendo na aula no blog, mas gostaria de ter um blog mais organizado. Acabo não tendo tempo. Alguns pesquisadores de fora mantêm regularidade. O pesquisador Mark Bernstein, por exemplo, dá a isso o nome de "web viva": você sabe que vai entrar lá e sempre tem alguma coisa nova.

Folha - É o que faz as pessoas optarem por criar um blog, e não um site?

Leão - Com certeza. É mais prático, tem recursos de envio por celular. Para fazer sites, há aqueles "templates" [modelos para facilitar a construção], mas isso acabou atendendo a outro tipo de usuário. O usuário do blog quer realmente agilidade, mobilidade para trocar informações rapidamente.

Folha - Isso cria uma forma de comunicação específica?

Leão - Sim. A troca de atalhos é bem legal. Especialmente na área de software livre: com os links, você vai navegando de um site para outro e vendo muita notícia interessante. É mais fácil ficar bem-informado navegando por esses atalhos do que esperando a notícia sair. Essa é uma grande transformação nas formas de comunicação. Ninguém está muito preocupado com a forma, mas sim com a notícia.

Folha - No Brasil, os blogs têm se apoiado muito no Orkut?

Leão - Bem observado. O Orkut acaba sendo uma maneira fácil de atrair pessoas para um site, até melhor, por exemplo, do que o Google. É uma tática de comunicação mais pontual. Tive uma aluna de pós-graduação cujo trabalho era sobre design e jornalismo. Ela fez um blog e ninguém visitava, ela enviava e-mails e ninguém entrava [no blog]. Ela pôs no Orkut e num dia teve 200 visitas. Atingiu mais pessoas interessadas no tema.

Folha - Notícias na mídia ajudaram a fazer crescer o movimento dos blogs?

Leão - Acho que é independente. Não digo que não haja alcance, há gente que entra num blog porque viu na mídia impressa, mas em geral é coisa que acaba acontecendo no ato de navegar ou por e-mail.

E as revistas, como a "NovaE", listam blogs e acabam criando uma "gangue" de blogs. A comunidade tem o poder de divulgar novos blogs.

Folha - E os jornalistas que são pagos para fazer blogs? Isso vai funcionar no Brasil?
Leão - Acho que sim. Há vários blogs muito bons, como o de Hermano Vianna (www.overmundo.com.br).

Folha - Que comunidades estão prósperas na elaboração de blogs no Brasil?

Leão - As mais antigas são justamente as que estão à margem das mídias oficiais. Por exemplo, no Canal Contemporâneo (www.canalcontemporaneo.art.br), que é uma espécie de blog da arte contemporânea, não vai estar ali quem está nas grandes exposições.

Com softwares livres é a mesma coisa: as pessoas estão ali buscando um canal para se desenvolver. Também as questões ecológicas e de solidariedade funcionam muito bem. É sempre sobre aquilo que os meios de comunicação de massa não oferecem.

Folha - Que pesquisas há sobre blogs no Brasil?

Leão - Houve um encontro sobre blogs no ano passado, em SP. A mania de fazer fotos, chamada de escopofilia, é um fenômeno que está ocorrendo. Quem viaja publica no fotolog -as pessoas estão vivendo mais em razão de tirar fotos do que de ter experiências. Isso se tornou um fenômeno grande entre os jovens.

Folha - Blog e fotolog são coisas distintas? Têm objetivos diferentes?

Leão - Sim, o fotolog tem a idéia de mostrar. É misto de paixão pela imagem e exibicionismo. No Brasil não se chegou a isso, mas há uns cinco anos, na febre das webcams, as pessoas deixavam a câmera no quarto on-line 24 horas. Era generalizado.

Folha - Há fidelidade às comunidades blogueiras?

Leão - Se você está interessado no assunto e descobre um blog bom, você volta a ele.

Posted by João Domingues at 11:27 AM | Comentários (2)

maio 8, 2006

Santa paciência dos cariocas..., carta de Fabiana Éboli Santos ao Jornal O Globo

Santa paciência dos cariocas...

Carta de Fabiana Éboli Santos ao Jornal O Globo

O evento produzido em Santa Teresa, na Semana Santa, traz à tona um antigo debate sobre utilização do espaço público urbano e as fronteiras, nem sempre claras, entre o público e o privado na administração da cidade do Rio de Janeiro.

O "III Semana Cultural em Santa" foi um exemplo, em escala menor, da mesma visão de ocupação dos espaços públicos urbanos que orienta os produtores ligados ao prefeito Cesar Maia e que tem se materializado nos mega-espetáculos tipo Rolling Stones na praia de Copacabana, shows promovidos por Igrejas Evangélicas na praia de Botafogo, Zeca Pagodinho no Aterro do Flamengo (suspenso a tempo por uma liminar, evitando a destruição do Parque) e similares. Eventos que acabam se caracterizando como farras mercadológicas de marcas e grifes, utilizando o espaço público de maneira predatória. Eventos de produtores despreocupados com as noções de interesse público, interesse social e responsabilidade social, porém avalizados pelos órgãos da administração pública da cidade. O que lhes permite escolher os locais para realizar os mega-espetáculos de maneira aleatória e autoritária, passando por cima da rotina dos bairros, infernizando a vida dos moradores, obstruindo o tráfego e deixando para trás toneladas de lixo e detritos que só fazem alimentar a precária situação da saúde pública na cidade. Espaços apropriados para abrigar grandes eventos, como o Riocentro, o Sambódromo e o Maracanã, por exemplo, são substituídos sumariamente por espaços públicos, sem nenhuma consulta à população - aos moradores, principalmente.

Essa política "pão e circo" reflete uma concepção de administração pública onde quem ganha são os empresários, produtores e políticos. A cultura e a arte são simples pretextos.

O que não chega a ser surpreendente, se pensarmos nas mais recentes e graves ações da Prefeitura voltadas para a arte: fim das bolsas de pesquisa do Rioarte e tentativa de desmonte do próprio Rioarte! - fim dos já poucos programas de incentivo, numa cidade como o Rio de Janeiro, lotada de artistas, por decisão sumária e autoritária de um cidadão pago por nós contribuintes - o prefeito.

O absurdo do desmonte do Rioarte, uma MARCA construída ao longo dos anos por artistas, poetas, escritores, trabalhadores da arte e da cultura, por funcionários comprometidos com a noção de interesse público, uma marca, essa sim, patrimônio da cidade do Rio de Janeiro, esse absurdo não pode ser aceito pelos cariocas! Prefeito, o Rioarte não é seu não!

Só alguém que nutre um profundo desprezo pelas conquistas sociais poderia querer destruir essa marca.

Projetos culturais importantes como a Revista Rio Artes, os vídeos de artistas sobre artistas,
encontros de Dança de expressão internacional, o Concurso Literário Stanislaw Ponte Preta, exposições e outros eventos que ainda acontecem ou fazem parte da história do Rioarte - inclusive o CEP 20000, criadouro de novos talentos em poesia, artes visuais, dança e música, também ameaçado em sua continuidade - não são levados em conta na decisão política do prefeito.

Decisão que reflete não só um acintoso descaso com a arte e a cultura, mas que denuncia uma visão política pequena, comum ao seu grupo, de administrar os espaços e recursos públicos como se fossem propriedade particular. Cesar Maia e "seus homens" (que às vezes são mulheres), às custas da "confusão" privado/público, empurram projetos de duvidoso interesse público goela abaixo dos cariocas...

Não faltam exemplos desse autoritarismo administrativo, que podem acarretar contas impagáveis ao bolso do contribuinte, como a tentativa de construção de um Museu Guggenheim na cidade, em que o delírio de grandeza iria extrapolar amplamente a construção daquele Obelisco-monumento-a-nada em Ipanema, que desagradou a todos.

Por último, uma pergunta: o que acontece nas galerias de arte do Sergio Porto?

Posted by João Domingues at 11:10 AM | Comentários (1)

maio 4, 2006

BB cancela a exposição "Erotica" em Brasília: Informativo para a Imprensa

BB cancela a exposição "Erotica" em Brasília: Informativo para a Imprensa

Brasília (DF), 03 de maio de 2006

COMUNICADO À IMPRENSA

O Banco do Brasil informa que a exposição "Erótica - os sentidos na arte", visitada por 56 mil pessoas em São Paulo e por 90 mil no Rio de Janeiro, não ocupará as salas do Centro Cultural Banco do Brasil em Brasília, a partir de 15 de maio, conforme previsto.

Alguns artistas e colecionadores condicionaram, formalmente, a vinda de suas obras para o CCBB de Brasília à reintegração da obra "Desenhando em terços", retirada do CCBB-Rio de Janeiro, inviabilizando acordo entre o BB e a produtora Expomus para realização da mostra.

O Banco do Brasil lamenta esse desfecho, mas o considera um fato isolado, ao tempo em que ratifica sólido apoio à difusão da arte e da cultura, sempre com respeito à pluralidade e à diversidade.

O investimento e a atuação do Banco do Brasil em cultura conquistaram, ao longo dos anos, o respeito e o reconhecimento da mídia, do mercado cultural e, principalmente, do público.

Enviado por Banco do Brasil imprensa@bb.com.br

Posted by João Domingues at 12:46 PM | Comentários (2)

CCBB cancela etapa de ‘Erotica’ em Brasília, por Bernardo Araujo

CCBB cancela etapa de 'Erotica' em Brasília

Matéria de Bernardo Araújo, originalmente publicada no Jornal O Globo, no dia 4 de maio de 2006

A exposição "Erótica - Os sentidos na arte", que já passou pelo Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo e no Rio, não chegará a Brasília, como estava previsto. Depois da polêmica relativa à censura da obra "Desenhando com terços", de Márcia X. - que foi retirada da mostra depois de protestos do grupo religioso Opus Christi - artistas como Franklin Cassaro e Rosangela Rennó decidiram retirar suas obras, e a exposição acabou cancelada.

- O que mais nos assusta é que o Banco do Brasil não reconheceu que praticou um ato de censura, e isso pode gerar um precedente perigoso - diz o artista plástico Márcio Botner, que liderou protestos da classe após a retirada da obra de Márcia. - Acreditamos que a arte deva abrir discussões, e nesse episódio não houve qualquer diálogo.

Ele diz que é importante distinguir o centro cultural de seu patrocinador.

- A decisão veio do Banco do Brasil, e foi tomada por pessoas que entendem de economia, não de cultura - diz. - É assustador também pensar que um centro cultural importante como o CCBB, que abriga técnicos em cultura, não tenha direito a opinião. Essa posição me lembra as atitudes de alguns dos nossos políticos, que tomam certas decisões e esperam que nada vá acontecer. Estamos pensando em entrar na Justiça contra o Banco do Brasil.

O Banco do Brasil comunicou o cancelamento da mostra, devido à retirada das obras, e divulgou uma nota pouco esclarecedora. Nela, diz tratar-se de "um fato isolado", e ratifica "sólido apoio à difusão da arte e da cultura, sempre com respeito à pluralidade e à diversidade".

Posted by João Domingues at 9:55 AM

maio 3, 2006

BB cancela a exposição "Erotica" em Brasília por Mario Cesar Carvalho

BB cancela a exposição "Erotica" em Brasília

Matéria de Mario Cesar Carvalho originalmente publicado na Folha Online em 3 de maio de 2006

Depois de três reuniões tensas, realizadas entre a semana passada e ontem, a direção do Banco do Brasil decidiu cancelar a exposição "Erotica - Os Sentidos na Arte" em Brasília. O motivo do cancelamento é o impasse causado pela censura a uma obra da artista plástica Márcia X que mostra dois pênis cruzados feitos com rosários religiosos. A mostra, que passou por São Paulo e pelo Rio, seria inaugurada no próximo dia 15.

Os diretores do Banco do Brasil não aceitaram a reintegração do trabalho de Márcia X na exposição. Com isso, colecionadores e artistas como Rosângela Rennó e Franklin Cassaro ameaçavam retirar suas obras da exposição. Não houve acordo.

"O Banco do Brasil lamenta esse desfecho, mas o considera um fato isolado, ao tempo em que ratifica sólido apoio à difusão da arte e da cultura, sempre com respeito à pluralidade e à diversidade", diz uma nota emitida pelo banco.

"Desenhando em Terços", o trabalho de Márcia X (1959-2005), foi retirado da mostra no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) do Rio no dia 19 de abril por causa das pressões de um grupo católico chamado Opus Christi. O Banco do Brasil diz ter recebido cerca de 800 e-mails com críticas à exposição, numa corrente coordenada pela Opus Christi.

A Folha apurou que religiosos da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) ligaram para diretores do banco e ameaçaram incluir a questão da obra de Márcia X em seus sermões. Grupos religiosos fizeram ameaças de encerrar contas e promover um boicote ao BB.

O conselho diretor do banco, formado pelo presidente e por sete vice-presidentes, julgou que havia uma ameaça à marca e aos negócios e optou pela censura. O temor principal era que o boicote adquirisse as proporções de uma bola de neve.

Ação judicial

O artista plástico Ricardo Ventura, viúvo de Márcia X, acha que a decisão do BB dará uma projeção que a obra talvez não tivesse se a exposição em Brasília fosse mantida: "Se o Banco do Brasil queria evitar que a obra fosse divulgada, o tiro saiu pela culatra. Já tem site na China comentando a censura ao trabalho".

O grupo de artistas ligado à galeria A Gentil Carioca, que coordenou o protesto contra o CCBB do Rio no último sábado, continuará a exigir que o banco faça uma retratação pública e assuma publicamente que praticou censura, segundo Márcio Botner.

"Se não houver a retratação, vamos processar o banco", anuncia Botner. "É chocante que o BB se dobre à pressão de um grupo obscurantista de católicos."

Um abaixo-assinado contra a censura à obra de Márcia X tem 800 assinaturas e o cancelamento da mostra em Brasília tende a aumentar o número de adesões, de acordo com ele.

Os artistas querem que o CCBB tenha autonomia para decidir as suas exposições.

A advogada da causa já foi escolhida. Trata-se de Deborah Sztajnberg, professora da Fundação Getúlio Vargas e do Ibmec, ambos no Rio. Será uma ação indenizatória, segundo ela, com o objetivo de "reparar os danos causados à imagem de Márcia X por essa decisão autoritária".

A ação será impetrada em nome de Ricardo Ventura, herdeiro da artista. "É um pesadelo, é um horror ter de recorrer à Justiça por causa disso, mas não podemos ficar quietos", diz ele.

Posted by João Domingues at 2:41 PM | Comentários (7)

Márcia X - Manifestação de 29 de abril, por Alex Hamburger

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Márcia X - Manifestação de 29 de abril

Como participante efetivo na memorável manifestação de repúdio ocorrida no sábado passado, à retirada da obra "Desenhando com terços", de Márcia X., da exposição "Erótica" no CCBB, gostaria de deixar um registro 'caleidoscópico' daquela que foi uma rara e marcante mobilização de uma parcela significativa do meio local de artes visuais.

Como é de domínio público, a nossa cidade é pródiga em oferecer ao circuito artístico nacional valores do mais alto teor criativo, entretanto, quando se trata de questões que transcendem a produção individual rara e incompreensivelmente temos exemplos onde este segmento atuou e influenciou sobre a marcha da história.

Contudo, talvez até sob os eflúvios do próprio nome da deflagradora do processo (Márcia=marcha), e a partir de um quase fraternal encontro no Paço Imperial (sintomaticamente, outro marco pela liberdade existencial e de expressão),devidamente paramentados e totalmente identificados com o objeto da nossa 'causa', partimos suavemente na direção do local do protesto imbuídos da nossa tradição (ou do que achamos que assim seja, segundo me parece) de confrontação pacífica em defesa dos direitos democráticos da livre expressão de idéias.Uma vez na arena dos acontecimentos, o que se seguiu foi uma série de demonstrações exemplares de como se deve abominar a truculência da censura sem se utilizar das mesmas armas, pelo contrário, lançando mão da dialética, dos mais nobres valores humanos, hoje, diga-se de passagem, não mais quixotescos como a palavra e a ação ao vivo, o respeito mútuo ao contendor, o favorecimento à reciprocidade do diálogo e até ao improviso poético libertário, conduzidas que foram pelo Luis Andrade, nosso brilhante porta-voz e tradutor de nossos anseios.

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Como não poderíamos deixar de cumprir, assim como ocorreu na manifestação inicial à revoltante decisão, dirigimo-nos em seguida ao local que estava reservado à obra 'castrada', onde as ocorrências de uma maneira geral ficaram por conta da inspiração momentânea, mas sempre tendo como crucial a nossa presença corpórea contestadora da iniqüidade cometida.

Foi alí que o nosso grito de protesto alcançou a sua mais alta intensidade. Diante da parede vazia onde antes estava a obra, um pequeno coletivo de 'artivistas' do grupo resolveu, ainda à guisa de incorformação, improvisar uma intervenção naquele espaço (a parte da parede de onde o trabalho foi defenestrado), imprimindo com spray sobre uma máscara uma reprodução da obra esconjurada. Imediatamente seguranças do órgão repressor procuraram entrar em ação na tentativa um tanto forçada de não permitir esse que era apenas um ato simbólico/nostálgico, uma vez que a direção da casa deixou explícito que a exibição da foto havia sido definitivamente proibida de ali figurar.

Entretanto, a intervenção foi rápida e incisiva, e estando um pouco a certa distância da 'área de conflito', tive uma visão dos acontecimentos apenas em perspectiva, e fiquei completamente surpreendido e extasiado, posto que é incomum tais atitudes em nosso circuito, com a coragem de personagens que tinha em conta como teoricamente frágeis, como Joana Ceko e Glória Seddon, que destemidamente 'peitaram' os seguranças que pretendiam impedir qualquer tipo de resposta à uma
mais do que justa indignação de um comunidade ferida no âmago das suas liberdades essenciais.

Queria ainda deixar bem claro que não escrevo em nome dos artistas presentes, mas apenas oferecer o meu testemunho de uma ação que reputo divisora de águas entre artistas e os demais segmentos da sociedade, numa demonstração nítida, pelo que pude presenciar, de que não aceitaremos facilmente certos tipos de injunções de quaisquer instâncias do poder constituído ou não.

Alex Hamburger
Rio, 1º de Maio de 2006
Dia Mundial do Trabalho

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Posted by João Domingues at 9:51 AM | Comentários (3)

maio 2, 2006

Arte Crucificada - Editorial da Folha de S. Paulo

Arte Crucificada

Editorial da Folha de S. Paulo originalmente publicado em 29 de abril de 2006

O Banco do Brasil (BB) errou ao retirar da mostra "Erótica -Os Sentidos da Arte" o trabalho da artista Márcia X (1959-2005) que retratava dois pênis desenhados com terços religiosos. Ninguém obriga o BB a patrocinar eventos artísticos, muito menos exposições polêmicas como "Erótica", cujo insofismável teor sexual está anunciado no título.

Entretanto, uma vez que o banco decidiu lançar-se nessa empreitada, deve seguir as regras do jogo. E a praxe internacional não poderia estar mais bem estabelecida. Cabe à instituição financiadora definir o tema da exposição e designar seu curador. A partir daí, o responsável indicado, valendo-se preferencialmente de critérios estéticos, é o único apto a decidir o que entra e o que sai da mostra. A exclusão do trabalho de Márcia X se deu à revelia do curador, o que basta para qualificar a intervenção do BB como censura.

Católicos que tenham se sentido ofendidos com o desenho da autora têm o legítimo direito de protestar e até mesmo de ameaçar fechar suas contas na instituição bancária. Trata-se de manifestação não-violenta que faz parte do jogo democrático. O BB, contudo, deveria ter resistido à pressão e mantido-se fiel ao compromisso assumido com o meio artístico quando decidiu patrocinar a mostra. O banco não pode alegar que desconhecia o caráter polêmico de uma exposição dedicada ao erotismo.

A liberdade de expressão artística, garantida pelos artigos 5º, IX e 220, da Constituição, é um dos fundamentos do Estado democrático e existe justamente para assegurar que autores possam divulgar idéias ofensivas a parcelas significativas da sociedade. Com efeito, ninguém precisa de autorização legal para dizer o que todos querem ouvir.

Nesse episódio, a direção do BB meteu os pés pelas mãos. A um só tempo, mostrou que não tem apreço à liberdade artística, sacrifica princípios elevados ao menor sinal de pressão e, pior, não sabe bem o que financia com seus recursos.

Envie emeio para a Folha de S. Paulo e publique-o como comentário neste post do Como atiçar a brasa.

Posted by João Domingues at 11:14 AM