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maio 3, 2018
Patricia Gouvêa: Sobrevida por Luiz Alberto Oliveira
Patricia Gouvêa: Sobrevida
LUIZ ALBERTO OLIVEIRA
Há um momento singular, quando se veleja rumo ao alto oceano, em que a presença da terra firme se esmaece, deixa de predominar, e então o mar, o céu e os ventos envolvem por completo o navegante, e tudo se torna diferente. Algo de similar se passa com os alpinistas quando avistam o cume, e com os astronautas quando o ronco dos foguetes silencia. E, é claro, quando se adentra a floresta.
A floresta condensa toda o viver, toda a vida. Inumeráveis dimensões, possibilidades de ação, movimento e desvio, simultâneas e redobradas, encarnam-se na profusão de seres, em perene mescla, em disparatada harmonia. A floresta é linguagem, mil línguas murmurando-se, mil sombras lampejando-se. Poucos infinitos nos são dados de modo tão inteiro, tão múltiplo, tão intimamente estrangeiro. A floresta tudo toma, pois está no mais de tudo fundo. Estar ali é tornar-se algo, outro; o inconsciente se estrutura como uma floresta. A Amazônia é o inconsciente do Brasil.
Sobretudo, a floresta é complexa. Muitos componentes, em muitas relações mútuas, escalonadas em muitos níveis de ordenação. Ser complexo é dobrar-se sobre si e sobre o fora. O oceano americano de clorofila se conecta com o oceano africano de silício atravessando as águas do Atlântico. Grãos de poeira são trazidos do Saara pelos ventos alíseos e nucleiam chuva na Amazônia. A evaporação da floresta recicla esta umidade, formando rios aéreos que irão se despejar nas nascentes e bacias do Sudeste. As cataratas do Iguaçu advém assim do deserto - evidência da interconexão global do sistema complexo Terra - mas ainda mais notável é compreender que a transpiração da floresta é sua respiração: a floresta gera a chuva que a gera.
Este é o contexto em que podemos situar as ações humanas na e sobre a floresta. Durante milênios os povos originais ocuparam e transformaram a floresta, fertilizando-a com a terra preta de índio, semeando com castanheiras uma faixa diagonal sudoeste-nordeste de milhares de quilômetros, incorporando-se a seu corpo. Desde que o Antropoceno - a época em que o conjunto da atividade humana tornou-se uma força de alcance planetário - se instalou, porém, há pouco mais de seis décadas, um terço da extensão da mata foi destruído ou alterado. A suavidade da presença milenar indígena contrasta brutalmente com o impacto da voragem capitalista. E é aqui que a questão da sobrevida - da floresta, dos índios, do Brasil - se coloca, indesviável.
A poesia meticulosa das imagens de Patricia Gouvêa designa precisamente este horizonte de deslimites. A floresta reassimila a casa arruinada, como convém, espalha suas marcas refazendo sua pele de musgos, assoma miraculosa no bocal imóvel do encanamento perdido. O homem dá-lhe o que não carece - um nome, um centro. O tempo humano dos artefatos se afoga no ciclo imenso das terras raízes troncos e folhas, mas cautela: se a floresta vive de si, deslinear como os meandros de um igarapé, sem si se extinguirá. Como nós.
Sobrevida é sobre nós.
abril 30, 2018
Hélio Fervenza: Tempos Reversos por Eduardo Veras
A noção de reversão de tempo tem aparecido em pesquisas acadêmicas em diferentes ramos da Física, da Matemática, da Biomedicina e de certas engenharias. Não prevê a sorte de viagens ao passado, nem mesmo o postulado filosófico do eterno retorno. Trabalha antes com a perspectiva de que se possa recriar, em laboratório, as condições que coincidiriam com o momento de engendramento de determinado fenômeno. Em tese, isso permitiria a recriação do instante preciso antes de as coisas começarem a desandar. Seria como um contrafluxo da chamada obsolescência programada: uma espécie de reinvenção ou reconfiguração das continuidades desejáveis. Em três novas séries de trabalhos, Hélio Fervenza (Santana do Livramento, 1963) aproxima-se dessa condição dos tempos reversos: uma alteração perceptiva do presente, que possa nos conduzir, ao menos hipoteticamente, de volta ao segundo antes da perda, do desvanecimento fatal. Obviamente, a operação, aqui, não é literal, mas metafórica. Preserva, porém, algo da dimensão utópica das experiências científicas.
Em uma das séries, objetos – que se assemelham, a um só tempo, aos sinais gráficos conhecidos por colchetes e a grandes réguas de acrílico, feito essas que se empregam nos escritórios de arquitetura – pretendem, à primeira vista, medir certas distâncias. Os números que vêm ali estampados, em uma transparência que resiste às opacidades cotidianas, assinalam antes as pontuações do tempo do que as fronteiras espaciais: datas significativas para a configuração do que entendemos por Brasil, começando pelos 1500, data de seu Achamento.
Em outra série, de caráter mais instalativo e performático, o artista apresenta quatro instrumentos em acrílico preto, ainda carregados, como as réguas, por sinais de pontuação. Esses paus-de-chuva, ao serem manipulados, produzem uma trilha sonora, de harmonia intuitiva e artesanal, ao mesmo tempo em que remetem ao esforço característico das ampulhetas. O gesto evoca o transcorrer do tempo cronológico, enquanto o som nos projeta no tempo climático: hora de chover. Sob o título relógios: dias de areia; segundos de chuva, as peças articulam-se a um vídeo, que faz, também ele, as vezes de ampulheta, com mãos que vão mudando de posição para deslizar porções de areia de uma para a outra.
A terceira série reúne uma série de impressões sobre papel de arroz. Essas composições recordam tanto a intensa experiência do artista com xilogravura quanto seu gosto pela incorporação de sinais próprios da escrita: além das chaves e colchetes, presentes nas duas outras séries de trabalhos, agora há também letras, palavras e expressões. Os sinais, dessa feita, expandem, se deformam, se invertem e se espelham. A leitura não se dá de imediato. Experimentamos, de fato, um mundo truncado. A rigorosa construção formal, combinada a heranças do conceitualismo, articula carimbos e espaços vazios. O texto se faz imagem, mas, por mais estranho que pareça, nunca deixa de ser texto.
Dizia Michel Butor que um muro, erguido pelo conhecimento, separa o que se vê do que se lê. Trabalhos que combinam texto e imagem ajudariam, segundo o poeta, a solapar esse muro. Dessa vez, colaboram também na empreitada – ainda que hipotética ou utópica – de reversão do tempo. Nenhuma nostalgia nessa operação. Hélio Fervenza convida antes a que se perceba o que perdemos e quando perdemos. Talvez algumas reversões sejam desejáveis, possíveis ou necessárias.
Eduardo Veras
Porto Alegre, outono de 2018
Eduardo Veras é crítico e historiador da arte
Professor do Instituto de Artes da UFRGS
Curador da exposição Tempos reversos
