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abril 15, 2010

"'Pixo' questiona limites que separam arte e política", diz curador da Bienal de SP por Fernanda Mena, Folha de S. Paulo

Matéria de Fernanda Mena originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 15 de abril de 2010.

Acusados de vandalismo e terrorismo, os líderes do grupo que invadiu e pichou o andar vazio da Bienal de São Paulo em 2008 vão entrar na 29ª edição, em setembro, da mostra com credencial de artista.

O que você acha dos pichadores na Bienal de SP? Vote

A participação foi confirmada à Folha pela curadoria, que descreveu os pichadores como "artistas brilhantes", apesar de "tratados como marginais".

Com isso, a Bienal entra num fogo cruzado daqueles que tomaram partido de invasores ou de invadidos, e que agora polemizam sobre a iniciativa. É demagogia? Legitima uma ação destrutiva? Coopta uma vanguarda transgressora?

Para o curador Moacir dos Anjos, a aposta não é em respostas fáceis, mas justamente na elaboração de questões.

Leia, a seguir, íntegra da entrevista concedida pelo curador-geral da mostra à Folha.

Folha - Por que incluir os pichadores da 28ª Bienal na 29ª edição do evento?

Moacir dos Anjos - Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que nosso intuito não é incluir 'os pichadores da 28ª edição'. Não se trata de um pedido de desculpas ou de um confronto com a edição anterior do evento. O que realmente queremos incluir na presente edição da Bienal é a pixação, ou simplesmente o pixo, com 'x' mesmo, grafia usada por seus praticantes para diferenciar o que fazem hoje em São Paulo das pichações político-partidárias, religiosas, musicais, ou mesmo ligadas à propaganda que há vários anos enchem os muros e paredes da cidade, a despeito do quão 'limpa' ela queira apresentar-se. E queremos incluí-lo porque achamos que o pixo borra e questiona os limites usuais que separam o que é arte e o que é política. E essa é uma questão que interessa muito ao projeto curatorial da 29ª Bienal.

Lembro que política é aqui entendida não como espaço de apaziguamento de diferenças, mas justamente o contrário. Ou seja, como o espaço formado pelos atos, gestos, falas ou movimentos que abrem fissuras nas convenções e nos consensos que organizam a vida comum. Ou seja, como bem coloca o filósofo francês Jacques Rancière, política entendida como esfera do "desentendimento".

Essa é uma questão que, evidentemente, envolve uma série de dificuldades para que essa aproximação não se dê somente na superfície e, portanto, escamoteando as diferenças existentes, situação que não interessaria nem a nós nem aos pixadores. A nossa aposta é em descobrir formas novas de tratar do assunto com integridade de ambas as partes, sem que instituição e pixadores cedam completamente ao universo da outra.

Folha - Como você avalia o episódio da invasão da 28ª Bienal por pichadores e a reação da instituição?

Dos Anjos - A invasão foi, sem dúvida, uma provocação e um protesto frente a uma situação de exclusão a que aqueles que a protagonizaram (os pixadores) são submetidos em seu dia-a-dia em várias instâncias da vida comum na cidade de São Paulo e, no caso particular, do meio institucional da arte. Não estou com isso dizendo que a endosso, mas que é assim que a entendo.

A resposta da instituição naquele momento foi, a meu ver, inadequada, pois reduziu o incidente, seja pelas ações que tomou seja pelas que deixou de tomar, a um caso policial. Se é verdade que houve infração de regras e de leis por parte dos pixadores, não existiu o esforço necessário, por parte de uma das maiores e mais importantes instituições culturais do país, de entender as razões do ocorrido. Acho que essa postura não faz jus ao importante protagonismo público que a Bienal pode exercer na cidade e no Brasil, gerando conhecimento novo sobre o assunto.

Folha - O convite/a participação do picho na Bienal é um atestado, portanto, de que a 28ª Bienal errou? Por quê?

Dos Anjos - Não é intenção da curadoria, em absoluto, incluir o pixo para 'reparar' um suposto erro cometido pela Bienal no passado. Como também não é intenção da curadoria 'cooptar' o pixo para evitar novos conflitos que poderiam eventualmente se repetir. Entendemos que a situação é outra, e nosso objetivo é atuar, nesse novo contexto, da forma que achamos mais coerente tanto com o projeto curatorial da mostra quanto com a visão que temos do lugar do pixo da teia cultural da cidade.

Folha - Isso não é demagogia?

Dos Anjos - Seria demagogia se estivéssemos simplesmente convidando pixadores da mesma forma que tantos outros artistas estão sendo convidados. Mas nós sabemos que essa igualdade não existe, e eles evidentemente também sabem. O que nos interessa é justamente tentar entender essas diferenças, e os limites e as possibilidades dessa aproximação. E é isso que também acho que interessa aos pixadores. Ninguém está tentando escamotear nada. Tudo está sendo feito às claras. A aposta é na explicitação de questões, não no oferecimento de respostas fáceis. E como as questões precisam ser melhor formuladas tanto por nós, pertencentes ao chamado 'campo da arte', quanto pelos pixadores, nosso empenho é demonstrar que a Bienal de São Paulo pode ser plataforma privilegiada para a formulação dessas questões. Se conseguirmos ao menos isso, acho que já teremos dado uma contribuição relevante para o início de um debate mais amplo e consequente sobre o assunto.

Folha - Como se deu a aproximação entre pichadores e a atual curadoria?

Dos Anjos - Os eventos de 2008 tiveram o mérito de fazer com que muitas pessoas e instituições se empenhassem na tentativa de entender o que estava implicado no episódio. O Ministério da Cultura, por exemplo, buscou estabelecer um diálogo com o grupo de pixadores envolvidos, empenhando-se em tentar entender as complexas razões que levaram ao surgimento dessa gigantesca cena do pixo em São Paulo. Acho que esse movimento foi importante na preparação para uma conversa menos tolhida por preconceitos mútuos entre a Bienal e os pixadores.

O anúncio de que a 29ª Bienal teria como foco a questão da relação entre arte e política foi o outro elemento-chave que levou os pixadores a fazerem o primeiro contato buscando estabelecer uma conversa, posto que entenderam que haveria ali uma possibilidade de dar visibilidade a questões que foram (e ainda são) muito mal entendidas pela maioria da população. O papel da curadoria, nesse processo, é justamente propor estratégias de inserção do pixo na exposição que, contudo, não o "domestiquem", tornando-o algo passível de fácil inserção em um mercado sedento por novidades para serem vendidas.

Folha - Como essa aproximação foi vista pela Fundação Bienal? Houve algum tipo de objeção inicial? Caso tenha havido, como foi contornada?

Dos Anjos - A direção da Fundação Bienal não interfere nas escolhas e nas estratégias da curadoria da mostra, agindo sempre de modo respeitoso e depositando confiança nos curadores convidados para a realização do evento. Nós curadores, por outro lado, temos a medida de nossa responsabilidade quando propomos questões passíveis de gerarem desconforto ou polêmica. Temos absoluta certeza, contudo, que é exatamente esse o papel de uma Bienal de arte: criar fissuras nos entendimentos estáveis do que é ou do que pode ser arte. Independentemente do foco temático da presente edição, creio que a Bienal de São Paulo tem a obrigação de, nesse sentido amplo, ser sempre política.

Folha - De que maneira os pichadores se encaixam no projeto curatorial de arte e política?

Dos Anjos - O pixo é uma manifestação visual que traz, embutida nas práticas dos pixadores e nas imagens que eles criam sobre os muros e edifícios da cidade, uma visão de mundo que simplesmente não cabe nos acordos que regem e limitam a vida comum na cidade de São Paulo. E apesar disso o pixo está aí, cobrindo toda superfície de parede disponível, forçando sua passagem em um país cujas elites ainda preferem ignorar as graves fraturas sociais que existem. Dando visibilidade a algo que de outro modo não seria visto. E falando de algo que, não fosse justamente pela grafia aparentemente cifrada que os pixadores usam, dificilmente seria dito. Nesse sentido, pixo é política. E nesse sentido, é arte também.

Folha - Picho, então, é arte?

Dos Anjos - Nesse sentido em que falei, sim. Na verdade, a questão a se fazer é outra, que poderia ser formulada nos seguintes termos: Se o pixo é exposto numa galeria ou numa Bienal, permanece sendo arte? É com essa aparente contradição que teremos que lidar na 29ª Bienal. Pois se o que faz o pixo ser arte é justamente o fato dele desconcertar nossos sentidos e nos fazer admitir, mesmo quando estamos no conforto de nossos carros ou da janela de um apartamento alto, que existem outros modos de entender e de inventar o mundo, o que acontece se o pixo é trazido para o ambiente controlado, conhecido e decodificado do chamado 'campo' da arte? Ele mantém a sua potência ou se torna mera ilustração ou lembrança de si mesma? É esse desafio que curadores e pixadores tem que enfrentar juntos, de modo que ultrapassem duas situações simétricas e igualmente indesejadas: por um lado, a simples rejeição ao que causa desconforto; por outro, o desejo de cooptar o diferente para torná-lo igual a nós mesmos.

Folha - Mas picho também não tem um aspecto de vandalismo?

Dos Anjos - De uma perspectiva meramente legalista, a resposta obviamente é sim. Porém, essa é uma maneira de ver a questão que mais esconde do que revela. Afinal, o grafite também ocupa espaços na cidade que não são propriedade dos grafiteiros, e nem por isso estes são criminalizados de modo tão inequívoco como os pixadores. Na verdade, como bem sabemos, muitos grafiteiros são hoje considerados artistas, tendo seus trabalhos expostos em museus e vendidos em galerias de arte. O que produz essa diferença de percepção? Arriscaria dizer que é a opacidade do pixo em relação à transparência do grafite. Ou seja, que é o incômodo causado por algo que não se deixa apreender por códigos conhecidos, quando comparado ao conforto sentido quando se depara com uma imagem reconhecível e produzida por uma prática autorizada, como é hoje a dos grafiteiros.

Folha - A participação reforça a passagem, cada vez mais comum, da arte de rua para as galerias? Quais os prós e contras dessa passagem?

Dos Anjos - Se o resultado da participação do pixo na Bienal de São Paulo for reforçar essa passagem "da rua para as galerias", teremos fracassado inteiramente em nosso intento. Não é isso que queremos, ainda que fazer essa travessia possa melhorar materialmente a vida dos pixadores que a façam. Mas então o que se fará não será mais pixo, mas apenas uma representação gráfica do pixo. Aqui, como em tudo na vida, é preciso fazer escolhas. E escolhas têm consequências. Por isso que não queremos impor aos pixadores formas de participação do pixo na Bienal. Queremos construir juntos essas formas de participação. Mas de antemão já sabemos, curadores e pixadores, que trazer o pixo como mera expressão gráfica que se vale de um suporte bidimensional para dentro do prédio da Bienal não interessa, não resolve coisa alguma. Esse seria o caminho mais curto para destituir o pixo de sua força transgressora e de sua originalidade. Interessa-nos mais descobrir formas de compreender e de ativar, a partir da Bienal, os significados do pixo na cidade de São Paulo. Para tanto pretendemos fazer uso de estratégias diversas de documentação (fotografias, vídeos, coleções de tags) e de discussão. Estratégias que não se confundam com o pixo propriamente dito, já que esse só existe como tal nas ruas, mas que evoquem, desde o interior do mundo da arte, o fato de que nem tudo que é arte a Bienal é capaz de abrigar ou de entender plenamente.

Posted by Marília Sales at 3:08 PM | Comentários(8)
Comments

olha, achei uma iniciativa legal. acho que pode dar certo. é, evidentemente, uma coisa perversa, uma anulação da rebeldia por meio de sua institucionalização, como fazem os pais quando fumam maconha com os filhos. mas como não sou pixador e não tenho filhos, acho que essas relações de ódio podem ser saudáveis e incrementar as discussões de uma forma que as manifestações ridículas contra a prisão da moça na última bienal não podem. os pixadores vão ser enganbelados, é claro. os que toparem sserão os pelegos e uns bobahões, e os bobalhões que ficarem de fora vão se morder de ciúme porque são mais bobalhões ainda. enfim, vai ser divertido assistir.

Posted by: rafael campos rocha at abril 15, 2010 4:34 PM

pô, escolhi um mau ano pra largar a pixação...!

Posted by: daniel aka putsnator at abril 15, 2010 9:37 PM

"O gesto de Moacir dos Anjos pode ser lido de modo ambíguo: pode representar a abertura do evento a manifestações não institucionalizadas, ou pode ser uma demonstração do poder das instituições sobre as manifestações que lhes são críticas."

Convido a ver meu post no blog Icônica: www.iconica.com.br

Posted by: Ronaldo at abril 15, 2010 9:43 PM

RUA OU MORTE!?!
"Se o pixo é exposto numa galeria ou numa Bienal, permanece sendo arte?"
Não!!!
Quando uma manifestação artística urbana e marginal que nasceu da rua, e pra rua, como forma de protesto como o graffiti e a pixação se deslocam e passam a ser expostas em instituições elas perdem a essência que faz delas arte. Ou seja, perde o conceito do protesto, a postura política, o pertencimento a rua. Como o nome street art já diz graffiti e pixação são artes de rua que perdem seu valor artístico se deslocadas do contexto onde nasceram e para qual nasceram. O graffiti e a pixação invadem, tomam o espaço urbano intervindo na estética da cidade e causando uma reflexão a favor ou contra (e outras inúmeras. Essas manifestações domesticadas dentro de uma instituição e fora de seu contexto não passam de pintura morta (Graffiti) e de design de caligrafia (pixação).
Não sou contra o artista ganhar dinheiro enquanto joga com sua arte, mas matá-la para ganhar dinheiro é no mínimo questionável.

O "artista" não estará transformando o jogo em trabalho? Portanto, se desvalorizando como artista?

Um artista de rua lutar (como o discurso - ao que parece agora mera publicidade - do pixador que invadiu a Bienal) pelo reconhecimento de sua arte pelo sistema artístico é uma contradição, é lutar contra a contravenção de sua arte, é suicidar-se como artista contraventor.
Resumindo: Ao meu ver nem existe motivo para essa discussão, arte de rua só é arte na rua. E não deve ser apresentada como arte de rua dentro de uma instituição, chame do que quiser mas não de graffiti e pixação porque isso já não são mais. Mas, ao meu ver, isso não impede que artistas de rua apresentem outros jogos artísticos em instituições desde de que não sejam rotulados como arte de rua. Afinal, o artista contemporâneo tem liberdade de jogar com diferentes e quantos meios quiser.
Mais uma vez o sistema artístico está querendo reduzir manifestações artísticas a mera publicidade e mercantilismo.

RUA OU MORTE!?!

Posted by: Anderson Benelli at abril 16, 2010 10:03 AM

O pixo paulista é atualmente o que o graffiti foi na new york dos '80, porém sem a relação que o graffiti tinha com a pintura, a 'grande pintura' abundante nos museus novaiorquinos: pollocks, Picassos, Rauschembergs, que certamente influenciaram jovens pobres como basquiat e hering.

Nossos talentosos excluídos, sem referencia na tradição pictórica ocidental, criaram um código gráfico tosco e próprio.

Essa diferença entre graffiti e pixo pode ser o que talvez poupe o pixo da domesticação como produto visual.

Posted by: j.macedo at abril 18, 2010 9:40 PM

a 29a assim como a 28a será Bienal Histórica !

Esperem por uma pancada !

Posted by: Choque Photos at abril 20, 2010 8:32 PM

"Borrada" essa entrevista... nao fica nada claro (e nao deve mesmo estar). Seria interesante ver qualquer mencao a ideia de iconoclastia - ato e manifestação cultural que pode embasar ate o universo do pixo. Nao so a iconoclastia bizantina, mas como hj tal ação é utilizada em tantos outros campos e esferas culturais com fins politicos ( ex Taliba x Buda). Iconoclash, mostra/livro de B. Latour e algo a se olhar.

Vejo o pixo mais como politica do que arte: manifestacao social, de classe, luta urbana por visibilidade, transgride espaços, ate mata... e entao considerar pixo como arte nao ajuda a entender o pixo como forma de cultura nem a arte a "expandir seus horizontes politicos". Ate porque outros fenomenos urbanos poderiam ser colocados no mesmo embate como por ex. a auto construcao. Essas nao sao ao meu ver manifestacoes guiadas por preocupacoes esteticas ou formais a priori, mas atos de sobrevivencia que carregam e criam a posteriori uma estetica, derivativa de um contexto especifico, dos materiais disponiveis e possibilidades de ação.

Na Bienal de 2006 o artista italiano Francesco Jodice retratou de forma muito proxima o universo do pixo, parte do docu-filme Sao Paulo City Tellers (o qual ajudei a produzir), vale ver tbem... http://www.tate.org.uk/modern/exhibitions/globalcities/diversity.shtm

Alem das pesquisas realizadas no centro de antropologia urbana da USP, que com certeza vao mais afundo nesse terreno cinza q se esta formando...

Posted by: Beto Shwafaty at abril 21, 2010 7:56 PM

PIXO-TE. PI-VETA. SE VETA-ME,TE PIXO!

Posted by: CARLOS at abril 22, 2010 9:10 AM
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