|
|
julho 5, 2016
Corpo impulso por João Paulo Quintella
Corpo impulso
JOÃO PAULO QUINTELLA
Do que se ouve de passagem nos bares, nas praias e nas ruas guardamos o ruído. Os fragmentos de falas não acumulam sentidos. A instalação Errância, de Floriano Romano, busca, em percursos cotidianos da cidade, produzir uma fabulação narrativa a partir da edição e intervenção em frases capturadas ao acaso. Um modo de assemblage sonora construída por um sistema de captura montado em um corpo anônimo, aquele do passante que circula pela cidade.
Corpos microfonados em uma caminhada errante por bares de bairros diferentes do Rio de Janeiro constroem uma teia de histórias reproduzidas em descompasso com o documental, uma vez que não identificamos suas origens. Errância é sobre a valorização do ensaio sonoro no fio das nossas percepções e afetos.
É a dedução da matéria em favor da experiência de aproximação e escuta aquela que Romano parece procurar. Os falantes dispostos na Sala A Contemporânea do CCBB são corpos derivados de uma inclinação afetiva. A instalação instaura o acontecimento e encontramos o que se diz carregado pelo deslocamento errante do artista.
O afeto não é apenas uma manifestação física mas uma equação expandida, capaz de absorver fatores externos ao próprio corpo e pensá-lo como parte de um entorno em mutação permanente. Neste mundo em concomitância, onde as variações fazem todas partes de um mesmo todo, torna-se fundamental desierarquizar. A nuvem sonora é esse lugar de valoração e ao mesmo tempo dispersão do sujeito. Quando o corpo é impulso o afeto vira acontecimento. É onde Floriano nos inclui.
julho 4, 2016
O método e a métrica por Marcus de Lontra Costa
O método e a métrica
MARCUS DE LONTRA COSTA
Ao longo de seis décadas de produção ininterrupta e abundante, Carlos Scliar nos legou um extraordinário patrimônio cultural composto por suas gravuras, desenhos e pinturas. Nenhum outro artista, talvez, sintetize de maneira mais evidente os desafios, os desejos e os dilemas da ação e da estratégia modernista no Brasil.
Filho de imigrantes, homem da fronteira, desde cedo o nacionalismo foi o elemento que estruturou a identidade de Carlos Scliar. A sua sólida formação cultural e sua precoce sintonia com os anseios e as expectativas do mundo surgido após a revolução socialista de 1917, garantiram ao jovem Scliar destaque na imprensa e na vida intelectual da capital gaúcha. Diferentemente dos artistas brasileiros que tinham na França a sua referência e, muitas vezes, o seu espelho, Scliar compreendeu o espaço de construção artística moderna por meio dos filmes e gravuras expressionistas alemães. Toda a sua trajetória artística teve como origem a sua sensibilidade gráfica: clareza de composição, disciplina no processo artesanal e síntese de mensagem que faz de cada obra um meio de comunicação direta e efetiva com o seu público.
Carlos Scliar é o artista do método e da métrica. A linha é o elemento que organiza a sua aventura artística; a partir dela, de seus vetores, ele constrói formas, acrescenta cores, desenvolve a sua poética particular. Para ele, o Brasil é assunto permanente: em busca das névoas do passado encontrou-as (e se encontrou) entre as montanhas. Gaúcho, acabou por se tornar o mais mineiro de nossos artistas. Em busca da luxúria tropical, encontrou nos barcos e nas marinhas de Cabo Frio a placidez e a luminosidade que perseguia. Soube entender, como poucos, a sutil relação entre a invenção e a permanência. Soube resistir à tentação da novidade e permanecer fiel e coerente ao seu ideal de vida e de mundo. Cabe-lhe perfeitamente a máxima de Drummond: “Mais do que moderno, quero ser eterno”.
A exposição “Carlos Scliar: da reflexão à criação” permite ao público carioca reencontrar-se com obras de um dos grandes mestres da arte brasileira. O trabalho curatorial consistiu na difícil tarefa de selecionar imagens, na vasta iconografia de Carlos Scliar, que sintetizassem a sua trajetória profissional, regida por um intenso espirito humanista em sua busca de harmonizar as criações da natureza e as criações do ser humano. Por isso, flores, vegetais e frutas são expostos de maneira harmônica com uma metalurgia inicial, bules, lamparinas, frascos e lampiões. O barroco brasileiro foi constantemente visitado por Scliar numa atmosfera de concórdia e clareza gráfica.
Homem do seu tempo Scliar participou intensamente da vida nacional e viveu e conviveu com os grandes desafios da arte moderna no Brasil e no mundo. Nos anos 50, impôs-se a disciplina do desenho e da gravura, caminhando corajoso na contra maré dos movimentos abstratos. A partir dos anos 60 definiu os objetos de sua construção artística. O espaço cubista, a clareza da composição, a articulação cromática sofisticada entre os elementos pictóricos são por vezes definidos por formas geométricas, por recursos gráficos oriundos da pop-art e também por movimentos de matéria e cor que encontram identificação com os grandes mestres impressionistas do século XIX. Assim, a pintura de Scliar busca referencias na história da arte para construir uma obra poética e sensível que reflete a capacidade brasileira de se apropriar de informações variadas, várias épocas, várias etnias, várias culturas, e com isso construir uma identidade própria original e provocadora. O reencontro, portanto, com as obras desse grande mestre brasileiro, é também a identificação com imagens que formam o nosso olhar, a nossa maneira de ver, sentir e interpretar o mundo. Neste momento marcante para a vida nacional e em especial para cidade do Rio de Janeiro - que Carlos Scliar tanto amou - é motivo de satisfação e orgulho podermos apresentar ao publico que nos visita por ocasião dos Jogos Olímpicos, uma trajetória artística que reflete e representa o que temos de mais verdadeiro.
