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junho 15, 2026

Canal Contemporâneo: nova espacialidade para a arte por Cristiana Tejo

Canal Contemporâneo: nova espacialidade para a arte

CRISTIANA TEJO

Texto escrito em 2005 sobre a participação do Canal na coletiva de convidados Tudo aquilo que escapa.

Durante mais de três meses o Canal Contemporâneo ficou em “exposição” no 46º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, ao lado de artistas reconhecidos no circuito nacional e internacional de arte contemporânea. Não é apenas por ser um emergente na cena artística que sua presença causou espanto, mas por seu aspecto híbrido, já que milhares de pessoas em todos os continentes recebem diariamente os enformes do Canal. Para quem aprecia arte contemporânea no Brasil, ele é o principal veículo de comunicação do circuito, postando textos críticos, chamadas para concursos e salões, releases de exposições e repercutindo os fatos e as polêmicas do mundo da arte.

No entanto, na era digital e da comunicação, o Canal Contemporâneo, comunidade artística virtual surgida em 2001, sugere uma retomada de espaço mais politizado para a arte: a sociabilidade e a atuação política coletiva como trabalho artístico. Remetendo a ações artísticas das décadas de 1960 e 1970, em que as experimentações artísticas ressoavam as grandes mudanças sociais pelas quais o mundo estava passando, o que vemos nas proposições do Canal é a exploração da potência do veículo internet como agente aglutinador da cadeia produtiva para tomadas de decisão e de interferência em políticas culturais e na mediação que os veículos tradicionais de comunicação fazem entre a arte contemporânea e um público massificado. Por hibridizar áreas, funções e reflexões, o Canal Contemporâneo, é um objeto de interesse a pelo menos dois campos de conhecimento: comunicação e artes, seja pela problematização das áreas em seus estados íntegros, seja pela abertura de horizontes que este coletivo possibilita para a produção artística atual.

O lema “As relações são o espaço” aponta talvez para o que Fredric Jameson tem afirmado ser a nova espacialidade pós-moderna, que seria causada pelos múltiplos estímulos gerados pelos media, pelos deslocamentos e pela expansão descontínua da ampliação do capital, que, por sua vez, penetra e coloniza áreas da vida que há até algum tempo não eram mercantilizadas. Este teórico da pós-modernidade ainda discorre sobre o processo através do qual as belas-artes tradicionais são mediatizadas, ou seja, “tomam consciência de si como diferentes mídias no interior de um sistema mediático no qual sua própria produção interna também constitui mensagem simbólica, e em uma tomada de posição sobre o estatuto do médium em questão”. Diferentemente de outros trabalhos que lidam com o espaço físico do museu ou da galeria, ou mesmo com o espaço urbano, o Canal Contemporâneo utiliza o espaço virtual para ativar as relações entre os indivíduos e promover a interação dessa coletividade, que é o próprio terreno de sua atuação.

Apenas no quarto ano de atividade, o Canal começou a participar de exposições em instituições convencionais. Em 2004, esteve presente na mostra “hyper>relações eletro//digitais”, curada por Daniela Bousso (para o Santander Cultural, em Porto Alegre), com o trabalho Quebra de Padrão, que consistia em redimensionar a atuação do jornalismo cultural ao se deter em cada uma das obras presentes na exposição e confrontar a prática cada vez mais corrente do jornalismo da grande imprensa de se deter no assunto apenas na abertura da exposição e de forma superficial, contrariando inclusive uma das potencialidades da arte contemporânea que a experiência durante o processo da exposição. Esse tempo expandido possibilitou que a propositora do Canal, Patrícia Canetti, e uma jornalista cultural, Juliana Monachesi, lançassem uma análise mais aprofundada sobre os trabalhos, saindo da horizontalidade comum nas coberturas diárias dos jornais.

Convidado para outra exposição em espaço museológico convencional, a mostra “Tudo aquilo que escapa”, e dentro de um evento tradicional no circuito brasileiro, como um salão de arte, no caso o 46º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, o Canal Contemporâneo propôs o fórum de debate Para que servem os salões. Desta vez, o trabalho também se volta e repercute a própria exposição, só que problematiza todo o sistema das artes do Brasil, que gera os Salões de Arte (um evento criado no século XIX para desovar a produção acadêmica) como maneira de suprir uma deficiência do mercado nacional.

Assim como o fórum do salão, que é aberto à participação de qualquer um e que depende dessa atuação para existir, outro trabalho do Canal abre frente para a formação de uma esfera pública de discussão e de intervenção. Como atiçar a brasa é o que Canetti afirma ser um trabalho de mídia tática, estratégia de ativismo que busca questionar a ação dos jornais impressos e todas as suas implicações políticas. A coletividade é convidada a enviar e-mails para os jornais visando à repercussão de matérias, seja criticando ou elogiando, e a mandar uma cópia da análise para ser publicada no blog do Canal. Desta forma, comentários e reflexões ganham amplitude, podem contar com a participação da comunidade e os cadernos culturais ganham um feedback necessário ao aperfeiçoamento da delicada mediação que a arte contemporânea necessita.

O Canal Contemporâneo é mantido pela assinatura de cerca de 500 pessoas, entre artistas, curadores, críticos, público e instituições culturais. Porém cerca de 15 mil recebem a versão reduzida dos enformes gratuitamente. A luta de Patrícia Canetti para assegurar a circulação e a ampliação da comunidade é constante. Patrocínios já foram tentados, mas o interesse da idealizadora é que a própria coletividade mantenha o Canal, possibilitando que ele se conserve imparcial no decorrer do processo.

A complexidade da atuação do Canal Contemporâneo há muito ainda que ser analisada pela academia ou mesmo pela crítica atual e explorada pelos personagens envolvidos no sistema das artes do Brasil. Enquanto isso, fiquemos à espreita dos desdobramentos de suas proposições, usufruamos da visibilidade e descentralização que esse meio produz para a produção contemporânea de um país continental e desigual e aproveitemos a condição de participar ativamente das discussões que formatam nossas políticas culturais.

O canal pode ser lido no endereço: www.canalcontemporaneo.art.br


Cristiana Tejo é crítica e curadora de arte, coordenadora de Artes Plásticas do Instituto de Cultura da Fundação Joaquim Nabuco no Recife e co-curadora da edição 2005 do Rumos Itaú Cultural - Artes Visuais.

Posted by Patricia Canetti at 12:52 PM