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Como atiçar a brasa

 


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outubro 20, 2009

Disciplina do desenho vence paródia por Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

Matéria de Antonio Gonçalves Filho originalmente publicada no Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo em 19 de outubro de 2009.

É possível até considerar que uma peça como Breath (Respiração), escrita há 40 anos pelo irlandês Samuel Beckett, não passe hoje de uma gag visual e sonora de 67 segundos sobre o intervalo entre o nascimento e a morte num planeta coberto de lixo, marcado pelo choro de um recém-nascido. Dirigida por Daniela Thomas, que assume na 7ª Bienal do Mercosul um papel já desempenhado pelo artista inglês Damien Hirst (ele dirigiu e filmou a peça há nove anos), Breath podia até servir de comentário a outras propostas audiovisuais da mostra, que se esgotam em si mesmas e levam a constatar que os videoartistas presentes na bienal não querem outra coisa além de mostrar imagens, seduzindo o espectador com uma retórica teatral.

Breath já foi montada mais de mil vezes e vista por 85 milhões de pessoas. O que significa isso? Trata-se de uma peça popular? É uma obra de arte? Nem mesmo Beckett seria capaz de levar tão a sério essa encomenda que aceitou há 40 anos de Kenneth Tynnan, que a usou - indevidamente, misturando atores nus com o lixo - num musical caça-níqueis, Oh! Calcutá, ao lado de textos de John Lennon e Jules Feiffer, todos igualmente banais.

Dentro da mostra Ficções do Invisível, um artista como o colombiano José Alejandro Restrepo, de 50 anos, após mostrar instalações que desafiaram a percepção dos espectadores da Bienal de São Paulo de 1996, apresenta agora uma obra contra o excesso de verbalização, uma videoinstalação perturbadora chamada Variações sobre o Santo Job (2001-2008). Nela, um esquálido velho, patética figura de cuecas e máscara de herói, encostado a uma parede, faz gestos coordenados com o movimento de um outra figura humana projetada no chão. Sobre ela, coberta por gravetos reais, sobre os quais se movimentam crisálidas, desenvolve-se uma ação real que o espectador associa a vermes consumindo um corpo, ao mesmo tempo em que é forçado a pensar em regeneração por conta da borboleta que vai nascer da crisálida, insinuada pelo movimento de asas simuladas com um lençol branco manipulado pelo velho. Restrepo quebra a fronteira entre corpo e ilusão, mas sua desconstrução física não cria enigmas.

Parte da produção em vídeo e computação sofre da mesma síndrome. Não surpreendem trabalhos como o vídeo da argentina Ana Gallardo, também na mostra Ficções do Invisível, em que uma cantora, à frente de uma partitura, denuncia a exploração sexual de crianças numa canção popular de forte apelo kitsch.

Em outra mostra da Bienal, Biografias Coletivas, o curador Camilo Yáñez propõe igualmente uma relação transcultural e uma revisão na relação artista-sociedade, mas os resultados não são melhores. E não se fala tanto de vídeo, apesar da escolha como vetor da mostra do falecido pioneiro da videoarte chilena Juan Downey (1940-1993). Seu conterrâneo Pablo Rivera produziu uma instalação que remete a uma praia brasileira. Nela, todos os objetos são verdes, inclusive a Kombi, que vai mudar de lugar ao longo da Bienal. Uma piada que se esgota na mesma hora em que é vista.

Partindo para a mostra A Árvore Magnética, o anedótico avança com um módulo lunar construído em PVC pelo paulista Paulo Nenflídio e o diário fotográfico do recifense Jonathas de Andrade, que mostra o cotidiano de um jovem nos anos 1970, culminando com a instalação do peruano José Carlos Marinat, uma estrutura em madeira branca que coloca alguns prédios de Brasília (a catedral, o Congresso) de cabeça para baixo, pichada por grafiteiros convidados que não se acanharam em escrever palavras de protesto contra Lula, comparado a um molusco numa das pichações.

A mostra Projetáveis avança no besteirol na obra do canadense Terence Gower, que usa indevidamente Bartók e Kurt Schwitters para criar um projeto como The Dance Music Collaborators, feito com a ajuda de produtores musicais a quem fornece samples para mixagem, disponibilizando o resultado pela internet, veículo e vítima preferencial dos artistas desse segmento da Bienal.

Diante desse panorama, o melhor que se tem a fazer é migrar para o Margs e ver Ensor, Goeldi, Henri Michaux, Cildo Meireles, Abraham Cruzvillegas, Anna Maria Maiolino, Iran do Espírito Santo, Walmor Corrêa e outros artistas que tentaram uma outra abordagem sociocultural do mundo em que viveram ou vivem. São obras que não tentam se apropriar da realidade. Elas refletem sobre a natureza da arte, como as históricas peças de Cildo Meireles, que, já nos anos 1970, fazia a crítica do racionalismo excessivo dos conceituais ao comentar o postulado de Joseph Kosuth de que a descrição ou o comentário de uma obra equivale ao trabalho corpóreo.

A montagem deliberadamente sóbria, museológica, de Desenhos das Ideias, revela como a disciplina do desenho, reveladora do processo criativo do artista, pode criar obras como o tratado pictórico do mexicano Cruzvillegas, que usa materiais simples (papel de jornal pintado) para criar um "metaesquema" capaz de traduzir não só sua experiência estética como a precariedade do meio em que vive. Destaca-se no segmento o trabalho minucioso do paulista Iran do Espírito Santo, um gigantesco desenho sobre a parede que remete ao primeiro Frank Stella.

Posted by Cecília Bedê at 1:24 PM | Comentários(0)
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