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julho 10, 2007
Da cultura da montagem ao imaginário do desmanche, por Juliana Monachesi

Da cultura da montagem ao imaginário do desmanche
JULIANA MONACHESI
Impossível não associar a exposição atualmente em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, 80/90 Modernos, pós-modernos etc., cuja curadoria é assinada por Agnaldo Farias, ao livro Moderno pós moderno - Modos & versões (ed. Iluminuras, 2005 [1995]), de Teixeira Coelho. A "ligeira" diferença entre os títulos reside em uma simples vírgula e num prosaico hífen. Os dois singelos sinais gráficos sugerem que Agnaldo Farias aposta, em sua curadoria, na existência de um panorama em que convivem artistas (ou trabalhos) modernos e artistas (ou trabalhos) pós-modernos -o "etc" dá conta daqueles artistas (ou obras) que escapam à categorização-; enquanto Teixeira Coelho parece indicar que a produção dita "pós-moderna" nada mais é do que arte moderna tardia. Um defende que houve uma ruptura; o outro, uma continuidade.
Em seu livro, abordando primeiramente a arquitetura -onde é mais fácil identificar alguma ruptura- Teixeira Coelho propõe uma oposição entre metonímia e metáfora. A primeira carecterizaria a arte modernista, que opera por combinação (e composição); a segunda caracterizaria a arte pós-modernista, que opera por recombinação (e alteração). "A pós-modernidade devolveu à arquitetura a voz de que ela se privou durate uns bons 60 anos. O grande som da arquitetura é a metáfora, reprimida pela arquitetura modernista, toda ela metonímica. [...] A operação metafórica é um processo de substituição de um significado por outro e, portanto, dentro da cultura em que vivemos, um processo de criação de significados [...]. A operação metonímica é, antes, procedimento de combinação de significados já criados antes e fora dela (pela metáfora). É um procedimento de reprodução, de codificação (portanto, de reconhecimento) e não de instauração de significados." [p. 70]
O assunto é espinhoso e não serei eu a tentar desenredá-lo. Uma vasta bibliografia sobre o tema está à disposição para esclarecer ou confundir ainda mais: Lyotard, Jameson, David Harvey, Krishan Kumar, Terry Eagleton, entre tantos outros, apresentam visões menos ou mais catastrofistas sobre o estado atual da cultura. Um livrinho que me ajudou particularmente a enveredar pelo assunto -sem tanta carga ideológica- foi Arte contemporânea - Uma introdução, de Anne Cauquelin (importante não se deixar enganar pelo auspicioso subtítulo, porque o "livrinho" é de uma densidade...), mas não vou tentar resumir suas idéias porque a proposta aqui é outra: uma resenha ilustrada da exposição 80/90 Modernos, pós-modernos etc., com sugestões de leitura das obras pelo viés "moderno versus pós-moderno".

A primeira "acareação", logo que se entra na sala 1, acontece entre uma pintura-objeto de Adriana Varejão e duas telas de Jorge Guinle. Estão um de frente para o outro. Fui com um amigo à exposição e fomos logo apontando: "Moderno [Guinle], pós-moderno [Varejão]". Por quê? Primeiro porque o título da mostra permitia a brincadeira, que fizemos até a última obra da última sala (muito instrutivo). Segundo porque a montagem da exposição é muito precisa no desenvolvimento de tensões entre os trabalhos apresentados. Nem sempre é claro assim -"esse é moderno, esse é pós-moderno"-, mas justamente por isso a proposta de tensões e confrontos é ainda mais interessante. Quando meu amigo e eu não conseguíamos chegar a um acordo sobre certo arranjo de obras apresentadas próximas uma da outra, recorríamos ao "etc." e estava resolvido. Mas não estava, tanto que volta e meia a gente conversa de novo sobre as nossas dúvidas e "certezas"; e tanto também que estou quebrando a cabeça para fazer algum sentido aqui.

Outra "acareação", no segundo ambiente da sala 1, parece ocorrer entre uma obra de Marcos Coelho Benjamin e uma pintura de Leonilson. Moderno, pós-moderno. Por quê? A escultura de Banjamin é feita de fogo sobre madeira, é uma escultura que fala de si, de seus materiais, de composição, de combinação entre elementos de um repertório moderno. A pintura de Leonilson não fala de pintura (ou, não fala apenas de pintura), fala da intimidade e da subjetividade do artista, é narrativa, é metafórica. Na outra extremidade desse segundo ambiente da primeira sala, situação semelhante acontece entre pequenas pinturas feitas com cal sobre madeira por José Spaniol e dois objetos -uma colagem de papéis de cigarro e uma delicada trama de fios de cabelo com fios de seda- de Fernanda Gomes.

(continua...) (mesmo!)
80/90 Modernos, Pós-Modernos Etc, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, SP - 25/05/2007 a 15/07/2007
