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julho 27, 2015
Artista-curador-gestor: a potência independente por Thais Rivitti
Artista-curador-gestor: a potência independente
THAIS RIVITTI
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O encontro “O artista gestor e a potência independente”, organizado pelo Ateliê 397 com colaboração do Curatoría Forense, destina-se a debater importantes questões colocadas para o campo das artes visuais hoje. Questões que surgem, se aprofundam, ou ganham outros contornos a partir do desenvolvimento do circuito independente.
A primeira questão diz respeito à atuação dos agentes independentes que, em seu cotidiano, têm uma prática radicalmente multifacetada. Trata-se do curador que atua também como gestor, como editor e como professor. Ou do artista que age ora como curador, ora como designer, além de documentar e divulgar o que acontece, criando obras-registros-documentos. E também do produtor que, ao pensar criticamente o circuito da arte, propõe novos modelos de exposição, novos circuitos, outros públicos, parcerias e colaborações.
Esse campo independente, ainda em construção em países da América Latina, parece estar em plena elaboração de outras possibilidades de atuação, que não compartimentem saberes nem estabeleçam funções estanques. Os independentes, de certa maneira, recusam a divisão tradicional do trabalho, criando um campo comum, cuja base é o pensamento crítico sobre o circuito artístico. O desafio enfrentado por esses agentes muitas vezes envolve a conciliação de (aparentes) contradições, constantes revisões de posição e disposição para o aprendizado.
O presente encontro é um momento para debatermos e refletirmos em conjunto sobre essas questões que nos acompanham todos os dias, com a profundidade e o vagar que elas merecem. A independência não é uma bravata. Ela é construção permanente, um caminho que aos poucos vamos pavimentando, incluindo indagações sobre o que queremos do futuro, o que deixamos como legado, como e por quem queremos ser reconhecidos. Muito já foi feito, é hora de pensarmos sobre esse acúmulo e tomarmos para nós mais uma tarefa: a de escrever nossa história – que certamente extrapola a somatória das histórias particulares, endereçando-se às questões mais gerais sobre a produção, a circulação e a reflexão sobre a arte hoje – em nossos próprios termos.
Thais Rivitti
Ateliê397
Artist-curator-manager: the independent power
THAIS RIVITTI
The meeting, The managing artist and the independent power, organized by Ateliê397 in collaboration with Curatoría Forense, is intended to discuss key issues within the field of visual arts today. Issues that arise, deepen or assume different shapes based on the development of the independent circuit.
The first issue concerns the performance of independent players, who often have a radically multifaceted role. It is the curator who also works as a manager, an editor and a teacher. Or the artist who is a curator or a designer at times, and then documents and disseminates what happens, creating works-records-documents. It also concerns the producer, who – by thinking of the art circuit critically – suggests new exhibition models, new circuits, different audiences, partnerships, and collaborations.
This independent field, still under construction in Latin American countries, seems to be creating different possibilities of action, which do not compartmentalize knowledge and do not establish stagnant roles. In a way, independent players reject the traditional division of work, creating a common field, whose basis is critical thinking on the art circuit. The challenge faced by these players often involves the reconciliation of (apparent) contradictions, constant changes of points of view, and willingness to learn.
This meeting is an opportunity to thoroughly and carefully discuss and reflect on issues we deal with every day. Independence is not a display of bravado. It is a permanent construction, a path we gradually tread, including questions about what we want for the future, what we leave as a legacy, and how and by whom we want to be recognized. Much has been done, now it’s time to think about all of that and take on one more task: writing our story, which certainly goes beyond the sum of individual stories, and addressing more general issues on the production, circulation and reflection about art today – as we think fit.
Thais Rivitti
Ateliê397
Corpo-limiar por Mario Gioia
Corpo-limiar
MARIO GIOIA
É das obras mais instigantes presentes em La Nature d’Or. Um gesto gráfico que se desloca à esquerda de um vértice algo nave, algo edifício, rasgando o céu, em preto e branco, pontuado por nuvens extremamente plásticas. A caneta hidrográfica vai formar um volume por cima desse firmamento, meio informe. Na fotogravura feita a posteriori, o tom cinza predominará, mas na matriz-publicação que deu origem ao trabalho, o papel colado, marcado com a intervenção-gesto junto de outros acidentes, gera uma dimensão processual que termina por se estabelecer como um dos eixos potentes na nova individual de Antonio Bokel no Rio de Janeiro.
A robusta obra arquitetônica de Kenzo Tange (1913-2005), que tanto rendeu delírios maravilhosos e utópicos influenciando o agrupamento dos metabolistas como foi elogiada por trazer a tradição construtiva do país oriental a uma modernidade de primeira hora, parece despedaçar-se, desmanchar-se e buscar uma reconstituição a partir da subjetividade hiperfragmentada do autor, que cotidianamente no seu fazer de ateliê se reinventa por meio de linguagens, investigações, abordagens, materiais. O Ginásio Nacional Yoyogi, então, se encontra com o ‘minhocão’ do Rio Comprido.
Como habitante de uma cidade ao mesmo tempo cindida e compartilhada, o artista carioca deixou faz muito um lado mais conhecido de sua produção, aquele em que grafismos e outros procedimentos o aproximavam mais da linguagem da arte da rua. Não à toa, em uma de suas mais irônicas obras, o centro da fotografia registrava o escrito numa parede qualquer: Eu não faço grafite.
De toda forma, a vivência dentro desse lócus complexo vai provocar experiências e desdobramentos de incertas determinações, mas que, ao final, forjam uma poética crispada e não linear. “A experiência urbana é primeiramente corporal. […] O corpo resiste enquanto corpo, ele não se pode furtar a uma relação com o real, com um mundo: ele não pode viver em um real que se parece com ‘qualquer coisa’, em um lugar que é ‘qualquer lugar’, um ‘lugar qualquer’. Não se habita um lugar qualquer, mas um mundo onde, de imediato, dentro e fora, privado e público, interior e exterior estão em ressonância. É preciso ‘ter lugar para existir’ […]” [1], escreve Olivier Mongin.
Em La Nature d’Or, assim, Bokel persiste na lida diária de variadas experimentações. Há, por exemplo, um vídeo, em que os anteriores escritos de sua produção serão transmutados para perguntas, sempre com ironia, sobre a natureza do ofício artístico. É como se o artista extraísse de garatujas, chispas semânticas e outros signos urbanos certa energia, frescor e irreverência, mas retrabalhasse isso por um tempo mais dilatado e devolvesse tal carga por meio outro _ no caso, o audiovisual, hoje onipresente e acessível a todos. A imagem de uma natureza encorpada, inicialmente apreendida como impassível mas na verdade um sítio de contínua transmutação, provoca uma ruidosa recepção a ser apresentada juntamente com as questões trazidas, em forma de legenda, pelo pensamento do autor.
E numa era de circulação maximizada de quase tudo que pudermos imaginar, o artista elege novos vetores na produção pictórica _ esta nunca pura, em constante elos com o desenho, o tridimensional, a colagem, a gravura. Um deles é a superfície da madeira naval, a mais sóbria e ‘isenta’ possível. Outro é o dourado, que pontuará diversas peças em La Nature d’Or, e se espalhará de modos mais detidos ou mais desregrados por todo o recorte.
Em muitos dos dípticos, trípticos e conjuntos, módulos de conteúdos aparentemente assimétricos se ladearão, ganharão pares e associações numerosas. Campos de cor, chassis ‘alisados’, rastros de spray e linhas que emulam os antigos desenhos técnicos criam, assim, novas configurações visuais-conceituais de borradas especificações. Tais quais as fantasmagorias brilhantes que, enigmaticamente, parecem ter se instalado nos priscos retratos de astros hollywoodianos. O brilho (ou a ilusão de) pode se relacionar com outra série, desta vez produzida por Bokel a partir do Instagram. Lumes postiços que, catalisados pela prática multifacetada do artista, têm muito a dizer sobre a nossa essência, mesmo que ela esteja sobreposta, esgarçada, dividida.
NOTAS
[1] MONGIN, Olivier. A Condição Urbana. São Paulo, Estação Liberdade, 2009, p. 242
