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maio 17, 2013
Marcelo Moscheta - 1.000 km, 10.000 anos por Alexia Tala
Marcelo Moscheta - 1.000 km, 10.000 anos
ALEXIA TALA
Marcelo Moscheta - 1.000 km, 10.000 anos, Galeria Leme, São Paulo, SP - 09/05/2013 a 08/06/2013
Marcelo Moscheta foi o primeiro artista residente na Plataforma Atacama e o segundo a realizar uma exposição com os resultados desta experiência. Moscheta é um artista viajante que percebe suas viagens como uma maneira de levantar elementos para reconstruir cartografias através de lugares que não são dele próprios, e coleta pequenos componentes presentes na natureza para criar suas obras por meio de instalações, fotografias e desenhos. Em seu processo criativo existe sempre um desejo de retratar seus deslocamentos por lugares geográficos distintos através da observação e coleta, se assimilando a um trabalho arqueológico que lhe permite, como artista, capturar e repensar os lugares nos quais esteve.
Sua experiência no Deserto do Atacama se soma a uma série de projetos que se desenvolveram em diferentes paisagens do mundo. A imensidão e aridez do deserto, seu horizonte que se expande e seu céu infinitamente estrelado mostraram para o artista uma conexão direta entre o céu e a terra. As condições tanto geográficas como arqueológicas e astronômicas com as quais conta esta paisagem o incentivaram a desenvolver uma obra que estabelece a comunicação entre o aqui e o infinito a partir de uma perspectiva histórica. Esta experiência as converteram em obras que são uma espécie de notas sobre o universo, tanto da velha história que questiona quem somos e de onde viemos – que se estuda exaustivamente dos céus do Atacama até milhões de anos luz no projeto ALMA – como sobre a origem do ser humano por meio da pedra paleolítica.
A exposição, intitulada 1.000 km, 10.000 anos, alude metaforicamente ao presente e ao passado. Mil kilômeros é a distância percorrida pelo artista desde sua chegada ao deserto do Atacama até seu último deslocamento neste território. Dez mil anos é o tempo em que as primeiras civilizações Licanantai começaram a habitar o mesmo deserto, estabelecendo assim uma relação espaço-temporal em seu modo de ver a paisagem. A terra se apresenta para Moscheta como a representação do passado, da passagem dos ancestrais, da narração de uma história natural que acolhe o homem. É uma espécie de campo de investigação arqueológico onde se desenrolam posições geográficas e cifras numéricas que narram seus ocorridos.
Na obra Linha: Tempo: Espaço, Moscheta apresenta uma acumulação em forma de uma longa linha da mesma rocha replicada muitas vezes em cerâmica – obtida na coleção de pedras e ferramentas paleolíticas da arqueóloga Ana María Barón. Cada uma delas foi catalogada com uma chapa de cobre que registra as coordenadas dos deslocamentos do artista no período de 10 dias em que residiu com base em São Pedro do Atacama. Linha: Tempo: Espaço nasce formalmente de sua experiência in situ no deserto de alinhar rochas no Trópico de Capricórnio, muito próximo ao local onde está instalado o monolito que indica a passagem do caminho Inca . A ação que Moscheta realisa sobre a linha do trópico já não une rotas comerciais, mas posiciona um traçado contemporâneo através de uma estratégia arcaica de fazer o caminho com pedras; se conecta com o passado por um gesto que só ele mesmo presencia.
Na parede ao lado de Linha: Tempo: Espaço está Atacama: 28.04-06.05/2012, um mapa desenhado com grafite sobre PVC expandido que assinala os deslocamentos que realizou e indica a multiplicidade de linhas criadas a partir dos pontos cardeais antes mencionados. Com esta obra o artista mostra uma perspectiva de visão que não é a humana, mas a visão a partir do cosmos.
Do outro lado da exposição se encontra Timelapse, uma pequena caixa com terra, areia e pedras coletadas no deserto do Atacama junto a uma placa que assinala o tempo no qual lá estiveram os primeiros habitantes daquele lugar. Moscheta faz o gesto de guardar a memória deste território como uma espécie de arquivo/registro deste evento. Assim como em algum momento os astronautas deixaram na lua uma placa que marcava sua chegada, o artista, com esta imagem como referência, concentra seu olhar no solo como objeto de estudo e volta a estabelecer um vínculo com os muitos astrônomos que habitam estas terras (projeto ALMA) e que focalizam suas análises na observação do céu, das galáxias e do universo completo.
A obra Timelapse estabelece uma comunicação entre o passado, por meio das pegadas dos primeiros habitantes desta terra, e o futuro, visto através da observação das estrelas como uma espécie de ponte entre o ontem e o amanhã, guardado, selado e registrado, desta vez pelo artista.
Marcelo Moscheta triangula um olhar que é uma intercessão perpendicular da história, com seus pés na terra e olhar para o céu. O horizonte aparece como uma infinitude detida pelas montanhas. A imensidão percebida pelo artista na terra é replicada também no olhar que lança para o céu claro e igualmente infinito. É nele que confluem ambas as percepções, a história da origem, dos ancestrais, da terra e do desconhecido no cosmos, explicando o passado e anunciando o futuro.
Assim como anuncia Patrício Guzmán – documentarista chileno/espanhol – em seu filme Nostalgia da Luz, o deserto do Atacama é uma conexão entre passado e futuro: passado ancestral em um dos desertos mais secos do mundo, cuja característica permite a conservação da história do homem, ao mesmo que é o lugar mais importante do mundo quando se trata da observação de estrelas e galáxias.
Moscheta relaciona ambos os mundos e os enfrenta colocando-os visualmente em diálogo, tentando analizar a experiência dos modos com os quais se habitou e ainda se habita o deserto.
Alexia Tala
Abril, 2013
maio 16, 2013
Casa entre\aberta por Marcus de Lontra Costa
Casa entre\aberta
MARCUS DE LONTRA COSTA
A minha casa fica lá de traz do mundo
Onde eu vou em um segundo quando começo a cantar
O pensamento parece uma coisa à toa
mas como é que a gente voa quando começa a pensar
“Felicidade”, Lupicínio Rodrigues.
Essa casa parece que se encerra em si mesma. Ela não abre as portas nem janelas, não aceita moradores, nem compreende a existência do abrigo, do descanso e do pouso. Há, entretanto, na sua imagem, um estranho mistério, um discreto convite ao visitante para desvendar seus espaços internos, penetrar nas entranhas da sua carne, casa\corpo que se abre ao vôo ao sonho, aos devaneios e à construção de uma nova realidade construída por uma precisa equação entre o pensar e o agir da artista.
Rosa Oliveira faz parte de uma forte vertente artística que busca interpretar e compreender o mundo através da síntese e da clareza dos meios técnicos e intelectuais que opera. As suas constantes faixas horizontais, planos de cor, fragmentos da paisagem parecem agora buscar o diálogo com outras formas, com outras geometrias que se comunicam com elementos da realidade cotidiana sem jamais abandonar seus compromissos essenciais com a disciplina e a verdade do mundo.
No século passado o modernismo apropriou-se da geometria como instrumento de construção de um mundo idealizado. Caberia ao artista construir artefatos que superassem os limites existentes da pintura, da escultura e da arquitetura. A criação de espaços seccionados através da linha e da cor tinha por objetivo criar portas e janelas para o mundo utópico a ser construído. Com a superação desses postulados, pulverizados por uma sociedade pós-industrial, diversificada e conectada virtualmente, a opção estética desses artistas que acreditam na objetividade e na expressão autônoma do espaço, da forma e da cor pode parecer, para o olhar apressado, algo anacrônico e ultrapassado.
Em meio ao ruído dos bytes acelerados e das imagens de um mundo sem ideologia e em constante transformação, algumas “estranhezas” nem sempre conseguem ser deletadas e o aparecimento de imagens pixeladas revela a base geométrica que forma e estrutura esse exército chinês de imagens vulgares. Assim, parece ser evidente que um dos papéis fundamentais da arte contemporânea é garimpar nesse cascalho e dele retirar elementos formais e estéticos que recuperem a identidade e assim restabeleçam vínculos mais consistentes na relação entre a arte e a vida.
No Brasil artistas como Rosa Oliveira – e também como ela, Sérgio Sister, José Bechara, Manfredo Souzanetto, Beth Jobim, e tantos outros – aceitam sem trauma o diálogo com o passado recente e se inserem na arena contemporânea regida pela diversidade não mais como arautos de uma verdade absoluta e sim, democraticamente como herdeiros de uma nobre linhagem de artistas que sempre buscou se relacionar com a verdade e os mistérios do mundo através da objetividade de seus métodos construtivos. Das clássicas teorias de Platão sobre a arte egípcia e a arte grega, sobre o mimetismo e a verdade, passando por Piero Della Francesca e Rafael, Manet e Cézanne, da arte indígena às esculturas e máscaras africanas, de Picasso a Mondrian, a história da arte se escreve tendo a geometria como base de ação que estrutura e dá sentido aos espaços e às formas.
As pinturas de Rosa Oliveira são elementos de grande potência visual. Ao estabelecer uma ponte sensível entre os elementos geométricos da composição e as poéticas específicas da casa como metáfora do corpo, do abrigo gerador de identidade e pensamento, a artista cria uma série dominada por cinzas e azuis que reforçam a unidade gráfica e a natural elegância das suas pinturas. A eventual presença de tons mais “quentes” e terrosos assinala o seu distanciamento de determinadas ortodoxias cromáticas aproximando-a de leituras mais poéticas e realistas com a paisagem revelada pelo olhar. Trata-se de uma obra densa e sensível produzida por uma artista que constrói cotidianamente, em silêncio e com perseverança, um belo e singular caminho na arte brasileira dos dias atuais.
Marcus de Lontra Costa
Rio. maio. 2013
maio 14, 2013
Transeuntes por Fernanda Pequeno
Transeuntes
Transeuntes, Casa da Ladeira Artes Visuais, Rio de Janeiro, RJ - 26/05/2013 a 09/06/2013
FERNANDA PEQUENO
O vocábulo que intitula a exposição significa aqueles “que passam; que vão andando ou passando; transitórios; passageiros”. Mesmo que as andanças digam respeito a itinerários íntimos, os transeuntes pressupõem o enfrentamento do espaço externo (o ambiente urbano; a paisagem do litoral ou do campo; o espaço público) e o encontro com seres humanos, objetos, animais, entidades, habitantes desses lugares. Ou seja, o trânsito diz respeito à observação e ao compartilhamento de um espaço comum a indivíduos com procedências e expectativas diferentes, e o transitar apresenta surpresas [e percalços], provenientes do imponderável da própria caminhada. Sendo assim, encontramos nesta exposição cartografias poéticas das expedições empreendidas por Ali Khodr, AnaCris Loureiro, Camila Mello, Cristina Amiran, Daniel Beerstecher, Daniela Alves, Fabiane Borges, Jac Siano, Khalil Charif, Pedro França, Pedro Teixeira, Rafael Adorján e Silvia Magalhães Pinto. Com abordagens que vão do urbano ao rural, da praia à floresta, do Rio de Janeiro (RJ) a Hollywood (L.A., EUA) - passando por Brumadinho e Liberdade (MG), São Paulo (SP), e pela Região dos Lagos no noroeste da Inglaterra (GB) -, temos aqui caminhadas e mapas individuais e compartilhados por eles. É importante também salientar que a Casa da Ladeira, onde a exposição é montada, é um ateliê coletivo, constituindo-se, portanto, como um local essencialmente em transformação.
Mesmo que os trânsitos provenham de diferentes contextos e refiram-se a diversas abordagens, a exposição é montada no Rio de Janeiro, em um momento-chave pelo qual a cidade está passando: gentrificação, obras por toda parte, políticas de remoção autoritárias, especulação imobiliária, congestionamentos constantes, favorecimento, por parte do poder público, de motivações econômicas, em detrimento dos interesses culturais e sociais, arbitrariedades que vêm causando insatisfação na população. Desse modo, embora o recorte curatorial não se constitua em comentários específicos sobre as transformações que ocorrem no Rio de Janeiro, a exposição propõe falar de trânsitos e não poderia silenciar-se sobre tais procedimentos de maquiagem e transformação urbanos. Assim sendo, mesmo que a exibição não se limite ao cenário carioca, cumpre um papel crítico, quando traz Belvedere_bis, irônico vídeo de Jac Siano que constrói outra imagem da cidade maravilhosa. Montado de maneira a sugerir a visão em 360° de um belveder, cuja função de mirante seria a de usufruir a vista, o trabalho coloca buracos de bala, tapumes e grades no lugar de paisagens que comporiam os cartões postais cariocas. Outros trabalhos que tocam nesta questão são as duas fotografias da série Derrelição, de Daniela Alves e Rafael Adorján. O título traz o abandono de si de um corpo que está sendo soterrado por um cenário em transformação. As ruínas dessa casa (que, no limite, poderia ser metáfora da própria cidade que os artistas habitam), desfocam e sufocam a personagem feminina, que encontra na melancolia uma saída possível para a dor proveniente dessa expulsão, que gera desamparo. Neste caso, os escombros da casa tornam-se protagonistas, enquanto o corpo torna-se coadjuvante. Se em O Transeunte - primeiro longa-metragem de Eryk Rocha, lançado em 2010 - vemos o desenrolar de uma obra que constrói um grande empreendimento imobiliário no centro do Rio de Janeiro, em Derrelição as transformações arquitetônicas e psicológicas que se processam são de outra ordem, ainda mais devastadora, já que esse cenário em destruição literalmente soterra a personagem.
De outra maneira Hollywood, de Khalil Charif, problematiza a cidade, ao apresentar um carro que vem e vai, em um movimento vertiginoso e repetitivo, num vídeo que lida com a tentativa de sair do aprisionamento subjetivo e mesmo com a ideia de trânsito como congestionamento, um dos vilões das grandes cidades. No caso, o engarrafamento é em Hollywood, distrito de Los Angeles (EUA), o que aponta para a ideia de uma cidade cenográfica na qual [supostamente] tudo funciona[ria] bem. O vídeo integra a série que tem o letreiro de Hollywood como ator principal e explora essa imagem em uma estética próxima a dos video-games. Em uma empreitada útopica, Daniel Beerstecher enfrenta poeticamente o espaço urbano. O artista apresenta o vídeo fruto de sua caminhada de três dias: partindo do centro de São Paulo em direção ao litoral paulistano, o vídeo traz a relação que o artista estabeleceu com a multiplicidade que compõe São Paulo. A partir da tensão entre natureza e cultura, Daniel Beerstecher - alemão de Stuttgart, que nunca expôs no Rio de Janeiro, onde atualmente vive - deixou o centro financeiro do Brasil (a Avenida Paulista) a pé, e mostrou a seu pássaro (que carrega em um gaiola-mochila), ao longo do caminho, os bairros ricos de São Paulo, os moradores de rua, os transeuntes anônimos do centro da cidade, os subúrbios, as favelas, as regiões industriais e rurais, a densa floresta de Mata Atlântica, a aldeia indígena, até chegar ao mar. Juntamente à projeção do vídeo em alta-definição, está exposto o mapa que o artista construiu conjuntamente com Pedro França, que o acompanhou na primeira vez que Daniel realizou o trajeto. Referindo-se a Como explicar desenhos a uma lebre morta, trabalho de Joseph Beuys de 1965, Daniel Beerstecher explicou a seu pássaro o mundo, mostrando-lhe durante três dias uma visão transversal do Brasil.
Diferentemente de Expedito, o senhor aposentado que protagoniza O Transeunte em suas andanças pelo centro do Rio de Janeiro, não temos na exposição uma ênfase no universo psicológico dos trânsitos, mas nas experiências que daí derivam, possibilitando, assim, a partilha de um universo comum, mesmo que a partir de origens e propostas particulares. Se no filme de Eryk Rocha a câmera passeia lírica, devagar e silenciosamente pela cidade, mostrando o protagonista e os transeuntes anônimos em suas vidas e afazeres, os artistas e trabalhos da exposição se colocam nos cenários escolhidos (seja a paisagem artística, física, cultural, geopolítica ou mental), lidando diretamente com esses espaços. Se no filme de Rocha, as mudanças da cidade são focalizadas pela ótica do personagem e a partir de suas próprias transformações - enfatizando o chão e os seus pés, que o levam nessa caminhada -, nos trabalhos da exposição temos uma abordagem menos lacônica. Nesse sentido, a trilogia Vagueando, que AnaCris Loureiro (áudio) e Silvia Magalhães Pinto (imagens) apresentam, aciona a ideia de deambulação. “Via Láctea”, “Entre vias” e “Sem via” se colocam como espécies de filmes de viagens que vagueiam entre a realidade e a ilusão, enfocando vinhedos e conchas, a partir do olhar de uma passante que registra as suas sombras, os seus companheiros de viagem, o veículo que a leva e outros elementos que compõem essas paisagens.
Procuramos tirar partido das características da Casa da Ladeira, espaço não-institucional gerido por artistas. Desse modo, não foi nossa intenção transformá-lo em um cubo branco, mas assumir possibilidades expográficas outras e enfatizar os processos mais do que os resultados, valorizando trabalhos que assumissem temática ou formalmente um certo risco ou errância. Saindo da posição ensimesmada e solitária (como a de Expedito) para compartilharem os seus caminhos e chegadas, os artistas lidaram com a rua, como aponta a instalação Sem Título, de AnaCris Loureiro. Proveniente da sua observação da cidade, a artista expõe uma fotografia que se expande na parede através do grafismo. Os fios que AnaCris Loureiro focaliza são condutores (de eletricidade, telefonia) e ligam construções, diminuindo distâncias, em emaranhados que, embora partam de um mesmo ponto, seguem paralelamente para diferentes destinos. Já Constelações, de Silvia Magalhães Pinto, apresenta-se como um mapa em backlight. A partir da fotografia da parede de mármore de seu banheiro, a artista criou uma cartografia, onde os pontos luminosos são os astros, que auxiliam na orientação. Esse “céu”, entretanto, apresenta topografias, como se fossem de uma fotografia aérea de relevos geográficos. Aponta, desse modo, para itinerâncias e trajetórias da própria vida, chamando atenção para seus ciclos e para a própria oscilação entre céu e terra, altos e baixos, que caracterizam as diferentes fases.
Neste sentido, The Walker, de Ali Khodr, Camila Mello e Fabiane Borges, é também emblemático. Fruto de uma residência artística realizada na Região dos Lagos, noroeste da Inglaterra, entre setembro e novembro de 2011, o vídeo mostra um caminhante atravessando a floresta, ao mesmo tempo em que é por ela (e seus habitantes, performances, rituais e histórias) atravessado. Os artistas viveram por dois meses em um albergue no meio da floresta e construíram uma narrativa repleta de montanhas, águas, flora, seres mágicos, paisagens fascinantes e sons locais. Como o Stalker, de Andrei Tarkovski, o caminhante aqui está numa zona instável - mas nesse caso ela é intermediária entre natureza e cultura, o real e os contos de fadas -, e nos convida a compartilhar sua experiência de travessia dessa floresta, enquanto é desafiado pelo espírito do próprio local. Khalil Charif também apresenta Vídeo-Expedições, produzido a partir das paisagens (visuais e sonoras) captadas em Terra Una, durante o seu programa anual de residência artística em 2011. Partindo de expedições visuais dos artistas residentes e dos transeuntes de Liberdade (Minas Gerais) - que registraram as suas impressões dos percursos e das localidades -, o resultado exposto funciona como um inventário desses olhares, já que o procedimento, no qual a câmera passava de mão em mão sem um roteiro previamente imposto, foi colaborativo. Além dos caminhos sugeridos por Khalil, a câmera ficava dia e noite à disposição dos residentes na ecovila, o que forneceu ainda mais densidade às imagens capturadas.
Pedro França apresenta o vídeo homeroad movie #3, montado a partir de fotografias que realizou da Via-Dutra, estrada que liga São Paulo (local em que reside) ao Rio de Janeiro (sua terra natal). Nas imagens figuram viadutos, pontes, carros, fios, sendo que o vídeo é gerado pela filmagem digital da projeção das fotos e o seu movimento provém do deslocamento dos próprios negativos no projetor. A partir de centenas de fotos tiradas em 2011, o artista juntou 114 delas, criando uma narrativa que indica não somente a mudança da paisagem, mas da própria luz: começa-se com a luz matinal, posteriormente as nuvens encobrem o céu e o anoitecer chega através de imagens que funcionam lateralmente, como se vistas e fixadas através das janelas do ônibus, de onde o artista fotografou. Interessante notar também que elas se apresentam transversalmente ao sentido dos automóveis, apontando para encruzilhadas, caminhos oblíquos que se cruzam. Outro trabalho de Jac Siano aqui presente é A caminho de inhotim, no qual a artista exibe partes do trajeto que antecede a chegada ao Inhotim Instituto de Arte Contemporânea e Jardim Botânico, filmado pela janela do ônibus. Em contradição com a riqueza [artística, cultural, econômica e simbólica] que encontramos no centro de arte mineiro, a artista nos apresenta uma paisagem degradada que não demonstra continuidade com o destino anunciado. Espaços e construções marginais, vegetação que necessita de poda, indústria, galpões, lixo, ou seja, visões que não condizem com as qualidades vinculadas ao local para onde está indo. Rafael Adorján apresenta duas fotografias da série Não-lugares e as suas imagens de um teleférico e de uma roda gigante apontam para esses como locais em trânsito. Esses espaços intervalares delineiam passagens entre instâncias e universos distintos, e a ênfase, aqui, está na sensação de ausência que advém dessas vivências passageiras, experiências solitárias de vazios e suspensões.
No histórico texto “Do transe ao transitório”, o crítico de arte Frederico Morais dizia que enquanto o transe seria um impulso para trás, o transitório seria um impulso para o futuro. Seja como for, ambos parecem atrair o homem contemporâneo. Em Transeuntes, o radical comum a transe e ao vocábulo que dá título à exposição (trans, que exprime o significado de além de, para além de) foi explorado para comentar esse estado intermediário e passageiro do transe e do trânsito. Mas se o segundo pressupõe exterioridade, o primeiro aponta para uma experiência que embora possa ser partilhada, é essencialmente subjetiva. Esta é, a um só tempo, uma saída de si (um estar para além de si próprio) e um impulso para a origem. Cristina Amiran aciona uma investigação a esse respeito em Ambiência #2. Sua instalação coloca a relação da imagem com seu complemento sonoro (subliminar) e com a ideia de trânsito entre os dois lados do cérebro, propondo um estado alterado de consciência, semelhante ao alcançado durante a experiência meditativa. A artista está interessada em estados transitórios e em espaços em trânsito e a própria ideia de ambiência que intitula o trabalho reitera o sentido oferecido à instalação pela artista, que também explora elementos gráficos, ao desenhar sobre a mesa utilizando os fios dos dispositivos eletrônicos. Desse modo, Cristina Amiran propõe a materialização de uma situação provisória, lidando diretamente com as ideias de memória e de tempo e suas possibilidades de alteração, registro, extensão e reprodução. Quatro dispositivos compõem a instalação: o primeiro com o vídeo Transition’s works, o segundo com Miniature, o terceiro com Led e o quarto com Brain Shift Music. O primeiro, extenso, possui cortes imperceptíveis, e uma velocidade lenta que se contrapõe ao movimento incessante das formigas carregadeiras. O segundo traz um globo terrestre girando em velocidade e parece apontar para as possibilidades de ação do artista no mundo. O terceiro traz desenhos realizados com os lados direito e esquerdo do cérebro, enquando a música do último dispositivo é de uma sonoridade que estimula as mudanças cerebrais. Já Pedro Teixeira apresenta três fotografias provenientes de suas andanças pelo país para fixar instantes religiosos, experiências de fé e de transe. O enquadramento nos pés da mulher que anda descalça no chão de terra craquelado pela seca aponta para a força e a superação de quem caminha quilômetros diariamente, sublimando as dores do corpo. Já a transeunte flagrada na calçada de Ouro Preto, apesar de não ter o seu rosto revelado, tem a sua identidade reconhecida localmente pelas roupas que veste, já que estas apontam para um estado de viuvez. Na terceira fotografia, o chapéu e as luzes que dele emanam, fixam uma entidade etérea e essencialmente provisória que seria, em diversos níveis, inapreensível, apontando, desse modo, para um trânsito de outra ordem.
Como foi possível perceber, a montagem priorizou pesquisas que estão em transformação e o interesse foi consolidar uma amostragem de processos, de modo que a própria exposição pudesse se projetar como um work in progress. Os artistas, por sua vez, sugeriram trajetos e passagens, seja para lidar com espaços e estados intermediários (da mente, do corpo, da paisagem), seja para tentar fixar instantes que são efêmeros por natureza (transes, experiências religiosas, estado alterado da consciência durante a meditação ou a hipnose etc.). Sem privilegiar nenhum suporte, mas trazendo prioritariamente fotografias e vídeos, a exposição também traz à tona o problema da imagem na contemporaneidade. Mas se o mundo publicitário contemporâneo prega o excesso, a velocidade, a verborragia e a poluição visual, os trabalhos da exposição clamam por sínteses, imersões, suspensões e experiências desaceleradas, ou seja, indicações de [outros] possíveis caminhos. Enfatizam, assim, a máxima daquele “que caminha certo sem chegar”. O que temos em Transeuntes, assim, são tentativas plurais de andanças e propostas de trânsitos. Os artistas, ou os próprios trabalhos, nesse caso, funcionam como passantes, intermediadores. Para finalizar, trazemos, então, parte do diálogo estabelecido entre Expedito e a médica, quando por ela indagado se tem feito exercício: “-Bom, eu caminho, né?”. Ela interpela: “-Na esteira?”. E ele, por fim, responde: “-Na rua mesmo”...
Fernanda Pequeno
maio 12, 2013
Sinopse de um Suspense por Paula Alzugaray
Sinopse de um Suspense
Katia Maciel - Suspense, Zipper Galeria, São Paulo, SP - 25/04/2013 a 15/05/2013
Uma carta chegou pelo correio esta manhã. Não, era uma caixa. Pensei ouvir um ruído vindo lá de dentro. Som de trem deslizando em trilhos. Som de grito, ou seria um mosquito. Balancei. Abri. Por uma fresta, vi que dentro tinha AR. Fresco, verde, cheiro de terra desconhecida. E uma corda, que caiu no chão e escapou pela grama, deixando um desenho serpenteantecomo rastro, desaparecendo sem direção precisa.
Uma caixa com ar, uma corda e uma carta.
Da caixa – ou teria sido da carta – escaparam palavras:espera, espreita, tocaia, vestígio, cálculo, teoria, perspectiva, abrigo, vulto,vertigem, vertigo. Sem elo evidente de ligação formatando sentido linear, as palavras insinuavam uma sinopse poética de um filme ainda por ser feito. Diziam respeito a uma mulher perdida no paraíso, que enviavafotografias – ou frames – como pistas para sua impossível localização.
Frame 1: Espreita. Em atmosfera sonâmbula, alienada ou alucinada, mulher de identidade dissimulada mergulha em ambiente verde, aparentando perseguir uma ideia de liberdade. Ou está apenas sonhando.
Frame 2: Espera. Um segundo mais tarde – ou antes –, mulher pisa em falso, avançando sobre o nada e deixando sobre o ar rarefeito da selva uma ideia em aberto.
O que a teria atraído para a floresta? Em que medida ela seguea trilha de outros aventureiros e excursionistas que se perderam na mata em busca doeldorado, do paraíso perdido, ou na perseguição romântica de um estado de esquecimento, de um retiro para meditar, escrever poemas, dedicar-se aos prazeres da música e à reinvenção de uma vida ideal?
Em que medida essa mulher de identidade dissimulada refaz a trilha da experiência artístico-antropológica de Flávio de Carvalho, que em 1958 expedicionou ao Amazonas com o projeto de realizar um filme semi-documentário sobre a história de uma Deusa Branca que vivera na selva? Na clareira mais extrema dessa mata virgem, ela reencontraria ainda o herói brasileiro sem nenhum caráter, à deriva.
Ou seriaela membro dissidente do grupo de sete intelectuais que se refugiaram em uma floresta de bambu, originalmente na China do século III a.C, reaparecendo depois na obra de Yang Fudong, em 2006. A vegetação exuberante desse jardim botânico sensorial, com seus paus-ferros, palmeiras-imperiais, cactos, paus-mulatos, ciprestes e mangueirais, torna realmente difícil a localização geográfica e temporal dessa história.
Na terceira parte desse enredo, o que era impressão torna-se movimento. Ainda assim, mínimo. Vulto. O corpo que espreitava com autonomia e aspirava à liberdade agora balança em suspensão atemporal. Presa de armadilha? Corpo que pende. Motivo de meditação. Estamos longe de um desfecho.
A mata é pano de fundo para um enredo incerto. A deriva, a negação da civilização, a fuga, a alienação, a tipologia do artista viajante, enfim, integram a bagagem carregada pela mulher de identidade dissimulada da ficção de Katia Maciel.
Suspense, um projeto de cinema-situação, integra pesquisa de Katia Maciel sobre níveis simultâneos de narrativa.Na individual na Zipper Galeria, a artista elabora mais um capítulo de seu transcinema, atravessando a performance e entrando no terreno do texto poético.
Ação e o desenvolvimento dramático, aqui, se dão de forma espacializada, expandindo-separa além das cenas inscritas em fotografias, vídeos e videoinstalação. O enredo que ocupa o espaço dagaleriateve um preâmbulo no ambiente das mídias impressa e digital e no espaço urbano, na forma decartazes lambe-lambe.
Nos cartazes, a mulher de identidade dissimulada inscrevesuas notas de viagem, que funcionam, afinal, como mensagens colocadas dentro da garrafa e atiradas em alto mar. Essas pistas, que conspiram a favor de sua eventual localização, ganham certo sentido quando alinhadas em parede da galeria. Mas não revelam seu paradeiro.
Uma caixa com ar, uma corda, uma carta, duas palavras e caixa de luz.
A experiência da vertigem se completa em VERSO, instalação-dispositivo que retém o espectador desse filme-situação entre a mata e um espelho. Transformadaem imagem, percebo que o tempo dissimulado da ficção é simultâneo ao meu tempo real. Como o sopro de AR é simultâneo ao feixe de LUZ, dentro de caixas. Ou seriam cartas?
Paula Alzugaray
Abril de 2013
