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julho 22, 2015
Canal Contemporâneo: Memórias e Perspectivas por Patricia Canetti
Canal Contemporâneo: Memórias e Perspectivas
Está publicada na PUC-SP a dissertação "Canal Contemporâneo: Memórias e Perspectivas", defendida em 7 de abril de 2015 por Patricia Kunst Canetti, no Mestrado em Tecnologia da Inteligência e Design Digital.
Banca examinadora
Maria Lucia Santaella Braga (Orientador) [PUC-SP]
Sergio Roclaw Basbaum [PUC-SP]
Henrique Antoun [UFRJ]
Giselle Beiguelman (Suplente) [USP]
Marcus Vinicius Fainer Bastos (Suplente) [PUC-SP]
Resumo
Este trabalho faz um levantamento da memória de quatorze anos de existência do Canal Contemporâneo – www.canalcontemporaneo.art.br – e analisa esta memória e seus conceitos adjacentes para apontar as perspectivas deste experimento/pesquisa, que atingiu uma longevidade surpreendente na Internet cultural brasileira. O resgate de sua história e memória coletiva foi feito em três capítulos cujo fio condutor perpassa as seções editoriais, as plataformas e as ações do Canal Contemporâneo. No primeiro capítulo abordamos a sua origem, os primeiros estímulos, conceitos e desdobramentos. Desde então reuniu ações que operam no campo da arte, da política e da comunicação, que apontam para uma perspectiva de narrativa e releitura da arte contemporânea, com um trabalho de Análise de Redes Sociais e Visualização de Dados. O embasamento teórico desta pesquisa que apenas se inicia se firma nos seguintes campos e autores: Visualizações de Dados (Fernanda Viégas, Lev Manovich e Manuel Lima); Taxonomia (Marcia Lei Zeng e Jian Qin); Análise de Redes Sociais (Katherine Faust e Stanley Wasserman) e dos modelos de Grafos Aleatórios (Paul Erdős e Alfréd Rényi), Small-World (Duncan J. Watts e Steven Strogatz), Preferential Attachment (Albert-László Barabási e Réka Albert); História e Sociologia da Arte (Aby Warburg, Alfred Gell e Bruno Latour). Esperamos que a nova experiência compartilhada através deste trabalho possa contribuir para uma visão mais ampla de acervo, arquivo e patrimônio cultural, para as políticas públicas de cultura no Brasil.
Palavras-chave
Internet, memória, redes complexas, visualização de dados, arte contemporânea, história da arte
Re-signagens audiovisuais por Lucas Bambozzi
Re-signagens audiovisuais
LUCAS BAMBOZZI
No mundo analógico havia paradigmas interessantes. Havia ruído, quase sempre, tanto em som como em imagem. A informação, tida como sinal, transitava entre circuitos e mídias, se misturando a ruídos. Em termos técnicos, buscava-se a predominância do sinal sobre o ruído. A tal relação sinal-ruído era linha importante nas especificações de equipamento de áudio hi-fi (alta fidelidade). Como o termo não se presta apenas ao mundo técnico, cabe questionar que fidelidade seria essa (em um extremo: ao sinal ou ao ruído?). Essas e outras dicotomias entre o analógico e o digital podem se mostrar irrelevantes.
Em projetos como o ON_OFF, fica mais claro imaginar que o ruído pode ser informação, pode haver algo mais nas entrelinhas dessa “signagem”, e a informação pode ser eloquente e expressiva, mesmo onde o sinal é subtraído, em experiências que retomam elementos essenciais da imagem e do som, onde não cabem mais as oposições entre sinal e ruído, por exemplo.
A programação deste ano arrisca indícios de uma nova configuração do audiovisual ao vivo, em diálogo com possibilidades de enunciação do básico, do que ainda pode haver de específico nessas linguagens, ou “signagens”, como sugerido no título – e retomado ao final deste texto.
Novamente, neste ano temos uma apresentação inicial que despersonifica o artista. Em POWEr, do duo canadense Artificiel, o palco encontra-se vazio. O que vemos é talvez a situação mais emblemática possível para um projeto como o ON_OFF: uma faísca, capturada em plena descarga de uma grande bobina de Tesla. O acender e o apagar daquilo que é a essência fundamental dessas artes: a eletricidade. Através dela, aí sim, o transistor, o chip, a projeção, os zeros e uns do digital, a manipulação do ritmo, a suspensão do tempo, a construção de sentido.
Na segunda noite temos uma apresentação que busca a essência da imagem: luz e sombra. Luz como partícula, como matéria em trânsito no espaço, visível, perceptível, tátil, como material bruto (e leve ao mesmo tempo), em estado essencial. O duo Mirella x Muep realizam uma performance inédita, em formato duplo, em cores de tonalidades igualmente básicas: Branco e Chumbo. O projeto encerra sua Trilogia das Cores (Branco, Cinza e Chumbo – de certa forma, entendidas como não-cores), em uma narrativa audiovisual criada a partir de luz e som. Segundo os autores, uma cor que não é considerada cor pode transitar por locais múltiplos e consequentemente mais profundos e complexos, sem que lhe atribuam características pré-definidas ou estigmas que as encarceram. Uma 'não cor', pode possuir em si todo o espectro visível e invisível. É dado o espaço e o tempo para se imaginar. Há algo da alegoria da caverna de Platão, em um ambiente imersivo, hipnótico, preenchido pelos elementos mais primordiais do cinema.
Na terceira noite, temos elementos de distinção e classificação. Os reinos essenciais e um modelo de divisão: o mundo reduzido a mineral, vegetal e animal. Em uma espécie de laboratório montado no palco, Fernando Velázquez não segue o modelo de Linnaeus do século XVII, mas se vale dele como artifício para criar um inventário em tempo real, explorando as qualidades visíveis e invisíveis de seres e coisas, em formas de captura e sampleamento que se cruzam em circuitos analógicos e digitais, para além de suas "naturezas" previas. Nessa apresentação também inédita, intitulada Reino, Velázquez questiona o digital, em arguições endereçadas aos pensadores de suas especificidades – e as respostas são parte integrante da performance.O meio, em suas linguagens limítrofes, buscando escapar de categorias estanques, produzindo sentido justamente em sua ecologia de signos. A última apresentação é do duo Tetine, com o projeto The 4th World, também desenvolvido especialmente para o ON_OFF. O trabalho evoca as promessas de futuro que permeiam o imaginário ligado às tecnologias. Como ilusão ou como falácia, é um 'futuro-mentira' que nunca chega, a expectativa típica de um mundo temeroso, incerto.
O Tetine pensa imagem e som a partir de conceitos intercambiantes, que vão alimentar e conduzir tanto um como outro. Elementos formalistas, cotidianos, textuais, motivos teóricos, tudo tende a ser desconstruído tanto em termos de sons como em imagens. Em um cenário eco-catastrófico, em situações de precariedade, toma lugar a impossibilidade de ‘troca’ (afetiva, cultural, psicológica, linguística ou emocional).
De certa forma The 4th World enseja também uma volta ao básico. São grandes questões, essenciais, que pedem por alguma transcendência, no tempo presente, e não no futuro. Para dar conta desse discurso, o verbo pede auxílio a outros elementos de linguagem, visual e sonora.
Pois bem, 'signagem' foi um termo difundido por Décio Pignatari para se referir a códigos icônicos e audiovisuais, que se diferenciariam dos códigos verbais. Aqui a referência teria a ver com construções onde o sentido é criado a partir do atrito de referências, em confluências de signos, em busca de uma relação sinal-ruído que permite que tudo signifique, de forma expressiva. Um complexo 'intersigno', como queria o poeta e semioticista.
Se o contexto e objeto da 'signagem pignatariana' era a TV, aqui é um conjunto de experiências visuais, que retomam formas expressivas sempre rejeitadas pela TV: o tempo morto (!?), a imagem incompleta, o intercâmbio som-imagem, a economia verbal, o flerte com funções cinemáticas essenciais, o encontro social como parte da fruição audiovisual, um desejo de sinestesia, a partilha de sensibilidades nesse processo todo.
Temos então um conjunto de apresentações que retomam a natureza eletro-eletrônica embutida no digital. São fabulações em torno dos meios, da ecologia das mídias, da representação possível a partir de uma redução voluntária da informação. De volta ao básico, a uma essência perdida nos discursos de sedução. Em processos de experimentação genuína, nos convidam a separar os meios de seu discurso automatizado.
julho 21, 2015
A imagem lançada na retina por Diógenes Moura
A imagem lançada na retina
DIÓGENES MOURA
Meu pai, João, era cego. A última vez que o encontrei ele pediu que o levasse até a porta da sala para que pudesse ouvir o vento mais de perto. Depois me perguntou quantos passos seria preciso para chegar do outro lado da rua, o que havia entre um lado e outro e se o caminho teria curvas porque ele precisaria inventar um percurso para as imagens descritas e outras que restavam na sua lembrança. Não suportaria que o “barulho” poluísse a descrição. Seus olhos eram as mãos para equilibrar-se dentro da visão do seu mundo privado. Atravessou mais de cinco décadas selecionando um mundo imagético com o qual fosse possível conviver, dividir o espaço entre o seu corpo, o sofá, a poltrona onde ouvia música, os cantos da casa. Sempre precisou de silêncio para entender o que estava diante dos seus olhos. Do contrário, o barulho do dia poderia transformar-se em matéria (quase tátil) naquele mundo simbólico. Sua vida passou a ser a ideia de uma imagem a partir da voz de outra pessoa.Quando Ricardo Barcellos me contou sobre O Universo Azul é uma Cabine dois mundos se encontraram: o meu tumultuado mundo exterior (visível/carnal) e o de João, interior, construído a partir das palavras dos que estavam ao seu lado. Engana-se quem pensa que o meu mundo seria capaz de produzir mais imagens do que o dele.
Barcellos chegou ao mundo dos cegos para tentar entender e “suportar” o alto volume das imagens que nos atingem um segundo atrás do outro, como sombras. Partiu de um repertório fotográfico para propor situações de risco, desafiando a elaboração imagética e tendo como sensor um modelo mental que poderá ultrapassar a terceira dimensão. Quem vê o quê?“Informações massificantes precisam ser desvendadas para que possamos vencer o caos”, afirmou o compositor Sérgio Sá, 63 anos, cego congênito, um dos entrevistados para o projeto. Esse, o filtro proposto: quem suporta ver em abundância e quem precisa de informações para construir uma paisagem imediata? Algo que o sistema paraconsciente leva para a cultura da visão. O que está diante dos nossos olhos: uma nuvem ou uma bolha de sabão?
O Universo Azul é uma Cabine trata de imagens decodificadas. Um: a mesa rompida em partes onde cada quina tocará o dedo da visão não construída. Dois: horizontes na fronteira da imaginação: como será o azul? Objetos têm cheiro? A cor possui som? Como tocar a linha do horizonte? Três: a lua projetada e ao mesmo tempo, diluída: entre a fumaça/nuvem o que permanecerá entre o que estamos vendo e a solidão cósmica? Quatro: a descoberta da paisagem nas pontas dos dedos. A imaginação impressa em 3D onde o relevo vence a fotografia digital: aqui será o toque o protagonista do pensamento/visão. Cinco: dentro de um cubo transeuntes aparecem e somem entre o real e o imaginário: “Quem não vê percebe o corpo que ocupa um espaço. Quem vê percebe o corpo como se fosse uma imagem ambulante”, diz o artista procurando um caminho entre o que é volátil e o que poderá ser perpétuo. Seis. O pânico das imagens bombardeadas. Os olhos do autor tentam perceber a dor dos outros. Daqueles que depois da cegueira voltam a enxergar e sucumbem ao conflito estre os dois extremos, o que poderá resultar em depressão e morte.
O Universo Azul é uma Cabine é um experimento entre palavras, matéria, coisas e paisagens que tentam se equilibrar no limite do que é palpável e do que deixa de ser. Algo como tocar um objeto descrito à distância ou tentar conviver com a “realidade” de imagens lançadas em direção à nossa retina.
Diógenes Moura
Escritor e Curador de Fotografia
