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abril 16, 2018
Îles flottantes, de Douglas Gordon por Lorenzo Mammì
A videoinstalação Îles flottantes [Ilhas flutuantes] foi realizada em 2008 por ocasião da grande exposição individual de Douglas Gordon Où se trouvent les clefs? [Onde estão as chaves?], em Avignon, na Provença (sul da França). Na sede principal da mostra, a Coleção Lambert, Gordon concebeu o espaço expositivo como um corpo, e as obras (algumas novas, outras já exibidas) como agentes de alteração de suas funções vitais.
Para filmar Îles flottantes, Gordon inverteu o fluxo de um antigo sistema de canalização para inundar o jardim da residência Lambert. No vídeo, a água se espalha, encobrindo progressivamente crânios humanos que o artista espalhou pelo jardim. Os crânios remetem a um trabalho de 2007, Forty [Quarenta], em que o artista, então com 40 anos, fez 40 incisões em forma de estrelas num crânio humano – alusão à foto de Man Ray em que Marcel Duchamp exibe na nuca uma tonsura em forma de estrela. Mas os crânios de Ilês flottantes aludem também a uma série de naturezas-mortas que Cézanne pintou no final da vida, compostas apenas por conjuntos de crânios dispostos sobre uma mesa. São quadros que cabem no gênero tradicional da vanitas, reflexão sobre a transitoriedade da vida, assim como o Forty de Gordon.
Título e subtítulo sugerem ainda outras chaves de leitura: îles flottantes é o nome de uma sobremesa tradicional francesa; Montfavet, bairro onde a vila Lambert se encontra, abriga também um famoso hospital psiquiátrico. A paisagem da Provença está especialmente ligada à obra de Cézanne, que ali nasceu e passou grande parte de sua vida. Ao colocar os crânios de sua vanitas numa paisagem aquática, Gordon estabelece uma tensão entre duas maneiras opostas e complementares de ver, próprias de dois mestres do impressionismo: a transparência e a docilidade aos reflexos do jardim inundado, marco das paisagens aquáticas de Monet, se sobrepõem à consistência volumétrica e à concentração luminosa de Cézanne. Os últimos minutos da projeção, quando a água deixa entrever apenas as calotas dos crânios, são muito semelhantes a certas paisagens juvenis de Cézanne, como a Ponte em Maincy perto de Medun, de 1879, em que as manchas brancas das pedras se projetam para a superfície da tela, opondo sua consistência de coisas à fluidez impressionista dos reflexos. É outra maneira de repor a relação, tão constante na obra de Gordon, entre decomposição e permanência, movimento e imobilidade, fluência da percepção e solidez dos corpos, fluidos e ossos.
Lorenzo Mammì
Mauro Restiffe: São Paulo, fora de alcance por Thyago Nogueira
Cidades são organismos vivos – nascem, crescem, desenvolvem-se. Raramente morrem e, em geral, sobrevivem àqueles que as moldaram ou que nelas vivem. A convite do Instituto Moreira Salles, o fotógrafo paulista Mauro Restiffe (1970) percorreu bairros centrais e periféricos de São Paulo, como Luz, República, Pinheiros, Vila Congonhas e Itaquera. Munido de sua Leica portátil e de filmes em preto e branco de alta sensibilidade, Restiffe palmilhou ruas e esquadrinhou a cidade entre dezembro e abril de 2014, um momento de profunda agitação, causada por eventos como as intervenções violentas no bairro da Luz ou as obras faraônicas que antecederam a Copa do Mundo. O resultado das caminhadas é esta exposição – uma síntese visual da paisagem humana, arquitetônica e topográfica de São Paulo e uma representação aguçada das tensões políticas e sociais que dão forma ao espaço urbano.
Os usos variados e inesperados que os habitantes fazem da cidade, os conflitos entre o desenvolvimento econômico e a preservação do patrimônio, a complexidade do relevo urbano – tudo está nas imagens. Eventos cotidianos, como deslocamentos diários ou o lazer do fim de semana, convivem com fatos extraordinários, como um os protestos que tomaram o país ou o incêndio no Memorial da América Latina. Cartões-postais como o Museu de Arte de São Paulo dividem a atenção com lugares menos reconhecíveis, como os arredores da avenida Jornalista Roberto Marinho, na Zona Sul. O que vemos é o espaço e o tempo da cidade, o que lhe dá corpo e vida.
Parte da frustração e do fascínio que São Paulo exerce em seus habitantes vem de seu ciclo de evolução acelerado e da dificuldade em controlar inteiramente o espaço. É o que sugere a fotografia do largo da Batata, importante entroncamento da cidade ao mesmo tempo em reforma e em ruína. Tão logo surgem, as construções já parecem gastas, como se precisassem ser constantemente substituídas, numa espiral de renovação que não vê fim.
As fotografias apresentam uma complexidade de situações, algumas aparentes, outras menos. O antropólogo Claude Lévi-Strauss acreditava que as cidades eram o produto de uma estrutura mental invisível, um tipo de ordem subjacente, fora de nosso alcance, que se insinuaria sobre os espaços e se expressaria de forma simbólica ou real, “um pouco como as preocupações inconscientes se aproveitam do sono para se exprimir”.
Depois de percorrer e fotografar exaustivamente São Paulo, Restiffe talvez tenha intuído uma ordem própria, construída por microscópicos grãos de prata. Ao expor a complexa interação entre o espaço, as pessoas e a arquitetura, ao exibir a experiência urbana como uma realidade fragmentada, o fotógrafo age como um urbanista inconsciente, um artista que constrói uma nova cidade.
Thyago Nogueira
