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outubro 11, 2021

Lucas Arruda na Iberê Camargo, Porto Alegre

Lucas Arruda reúne em exposição, pela primeira vez em Porto Alegre, todas as pinturas da série Tudo te é falso e inútil, de Iberê Camargo

O artista Lucas Arruda, em colaboração com a curadora Lilian Tone, selecionou 49 obras do acervo da Fundação Iberê para a mostra Iberê Camargo: Tudo te é falso e inútil, que abrirá paralelamente à Lucas Arruda: Lugar sem lugar, no próximo sábado, 2 de outubro. A seleção, que gira em torno da série que dá nome à exposição, destaca obras dos últimos anos da carreira do pintor, incluindo 14 pinturas e 35 guaches e desenhos realizados entre os anos 1990 e 1994.

A série, finalizada um ano antes de Iberê falecer, é considerada um dos momentos mais memoráveis de sua obra e tem especial importância para outros artistas. As cinco pinturas que integram o conjunto, sendo uma delas proveniente de uma coleção particular, serão apresentadas juntas, pela primeira vez, na instituição que leva o nome do artista.

Entre 1992 e 1993 Iberê, já diagnosticado com câncer, realiza a série Tudo te é falso e inútil. Os elementos trabalhados até aquele momento, como os carretéis, as bicicletas e os manequins surgem, agora, como testemunhos de um tempo, imobilizados na memória e anunciando o fim.

Desde o primeiro encontro de Lucas Arruda com esta série de Iberê, há seis anos, no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, ela se tornou uma forte referência para seu trabalho. O artista voltou repetidas vezes à exposição para ver as pinturas: “O que mais me impressionou, nessa série, foi o perfeito alinhamento entre a execução e o assunto do trabalho. O drama daquelas imagens não reside somente no conteúdo, mas em como Iberê as construiu, no modo como a tinta é posta e raspada, riscada, depositada e removida múltiplas vezes, resultando na fantasmagoria das figuras. A angústia do tema é expressa na própria carne da pintura. Parece existir uma ansiedade no fazer estreitamente conectada ao assunto, o que traz uma potência muito grande para o trabalho. Essa qualidade da pintura do Iberê foi uma das coisas que mais me chamou a atenção”, destaca.

Em Tudo te é falso e inútil, aponta Arruda, “Iberê tenta captar esse momento em que as coisas perdem sentido”. No entanto, a despeito da atmosfera distópica, “da evidente falta de otimismo manifesta nas pinturas”, acrescenta, “é notável a capacidade desse trabalho de gerar um consolo à inquietação existencial do ser humano”.

Texto de Lilian Tone sobre a obra de Lucas Arruda

Construídas a partir de camadas de tinta sobrepostas, escovadas, arranhadas, esfregadas, por vezes as pinturas de Lucas Arruda invocam o gênero paisagem usando tão somente a sugestão de uma linha de horizonte. É ela, afinal, que constitui o recurso fundamental da tradição pictórica, uma espécie de menor denominador comum paisagístico. Como espectadores, tendemos a atribuir sentido a qualquer marquinha num espaço aberto, a imediatamente interpretar uma linha horizontal como um horizonte, a enxergar nuvens nas mudanças de direção de pinceladas, ou a ver um chão de terra numa camada grossa de impasto. As pinturas realizadas por Arruda nos permitem ver, ao mesmo tempo, um pouco além da abstração e antes da figuração.

Pode-se dizer, grosso modo, que Lucas Arruda vem há uma década depurando de maneira quase ritualística um mesmo tema: a ideia de paisagem como construção do olhar. Os trabalhos da série Deserto-Modelo sugerem lugares desprovidos de referências geográficas, mas que se edificam na memória, evocando vistas da natureza, marinhas, e de matas. Muito embora nossa experiência diante dessas obras seja permeada por associações pessoais, narrativas indiretas e conotações artísticas históricas, elas nos falam, sobretudo, do fenômeno sensual e sensorial da pintura. Entre as pinturas recentes estão monocromos, elaborados a partir de sucessivas camadas de tinta, ao longo de vários meses, e que deixam ver o suporte do linho nas bordas.

A insistente frontalidade, a linha do horizonte e a paleta contida de Arruda permeiam os diversos trabalhos aqui reunidos, que abrangem quatorze anos da produção: desde pinturas iniciais até as realizadas neste ano, como também o vídeo e a instalação de luz presentes na mostra. São trabalhos silenciosos, caracterizados por uma luminosidade insólita e sutil que se revela aos poucos, recompensando uma observação prolongada. Entre o devaneio e a qualidade tátil da aplicação da tinta, fica evidente a habilidade extraordinária de Arruda como pintor. A incansável experimentação pictórica de suas pinturas é comovente, especialmente quando observadas ao vivo.

Publicado por Patricia Canetti às 12:51 PM


outubro 9, 2021

André Komatsu e coletivo Ali:Leste abordam o conceito de democracia em performance inédita na Pinacoteca de São Paulo

Ativação acontece no sábado (9 de outubro) no Octógono do museu em meio à instalação Noite Longa

A Pinacoteca de São Paulo, museu da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, apresenta a performance inédita Corpo Manifesto, coordenada pelo artista André Komatsu em colaboração com o coletivo Ali:Leste. A programação acontece no dia 9 de outubro em dois horários: 11h e 15h, com sessões de 20 minutos, no octógono da Pina, em meio à instalação Noite Longa, do próprio Komatsu, que ocupa o espaço até novembro.

A ativação pretende transformar Octógono em um ponto de encontro para vozes plurais. Ocupando diferentes pontos da instalação, confrontando as paredes e com alguns megafones, os artistas do coletivo Ali:Leste recitarão, ao mesmo tempo, a interpretação do que significa democracia para cada um deles. O resultado será uma manifestação cacofônica.

Participam do coletivo Ali:Leste, as/os artistas Eliza Schiavinato, Lueji Abayomi, Lauresia (Laura Melo),Tom Guerra, Jamie Fraser, Jefferson de Sousa, William Ferreira (Sk8) e Euller Fernandes.

A entrada na Pinacoteca aos sábados é gratuita, mesmo assim, os visitantes precisam reservar o ingresso com antecedência pelo site www.pinacoteca.org.br.

Ali:Leste (arte livre itinerante) atua como coletivo nômade de arte que estabelece trânsitos entre centros e periferias e atua no distrito de Cidade Tiradentes, extremo leste de São Paulo. O coletivo, do qual André Komatsu faz parte, surgiu em 2018 durante as eleições presidenciais.

Noite Longa

A instalação Noite Longa poderá ser vista até 08 de novembro de 2021. As relações de poder e os conflitos sociais permeiam os trabalhos de Komatsu. Nesta obra, o artista dialoga com as ideias de controle, possibilidade e restrição. A curadoria é de Ana Maria Maia.

Sobre a obra

O piso do Octógono foi revestido por placas de ferro, onde foram fixadas 52 lanças de aço de 4 metros de altura. Cada uma das lanças está posicionada a uma distância de 150 cm, criando uma organização com contornos de ordem e hostilidade, além de caracterizar um espaço controlado em que é impossível se movimentar livremente.

Nas extremidades das lanças, objetos como livros, sacos de terra, moedas empilhadas, papel moeda, folhas de ouro e garrafas de água estarão espetados. O público, que poderá circular entre essas estruturas de maneira ordenada, conseguirá vislumbrar os elementos em seu topo, longe do alcance das mãos. Os itens simbolizam bens que embora devessem ser garantidos enquanto direitos básicos, permanecem inacessíveis para grande parte da população, sobretudo em contextos de crise e agravamento das desigualdades sociais.

Publicado por Patricia Canetti às 12:02 PM


outubro 7, 2021

Rochelle Costi na Oswald de Andrade, São Paulo

Rochelle Costi apresenta projeto inédito no espaço Oficinas Oswald de Andrade

Rochelle Costi apresenta A Terceira Margem, sua primeira exposição no espaço da Oficina Oswald de Andrade, em São Paulo. O projeto traz o resultado de um desdobramento de pesquisa da artista, realizada a partir de viagens pela região amazônica. Ao todo, são três grandes instalações compostas por fotografias impressas em tecido, que nos colocam diante de narrativas de histórias reais, que enaltecem principalmente a resistência dos povos das florestas e, por consequência, as problemáticas de negligência, desconhecimento e descomprometimento com as riquezas culturais e naturais daquela região.

A viagem de A Terceira Margem teve início de barco a partir da pequena cidade de Jordão (à Oeste do Acre), com destino a uma das terras indígenas Huni Kuin, onde encontram-se 36 aldeias, conhecidas pela organização e culto à ancestralidade através da flora, cantos míticos, desenho e, em aulas escolares ministradas tanto na língua nativa quanto em português. Nas fotos que compõe o projeto pode-se ver o registro de obras dos coletivos culturais Mahku e Kayatibu. Paradoxalmente, também no Acre, cruzando a ponte que separa Brasil e Bolívia, encontra-se a Vila Evo, pequeno povoado que tira seu sustento a partir de um comércio voltado quase que exclusivamente a venda de produtos chineses que ali chegam através do Peru e no Peru pelo Oceano Pacífico. A estética indígena se mistura à dos produtos industrializados sem qualquer compromisso ecológico e social, atraindo pelas cores fortes (como as da natureza) e por estampas de animais selvagens.

Cada uma das três instalações é formada por quatro imagens, dispostas de forma a criar espaços de experiências sensoriais e contextuais, não apenas pela poética de sua composição formal, mas ainda por posicionar o público diante da natureza e da realidade dos Huni Kuin, um povo indígena organizado, engajado e politizado, com um profundo domínio dos saberes de sobrevivência. As situações da atualidade no Brasil e as condições a que estão expostos deixam ainda mais evidente a força desse povo em defender a terra, além da debilidade das populações brasileiras em assimilar isso.

Projeto realizado através do Edital ProAC Expresso Lab 2020. Secretaria da Cultura e Economia Criativa - Governo de São Paulo / Lei Aldir Blanc - Governo Federal.

Biografia

1961, Caxias do Sul, Brasil. Vive e trabalha em São Paulo, Brasil.

Rochelle Costi trabalha a memória, essa que normalmente levanta a poeira do nosso subconsciente, acionada por um dispositivo: a imagem. Sua pesquisa parte de seu próprio repertório imagético, para então ser formalizada através da técnica apurada da fotografia, vídeos e instalações. O colecionismo e a fotografia não apenas se complementam, como também se fundem, levando o espectador a um confronto íntimo com esse universo, que passa a ser comum a todos.

Formação em Comunicação Social pela PUC-RS e cursos pela Saint Martin School of Art e Camera Work, em Londres. Dentre as instituições em que apresentou mostras individuais estão: Museu de Arte Moderna - MAM, São Paulo (2010), Centro Cultural São Paulo – CCSP, Brasil (2009) Museu da Imagem e do Som, São Paulo, Brasil (2008) e Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil (2005). Entre as exposições coletivas mais significativas estão Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil (2020), III Beijing Photo Biennial, Beijing, China (2018), Museu de Arte de São Paulo - MASP, Brasil (2018), Bienal de la Paiz, Guatemala (2016), Somerset House, Londres, Inglaterra (2012), a 11th International Architecture Exhibition, Veneza, Itália (2008), 24a Bienal de São Paulo, Brasil (2010 e 1998), Bienal de Cuenca, Equador (2009), XXVI Bienal de Pontevedra, Espanha (2000), Centro de Arte Reina Sofia, Madri, Espanha (2000), II Bienal do Mercosul, Porto Alegre (1999), 6ª e 7ª Bienal de Havana, Cuba (1997 e 1999), II Tokyo Photography Biennial, Japão (1997). Seus trabalhos fazem parte de acervos como Cisneros Fontanals Art Foundation (EUA), Instituto Inhotim (BRasil), MASP (Brasil), MAM-SP/RJ (Brasil), Pinacoteca do Estado de São Paulo (Brasil) e Museum Moderner Kunst Stiftung Ludwig (Austria), entre outros.

Publicado por Patricia Canetti às 5:47 PM


André Ricardo na Galeria Estação, São Paulo

Com abertura em 19 de outubro e curadoria de Tadeu Chiarelli, mostra leva ao público cerca de 40 obras concebidas pelo pintor após dois anos de isolamento que resultaram em intensos momentos de introspecção e produção

“Só posso falar de pintura, pintando”. Com essa frase, diminuta, porém plena de significância, o artista plástico André Ricardo expressa o que é, para ele, o exercício de seu ofício. Aos 36 anos de idade ele abre, em 19 de outubro, uma exposição individual na Galeria Estação, a primeira dele neste espaço cultural localizado em Pinheiros e que reúne cerca de 40 telas selecionadas sob o olhar curatorial de Tadeu Chiarelli. Alinhada ao discurso do artista, o nome escolhido para a mostra, “André Ricardo: Pinturas”, é uma síntese que remete diretamente a seu fazer pictórico e fala, por si, ao apresentar ao púbico as obras escolhidas.

Para Chiarelli, nas telas que integram a exposição é visível como o artista agrega às estruturas de início de carreira signos vindos de variadas origens. “É como se ele, após seus deslocamentos reais por São Paulo, desenvolvesse agora um transitar virtual, contínuo pela história das imagens. É inegável como pontua essas alusões com citações que, de imediato, remetem tanto para aqueles universos de artistas eruditos que escrutinam a visualidade popular, quanto para aqueles que dela brotaram”, afirma o professor sênior do Curso de Artes Visuais da USP, ex-curador-chefe do MAM de São Paulo e ex-diretor da Pinacoteca do Estado e do MAC-USP. Ainda de acordo com Chiarelli, a produção de André difere daquelas de muitos de seus colegas. Ele pondera: “Isso ocorre pelo fato de que, a cada pincelada, ele denuncia um conhecimento precioso a respeito de como atuar sobre o campo pictórico, desenvolvendo em suas obras um saber sofisticado e altamente erudito aprendido na observação atenta dos trabalhos daqueles e de outros artistas do cânone mais respeitado da pintura ocidental”.

Uma opinião, por sinal, que também é compartilhada pela galerista e colecionadora de arte Vilma Eid. “O que me intrigou e encantou no trabalho do André é a sua força de imprimir veracidade e demonstrar um grande afã pela vida, além de seu comprometimento com a arte. Quando olho para ele, vejo o artista e o pintor. E, sem dúvida, é um dos mais sérios que já conheci”, afirma. Sobre a entrada dele no rol de artistas representados pela Estação, ela diz: “A vinda do André decorre de um processo natural de conhecimento que evoluiu. Além disso, ele comunga dos nossos ideais. André está conosco desde o final de 2019. Passamos juntos a pandemia trabalhando e aguardando ansiosamente o momento de mostrar a sua mais recente produção”, diz.

Impactos estéticos e ressignificação

A história de André com a Estação, porém, antecede sua chegada à galeria. Iniciado no domínio de tintas e pincéis desde muito jovem, sempre expressou sua arte em telas e compartilhando seus conhecimentos por meio de aulas particulares e em instituições públicas e privadas. Entre as muitas visitas a galerias e museus da capital paulista, por várias vezes levou seus alunos à Estação. Entre tantas idas e vindas, uma em especial, em 2017, quando conheceu o trabalho do pintor mineiro Neves Torres, o impactou diretamente.

“Na Estação, acabei tendo contato com uma linguagem estética de um universo de artistas que até então pouco conhecia ou desconhecia, dentro e fora do meio acadêmico, mesmo tendo me formado em Artes Visuais pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Aqui, fiz uma imersão em uma história da arte repleta de surpresas e sagacidade. Um verdadeiro refresco de referências onde existia uma ponte entre a produção popular e a contemporânea. E é esse sentido da arte que me interessa. Nesse contexto, e particularmente após ver as telas de Neves Torrese de Alcides Pereira dos Santos, que também é outra referência marcante para mim entre os artistas que conheci aqui na galeria, parei para repensar meu trabalho diante de tudo que vi”, diz.

A identificação com essa gramática pictórica que conheceu, afirma o artista, também contribuiu para que ele acessasse suas referências de vida e memórias. “Revendo essa trajetória que culmina com minha primeira exposição como artista da galeria, avalio como coerente o estabelecimento dessa conexão com a coleção. Já havia uma certa intuição que me direcionava a rever minha produção artística a partir desse acervo de grandes nomes da arte contemporânea e popular brasileira aos quais fui apresentado”, avalia.

Nesse sentido, o de rever sua trajetória pessoal e artística, ele estabelece uma analogia recorrendo a um verso do poema “Às Vezes entre a Tormenta”, de Fernando Pessoa, que diz: Porque verdadeiramente sentir é tão complicado que só andando enganado é que se crê que se sente. “Para mim, para se entender é preciso errar. Nesse verso, Pessoa resume de forma profunda o sentido do exercício poético. E o ateliê é esse lugar onde temos a liberdade de errar, de andar enganado. Mas também é o local onde podemos exercer perseverança, paciência e, se tudo der certo, ser surpreendido por algo revelador”, afirma.

A revelação, neste caso, virá a público a partir de 19 de outubro, quando serão conhecidas as obras selecionadas por Chiarelli para a mostra. Trabalhos idealizados em 2020 e produzidos, quase na totalidade, durante quatro meses em 2021. “Ano passado foi um laboratório diante de tantas incertezas. Fiz muitos estudos, aquarelas e esboços que acabaram moldando o estofo necessário para que eu desenvolvesse os trabalhos neste ano. A pandemia, com o isolamento social que se impôs, significou um momento de intensa produção e introspecção que reflete diretamente em meu processo de amadurecimento técnico, poético e afirmativo. A convivência contínua e por tanto no tempo no ateliê criou um vácuo de tempo, abrindo um universo particular propício à criação ao ativar memórias e estimular o exercício poético que move o campo das ideias e das reflexões. Essas obras, ao meu ver, são extensões do meu próprio corpo que materializam a energia que flui nesse espaço de criação”, afirma.

Afeto e memória, como não poderia deixar de ser, estão impregnados na poética de suas telas e permeiam seu apuro profissional ao dominar, de forma quase alquímica, a milenar técnica da têmpera a ovo. Ao combinar distintos materiais, soluções e pigmentos, a criatividade de André se expressa em traços e formas que imprimem na tela uma rica e variada cartela cromática. “Na minha obra, a cor funciona muito como um indício de celebração, que também remete à abertura dessa exposição. A cor cria esse local de festa, que é tão presente tanto nas manifestações sociais quanto culturais. E a festa, vale lembrar, também é um lugar de resistência do saber popular”, finaliza.

SOBRE ANDRÉ RICARDO

Nasceu em 1985 na capital paulista, onde vive e trabalha, tendo passado boa parte de sua infância e adolescência nos bairros do Grajaú e Campo Limpo. Formado em Artes Visuais pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (2006-20120), realizou diversas exposições individuais e coletivas no Brasil, Portugal e Espanha. Em suas composições, a recorrência ao cotidiano opera como disparador de um processo poético que se desdobra como uma espécie de crônica visual, expondo um universo imagético constituído no deslocamento pela cidade, pela contaminação de um repertório de imagens que se funde com a paisagem ou, não raro, é oriundo de memórias da infância. Sua pintura é dotada de uma inteligência cromática e construtiva capaz de abarcar os mais diversos temas de modo esquemático, com tendência a forma icônica, características que marcam sua aproximação a certa visualidade popular. A intersecção entre figuras reconhecíveis e elementos abstratos instigam o observador a completar o sentido da obra, convidando-o a projetar seu próprio repertório, não importando tanto o tema inicial, mas a própria familiaridade das formas como guia de novos olhares.

SOBRE A GALERIA ESTAÇÃO

Com um acervo entre os pioneiros e mais importantes do país, a Galeria Estação, inaugurada no final de 2004 por Vilma Eid e Roberto Eid Philipp, consagrou-se por revelar e promover a produção de arte brasileira não-erudita. A sua atuação foi decisiva pela inclusão dessa linguagem no circuito artístico contemporâneo ao editar publicações e realizar exposições individuais e coletivas sob o olhar dos principais curadores e críticos do país. O elenco, que passou a ocupar espaço na mídia especializada, vem conquistando ainda a cena internacional ao participar, entre outras, das exposições “Histoire de Voir”, na Fondation Cartier pour l’Art Contemporain (França), em 2012, e da Bienal “Entre dois Mares – São Paulo | Valencia”, na Espanha, em 2007. Emblemática desse desempenho internacional foi a mostra individual do “Veio – Cícero Alves dos Santos”, em Veneza, paralelamente à Bienal de Artes, em 2013. No Brasil, além de individuais e de integrar coletivas prestigiadas, os artistas da galeria têm suas obras em acervos de importantes colecionadores brasileiros e de instituições de grande prestígio e reconhecimento pelo acervo que reúnem, como a Pinacoteca do Estado de São Paulo, o Museu de Arte de São Paulo, o Museu Afro Brasil (São Paulo), o Pavilhão das Culturas Brasileiras (São Paulo), o Instituto Itaú Cultural (São Paulo), o SESC São Paulo, o MAM- Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e o MAR , na capital fluminense.

Publicado por Patricia Canetti às 4:56 PM


Thiago Martins de Melo na Millan, São Paulo

A Galeria Millan tem o prazer de apresentar Ouroboros sucuri, primeira exposição de Thiago Martins de Melo (São Luís, MA, 1981) na galeria. A mostra, com curadoria do islandês Gunnar B. Kvaran, reúne 19 trabalhos inéditos, incluindo pinturas e esculturas, e traz um olhar curatorial retrospectivo sobre a produção do artista, bem como suas distintas narrativas ao longo do tempo.

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A trajetória de Thiago Martins de Melo revela em si um projeto de múltiplos experimentos sobre o ato de narrar e suas possibilidades na ampliação da técnica pictórica. Tais características marcam o corpo de trabalhos apresentados na exposição ao integrar animações em stop-motion e peças escultóricas ao suporte tradicional. Na prática do artista, é o desenvolvimento do enredo de cada trabalho que distende e movimenta a técnica, elaborando, através de diferentes referências e signos, seu processo intuitivo.

A organização curatorial de Ouroboros sucuri é dividida em duas partes, sendo a primeira centrada na simbologia da serpente. Sua aparição em narrativas culturais e religiosas ao longo da história é evocada de diferentes maneiras nos trabalhos de Martins de Melo, a exemplo da obra que empresta seu título à exposição.

A imagem de representação do Ouroboros consiste numa serpente que morde a própria cauda, em formato circular. Este conceito milenar, tendo sido observado pela primeira vez no Egito antigo, alude à ideia de eterno retorno, da evolução e da reconstrução. No trabalho de Martins de Melo, tal signo é revisitado tanto como uma moldura quanto como protagonista das cenas - aqui a serpente é tanto narrada quanto enunciadora e antecessora da trama.

Já a segunda parte da mostra apresenta uma “constelação de novas obras” que, segundo Kvaran, refletem temáticas e soluções formais mais recentes na produção de Martins de Melo. Nesta seção, as poéticas perpassam o ocultismo, o espiritismo, elementos de culturas indígenas e afro-brasileiras, temas da política atual, entre outros temas, através de um viés pós-colonial.

Para o curador, esses trabalhos “formam uma construção complexa, em que o espectador passa por diferentes zonas da ficção baseada na realidade. É essa fusão de signos e símbolos, religiosos e espirituais, e referências sociais e políticas da memória coletiva que carregam essas obras com a sua energia singular e que as inserem na grande tradição da pintura histórica.”

Embebidas de significado, essas imagens povoadas de histórias se justapõem e inauguram camadas de representações simultâneas, como no trabalho Ascensão - Queda - Aliança – Redenção (2021), cujo título já antecipa uma sequência narrativa a desenrolar-se. Tais imagens desvelam, ainda, referências singulares, muito caras ao repertório construtivo do artista. Trabalhos como Ogum Corisco no útero da terra – para Glauber Rocha e Naná Vasconcelos (2020) e Ogum Xoroquê expulsa os demônios de Caspar Plautius - para Tuíra Kayapó, Sebastião Salgado e Marighella (2019) convidam o espectador a identificar e interpretar esses referenciais, bem como seus agenciamentos nas tramas apresentadas.

A exposição é acompanhada ainda de uma publicação que traz imagens de obras e o texto curatorial — uma extensa e rica conversa entre curador e artista, fruto de uma troca e parceria que a dupla vêm construindo ao longo de anos.


Galeria Millan is pleased to present Ouroboros sucuri, the first solo show by Thiago Martins de Melo (São Luís, MA, 1981) at the gallery. The show, curated by Icelander Gunnar B. Kvaran, gathers 19 unseen paintings and sculptures, delivering a retrospective insight on the artist’s creation, as well as his different expressions throughout time.

Thiago Martins de Melo’s trajectory reveals a project of multiple experiments on the act of storytelling and its possibilities, as it broadens pictorial techniques. These traces of the work can be seen in the exhibit combining stop-motion animation and sculpture pieces to the traditional support. The development of a plot in every piece expands and moves the technique, developing the artist’s intuitive process through references and signs.

The curatorial strategy of Ouroboros sucuri is divided in two parts, where the first centers the serpent’s symbology. Its appearances in cultural and religious narratives throughout history is evoked in different ways in Martins de Melo’s work, such as the work that entitles the exhibition.

The image representing the Ouroboros is a serpent that bites its own tale, composing a rounded shape. This remote concept was observed for the first time in Ancient Egypt and implies ideas such as the eternal return, evolution, and reconstruction. In Martins de Melo’s work the sign is revisited as a frame and a protagonist of the scenes - the serpent is as much the narrator as it is narrated, and it’s also a predecessor of the plot.


The second part of the exhibition presents a “constellation of new works”, that according to Kvaran, reflect recent themes and formal solutions in Martins de Melo’s production. In this section, the poetic composition navigates through occultism and spiritualism, Indigenous and Afro-Brazilians cultural elements, as well as current politics subjects and others, all based on Postcolonial theories.

To the curator, these works “form a complex construction, where the spectator goes through different zones of fiction based on reality. It’s this fusion between religious and spiritual signs and symbols, with social and political references of collective memory that construct this works with singular energy and insert them in the main painting tradition”.

Saturated with meaning, the stories in the images are juxtaposed, producing layers of simultaneous representations, as in Ascensão – Queda – Aliança – Redenção (2021), work in which the title anticipates a narrative sequence that unfolds itself. These images unravel singular references, familiar to the artist’s constructive repertory. Works as Ogum Corisco no útero da terra – para Glauber Rocha e Naná Vasconcelos (2020) and Ogum Xoroquê expulsa os demônios de Caspar Plautius – para Tuíra Kayapó, Sebastião Salgado e Marighella (2019) invite the observer to identify and interpret the references and their assemblages in the plot displayed.

The exhibition includes a publication with some of the work’s images and the curatorial statement – a substantial and significant conversation between the curator and the artist, product of a long partnership built over the years.

Publicado por Patricia Canetti às 2:20 PM