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março 3, 2017
Do Abismo e Outras Distâncias por Bruna Fetter
Do Abismo e Outras Distâncias
BRUNA FETTER
Em um cenário social e político no qual parece cada vez mais difícil a convivência entre opiniões e crenças distintas, a internet e as redes sociais têm sido um fórum que - mais do que permitir a exposição, a difusão e o amplo debate de ideias - vêm aprofundando as distâncias entre diferentes pontos de vista. Ao invés de ampliar suas visões de mundo através do acesso praticamente irrestrito à informação, as pessoas tendem a viver cada vez mais dentro de seus universos pessoais, ou bolhas, como chamamos comumente. À facilidade de um mero clique, laços virtuais e reais são desfeitos. Familiares deixam de se falar. Colegas de trabalho cortam relações para além das estritamente necessárias. Vizinhos passam a implicar (ainda mais) entre si. Amizades de infância são desfeitas. Com alguns outros cliques fornecemos informações sobre preferências ideológicas à grande matriz que, se valendo de algoritmos, traça nosso perfil e passa a oferecer aquilo que nos é confortável e corrobora nossas verdades. A opinião subjetiva e individual passa a ser a verdade disponível, e não aceitamos nada além dela.
Nesse contexto, no qual ‘pós-verdade’ foi escolhida a palavra do ano de 2016 pelo dicionário Oxford, falta tolerância para com a diferença. Segundo a definição apresentada pelo dicionário, o adjetivo faz referência a ‘circunstâncias em que os fatos objetivos têm menos influência na formação de opinião pública do que apelos emocionais e opiniões pessoais’. Os editores esclarecem: no termo, o prefixo ‘pós’ não é utilizado como referência a um acontecimento passado (como em pós-guerra), mas sim para salientar a rejeição ou irrelevância do conceito precedido. Como no caso em que notícias falaciosas são compartilhadas milhares de vezes mesmo que seus disseminadores estejam cientes de sua carga de inverdade. Para quem viraliza as supostas notícias, não importa que dados concretos e informações comprovadas atestem a não veracidade de tais declarações, apenas que sua reverberação reifique suas próprias crenças. Uma versão de Maquiavel 3.0 [1] para justificar os meios em função dos fins.
Para além da falta de respeito, há uma escassez generalizada de empatia. Em um mundo no qual as minorias estão cada vez mais cientes da relevância de reforçar seu lugar de fala e de garantir que suas vozes sejam amplificadas, irônica e paradoxalmente há uma surdez coletiva para a diferença se aprofundando. Tal surdez possui uma estética própria: a estética dos muros de separação, das barreiras de contenção, das fronteiras que, aos poucos, se convertem em abismos.
Refletindo a respeito dessas questões e do papel da arte em tempos tão conturbados, Do Abismo e outras distâncias celebra os cinco anos de vida, projetos e proposições da galeria Mamute. A partir de uma seleção de trabalhos - em sua grande maioria inéditos -, a mostra se propõe a lidar com a diferença, com o ruído, e a nos fazer olhar para as distâncias existentes, sejam elas realidades ínfimas, ou metáforas abissais. Trazendo obras de todos os artistas representados pela galeria, a mostra questiona os gritos e os silêncios, as tensões e os embates da vida contemporânea, propondo aproximações dialógicas entre obras de poéticas bastante distintas.
Essas aproximações aparecem na mostra calibrando as ‘outras distâncias’ presentes no título, em encontros ora delicados, ora tensos. Como uma corda que, por proximidade física, vibra junto com outra mesmo sem ter sido tocada, a ideia aqui é acionar tensões poéticas que nos permitam fazer conexões simbólicas para além do dito e do desdito. Talvez seja utópico pensar que a arte tenha capacidade para derrubar barreiras e permitir nos aproximarmos uns dos outros com menos defesas. Mas talvez ela possa, pela via do sensível, nos ajudar a reconhecer e experienciar aquilo que mal cabe em palavras, tornando o diferente menos distante.
Bruna Fetter
Curadora da mostra
[1] Em irônica alusão à Web 3.0 que, anunciada como a terceira onda da internet, projeta estruturar todo o conteúdo disponível na rede mundial de computadores dentro do conceito de ‘semântica das redes’, ou seja, conteúdos online estariam organizados de forma semântica, personalizados para cada internauta de acordo com as informações geradas a partir do seu próprio uso.
Seis variações de Paulo Pasta por Jacopo Crivelli Visconti
Seis variações de Paulo Pasta
JACOPO CRIVELLI VISCONTI
Paulo Pasta - Seis Variações, Galeria Carbono, São Paulo, SP -08/03/2017 a 13/05/2017
No ateliê de Paulo Pasta, pinturas de momentos distintos de sua carreira convivem lado a lado, numa disposição aparentemente casual, que dificilmente encontraremos em suas exposições ou na composição de cada obra, já que em geral o trabalho dele transmite, pelo contrário, uma impressão de equilíbrio e ordem. Nessa montagem, pode acontecer que estudos com cores vibrantes fiquem juntos de pinturas noturnas, ou uma paisagem ao lado de uma abstração, e essas fricções acabam sugerindo uma leitura, talvez parcial ou excessivamente pessoal, mas não por isso menos instigante, da sua obra como sutilmente autobiográfica. Com algumas exceções do começo da carreira, as paisagens pintadas por Pasta são vistas dos campos do interior do estado de São Paulo onde ele nasceu: é a única paisagem que me interessa, ele diz. Para além do dado autobiográfico, é do ponto de vista formal, isto é, de sua estrutura e cor, que essa paisagem pode ser considerada efetivamente central na poética do artista: as divisões netas e definidas entre céu, terra e campos lavrados, a alternância de azul, verde e terra, as linhas retas e estreitas das estradas que surcam essas planícies de cores puras e extremamente uniformes, por vezes encontrando avenidas maiores, mais para frente, em ângulos retos.... A descrição não é muito diferente da que poderia fazer-se de uma de suas pinturas abstratas, o que torna ainda mais fascinante ouvir o artista dizer que sua cor é atmosférica, ou seja, inspirada mais nas continuas e quase imperceptíveis variações da luz ao longo do dia (e da noite) do que na obra de outros artistas. Significativamente, quando Pasta aponta para referências diretas da história da arte, elas são de composição, e não cromáticas, como no caso da divisão física, geralmente condensada num elemento arquitetônico, que separa a cena das Anunciações renascentistas em dois espaços ontologicamente distintos (de um lado o divino, representado pelo anjo, e do outro a virgem, com sua evidente humanidade), e que ele reinterpreta e sublima em algumas das suas composições.
A série de gravuras produzidas para a exposição na Carbono pode ser entendida como um conjunto de variações sobre cinco matrizes básicas, rigidamente geométricas, que constituem seu ponto de partida. Essas matrizes provêm de óleos sobre tela pintados anteriormente, selecionados, digitalizados e depois trabalhados no computador modificando as cores. Finalmente, as variações assim obtidas são impressas em Fine ArtPrinting, utilizando pigmentos minerais. Apesar das matrizes permanecerem exatamente iguais, as mudanças que Pasta obtém, através apenas dessas variações cromáticas, são profundas, fazendo com que as composições lembrem ora cenas noturnas, ora abstrações mais próximas às construções concretistas, ora ainda uma montagem quase mecânica ou automatizada. Considerações de ordem práticas sobre o processo de trabalho poderiam parecer superficiais, principalmente após ter argumentado que a obra de Pasta, desde seus inícios e apesar de ser em larga medida dedicada à abstração, é intensamente poética e pessoal. Mas vale a pena ressaltar esse aspecto porque, no que diz respeito especificamente à produção de gravuras, a maneira como elas são concebidas é intrinsecamente ligado aos aspectos técnicos da sua realização. Ao realizar uma série de monotipias no ateliê de gravura da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, alguns anos atrás, por exemplo, o artista produziu algumas impressões extremamente livres, aproveitando exatamente a dinamicidade do processo de preparação da chapa, e outras em que, antecipando de certa maneira o que vemos aqui, distintas combinações de cores eram obtidas a partir de uma mesma matriz geométrica.
De certa forma, porém, e diferentemente do que acontece na nova série de variações, o controle sobre o resultado final, naquele caso, era ainda parcialmente incontrolável, e em última instância surpreendente até para o próprio artista. Ao trabalhar com o meio digital, por outro lado, Pasta adquire um controle praticamente total, nesse sentido mais próximo do que acontece com as pinturas, onde as cores e formas são frequentemente retocadas e revistas, por vezes com variações mínimas na tonalidade de uma cor ou na espessura de uma linha, até chegar à forma final. Na maioria dos trabalhos, é possível ver uma faixa de tela não pintada em baixo, em cima ou ao redor da área pintada. Essa faixa, que significativamente aparece também nas gravuras, é obtido cobrindo a área com uma fita que, durante todo o processo de trabalho, é pintada exatamente como o resto da tela. Só quando o artista está convencido que a obra pode ser considerada concluída (não raramente ao término de um período de “convivência” no ateliê, isto é, dias ou semanas após ter dado a última pincelada), ele finalmente retira a fita, o que faz aparecer, muitas vezes, pequenos rastos de camadas de outras cores debaixo da última. Essas memórias, apesar de quase imperceptíveis, conferem uma qualidade única à composição, transformando uma organização rigidamente geométrica em algo profundamente humano, e ajudando a atingir o equilíbrio mencionado no começo deste texto. Um equilíbrio, cabe acrescentar, que não é sempre convencional, principalmente no que diz respeito às justaposições de cores que, ao longo dos anos e ao passo que o artista se tornava mais seguro do seu fazer, têm se tornado cada vez mais ousadas, o que pode também ser apreciado em algumas das novas gravuras. Um equilíbrio, enfim, que nunca deixa de ser dinâmico e em constante variação.
