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março 10, 2017
Vera Chaves Barcellos: Fotografias, manipulações e apropriações por Claudia Gianetti
A exposição monográfica de Vera Chaves Barcellos exibe, por primeira vez no Rio de Janeiro, um amplo panorama da obra da artista gaúcha com e em fotografia. Vinte trabalhos, desde 1975, cobrem quatro décadas de criação, nos quais convivem dois tipos de produção: obras híbridas (fotografias manipuladas e imagens apropriadas de registros da mídia) e fotografias autorais. A linguagem serial, amplamente explorada, desencadeia múltiplas associações imagéticas e narrativas.
Seis eixos temáticos principais estabelecem diálogos temporais e nexos conceptuais e formais entre as obras. Gestos: “Do aberto e do fechado”, “O grito”, “L' Intervallo Perduto” e “The Birds”. Expressões faciais e gesticulações comunicam emoções e estados ricos em significados, que, descontextualizados, podem transitar da eloquência para o silêncio. Heróis anónimos: “Os Nadadores”, “Menexéne” e “O Peito do Héroi”. Os desportistas, os prisioneiros e os mitos personificam condições e valores socioculturais e políticos. As intervenções nas imagens reais, apropriadas da mídia, apagam suas identidades, como também acontece com nossas histórias e memória. Despojos: “Manequins de Düsseldorf” e “Caixotes em três tempos”. Os motivos insólitos das fotografias, encontrados por acaso, vinculam a noção de despojamento com a alusão irónica à nossa cultura do consumo e da uniformização. (Des)construções: “Fata Morgana”, “Letrados” e “Casasubu”. Nas sequências fotográficas, a primeira explora superposições gradativas de suas partes e as outras documentam insólitas fachadas frontais de edificações, sendo que na última as manipulações criam simulacros inexistentes na realidade. Retratos: “Meus pés”, “Auto-retrato”, “A filha de Godiva”, “Cão veneziano” e “Retrato”. Para a construção de figuras identitárias, sejam estas as de um carro, uma pessoa ou um animal, a artista recorre a ópticas singulares. Arte sobre arte: “As you like”, “Jogo de damas” e “Zócalo”. As reflexões acerca da arte, características do seu trabalho, ironizam sobre a arbitrariedade dos critérios de valor na arte e questionam os esteticismos de certos tipos de pintura.
Ao entender o ato fotográfico como processo e a fotografia como um campo de possibilidades e uma linguagem a transgredir, Vera Chaves Barcellos avançou no tempo e levou à prática as noções hoje tão em voga de pós-fotografia e meta-fotografia.
Claudia Gianetti é pesquisadora em arte contemporânea, estética, mídia-arte, e relações entre arte, ciência e tecnologia. Teórica e curadora, com formação interdisciplinar, é doutora em História da Arte pela Universidade de Barcelona. Nasceu em Belo Horizante.
Elegia por Gonçalo Ivo
Elegia
GONÇALO IVO
Poucos acontecimentos nos tornam tão tangíveis quanto a morte. Oculta em tudo que existe, engastada no passar das horas ou no lento arrastar do verme que fecunda e marca a terra, surge repentinamente como um vertiginoso voo de pássaro anunciando mistérios. Raramente, desejamos sua presença de aparência múltipla, sólida e fria como pedra.
Na manhã azul, um besouro é levado pelo vento incerto. E ondas do mar repetem-se de forma incessante. Precipitam-se sobre as agudas rochas do litoral. Tudo passa. Na solidão do ateliê, a mão do pintor ganha movimento e induz o pincel a macular a alvura do linho. E o que antes era matéria e espessura, transmuta-se e oscila entre o inefável e o perene.
Aprendemos muito com a morte. E aprendemos a entendê-la melhor, quando estamos diante de obras como a de Gianguido Bonfanti. Espécie de guia que se manifesta em nossa realidade física, material e psíquica, esta arte inquieta nos conduz a sendas estreitas, passagens escuras, sensações incômodas. Vivenciamos a degradação moral e física dos corpos e almas. Suas pinturas são como espelhos. Contemplamos o que em nós é inacabado e imperfeito.
Na noite escura, percebemos o ruído do jato que, em sua passagem, afasta o brilho dos astros. Tudo nos cativa e distrai. O prenúncio da aurora nos seduz. Há um sentimento frenético no movimento das coisas do mundo, e o cotidiano com sua nova luz volta a conferir cadência às nossas vidas.
Mas a arte de Gianguido Bonfanti, como maré vazante, viaja em sentido contrário numa via sem volta. Causa espanto e nos desperta do estado de inércia, torpor e letargia, como a lembrança da fúria de uma tempestade de verão. Arrasta-nos para sonhos desconexos.
Fazer do corpo e seu sofrimento a razão central de uma obra não me parece casual ou aleatório. Este assunto recorrente se evidencia e floresce desde trabalhos de meados dos anos 1970. Deparamo-nos com a crueza das imagens rudes criadas por Gianguido Bonfanti nas terríveis Doenças Tropicais.
Em seu trabalho, o corpo humano é o motivo gerador de quase todas as imagens e indagações. São figuras que estão a nos mirar impiedosamente, a nos inquerir como testemunhas da dor, da degradação, do envelhecimento e da ruína final.
O autorretrato é outra obsessão do artista. Há centenas deles: ora desenhos a bico de pena, ora pinturas a óleo em variadas palhetas – ocres, terras, negros, esverdeados, todas em misturas entrópicas – ou sua mais recente produção escultórica em argila e bronze. E mesmo quando representa o rosto de outros personagens, Gianguido Bonfanti parece retratar a si mesmo. O artista está sempre reivindicando sua singularidade e lugar neste mundo.
Há um raro vigor e até mesmo um sentimento irracional e narcisista em toda sua produção. E essa característica esquecida, deixada de lado pela prática e fabricação usual de uma arte que quer ser tutelada, igual, ansiosa em falar a linguagem da tribo e se submeter aos dogmas e normas vigentes na contemporaneidade, unicamente para ser aceita e institucionalizada, nos faz perceber quão livre e autêntico o artista Gianguido Bonfanti é em seu processo criativo. Interessa-me a repetição obsidente com que trata as figuras, seus rostos violentos, barrocos, patéticos, carcomidos por um tempo implacável.
Em uma dessas pinturas – um suposto autorretrato datado de 2011 – como num sonho desconexo, o torso de um homem emerge de uma espécie de pântano. Sua expressão imantada de força me faz pensar em uma figura mitológica, sem que eu saiba precisar a que mitologia pertenceria. Seu olhar se perde em algum ponto borrado no futuro. Em segundo plano, há uma sequência de árvores sumárias, secas e retorcidas. Em uma delas, vê-se um personagem recostado à espera da incerteza. Ao cabo, toda cena se vinca de melancolia e incômodo. Interrogo-me sobre a razão de tanta tristeza.
Em nosso último encontro, em seu ateliê arraigado entre as enseadas do Flamengo e de Botafogo, a manhã azul e limpa de fins de maio contrastava com a gravidade da pintura. Nessa ocasião, Gianguido Bonfanti me confidencia que seu foco, seu único interesse agora é por uma pintura “pura, expressiva, potente e essencial”. A meu ver, o artista passa a perseguir a simplicidade. Em seus mais recentes óleos, há um frescor semelhante às garatujas de nossa infância, quando, ainda meninos, brincávamos e rabiscávamos para imprimir no tempo sem tempo ou medida a nossa felicidade. E esta nova “caixa de lápis de cor” a sujar novamente a superfície branca da tela desvela a eterna usina da criação em seus dias de redescobertas e liberdade adormecidas.
Gonçalo Ivo
Madrid/Teresópolis,
outubro, 2016
A condição coletiva por Juliana Gontijo
A condição coletiva
JULIANA GONTIJO
Tão turva é a época que vivemos que somos, involuntariamente, pulverizados por uma engenharia de subjetividades que alimenta uma lógica do desejo individual e competitivo. Frente a essas circunstâncias, a consciência coletiva ganha potência política. O agenciamento livre comunal, fruto da ação consciente de um grupo e guiado por um propósito compartido, pode se opor à atomização das relações sociais —e, no sentido filosófico, romper o princípio de individualidade que Arthur Schopenhauer sugeria constituir nosso véu de Maia. A consciência coletiva é, portanto, uma força disruptiva e uma resistência na dialética capitalista, mas também um desafio poético.
A indagação sobre sua própria condição de coletividade é, portanto, o ponto central desse conjunto de trabalhos do Filé de Peixe, coletivo artístico formado por Alex Topini, Fabrício Cavalcanti e Fernanda Antoun, atuante desde 2006. Essa condição se expressa em sua relação de tensão criativa com a autoria, a identidade e a instituição numa série de propostas auto-referenciais, críticas e quase insolentes. Agenciamentos coletivos e apropriações de obras já clássicas da arte conceitual conferem uma tonalidade irônica a uma tradição estética orientada pela expressividade poética do artista enquanto sujeito individual e por uma aura que gira em torno da autoria e da originalidade de um objeto-fetiche.
Nesse sistema de reiteração temática, a potência do coletivo não se opõe ao indivíduo; ou seja, as características particulares de cada membro não desaparecem, mas encontram-se presentes a cada vez em corpo, imagem ou voz, num jogo quase narcísico de ego coletivo. A autoria é, nesse jogo, um sistema dinâmico na articulação das assinaturas grupais — fatorial, expandida e tensa.Mas, assim mesmo, o “impulso coletivo” — título homônimo de uma lúdica obra da exposição — gera distorção das formas, ironiza com a própria idealização do coletivo, tornando-o commodity — em A merda do coletivo— e agencia outras coletividades — na coleção cm2.
As apropriações —dentro das quais estão incluídas a performance de Paulo Bruscky, as cadeiras de Joseph Kosuth, the boring art de John Baldessari, as latas de Piero Manzoni e os cartazes de Barbara Kruger — criam sistemas de relações e uma transitoriedade entre discursos. Isto é, a apropriação de obras existentes na história da arte, um dos dispositivos artísticos mais frequentes dos últimos anos, não é apenas uma negação da originalidade —como poderia ser o ready-made duchampiano—, mas uma forma de indagar estruturas de significado. A obra de arte, neste contexto, seria apenas um estado intermediário, uma terminação temporária incluída numa rede de elementos interligados, através da qual é possível perceber as marcas dos relatos anteriores.A obra, enquanto texto passível de tradução e conversão, ao ser apropriada, se impregna de historicidade. Pois, segundo Walter Benjamin —também “apropriado” pelo grupo, não experimentamos a história quando estamos engajados no presente dos acontecimentos, mas sim quando nos deparamos com os dejetos da cultura sendo reutilizados. Afinal, como o Filé de Peixe nos demonstra na prática de suas propostas, na era da intensa reprodutibilidade técnica e da propagação infinita de imagens, mundo só existe em função do remake e das micro-piratarias, enquanto a condição coletiva se dá na vivência do sentido da história.
Evany Cardoso por George Kornis
Evany Cardoso, Paço Imperial, Rio de Janeiro, RJ - 17/03/2017 a 21/05/2017
O traço de união tanto une quanto separa. Ele expressa coesão e simultaneamente distingue elementos. Nessa perspectiva, o trabalho de Evany Cardoso no campo da arte pode ser entendido como um traço de união. Como traço ele tem caráter, traça um caminho muito singular e deixa claro seu rastro. E isso não é pouca coisa.
Dionísio foi, sem dúvida alguma, o founding father no Brasil da criação artística com base na técnica milenar da serigrafia. Evany, por seu turno, foi a discípula dileta que, unida ao seu mestre, contribuiu de modo decisivo para o desenvolvimento da linguagem gráfica pela incorporação contínua de inovações no âmbito dessa técnica. Está claro: a união entre Dionísio Del Santo/Evany Cardoso produziu, ainda que muito tardiamente, a consolidação da serigrafia como mais uma possibilidade de expressão artística lastreada na linguagem gráfica.
A biografia de Evany Cardoso, na qualidade de artista, encontra na união com Dionísio Del Santo um momento singular de criação plástica e possui seu locus na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Foi no passado e é no presente dessa instituição nuclear do ensino de arte no Rio de Janeiro que Evany uniu e ainda hoje une, de modo criativo e plural, um conjunto de artistas em torno de uma agenda de pesquisa e inovação. O desenvolvimento dessa agenda pressupõe fôlego e consistência no pensamento e na ação. E isso não é uma banalidade.
A presente exposição nasce de um paradoxo: Evany Cardoso é uma artista experiente, mas agora enfrenta o desafio de apresentar seu trabalho para um público mais ampliado e diversificado em uma exposição no Paço Imperial do Rio de Janeiro, uma sólida instituição do circuito de arte do Rio de Janeiro. O desafio não é pequeno, uma vez que ele implica apresentar a um só tempo e espaço a unicidade e a diversidade de um trabalho construído, muito discretamente, ao longo de décadas. O desafio é ainda maior se considerarmos que esta mostra se propõe a apresentar, de modo muito sintético, tanto a unidade e a coesão quanto a envergadura de sua obra. E a obra em pauta está em pleno curso de construção.
Desafios à parte, estamos diante de um momento de grande alegria: apresentar uma artista madura com ânimo e tensão de estreante como Evany Cardoso é, sem dúvida, um prazer cada vez mais especial na era do estrelato. Trata-se, portanto, de algo muito especial.
George Kornis
curador
