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maio 3, 2017
Gais Ama por Vanda Klabin
Gais - Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para sua melhor comodidade, Artur Fidalgo Galeria, Rio de Janeiro, RJ - 05/05/2017 a 05/06/2017
GAIS AMA nasceu no Rio de Janeiro em 1980. Sua atuação artística passa a encontrar ressonância na esfera da vida urbana através de suas constantes intervenções em muros, viadutos... Chegando, também, às ruas de Amsterdã e Roterdã.
A exposição na Artur Fidalgo galeria apresenta um conjunto de obras inéditas intituladas pelo próprio artista de fotomontagens e de pinturas. GAIS AMA criou um novo espaço para a sua arte transitar, ampliando o campo de sua poética: aqui o seu trabalho se constrói a partir do recolhimento dos restos de um passado, da apropriação de ícones jornalísticos, recortes de revistas como O Cruzeiro e Manchete, que remontam aos anos 1950 e 1960, que recebem também uma intervenção de tinta acrílica.
“...acordo pensando em arte, passo o dia pensando em arte e vou dormir com arte na cabeça”, diz o artista.
Vanda Klabin
Curadoria
abril 30, 2017
As Desbandeiras de Julio Leite por Adolfo Montejo Navas
As Desbandeiras de Julio Leite
ADOLFO MONTEJO NAVAS
Nada como uma época tumultuada de signos, símbolos e emblemas para reconhecer o bastidor imagético que tem as bandeiras, seu pertencimento e inscrição nas coordenadas da história, milenar ou recente. Algum dicionário – como o do poeta Juan Eduardo Cirlot – registra a sua genealogia, derivada da insígnia totêmica, e seu lugar alto e colocação elevada, correlata à exaltação imperiosa ou então signo de vitória e autoafirmação. Mas, além de ser uma ferramenta de educação sentimental, as bandeiras, como bem se sabe, também produzem fundamentalismos de todo tipo, sobretudo nacionais – aquele narcisismo da pequena diferença, como dizia Freud sobre os nacionalismos –, que encontram na bandeira uma transferência icônica ou, pior, arrastam à cegueira ideológica, religiosa ou militar. Desde as Cruzadas aos logos nazistas, ou desde a Klu Klux Klan ao Estado Islâmico, por exemplo, faz parte de qualquer comunidade ter seu próprio pano de tecido retangular ou quadrado precisando tremular ao vento.
Contudo, não é a primeira vez que a arte se aproxima da interpretação aberta das bandeiras; lembre-se de passagem as iconografias diferentes de Jasper Johns e George Maciunas ou então os mapas-bandeiras internacionais de Alighiero Boetti ou aquelas sendo comidas pelas formigas de Yukinori Yanagi. Mais próximas, geograficamente, são as bandeiras mais particulares de Hélio Oiticica (Seja marginal, seja herói) ou a bandeira local (em negativo) do Complexo do Alemão de Paulo Climachauska. Mas o trabalho de Julio Leite tem seu próprio raio de ação, e se inscreve numa utopia estética mais contígua, na inversão cromática de bandeiras nacionais relativizando completamente a percepção a rigor já codificada, até tal ponto que deixa em suspenso a associação oficial e comum – instintiva – que temos cada qual dessa relação, o que serve de distintivo, identidade. E este deslocamento visual que se produz bate cada vez mais de frente com o espírito da época, cada vez mais relutante a não deixar de instrumentalizar os signos coletivos, seja como propaganda ou proselitismo, para algum proveito ou lucro. Recentemente, e serve como exemplo paradigmático, a folia nada naïf do impeachment submeteu a bandeira do Brasil a uma instrumentalização ímpar; de fato, o exercício de manipulação de símbolos pátrios por parte da direita mais recalcada (seja política ou social) já é um mainstream político.
A série Projeto para um Novo Mundo “tem como conceito as alterações sociais pelas quais o planeta tem passado nas últimas décadas. Os processos migratórios, a fome, as guerras, as mudanças climáticas têm modificado substancialmente os mapas, as delimitações de fronteiras, o acirramento das questões ideológicas e a intolerância como princípio predominante nas relações entre os povos”, aponta o próprio artista, para sinalizar o território abissal em que cada vez mais se inserem as bandeiras, com sua simbologia de outrora. Aliás, o dilema delas talvez seja o fato de que a geografia política de onde emergem – assim como a sua correspondência social – encontra-se em parte em suspenso, litígio, mutação, como o anúncio de um desequilíbrio histórico – sempre maior que estético – que qualquer ar da época altera, conduz a revisar ou contemplar com outro olhar.
Nas antípodas, portanto, de um quadro tranquilizador, a situação que apresenta Julio Leite através da transmutação de suas outras bandeiras – de sua objetualidade, mas também sua performance simbólica – resulta paradoxal, pois a desconstrução da imagem da bandeira é feita em parte, sutilmente, só no registro da cor, mas em sua mudança alteram-se completamente as semânticas, desnorteando percepções adquiridas, tudo se convertendo quase numa adivinhação ou numa charada de várias dimensões (a alegoria que superpõe camadas de significações). Trata-se de um gesto com certeza iconoclasta, que erode o status quo das idolatrias correspondentes, balizadas. E graças a estas metamorfoses se produz um contágio inusitado, uma sinergia visual e sobretudo um apoio decidido pelo húmus ou fio-terra que habita debaixo de todo o repertório convencional e institucional que reportam. As desbandeiras de Julio Leite prometem outro horizonte sígnico que desloca as convenções nacional/local/global – a globalidade imaginada, como diria Néstor García Canclini – e, em consequência, o costume de nossa inércia. Faz parte de uma sinalética em xeque, em crise de representação: o regurgitado conflito nação-mundo, ainda tão vivo e ferido quanto latejante.
