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agosto 16, 2019

Man Ray no Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo

Expoente do surrealismo, Man Ray ganha exposição inédita com 255 obras no Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo

Fotógrafo, pintor, escultor, cineasta... são vários os atributos de Man Ray, um dos maiores artistas visuais do início do século XX e expoente do movimento surrealista. E é parte de sua história criativa - um recorte significativo de seu trabalho - que o público vai poder conhecer de 21 de agosto a 28 de outubro na exposição Man Ray em Paris apresentada pelo Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo. Quase 130 anos após seu nascimento, o país recebe 255 obras do artista nunca antes vistas pelo público brasileiro, entre objetos, vídeos, fotografias e serigrafias de tamanhos variados – de 40x30 a 130x90 cm - todas desenvolvidas durante os anos que viveu em Paris, entre 1921 e 1940, seu período de maior efervescência criativa. Depois do CCBB SP, a mostra segue para a unidade de Belo Horizonte, entre 11 de dezembro e 17 de fevereiro de 2020. A realização é do Centro Cultural Banco do Brasil, com patrocínio do Banco do Brasil e do Ministério da Cidadania.

Com curadoria de Emmanuelle de l’Ecotais, especialista no trabalho do artista e responsável por seu Catálogo Raisonée, a mostra irá ocupar o CCBB SP e será dividida em duas categorias. A primeira trata da fotografia como um instrumento de reprodução da realidade, focando-se em seus famosos retratos - seu ateliê era uma referência entre a vanguarda intelectual que circulava pela Paris da década de 1920 -, nos ensaios para a grife de Paul Poiret e em fotos para reportagens. Já na segunda, outro lado se revela: o da manipulação da fotografia em laboratório com o intuito de criar superposições, solarizações e “raiografias”, um termo criado por Man Ray (do inglês “rayographs”), em alusão a si mesmo. Assim, portanto, ele inventa a fotografia surrealista.

O projeto da exposição prevê, ainda, reproduzir imagens da vida parisiense de Man Ray acompanhado pelos artistas que lhe foram contemporâneos e por sua musa, Kiki de Montparnasse. Além de uma programação de filmes assinados por ele, intervenções como um laboratório fotográfico, com elucidações sobre as técnicas utilizadas em sua obra, marcam a interatividade com o visitante. Ainda fazem parte do evento uma palestra com a curadora Emmanuelle de l’Ecotais no dia 21 de agosto e outra com o fotógrafo Pedro Vasquez sobre as técnicas de fotografia do Man Ray, em data a ser confirmada. A produção executiva é da Artepadilla.

Para a curadora, esta retrospectiva, pela primeira vez no Brasil, procura abranger a imensa e multiforme obra de Man Ray e apresenta a lenta maturação de sua obra e um panorama completo de sua criatividade. Emmanuelle de l’Ecotais ressalta que apesar de ser conhecido principalmente por sua fotografia, é também criador de objetos, realizador de filmes e faz-tudo genial. “Após tornar-se rapidamente fotógrafo profissional, sua obra oscila, de maneira contínua, entre o trabalho de encomenda - o retrato, a moda -, de um lado, e o desejo de realizar uma ‘obra artística’, do outro. Em suas palavras, ‘o artista é um ser privilegiado capaz de livrar-se de todas as restrições sociais, cujo objetivo deveria ser alcançar a liberdade e o prazer’”, comenta a curadora.

O ARTISTA

Emmanuel Radnitsky, mais conhecido pelo pseudônimo Man Ray, foi pintor, fotógrafo, object-maker, escultor e cineasta, tornando-se um dos mais destacados artistas vanguardistas do século XX. Nasceu na Filadélfia, Estados Unidos, em 1890, e na juventude, mudou-se para Nova York. Lá inicia seus estudos no The Social Center Academy of Art. Ainda na década de 1910, conhece Marcel Duchamp e outros artistas que compunham o movimento dadaísta nova-iorquino. Em 1921, parte para Paris, cidade que o acolhe por quase 20 anos, até o cerco nazista em 1940. O período em que viveu na capital francesa foi de imensa ebulição cultural, não só para ele, mas para diversos outros artistas que consolidaram o local como um dos maiores centros culturais do mundo, num contexto em que diversas formas de arte floresciam, sobretudo nos anos de 1920. Por lá, Man Ray se insere no movimento surrealista e concilia seu trabalho como fotógrafo de renome entre a intelectualidade francesa com seu lado artístico, que manipulava fotos em laboratório para a produção de obras de arte. Durante a Segunda Guerra Mundial, voltou para os Estados Unidos, onde fotografou celebridades de Hollywood e da moda. Regressa à Europa com o fim da guerra e, nos anos seguintes, obteve reconhecimento pela excelência de seu trabalho, conquistando prêmios como a Medalha de Ouro da Bienal de Fotografia de Veneza, em 1961, publicando suas fotos e exibindo sua obra ao grande público. May Ray faleceu em Paris, em novembro de 1976.

A CURADORA

Emmanuelle de l´Ecotais foi por 17 anos curadora de fotografia no Musée d´Art Moderne de la Ville de Paris desde 2001. Com PhD em História da Arte, é especialista na obra de Man Ray tendo organizado diversas exposições sobre o artista entre elas, “Man Ray, la photographie à Lenvers”, no Centre Pompidou/Grand Palais, em 1999. Outras mostras com sua curadoria foram “Alexandre Rodtchenko, la photographie dans lil”(2007), “Bernhard et Anna Blume”, “Polaroïd”, na Maison Européenne de la Photographie (2010), “Linder, Femme-Objet”, no Musée dArt moderne/ARC (2013), “Jean-Philippe Charbonnier, lil de Paris”, no CMP, Paris (2014), “Objectivités, la photographie à Düsseldorf”(2008), “Henri Cartier-Bresson e limaginaire daprès nature”(2009). É autora de diversos ensaios e livros, entre estes “L´esprit Dada” (Editions Assouline,1999), “Man Ray” (Taschen, 2000), “Man Ray Rayographies” (Editions Léo Scheer, 2002) e é membro permanente de comitês de aquisição do Fonds National d´Art Contemporain (2004-2007) e da Maison Européenne de la Photographie (2007-2010). É também parte do júri em artes visuais para jovens talentos de Paris, Prêmios de Fotografia do Royal Monceau Hotel.

A PRODUTORA

A Artepadilla é empresa cultural atuante há 30 anos na área de elaboração, organização, produção, coordenação e administração de projetos culturais. Realizou ciclos de exposições no Centro Cultural Light, nas unidades Brasília, Recife e Rio de Janeiro do Centro Cultural Correios, nas unidades Brasília, Curitiba, Fortaleza, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo da CAIXA Cultural, entre outros. Tem grande experiência na área de eventos internacionais, tendo realizado as exposições: Roy Lichtenstein Vida Animada (em parceria com a Roy Lichtenstein Foundation/ New York City) no Instituto Tomie Ohtake/SP, entre outros. Na área de edição de livros de Arte, realizou Manfredo de Souzanetto Paisagem da Obra, Margaret Mee, Jardim Botânico do Rio de Janeiro 1808/2008, Jorge Hue, entre outros, alguns dos projetos através da Lei de Incentivo à Cultura/Lei Rouanet e da Lei Municipal de Incentivo à Cultura.

Posted by Patricia Canetti at 4:33 PM

Jonathas de Andrade no Sesc, Petrolina

Exposição inédita do artista visual Jonathas de Andrade reúne 10 de suas obras mais conhecidas. Primeira etapa começa dia 19, no Sesc da cidade no Sertão pernambucano

Foi no Nordeste que o artista visual e fotógrafo Jonathas de Andrade foi buscar a força de seu trabalho, numa linguagem que ganhou intensidade e reconhecimento internacional ao reinterpretar questões urgentes para repensar a cultura nordestina hoje. Com 12 anos de trajetória e 37 de idade, e tendo a região onde nasceu como foco de sua produção nos últimos seis anos, o alagoano radicado em Pernambuco já expôs suas obras em outros estados do Brasil e em diversos países, indo de museus internacionais como o MOMA e Guggenheim de Nova York, à Coreia do Sul; do México, ao Egito e França. Depois de terem rodado o mundo, parte destes projetos artísticos está reunida na exposição Caravana Museu do Homem do Nordeste, que será inaugurada no dia 19 de agosto, às 19h, no SESC Petrolina, com visita guiada pelo artista. A circulação das instalações fotográficas e vídeos criados por Jonathas de Andrade, que ocorre com incentivo do Funcultura do Governo Estadual, chega também a duas outras cidades do interior de Pernambuco: Garanhuns (em novembro) e Goiana (em março de 2020).

As obras escolhidas para a itinerância tratam de questões urgentes para a região: educação, trabalho, a disputa rural-urbana e uma reflexão sobre a imagem do homem nordestino na atualidade. “Nasci e me criei neste Nordeste, e em meus trabalhos procuro reunir o tanto de inspiração que carrego desta cultura e sua poesia cotidiana, bem como os embaraços das complexas histórias que tanto marcam o caráter da experiência de ser brasileiro. São sensações ambíguas e complexas, que sempre tive vontade de compartilhar com o mesmo Nordeste que me inspirou”, confessa Jonathas.

Também, pela primeira vez, Jonathas amplia o conceito da obra ao criar um cartaz interativo, com o qual as pessoas poderão mexer em moldes de letras e fazer selfies delas mesmas no processo, postando em redes sociais e brincando de montar seu próprio museu. Segundo ele, existe um interesse pedagógico na exposição, de atuar em parceria com o projeto educativo, e encontrar um público que vá além daquele acostumado a consumir a arte contemporânea e frequentar as galerias.

Além de ocupar o Sesc Petrolina, situado no Centro da cidade banhada pelo Rio São Francisco, a “Caravana” se espalha pela cidade com imagens em grandes dimensões dos projetos, que podem ser encontrados em espaços como o paredão da orla petrolinense, o mercado turístico e o parque Josepha Coelho. Petrolina estará inundada de cultura ao receber — de 12 a 31 de agosto — a 15ª edição da Aldeia do Velho Chico, um dos principais eventos realizados pelo SESC ao longo do ano.

Dois museus com um mesmo nome

A “Caravana Museu do Homem do Nordeste” ganhou este nome a partir do momento em que Jonathas de Andrade se apropriou do título do museu existente no Recife (e que em 2019 comemora os 40 anos de sua criação) e começou a reunir seus projetos em torno de aspectos da cultura nordestina como se fosse um outro possível museu, o Museu do Homem do Nordeste. Em 2013, na Galeria Vermelho, em São Paulo, o artista reuniu uma serigrafia de Aloisio Magalhães, emprestada pelo Museu do Homem do Nordeste, e a fachada da galeria, também transformada em uma obra, além de três trabalhos: as instalações “Cartazes para o Museu do Homem do Nordeste”, “40 Nego Bom é 1 real”, e “O Levante”. A cada nova montagem, outros projetos de pesquisa foram sendo acrescentados por ele até chegar à exposição, inaugurada em dezembro de 2014, no Museu de Arte do Rio – MAR, com curadoria de Clarissa Diniz e Paulo Herkenhoff. Contradições e perversidades históricas da sociedade brasileira são reveladas por Jonathas neste trabalho em que o artista realiza um projeto político tocante, expressando “a urgência das ruas e indagando o lugar de uma revolução popular utópica mas possível de ser reivindicada”, como publicado no jornal “O Globo”, ao citar as melhores exposições daquele ano.

Sobre as obras

Questões de raça e classe, as disputas de poderes, as tensões sociais elencadas por Gilberto Freyre são revistas e reinterpretadas pelo olhar de Jonathas de Andrade em suas obras, a exemplo da “1ª Corrida de Carroças do Centro do Recife/O Levante” (2012-2014), que mostra uma corrida de carroças organizada pelo próprio artista junto aos carroceiros pelo Centro da capital pernambucana, à época em que este tipo de transporte estava sendo proibido; e o “ABC da Cana”, que mostra cortadores de cana montando um alfabeto com seus corpos e foices. Este abecedário tomou por inspiração desenhos tipográficos de Luís Jardim, em projeto gráfico para a revista “Brasil Açucareiro”, de 1957. Já “Cartazes para o Museu do Homem do Nordeste” será exibido em formato inédito no Brasil, em tecido, assim como foram apresentados na Bienal de Dakar, no Senegal, criando nova estética para o projeto. Outra obra artística relevante na carreira do artista é o vídeo “O Peixe” (2016), que estreou na Bienal de São Paulo, e suscita vastas emoções no público, ao acompanhar um pescador em seu ritual de abraçar um peixe, unindo afeto, solidariedade e violência. As relações de trabalho que persistem desde os tempos coloniais no país estão em “40 nego bom é um real”, que traz a receita do doce enquanto nos conta histórias reais e fictícias, mostrando as complexas relações de trabalho envolvendo os 40 personagens de uma fábrica desta sobremesa tão nordestina.

Trajetória

Jonathas de Andrade se formou em Comunicação Social na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), enquanto abraçava as artes visuais. Foi lá que aprofundou o interesse mais plural em fotografia e cinema, participando de projetos como o Cineclube Barravento, e criando pequenos filmes com um grupo de amigos. Em seus primeiros contatos com a arte contemporânea, foi editor de fotografia do site 2 pontos.

Através de seu trabalho, o artista procura entender a história do Brasil a partir da identidade de uma região, das relações de poder entre as pessoas, lastreadas por um passado de colonização e explorações. Ficção e documentos são ferramentas utilizadas pelo artista, que traz como temperos desestabilizantes o erotismo e a ambiguidade.

Seu trabalho faz parte de importantes museus do mundo como Tate Modern, de Londres; MoMa e Guggenheim de NY e Georges Pompidou, na França. No Brasil, já expôs no Rio de Janeiro, Vitória, Fortaleza, Maceió, Goiânia e Porto Alegre, entre outras cidades, além de ter coleções em diversos acervos, a exemplo do MAM-SP, MAC-USP e Museu de Arte do Rio.

Em cartaz com a exposição “One to One”, no Museu de Arte Contemporânea (MCA) de Chicago, nos Estados Unidos, até 29 de agosto, Jonathas possui três de seus trabalhos (“O Peixe”, “Caseiro”e “ABC da Cana”), em exibição na mostra “À Nordeste”, no Sesc 24 de Maio, em São Paulo. O artista segue, em setembro, para o Momenta - Bienal da Imagem, em Montreal, no Canadá, e depois para a Turquia, a convite da 16ª Bienal de Istambul, intitulada “O Sétimo Continente”.

Posted by Patricia Canetti at 11:48 AM

agosto 14, 2019

Circuito Integrado de Galerias de Arte: Carpintaria e outras na Gávea, Rio de Janeiro

A ArtRio promove o Circuito Integrado de Galerias de Arte, com o objetivo de fomentar a visitação aos espaços artísticos da cidade, dessa vez com o foco no Jardim Botânico, Gávea e São Conrado. Participam as galerias Anita Schwartz Galeria, Carpintaria (Fortes D'Aloia & Gabriel), Gaby Indio da Costa Arte Contemporânea e Silvia Cintra + Box 4.

17 de agosto de 2019, sábado, programação a partir das 14h

Anita Schwartz Galeria
R. José Roberto Macedo Soares 30, Gávea
15h - Visita guiada às exposições Shiva, de Bruno Vilela, e Barbapapa, de Paulo Vivacqua

Carpintaria
Rua Jardim Botânico 971, Lagoa
17h - Visita guiada à Coletiva #tbt, com o curador da mostra Victor Gorgulho

Gaby Indio da Costa Arte Contemporânea
Estrada da Gávea 712/407, São Conrado
15-19h - Abertura e visita guiada à exposição Através de Rosângela Dorazio

Silvia Cintra + Box 4
Rua das Acácias 104, Gávea
14-18h - Visita à exposição Jardim Impostor, de Pedro Motta

Posted by Patricia Canetti at 2:24 PM

Circuito de Ateliês Abertos da SP-Foto: Open Studio Residência Artística FAAP e outros no Centro e Vila Madalena, São Paulo

Uma semana antes da abertura oficial da 13.ª edição da SP-Foto, o público poderá conhecer de perto os processos dos artistas ligados ao universo fotográfico e da imagem a partir do Circuito de Ateliês Abertos.

17 de agosto de 2019, sábado, das 14h às 18h (Centro) e das 17h às 21h (Vila Madalena)

Residência Artística FAAP - Edifício Lutetia
Praça do Patriarca 78, Centro, São Paulo

No total, oito artistas brasileiros e estrangeiros abrem os seus estúdios na Residência Artística FAAP: Gauri Kulkarni (Índia), Lucas Demps (Brasil), Gabriela Godói (Canadá), Maíra Dietrich (Brasil), Bianca Madruga (Brasil), Guillermo Rodriguez (Porto Rico), Genietta Varsi (Peru) e Ygor Landarin (Brasil). A entrada é gratuita, das 13h às 18h.

A Residência Artística FAAP oferece tempo e espaço para a pesquisa, investigações e o desenvolvimento de projetos, ações e conexões. Por conta disso, é procurada por artistas de todo o mundo que estão em busca de novas possibilidades de pesquisa, de entrar em contato com outros profissionais, conhecer lugares distintos dos seus habituais e experimentar novos contextos e processos para sua produção e práticas artísticas.

Instalada no Edifício Lutetia, na Praça do Patriarca, desde 2004, a Residência Artística FAAP possui dez amplos estúdios para acomodação dos artistas que participam do programa a partir de processo seletivo realizado todo início de semestre. Mais de 350 artistas de todos os continentes já passaram pelo espaço. No Edifício Lutetia, há ainda uma extensão do MAB-FAAP, onde são realizadas exposições de artistas formados pelos cursos de Artes Visuais da FAAP e de artistas residentes.

Circuito Ateliês Abertos no Centro, das 13h às 18h

Atelier do Centro
R. Epitácio Pessoa, 91

Pivô
Ed. Copan, bloco A, loja 54 – Av. Ipiranga, 200

FAAP Residência Artística
Praça do Patriarca, 78

Circuito Ateliês Abertos na Vila Madalena, das 17h às 21h

Hermes Artes Visuais
R. Hermes Fontes, 167

Projeto Fidalga
R. Fidalga, 299

Fonte
R. Mourato Coelho, 751

Vão – Espaço Independente de Arte
R. Mourato Coelho, 787

Veja online na SP-Foto a programação completa dos ateliês

Conheça os artistas que participam do Open Studio Residência Artística FAAP

Bianca Madruga (RJ/Brasil)
Artista visual. Doutoranda em Artes Visuais pela UERJ. Formou-se em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), tendo os títulos de bacharelado e licenciatura. Mestre em Filosofia da Arte e Estética pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a dissertação: "O partido das coisas nas Artes Visuais", uma leitura a partir da noção de fim da arte em Hegel e Danto. Também atua como curadora e cogestora no coletivo A MESA, que promove exposições em galeria própria no Morro da Conceição, no Rio de Janeiro, desde 2015.
Há algum tempo, seu trabalho começou a se desdobrar a partir da ideia de horizonte. O interesse veio da ambivalência da palavra horizonte, que se refere tanto a uma temporalidade quanto a uma noção de espaço. Horizonte é porvir, limite, linha e espaço de realização do possível. Diante de um futuro que parece sempre escapar em uma espécie de eterno presente, em que as aspirações relativas ao amanhã parecem ter se rarefeito, aparece uma espécie de paradoxo: esse retorno incessante do presente enquanto vazio e, ao mesmo tempo, enquanto núcleo temporal do desejo.

Gabriela Godoi (São Paulo/SP, vivendo em Vancouver)
Gabriela Godoi é artista plástica e educadora. Mestre em Artes Plásticas pela Emily Carr University of Art and Design (Vancouver, BC). Obteve, pela Universidade Belas Artes (São Paulo, SP), sua licenciatura em Artes e seu bacharel em Artes Plásticas pela FAAP (São Paulo, SP). Em anos prévios, foi selecionada para participar em coletivos no 44º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba e no 41º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto.
Sua pesquisa aborda questões que permeiam o corpo, a identidade, relações interpessoais e a sexualidade. Trabalha primariamente com pintura e objetos manufaturados na intenção de expandir os limites binários entre figura e fundo, o revelar e ocultar, o Eu e o Outro. Vive e trabalha em Vancouver, no Canadá.

Gauri Kulkarni (Índia)
22 anos de idade, dobrando e desdobrando o caminho para a compreensão da arte natural. Projeto de um espaço público maior e uma estudante de fotografia. Graduada recente pelo Instituto Srishti de Design de Arte e Tecnologia, Bangalore / Índia.
Sua prática é inclinada para pesquisa e como fazer que cada movimento seu seja para a sustentabilidade. Usa as cinco palavras para se encaixarem na sua prática - 1. Sustentável, 2. Versátil 3. Inovador, 4. Organizado, 5. Delineado. É uma artista multidisciplinar e designer. O design do espaço urbano sempre a intrigou. Além disso, também mantém uma profunda paixão e gosto pela vida selvagem e fotografia da vida selvagem.

Genietta Varsi (Peru)
Genietta é bacharel em Artes Visuais com especialização em Escultura pela Pontifícia Universidade Católica do Peru. Fez duas residências em 2018 na Casa Uberbau, São Paulo, e Molten Capital, Museu de Arte Contemporânea - Quinta Normal, Santiago do Chile, e uma em 2019, na Fundação Delfina, em Londres.
Ela teve três exposições individuais em Lima, no Peru: "El dedo pulgar es el ejecuta", 2018, Galería Ginsberg; "Pulsos y pulsiones" (Pulso e Impulso), 2016, Galería Rottenslat; e "Diagnóstico de Corporeidade Reprimida" (Diagnóstico da Corporeidade Reprimida), Galería Rottenslat. Ela também fez parte de exposições coletivas no Chile, na República Tcheca e na Argentina.
Genietta é também cofundadora e codiretora do SERES, uma plataforma que exibe, educa e cria arte em Lima.
A artista trabalha com e em torno do corpo humano - usando ferramentas médicas, químicas, eletrônicas e antropológicas para investigar e questionar os modelos impostos pelas estruturas de poder. Os principais materiais com que trabalha são restos e fluidos humanos: ossos, cabelos, unhas, urina, sangue, saliva, lágrimas, leite, sêmen, etc. Seu trabalho consiste na manipulação do corpo e dos comportamentos humanos por meio de diferentes metodologias e resultados, entre eles escultura, instalação, som e performance.

Guillermo Rodríguez (Porto Rico)
Guillermo Rodríguez estudou Artes Plásticas e Escultura na Universidade de Porto Rico. O artista completou o bacharelado em Goldsmiths College, Universidade de Londres, em 2010, e um mestrado em Curadoria de Artes Visuais na Universidade Nacional Tres de Febrero, em Buenos Aires.
Participou da Residência da Rauschemberg Foundation, da Residência de Artes Visuais do Banff Centre e, em 2015, abriu a Residência da Iniciativa Davidoff Arts, uma colaboração entre o Atelier Mondial e a Academia de Arte e Design da FHNW em Basel. Sua obra foi exposta na 11ª Bienal de Havana: "Práticas Artísticas e Imaginários Sociais", "Artesur: Ficções Coletivas", no Palais de Tokyo (Paris), e "End of the Game", Fundação Proa (Buenos Aires). Seus projetos curatoriais recentes incluem "Herbaria", no Centro para o Desenvolvimento de Artes Visuais, em Havana, e "Balancing a Blade on Diamond Grass (Balancing a Diamond on a Blade of Grass)", em El Lobi, San Juan.

Lucas Demps (RJ/Brasil)
Demps teve sua educação artística inicial em ateliês de escultura e de joalheria, assim como em grupos de pesquisa, estudos e produções artísticas. Cumpriu programas de formação e bolsas de estudo na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (Fundamentação, Práticas Artísticas Contemporâneas, nível 2, Núcleo de Imagem em Movimento, entre outros). Atualmente, é mestrando no Departamento de Artes e Design da PUC-Rio, onde desenvolve pesquisa sobre a estética do embaçamento de fronteiras entre práticas artísticas contemporâneas e processos cotidianos. Seu trabalho se propõe a lidar com as condições e imprecisões do uso da linguagem humana, tendo como referência o corpo e suas manifestações cotidianas e atravessando diversas mídias da produção artística. Desde 2013, participa de exposições coletivas no Brasil e no exterior, tendo sua primeira individual ocorrido em 2018, na Galeria Oriente (Rio de Janeiro, RJ).

Maíra Dietrich (SC/ Brasil)
Maira Dietrich é bacharel em Artes Plásticas pela UDESC-Florianópolis, mestre em Fine Arts pelo KASK-Ghent e graduanda em Biblioteconomia na USP-São Paulo. Exposições individuais como Spelling P no 019, Ghent, Visão periférica, no Paço das Artes, São Paulo, e Escrito, na Fundação Cultural BADESC, Florianópolis. Exposições coletivas no Musée des Abattoirs, Toulouse, Convent, em Ghent, entre outras. Participou de residências na Casa Tomada, em São Paulo, Proyecto 'Ace, em Buenos Aires, e AFFECT, em Berlim. Desde 2015, colabora com a Casa do Povo, São Paulo, onde desenvolveu a Oficina de Anedotas Anecdote, em 2017. Desde 2012, coordena a editora freestyle A Missão.

Ygor Landarin (RJ/Brasil)
Ygor Landarin nasceu em Uruguaiana, mas com um ano de idade mudou-se para Florianópolis. Vive há cerca de 5 anos no Rio de Janeiro. Seus processos compõem híbridos entre as culturas que fazem parte de suas raízes e onde vive atualmente, subvertendo materiais e compondo analogias a questões contemporâneas e históricas.
Trabalhou por 2 anos como assistente da artista Brígida Baltar e por 5 meses para a artista Ana Miguel. Recentemente, fez sua primeira individual chamada "Corpo Contido", na Galeria Inox.
Participou das exposições coletivas Flutuantes (Paço Imperial); Formação Deformação (Escola de Artes Visuais do Parque Lage); Pouso de emergência (Caixa Preta); Fixo só o prego (Espaço Sérgio Porto); Fosso 7 (Fosso).

Posted by Patricia Canetti at 12:14 PM

Giselle Beiguelman lança Memória da amnésia: políticas do esquecimento com bate-papo no MAR, Rio de Janeiro

Museu de Arte do Rio recebe o lançamento do livro “Memória da amnésia: políticas do esquecimento”, de Giselle Beiguelman. O evento de lançamento contará com uma roda de conversa com a artista e professora da USP mediada pela curadora Clarissa Diniz.

17 de agosto de 2019, sábado, às 16h

Museu de Arte do Rio - MAR
Praça Mauá 5, Centro, Rio de Janeiro, RJ
21-3031-2741

O Museu de Arte do Rio – MAR, sob a gestão do Instituto Odeon, recebe no dia 17 de agosto, às 16h, o lançamento do livro “Memória da amnésia: políticas do esquecimento”, publicado pelas Edições Sesc São Paulo. A obra de Giselle Beiguelman, artista e professora da USP, reúne ensaios textuais e visuais sobre as estéticas e as políticas de preservação da memória – e as ações sistemáticas que as transformam, também, em políticas do esquecimento. Ao mesmo tempo em que se volta às construções e aos monumentos do passado, a autora expõe as relações contemporâneas dessas obras com os fixos e fluxos das cidades, num contraponto entre a ruína e o futuro.

O lançamento acontece no auditório do museu e contará com uma roda de conversa mediada pela curadora e ex-gerente de Conteúdo do MAR, Clarissa Diniz. A entrada no evento será gratuita e por ordem de chegada. O espaço é sujeito à lotação.

Sobre o livro

Introduzidos por um ensaio crítico, os capítulos do livro tratam de projetos realizados pela autora em diferentes contextos, no espaço urbano e nos espaços informacionais das mídias e das redes sociais. O primeiro deles, intitulado “Beleza convulsiva tropical” – uma intervenção feita na 3ª Bienal da Bahia (2014), no Arquivo Histórico do Estado – discute a tensão entre natureza e cultura, o informal e o formal, o enfrentamento entre controle e descontrole que se emaranham com a história cultural e urbana do Brasil.

O segundo capítulo, “Memória da amnésia”, dá nome ao livro e é fruto de uma exposição realizada pela autora em 2015. Com foco nos depósitos de monumentos da cidade de São Paulo, o projeto incluiu o traslado de um conjunto de obras e fragmentos de monumentos do depósito do Canindé para o interior do Arquivo Histórico municipal, onde ficaram expostos, deitados, por quatro meses.

A memória digital - Os dois capítulos seguintes tratam de trabalhos realizados por Beiguelman com mídias digitais. “Já é ontem?” apresenta um longo ensaio visual a partir de fotografias e frames que documentou, de 2010 a 2017, as transformações da Zona Portuária do Rio de Janeiro (o Porto Maravilha), com ênfase na demolição da Perimetral e no entorno da praça Mauá. O trecho seguinte do livro, Museu das perdas para nuvens de esquecimento, discute as dificuldades de lidar com a memória das redes a partir da obra de net art O livro depois do livro e sua incorporação ao acervo do MAC-USP.

Incêndio no Museu Nacional - Memória da amnésia já estava quase pronto quando, em 2 de setembro de 2018, um incêndio transformou em ruínas o Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Diante dessa tragédia, Beiguelman incluiu um último capítulo, intitulado “Beleza compulsiva tropical”, em que o incêndio é lido sob o signo das catástrofes e como uma metáfora do nosso passado recente.

De modo geral, todas essas abordagens dizem respeito às disputas pela visibilidade no campo da memória e acompanham os propósitos e esforços daqueles que constroem determinadas narrativas e analisam suas consequências nos espaços das cidades.

Giselle Beiguelman: Pesquisa preservação de arte digital, arte e ativismo na cidade em rede e as estéticas da memória no século 21. Desenvolve projetos de intervenções artísticas no espaço público e com mídias digitais. É professora livre-docente da FAUUSP e foi coordenadora do seu curso de Design, de 2013 a 2015. Entre seus projetos recentes destacam-se Memória da Amnésia (2015), Odiolândia (2017) e a curadoria de Arquinterface: a cidade expandida pelas redes (2015). É membro do Laboratório para OUTROS Urbanismos (FAUUSP) e do Interdisciplinary Laboratory Image Knowledge – Humboldt-Universität zu Berlin. Autora de diversos livros e artigos sobre arte e cultura digital, suas obras integram acervos de museus no Brasil e no exterior, como ZKM (Alemanha), Yad Vashem (Israel), Latin American Colection – Essex University (Inglaterra), MAC-USP e Pinacoteca do Estado de São Paulo. Foi editora-chefe da Revista seLecT (2011-2014) e é colunista da Rádio USP e da Revista Zum.

Clarissa Diniz é curadora e crítica de arte. É mestre em história da arte pelo PPGArtes/UERJ e doutoranda em antropologia pelo PPGSA/UFRJ. Foi editora da revista Tatuí e publicou inúmeros textos, catálogos e livros, a exemplo de Crachá - aspectos da legitimação artística (Ed. Massangana, 2008). Curou diversas exposições e, entre 2013 e 2018, atuou no Museu de Arte do Rio - MAR, onde organizou mostras como Pernambuco Experimental (2013) e Dja Guata Porã: Rio de Janeiro indígena (2017). É professora da Escola de Artes Visuais do Parque Lage.

Edições Sesc São Paulo: Pautadas pelos conceitos de educação permanente e acesso à cultura, as Edições Sesc São Paulo publicam livros em diversas áreas do conhecimento e em diálogo com a programação do Sesc. A editora apresenta um catálogo variado, voltado à preservação e à difusão de conteúdos sobre os múltiplos aspectos da contemporaneidade. Seus títulos estão disponíveis nas Lojas Sesc, na livraria virtual do Portal Sesc São Paulo, nas principais livrarias e em aplicativos como Google Play e Apple Store.

Posted by Patricia Canetti at 11:25 AM

A Parte Maldita: um esboço na Sim, São Paulo

...a exposição é um ato de revolta, de insubordinação ao Ser produtivo, ao horizonte cataclísmico da produção e é, principalmente, um ga(e)sto improdutivo.
Ricardo Sardenberg

Ser produtivo, ordem que alimenta a energia explosiva de tempos tão conflituosos. A criação, o consumo, as relações pessoais próximas ou distantes, tudo isso se justifica por ser produtivo, como analisa o curador da exposição, Ricardo Sardenberg. É sobre o engano de que produzir e cosumir para crescer seja algo infinito que ele evoca a maldição, pois o crescimento não é infinito. “As pessoas terão que dispor dessa energia acumulada de forma improdutiva, desinteressada e avessa ao lucro”.

Segundo o curador, a ação mais revolucionária é aquela que simplesmente nega qualquer vontade, desejo ou obrigação de ser produtivo. “O herético contemporâneo luxuosamente dissipa, ou dispensa, toda sua energia acumulada de forma improdutiva. Só assim é possível resgatar o jogo, o sexo, o sagrado, a arte, enfim, a vida. Só assim pode-se evitar a guerra total e aniquiladora que nos aparece no horizonte”, escreve.

A parte maldita, texto de Georges Bataille de onde Sardenberg extraiu o título - A Parte Maldita: um esboço - e a inspiração para esta exposição, propõe e tenta dar conta desse fluxo contínuo de energia que “o sol dá sem nunca receber”. Segundo o curador, a exposição é um paradoxo, ou uma ambivalência, pois justamente propõe fazer sem acrescentar nada. Não como um ato de negação, mas pelo contrário, é um ato de afirmação.

“A partir de obras de arte que estão no mundo há muito tempo, ou que foram criadas para esta exposição — elas próprias aqui desapegadas de cronologias ou tradições — que evocam o dispêndio próprio do fato artístico; que só é arte se for inútil, e os temas dissipadores onde ela acontece: o jogo, o sexo e a morte”, completa.

Fazem parte da mostra obras dos artistas: Cildo Meireles, Di Cavalcanti, Eli Sudbrack, Gokula Stoffel, Ivens Machado, Lais Myrrha, Leonilson, Luiz Schwanke, Maria Martins, Rodolpho Parigi, Tunga, Victor Gerhard e Yuli Yamagata.

Posted by Patricia Canetti at 10:51 AM

agosto 13, 2019

Consuelo Lins lança livro sobre Cao Guimarães na Nara Roesler, Rio de Janeiro

A Galeria Nara Roesler e a Editora 7Letras convidam para o lançamento do livro 'Cao Guimarães: Cinema Documentário Ficção', de Consuelo Lins. Na ocasião haverá uma conversa entre o artista e a autora, mediada por Katia Maciel.

19 de agosto de 2019, segunda-feira, 19h + 19h30

Galeria Nara Roesler
Rua Redentor 241, Ipanema, Rio de Janeiro, RJ
21-3591-0052

A obra de Cao Guimarães transita entre o cinema e as artes plásticas, e está presente em coleções importantes ao redor do mundo, como a Tate Modern no Reino Unido), o MoMA e o Museu Guggenheim nos EUA, Fondation Cartier (França), Colección Jumex (México), Inhotim (Brasil), Museu Thyssen-Bornemisza (Espanha), dentre outras. Neste livro, a cineasta e ensaísta Consuelo Lins analisa a fundo a obra do artista, a partir de suas fotografias, filmes, vídeos e instalações, descortinando os mecanismos de criação sua arte instigante e original. Nas palavras de Katia Maciel: "Consuelo habita o percurso de Cao como um pássaro e um felino ao mesmo tempo, no ritmo de uma lente se afasta e se achega na justa medida do filme que passa."

Programação
19h - conversa com Cao Guimarães e Consuelo Lins, mediada por Katia Maciel
19h30 - mesa de autógrafos e exibição de vídeos do artista

Ficha técnica
Cao Guimarães arte documentário ficção
Consuelo Lins
184 páginas
formato 15,5 X 23 cm
ISBN 978-85-421-0806-4
Compre online

Posted by Patricia Canetti at 4:44 PM

Adrianna Eu na Luciana Caravello, Rio de Janeiro

Artista criará uma grande sala de costura, que será usada como metáfora para falar sobre a construção da identidade de cada um e sobre lugar de pertencimento

A artista carioca Adrianna Eu transformará o térreo da Luciana Caravello Arte Contemporânea, em Ipanema, em uma grande sala de costura. Trata-se da exposição Costura-se para dentro, que será inaugurada no dia 15 de agosto, com cerca de 25 obras inéditas, produzidas este ano, que giram em torno da construção da identidade de cada um e do desejo de pertencimento. A artista relaciona a construção da veste com a construção de si e do seu lugar no mundo, pensando o desvio e a diferença. A mostra será acompanhada de um texto do crítico de arte Douglas de Freitas.

Para criar seus trabalhos, Adrianna Eu constantemente usa os objetos da costura, desviados de sua função original, para falar de afetos. E foram recentes encontros com a artista e travesti Agrippina R. Manhattan e com a cantora negra e não-binário (não é exclusivamente homem ou mulher, estando fora do binário de gênero) Majur que a levaram a pensar “na força de tudo aquilo que precisa negar as regras para simplesmente ser o que é”.

Utilizando elementos da costura, a artista vai construindo suas obras e tocando em questões que deseja ressaltar. Ela utiliza mapas de moldes de roupas, linhas, botões, tesouras, pedaços de tecidos e rendas, entre outros. Dentre os trabalhos apresentados estará uma grande instalação composta por seis milhões de metros de linha vermelha emaranhados no chão. Sobre ele, estará uma mesa com uma máquina de costura voltada para a parede. A instalação remete à imagem da linha que eventualmente embola na máquina de costura e precisa ser cortada e descartada. “A ideia de descarte, do que não deu certo, do que não seguiu em linha reta, é o que me interessa”, afirma.

Em muitas obras, a artista insere palavras – escritas ou bordadas – como é o caso do trabalho que traz um pedaço de viés rosa junto a um bordado onde se lê a frase: “a vida não é um mar de rosas”. Outro trabalho traz uma tesoura de costura cuja lâmina está envolta por linhas vermelhas, imobilizando o ato de cortar, criando uma inversão de força e de poder. A obra “Latifúndio” traz uma grande “casa” de botão, com um único pequeno botão ao lado. Já “O grande tabuleiro” é formado por botões de várias cores, como pretos, marrons e beges. Há somente um branco no meio deles. “É uma obra que fala sobre lugar de poder e sobre privilégio”, afirma a artista.

Adrianna Eu garimpa muitas peças de seu trabalho em feiras de antiguidade e muitas delas vêm carregadas de histórias. Uma das obras traz botões onde estão presos restos de linhas, que já estavam ali quando foram adquiridos pela artista. Ela se utiliza desses rastros para falar do quanto tudo aquilo que abandonamos, ou deixamos de ser, de alguma forma nos ajuda a compor o novo.

Completa a exposição o vídeo “A costura de si” (2005), em que a artista costura os próprios dedos da mão, ao som de uma música de Tom Zé. Esse é o único trabalho não inédito da exposição, mas que será apresentado de forma inédita, através de uma videoinstalação, composta por um monitor, um biombo e um banco com lugar para uma única pessoa assistir ao vídeo de cada vez. Para a artista, era fundamental que esta obra estivesse na exposição, pois ela se relaciona com todas as demais. “O vídeo é um dos meus primeiros trabalhos e fala da construção, desconstrução e eterna reconstrução de quem se é”, diz. Esse trabalho é marcante na trajetória de Adrianna Eu e foi visto pela artista Louise Bourgeois (Paris, 1911 - Nova York, 2010), com quem Adrianna encontrou por duas vezes e cujo encontro e descoberta de sua obra foram muito marcantes para a trajetória da artista.

SOBRE A ARTISTA

Adrianna Eu (Rio de Janeiro, 1972. Vive e trabalha no Rio de Janeiro) é formada pela Escola de Artes Visuais EAV – Parque Lage (RJ) onde frequentou cursos de Malu Fatorelli, entre 2003 e 2006; e em Filosofia, com Auterives Maciel, no Museu da Republica, entre 2003 e 2007. Desde 2010 frequenta o Grupo Alice de Estudos e Projetos, coordenado por Brígida Baltar e Pedro Varela.

Como nome artístico adotou “Adrianna eu” (nome que a representaria), pensando nisso como um nome-trabalho. Tendo como um de seus temas as relações das pessoas com a própria identidade, foi tomada por um desejo de ter no seu próprio nome uma “provocação” que já considera como um trabalho inicial. Adrianna Eu é um nome-trabalho que pretende provocar no outro um sentimento de reflexão. Com a intenção de gerar um estranhamento e levantar as questões dos limites do próprio eu, para cada lugar que a artista viaja, o pronome “eu”, por não se tratar de um sobrenome, é traduzido para a língua local, possibilitando assim que o processo de estranhamento intencionado se construa.

Dentre suas principais exposições individuais estão: “O mergulho de Narciso” (2015), na Luciana Caravello Arte Contemporânea; “O mais profundo pensamento é um coração batendo” (2014), na Casa Porto, no Rio de Janeiro; “Trabalhos recentes” (2005), no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, entre outras.

Dentre suas exposições coletivas, destacam-se: “Lacunas preenchidas – As 7 Cornellys” (2019), na Villa Aymoré, no Rio de Janeiro; “De sangue e ossos” (2018), “Transformação” (2018), na Casa Firjan, no Rio de Janeiro; “Manjar: amar em liberdade” (2018), no Solar dos Abacaxis, no Rio de Janeiro; Trio Bienal (2017), no Rio de Janeiro; “Aquilo que nos une” (2017), na Caixa Cultural, em São Paulo; “In Memoriam”, na Caixa Cultural, Rio de Janeiro; “Aquilo que nos une” (2016), na Caixa Cultural, Rio de Janeiro.

Posted by Patricia Canetti at 4:01 PM

Tiago Carneiro da Cunha na Fortes D'Aloia & Gabriel - Galeria, São Paulo

A Fortes D’Aloia & Gabriel tem o prazer de apresentar Zona Crepúsculo, nova exposição individual de Tiago Carneiro da Cunha na Galeria. O artista exibe um conjunto inédito de pinturas em que explora a repetição de cenas crepusculares a partir da experimentação com uma gama diversa de recursos formais. O título da mostra inspira-se livremente na antológica série de TV norte-americana Twilight Zone, cuja trama de tom distópico tornou-se sucesso cult da década de 1950.

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Nestas novas obras, o artista reitera sua obsessão pelo gesto ao investigar o uso de aparatos variados em seu processo de pintura, dentre eles espátulas, pincéis de diferentes formatos e dimensões, e sua própria mão. São composições que iniciam-se a partir de um ponto focal no centro da tela e a partir dele ganham corpo em um processo que abarca o improviso, o erro e o acaso. Assim, Carneiro da Cunha arquiteta cenários à beira-mar em que indivíduos interagem com o sol e a lua, estes também, como personagens, são dotados de qualidades e emoções humanas.

Se o crepúsculo é o momento em que o céu é tomado por um sem fim de luzes e matizes, o artista busca reproduzir este efeito gradiente manipulando a tinta em movimentos circulares dentro do espaço da tela. Tal manipulação o permite também equalizar diferentes graus de saturação e contraste nestas composições, emprestando nuances apocalípticas às cenas.

Lançando mão de um humor corrosivo – marca frequente de sua produção – o artista cria figuras híbridas que parecem ora padecer, ora sucumbir, diante de uma espécie de julgamento final feito pelos astros, agentes morais desta narrativa. O interesse pela linguagem do cartoon fica evidente em telas como Luar e Zumbi e Destroyer, em que o artista usa a caricatura como um poderoso instrumento de tradução visual de determinada situação fantástica ou absurda – situações estas que, nos dias atuais, já não nos parecem tão inverossímeis assim.

Em junho deste ano, a obra de Tiago Carneiro da Cunha foi a inspiração e o eixo central da elogiada exposição coletiva A Burrice dos Homens, com curadoria de Fernanda Brenner, na galeria Bergamin & Gomide, em São Paulo. No dia 5 de setembro, a Fortes D’Aloia & Gabriel promove uma conversa entre Carneiro da Cunha e a artista e Jac Leirner.

Tiago Carneiro da Cunha nasceu em São Paulo em 1973 e atualmente vive e trabalha no Rio de Janeiro. Artista de formação multidisciplinar, cursou a Pós-Graduação em Arte Contemporânea do Goldsmiths College, em Londres. Radicou-se no Rio de Janeiro em 2001 e desde então expõe regularmente seu trabalho em exposições individuais e coletivas, como Prospect 2013, Museum of Contemporary Art San Diego (San Diego, EUA, 2013); Sobrenatural, Estação Pinacoteca (São Paulo, 2013); A Iminência das Poéticas, 30ª Bienal de São Paulo (2012); Tiago Carneiro da Cunha & Klara Kristalova, SFMOMA (San Francisco, EUA, 2011); Bienal de Liverpool (2002); Bienal de Sydney (2002). Também atua como curador, tendo organizado as mostras: Law of the Jungle, Lehmann Maupin Gallery (Nova York, 2010); Drunkenmasters, Galeria Fortes Vilaça (São Paulo, 2004). Sua obra está presente em diversas coleções importantes ao redor do mundo, como: MAM (Rio de Janeiro), MAR (Rio de Janeiro), Saatchi Collection (Londres), SFMOMA (San Francisco), TBA21 (Áustria), entre outras.


Fortes D’Aloia & Gabriel is pleased to present Twilight Zone, Tiago Carneiro da Cunha’s latest solo exhibition at the Galeria. The artist shows a group of brand new paintings in which he explores the repetition of twilight scenes by experimenting with a wide range of formal means. The title of the exhibition is loosely inspired by the memorable TV series of same name, whose dystopian tinted plot became a cult hit in the 1950s.

In this body of work the artist reaffirms his obsession with the painterly gesture while engaging an assortment of resources, such as palette knives, multiple brushes, and his own hand. These compositions build up from a focal point at the center of the canvas and expand in a process that includes improvisation, confusion and chance. Carneiro da Cunha designs coastal sceneries where people interact with the sun and the moon. Like the characters, these planets are also endowed with human qualities and emotions.

If the twilight occurs when the sky is painted by a host of lights and hues, the artist seeks to replicate this gradient effect by manipulating the paint in round brushstrokes across the canvas. Such manipulation allows him to balance the various levels of saturation and contrast within the compositions, lending apocalyptical nuances to the scenes.

Employing a very dry humor – a trademark of his work – the artist creates hybrid figures that seem to suffer or collapse according to a sort of final judgment carried out by the stars, moral actors in this eloquent narrative. Carneiro da Cunha’s interest in cartoon language becomes evident in pieces such as Luar e Zumbi and Destroyer, in which he uses caricature as a powerful visual translation tool of a particular fantastic or absurd situation – episodes that these days no longer seem so far fetched.

Last June, Tiago Carneiro da Cunha served as the inspiration and pivotal point in the group show A Burrice dos Homens, curated by Fernanda Brenner, at Bergamin & Gomide, São Paulo. On September 5th, Fortes D’Aloia & Gabriel will host a conversation between Carneiro da Cunha and fellow artist Jac Leirner.

Tiago Carneiro da Cunha was born in São Paulo, in 1973, and since 2001 has lived and worked in Rio de Janeiro. He holds a MFA from Goldsmiths College, London. Over the years he has had noteworthy solo and group shows, such as: Prospect 2013, Museum of Contemporary Art San Diego (San Diego, USA, 2013); Sobrenatural, Estação Pinacoteca (São Paulo, 2013); A Iminência das Poéticas, 30th Bienal de São Paulo (2012); Tiago Carneiro da Cunha & Klara Kristalova, SFMOMA (San Francisco, USA, 2011); Liverpool Biennial (2002); Sydney Biennial (2002). He also works as a curator, having organized the exhibitions: Law of the Jungle, Lehmann Maupin Gallery (New York, 2010); Drunkenmasters, Galeria Fortes Vilaça (São Paulo, 2004). His work is included in the following collections: MAM (Rio de Janeiro), MAR (Rio de Janeiro), Saatchi Collection (London), SFMOMA (San Francisco), TBA21 (Austria), among others.

Posted by Patricia Canetti at 3:18 PM

Leandro Machado na Mario Quintana, Porto Alegre

Leandro Machado encerra o projeto "Arqueologia do Caminho" em Porto Alegre/Brasil, apresentando exposição de fotos, materiais coletados nas cidades e vídeo sobre as experiências e conhecimentos que adquiriu na Circulação Nacional/Internacional

O projeto Leandro Machado – Arqueologia do Caminho, que realizou a circulação nacional/internacional no Rio de Janeiro/Brasil, La Rochelle/França e Montevidéu/Uruguai, encerrará em Porto Alegre no próximo mês. No dia 17 de agosto, sábado, a partir das 17h, tem inauguração de exposição do artista no Museu de Arte Contemporânea (MAC-RS), com apoio institucional do Instituto Estadual de Artes Visuais (IEAVi), na Casa de Cultura Mario Quintana.

Além da abertura da mostra de fotografias e materiais coletados nas cidades visitadas, na ocasião ocorrerá distribuição do livro homônimo ao projeto, com sessão de autógrafos, além da apresentação de um vídeo elaborado por Leandro Machado sobre as vivências e conhecimentos adquiridos durante o projeto, realizado com recursos do Governo do Estado do Rio Grande do Sul por meio do Pró-Cultura RS FAC – Fundo de Apoio à Cultura #juntospelacultura_2.

A ideia do projeto “Arqueologia do Caminho” surgiu das andanças do artista em lugares periféricos da capital gaúcha. “Parece que as pessoas da cidade são somente aquelas que circulam pelo Centro, Cidade Baixa e Moinhos de Vento. Porto Alegre é tão mais ampla, vasta, poderosa! São lugares periféricos, mas – ao mesmo tempo – outros centros. Fui a lugares que desconhecia e só sabia o nome. Descobri uma outra Porto Alegre, às vezes até mais bonita do que a gente conhece”, afirma Leandro.

A curadora da exposição na cidade de La Rochelle/França, Martina Weissgerber, afirma: “Suas fotografias são um roaming memorial da identidade do homem em qualquer paisagem, tomada durante uma peregrinação diária. O trabalho de Leandro torna-se ainda mais significativo na atual situação política no Brasil: a Arqueologia do Caminho é um estudo artístico dos restos de uma civilização em perigo de desaparecer”.

Antônio Augusto Bueno, curador das mostras em Porto Alegre, Rio de Janeiro e Montevidéu, define: “Além de buscar visibilidade a essas populações/comunidades/lugares, outra potência se configura no fato de agregar pessoas/conhecimentos/experiências, em busca de um pensamento plural. Igualmente percebo a continuidade de um corpo que se move, de um discurso que se adensa, com coerência, poesia, resistência se seguir apostando em suas crenças de negro artista”.

A exposição "Arqueologia do Caminho" fica em cartaz no MAC-RS até o dia 22 de setembro, com entrada gratuita. As imagens expostas revelam uma Porto Alegre diferente, autêntica e descontruída pelo olhar do artista visual, que junto com o fotógrafo Paulo Corrêa, percorreram diversos bairros registrando construções, paisagens, situações do cotidiano e pessoas que moram nessas regiões. Alguns registros e materiais coletados nas cidades que realizou a Circulação Nacional/Internacional também foram incluídos na instalação para completar a experiência dos espectadores.

A produção executiva do projeto é de Sabina Stephanou, da Stephanou Cultural, contando com o financiamento do Governo do Estado do Rio Grande do Sul.

Leandro Machado – gaúcho de Porto Alegre, Bacharel em Artes Visuais – habilitação Pintura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com Licenciatura em Educação Artística pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Realizou as seguintes exposições individuais: Desenhos Esquemáticos, Presentes de Olhar, Otá ou Quando a pedra não sabe que é estátua. Foi ganhador do 1º Prêmio de Arte Contemporânea da Aliança Francesa de Porto Alegre (AFPoa).

Posted by Patricia Canetti at 10:49 AM

agosto 12, 2019

36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão no MAM, São Paulo

36ª edição do Panorama da Arte Brasileira promete redefinir o conceito de "sertão"

Exposição bianual do MAM São Paulo acontecerá de 17/08 a 15/11, com curadoria de Júlia Rebouças

No segundo semestre, entre 17/08 e 15/11, o MAM São Paulo realizará, com o patrocínio máster de Água AMA e Bradesco e o patrocínio da Movida Aluguel de Carros, a nova edição do Panorama da Arte Brasileira. "Sertão" é o título e o conceito proposto pela curadora Júlia Rebouças para articular o 36º Panorama, do qual participarão 29 artistas e coletivos, e que tem assistência curatorial de Maria Catarina Duncan. Após um extenso processo de pesquisa e viagens por diversas regiões do Brasil, incluindo cidades como Cachoeira (BA), Recife (PE), Brasília (DF), Florianópolis (SC), São Paulo e a região do Cariri cearense, a curadora convidou artistas que se relacionam com o conceito, entendendo a própria arte como “sertão” – em sua instância de experimentação e resistência –, contestando, portanto, o viés restritivamente geográfico facilmente associado à palavra. Sertão é apresentado nesta exposição como um modo de pensar e de agir, que tem a criação artística como um de seus importantes aspectos definidores.

“Não há empreendimento, monumento ou manifestação que consiga simbolizar inteiramente sertão. Há sempre uma condição-sertão que funda outra existência e que não se deixa confinar. Se o imaginário de um certo senso comum trata sertão como vazio, aridez, aspereza ou indigência, a ele confrontam-se as acepções de vitalidade, força, resistência, experimentação e criação, gestadas a partir de uma ordem de saberes e práticas que desafia o projeto colonial em suas reiteradas tentativas de submissão. De forma alusiva, sertão refere-se a um só tempo à arte e ao estado da arte”, explica Júlia.

A necessidade de reelaborar a história brasileira, uma repactuação social, espiritualidade, identidade de gênero, lutas antirracistas e a relação com o meio ambiente são algumas das questões que aparecem nas instalações, fotografias, pinturas, vídeos, esculturas e projetos deste Panorama. Os artistas selecionados estão em início ou meio de carreira, com produções que apontam para territórios especulativos que dão sentido à ideia de sertão, além de artistas com trajetórias mais extensas, que apresentam obras que merecem ser revisitadas à luz dos debates propostos.

36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão

Estratégias de criação não hegemônicas e novas tecnologias sociais aparecem em diversos trabalhos que serão encontrados na exposição. Ana Lira é um exemplo, com sua produção de fotografias e publicações que tratam de processos de construção coletiva. No projeto que desenvolve para Sertão, acompanha o trabalho de agricultores e agricultoras experimentadores do semiárido nordestino. Raquel Versieux, artista e professora radicada no Crato (CE), propõe encontros de saberes tradicionais em dinâmicas realizadas na região do Cariri. Maxim Malhado, artista baiano, apresenta esculturas que se relacionam com tecnologias de construção popular. Gabi Bresola e Mariana Berta discutem as possibilidades de relacionar o campo da arte com outras atividades humanas e matrizes de conhecimento, como a agricultura.

Ana Vaz, em sua filmografia, questiona territórios e geografias a partir do encontro entre ficção e história. Para Sertão, Mabe Bethônico, que costumeiramente trabalha com arquivos e documentos históricos, propõe um debate sobre as cercas como conceito e estrutura político-culturais. O Coletivo Fulni-ô do Cinema fala da luta constante pela resistência do povo fulni–ô em seu território de origem, no semiárido pernambucano. Santídio Pereira, por meio de xilogravuras de grande dimensão, retrata espécies nativas da caatinga, recriando imaginários.

A vertigem da vida contemporânea aparece nas pinturas e instalações de Regina Parra, enquanto o artista Daniel Albuquerque recorre a obras tridimensionais para se referir ao corpo humano e seus rituais de prazer e de intimidade. Paul Setúbal reflete sobre a arqueologia da violência, tensionando a relação de objetos de poder com o corpo. O artista Raphael Escobar, que desde 2009 atua com educação não formal em contextos de vulnerabilidade social, como a Fundação Casa, Projeto Quixote e a organização Craco Resiste, em seu trabalho questiona narrativas que criam apagamento e estigmatização dos grupos atingidos. Já Vânia Medeiros, ao tomar cadernos de desenhos como instrumentos de mediação, convida trabalhadores da construção civil e prostitutas a retratar suas realidades de vida e trabalho, refletindo sobre elas.

A obra de Gê Viana parte de populações segregadas historicamente, como indígenas, mulheres e pessoas LGBT, criando novas escrituras políticas por meio de fotoperformances e colagens. Vulcânica PokaRopa, artista e pesquisadora, constitui um arquivo que debate a invisibilidade de pessoas trans, travestis e não-binárias em espaços institucionais, ao passo em que Rosa Luz, artista travesti que transita entre a música e as artes visuais, trata dos enfrentamentos sociais dos corpos dissidentes. Mariana de Matos faz a poesia encontrar as artes visuais para discutir a necessidade de desestabilizar narrativas hegemônicas, enquanto Randolpho Lamonier especula sobre modos de vida que produzem exclusão e as insurgências cotidianas. Maxwell Alexandre problematiza o conceito de “patrimônio” e chama atenção para práticas experimentais que desafiam circuitos estabelecidos.

Antonio Obá, por sua vez, discute sobre a identidade negra e a violência impetrada pelo racismo estrutural, em pinturas, esculturas e instalações. Dalton Paula acessa a história brasileira para reinscrever narrativas sobre a presença negra e sua cultura, que foram apagadas dos registros oficiais. Ana Pi, coreógrafa, trata em sua obra das memórias da diáspora negra, que são repercutidas em gestos e corpos que dançam. Desali, artista da periferia da cidade de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, apresenta um conjunto de pinturas e fotografias desenvolvidas há mais de dez anos, que retratam seu cotidiano.

Gervane de Paula usa o humor crítico para debater injustiças sociais e ambientais. Lise Lobato, artista paraense, parte da cultura marajoara para falar de civilizações amazônicas, ao passo em que Luciana Magno, também de Belém, discute a capacidade de resiliência da natureza diante das investidas de projetos infraestruturais danosos. O ambiente natural em conflito com projetos de vida global e urbanidade aparece em obras como a de Michel Zózimo, que desenvolve desenhos e esculturas sobre a relação entre cultura e natureza. Os trabalhos de Cristiano Lenhardt também acontecem por meio de diferentes observações do entorno, usando suportes como vídeos, instalações, fotografias, desenhos e gravuras. Por meio de sua prática, o artista incorpora o mistério e diferentes cosmovisões em suas obras.

O Panorama conta ainda com a participação de coletivos como a Rádio Yandê, rádio inteiramente indígena produzida desde 2013, com uma programação que tem como objetivo atuar na informação de populações indígenas, além de contribuir para a formação de não-indígenas. Este é um importante canal também para a difusão da produção musical e cultural contemporânea de diversos povos indígenas, o que inclui uma vasta gama de artistas de hip-hop.

Arquitetura e identidade visual

Para desenvolver a expografia da mostra, Júlia Rebouças convidou o estúdio Risco, que apresentou um projeto que toma como base a ideia de uma paisagem topográfica, em que convivem múltiplas manifestações. Ao invés de segmentar as salas de exposição, em salas ou corredores, os arquitetos Tiago Guimarães, Humberto Pio e Marcelo Dacosta criaram uma estrutura que “brota do chão” e que propõe um uso inteiramente novo para os painéis cenográficos disponíveis no MAM: por meio de sobreposições e empilhamentos horizontais são criados módulos de diferentes alturas, que têm as superfícies externas tomadas pelas obras.

O design do 36º Panorama, por sua vez, está a cargo de Elaine Ramos, que desenvolveu uma identidade visual mutante, a partir da reelaboração de códigos, tipografias e escrituras que evocam “sertão” como um modo de enunciar sempre em transformação.

Artistas que integram o 36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão

1- Ana Lira (Caruaru - PE, 1977. Vive no Recife)
2- Ana Pi (Belo Horizonte, 1986. Vive em Paris)
3- Ana Vaz (Brasília, 1986. Vive em Lisboa e em Paris)
4- Antonio Obá (Ceilândia - DF, 1983. Vive em Brasília)
5- Coletivo Fulni-ô de Cinema (Águas Belas - PE)
6- Cristiano Lenhardt (Itaara - RS, 1974. Vive em São Lourenço da Mata - PE)
7- Dalton Paula (Brasília, 1982. Vive em Goiânia)
8- Daniel Albuquerque (Rio de Janeiro, 1983. Vive no Rio de Janeiro)
9- Desali (Contagem - MG, 1983. Vive em Contagem - MG)
10- Gabi Bresola & Mariana Berta (Joaçaba - SC, 1992 / Peritiba - SC, 1990. Vivem em Florianópolis)
11- Gê Viana (Santa Luzia - MA, 1986. Vive em São Luís)
12- Gervane de Paula (Cuiabá, 1961. Vive em Cuiabá)
13- Lise Lobato (Belém, 1963. Vive em Belém)
14- Luciana Magno (Belém, 1987. Vive em São Paulo)
15- Mabe Bethônico (Belo Horizonte, 1966. Vive em Genebra e Belo Horizonte)
16- Mariana de Matos (Governador Valadares - MG, 1987. Vive no Recife)
17- Maxim Malhado (Ibicaraí - BA, 1967. Vive em Massarandupió - BA)
18- Maxwell Alexandre (Rio de Janeiro, 1990. Vive no Rio de Janeiro)
19- Michel Zózimo (Santa Maria - RS, 1977. Vive em Porto Alegre)
20- Paul Setúbal (Aparecida de Goiânia - GO, 1987. Vive em São Paulo)
21- Radio Yandê (Rio de Janeiro, 2013)
22- Randolpho Lamonier (Contagem - MG, 1988. Vive em Belo Horizonte)
23- Raphael Escobar (São Paulo, 1987. Vive em São Paulo)
24- Raquel Versieux (Belo Horizonte, 1984. Vive no Crato - CE)
25- Regina Parra (São Paulo, 1984. Vive em São Paulo)
26- Rosa Luz (Gama - DF, 1995. Vive em São Paulo)
27- Santídio Pereira (Curral Comprido - PI, 1996. Vive em São Paulo)
28- Vânia Medeiros (Salvador, 1984. Vive em São Paulo)
29- Vulcânica PokaRopa (Presidente Bernardes - SP, 1993. Vive em Florianópolis)

50 anos de Panorama

O Panorama da Arte Brasileira teve sua primeira edição em 1969 e foi idealizado como forma de o museu recompor seu acervo e voltar a participar ativamente do circuito artístico contemporâneo. A princípio evento anual, o Panorama passou a ser realizado a cada dois anos a partir de 1995, contando até o momento 35 edições.

Parcerias

O 36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão procurou ampliar seu tempo e espaço de atuação por meio de parcerias estratégicas: com a Festa Literária Internacional de Paraty, serão promovidas duas mesas de debate convidando um participante da Flip e um participante do Panorama, com a mediação de Júlia Rebouças e Fernanda Diamant, curadora da 17ª edição da Flip; com o Auditório Ibirapuera, vizinho do museu, foi organizada uma programação musical a partir dos conceitos trabalhados no Panorama para o dia 18/08, dia seguinte à abertura no MAM; e, com a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, novos debates acontecerão em setembro e outubro, promovendo o encontro entre artistas, psicanalistas e o público.

Irmãos Campana na loja mam

O estúdio Campana, dos irmãos Fernando e Humberto Campana, que celebra em 2019 seus 35 anos de trabalho, ficará a cargo da curadoria da loja mam durante o período do Panorama, com o patrocínio do Iguatemi São Paulo. O trabalho dos Campana incorpora a ideia da transformação, reinvenção e integração entre o artesanato e a produção em massa, oferecendo um design com identidade própria, mixando a individualidade dos materiais à preciosidade das características comuns no cotidiano brasileiro, como as cores, as misturas, o caos criativo. A partir do olhar único dos irmãos Campana, que contam com um extenso trabalho de pesquisa da cultura vernacular nordestina presente em suas coleções, os visitantes poderão vivenciar um novo espaço da loja mam e encontrar peças cuidadosamente selecionadas que trabalham com o conceito expandido de sertão.

AMA: levando água potável ao semiárido brasileiro

Colocar o sertão em foco possibilitou que o 36º Panorama da Arte Brasileira firmasse parcerias com propósitos que vão muito além do simples apoio financeiro. Um dos patrocinadores, a Água AMA, água mineral da Cervejaria Ambev, tem 100% de seu lucro revertido para projetos de acesso à água potável no semiárido brasileiro. A mostra é uma oportunidade para que o público conheça um produto que, aos poucos, está ajudando a transformar a realidade de muitos brasileiros vivendo no semiárido – clima presente em regiões comumente associadas ao tradicional imaginário de sertão. Já são mais de 26 mil pessoas beneficiadas pelos projetos que AMA financia, em todos os nove estados que compõem o semiárido no Brasil. Este ano, a marca atingiu R$ 4 milhões de lucro, recurso integralmente revertido para iniciativas de acesso à água potável. Iniciativas como o patrocínio ao Panorama da Arte Brasileira permitirão um crescimento ainda maior desses números.

Apoio ao Panorama e ao público de fora de São Paulo

A agência de viagens Flytour, além de ter se tornado agência apoiadora do Panorama, habilitou para o MAM um portal em que os interessados em adquirir passagens e pacotes de hospedagem para viajar a São Paulo e conferir pessoalmente o 36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão contarão com descontos especiais.

Equipe do 36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão

Curadoria – Júlia Rebouças (Aracaju, 1984. Vive entre Belo Horizonte e São Paulo) curadora, pesquisadora e crítica de arte. É curadora do 36o Panorama da Arte Brasileira, Museu de Arte Moderna – SP, em 2019. No mesmo ano, realiza a curadoria de Entrevendo, mostra antológica de Cildo Meireles, a ser inaugurada no Sesc Pompeia – SP, em setembro. Foi co-curadora da 32a Bienal de São Paulo, Incerteza Viva (2016). De 2007 a 2015, trabalhou na curadoria do Instituto Inhotim, Minas Gerais. Colaborou com a Associação Cultural Videobrasil, integrando a comissão curadora dos 18o e 19o Festivais Internacionais de Arte Contemporânea SESC_Videobrasil, em São Paulo. Foi curadora adjunta da 9a Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, em 2013. Realiza diversos projetos curatoriais independentes, dentre os quais destacamos a exposição Entrementes, da artista Valeska Soares, na Estação Pinacoteca, São Paulo, de agosto a outubro de 2018, a mostra MitoMotim, no Galpão VB, São Paulo, de abril a julho de 2018 e Zona de instabilidade, com obras da artista Lais Myrrha, na Caixa Cultural, São Paulo, em 2013. Graduou-se em Comunicação Social/ Jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco (2006). É Mestre e Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal de Minas Gerais.

Assistência curatorial – Catarina Duncan (Rio de Janeiro, 1993. Vive em São Paulo) curadora e programadora cultural. Formada em Culturas Visuais e História da Arte pela Goldsmiths College, University of London (2010 - 2014), foi assistente curatorial da 32a Bienal de São Paulo (2015 - 2016), do ‘Pivô Arte e Pesquisa’ (2014-2015) e das exposições ‘Terra Comunal Marina Abramovic’ no Sesc Pompeia (2014), entre outros. Coordenou a programação pública da obra ‘Cura Bra Cura Té’ de Ernesto Neto na Pinacoteca (2019). Participou de diversas residências artísticas, entre elas a 'Residents Art Dubai' (2019) com curadoria de Fernanda Brenner, e ‘Lastro’, na Bolívia e Guatemala (2015-2017), ao lado da curadora Beatriz Lemos. Assinou a curadoria das exposições '⦿' na Galeria Leme (2018), 'Somos Muitxs' no Solar dos Abacaxis (2018), 'Oráculo Piedoso' de Martin Lanezan na Galeria Sancovsky (2018), ‘Travessias Ocultas – Lastro Bolivia’ no Sesc Bom Retiro (2018), Fio Corpo Terra' no espaço Saracura (2017). Integrou o coletivo TerreyroCoreográfico (2015 - 2016). Atua como representante do programa COINCIDENCA da fundação suíça para cultura Pro Helvetia no Brasil.

Arquitetura – Estudio Risco. Inaugurado em 2007, o estúdio Risco é um coletivo formado por artistas de trajetórias variadas e interesses múltiplos. Presta serviços de arquitetura, cenografia, expografia, desenho de produto, desenho gráfico e videografia. Hoje é formado por Humberto Pio, Juliana Amaral, Marcelo Dacosta e Tiago Guimarães. Nos últimos quatro anos, desenvolveu o desenho de mostras de arte como: “O que os Olhos Alcançam - Cristiano Mascaro” (Sesc Pinheiros, 2019), “Arte-Veículo (Sesc Pompeia, 2018)”, “Estou Cá” (Sesc Belenzinho, 2016-7), “Sempre Algo Entre Nós” (Sesc Belenzinho, 2016), “Potlatch: Trocas de Arte” (Sesc Belenzinho, 2016), “Provocar Urbanos” (Sesc Vila Mariana, 2016), “Arno Rafael Minkkinen: O corpo como evidência” (Sesc Jundiaí e Sesc Vila Mariana, 2016) e VI Mostra de 3M de Arte Digital (Fundição Progresso, Rio de Janeiro, 2015).

Design – Elaine Ramos (São Paulo, 1974) é designer atuante na área cultural e sócia da editora paulistana Ubu. Foi, por 11 anos, diretora de arte da editora Cosac Naify, onde também coordenou a edição dos títulos sobre design. É co-organizadora da Linha do tempo do design gráfico no Brasil, foi co-curadora da exposição Cidade Gráfica, no Itaú Cultural em São Paulo e é membro da Alliance Graphique Internationale (AGI).

Posted by Patricia Canetti at 3:35 PM

Flavio de Carvalho na Almeida e Dale, São Paulo

Obra multidisciplinar de Flávio de Carvalho ganha exposição individual na Galeria Almeida e Dale

Mostra reúne registros das polêmicas performances do artista, além de pinturas e desenhos produzidos entre 1930 e 1970

Uma das mais importantes referências da vanguarda brasileira do Séc. XX, a extensa obra do artista Flávio de Carvalho (1899-1973) estará em exposição, de 17 de agosto a 19 de outubro, na Galeria Almeida e Dale, em São Paulo. Com curadoria de Kiki Mazzucchelli, O antropófago ideal foi originalmente apresentada na Sotheby’s S2 Gallery, em Londres, em abril deste ano, sendo a primeira exposição individual dedicada a Flávio de Carvalho no Reino Unido, país onde viveu de 1914 a 1922.

A seleção de obras oferece um panorama esclarecedor da trajetória multidisciplinar de Flávio de Carvalho, cobrindo cinco décadas de sua produção. Cerca de cinquenta trabalhos, entre desenhos, pinturas, ilustrações, materiais de arquivo e documentação dos projetos imateriais do artista, representam sua diversidade de meios de expressão e sua inestimável contribuição para a ampliação das possibilidades do fazer artístico.

Entre os destaques, está o conjunto de retratos de alguns nomes significativos que acompanharam Carvalho em sua trajetória artística, formado por pinturas e desenhos cujas linhas expressivas que visam a capturar o estado psicológico de seus modelos. Também chamam atenção os projetos arquitetônicos apresentados pelo artista em concursos nacionais e internacionais. Considerado um dos pioneiros da arquitetura moderna no Brasil, Carvalho, em seus projetos, combinava uma linguagem futurística a elementos alegóricos e decorativos, evidenciando seu interesse por temas ligados à etnologia, à psicanálise e à antropofagia.

“Flávio de Carvalho é uma das figuras mais interessantes da vanguarda brasileira do século XX. Seus projetos de cunho conceitual atestam seu extraordinário feito de expandir o campo da arte para além de territórios e formas conhecidos, ampliando assim a própria definição daquilo que pode ser considerado arte”, comenta Kiki.

New Look

Em 1931, Flávio de Carvalho realiza sua primeira intervenção no espaço público; a Experiência n.2, na qual caminhou contra o fluxo de uma procissão de Corpus Christi nas ruas do centro de São Paulo, o que, talvez, seja o primeiro registro de uma performance no Brasil.

Em 1956, quase aos 60 anos de idade, o artista desfilou pelas ruas de São Paulo vestindo um blusão bufante, uma saia plissada e sandálias, um traje projetado, segundo ele, para servir como alternativa ao padrão do terno e gravata e libertar o homem tropical do desconforto causado por estilos de moda importados da Europa. Acompanhado por uma extensa cobertura de imprensa organizada por ele próprio e que pode ser observada em algumas das fotografias presentes nesta exposição, Flávio de Carvalho batizou a obra de New Look (Experiência n.3). As vantagens funcionais da vestimenta foram impressas em um anúncio criado pelo artista, trazendo afirmações mais razoáveis como sua capacidade de minimizar a transpiração excessiva até alegações mais inverossímeis, como sua virtude de evitar guerras devido ao uso de “cores vivas (que) substituem desejos de agressão”.

Segundo a curadora KiKi Mazzucchelli, “a obra é um projeto exemplar de Carvalho, na medida em que combina o experimentalismo utópico a uma abordagem calcada no racionalismo, metodologia que utilizou em várias ocasiões para desmistificar as crenças e convenções dominantes.”.

O “revolucionário romântico” ou o “antropófago ideal”

Cunhado por Le Corbusier após um encontro com Carvalho em 1929, para definir sua prática artística visionária e multimodal, o primeiro termo é o mais usado por críticos, mas, talvez, seja insuficiente para capturar o caráter idealista e inventivo do conjunto de sua obra. A segunda definição, supostamente creditada a Oswald de Andrade, autor do reconhecido “Manifesto Antropofágico” (1928), pode revelar mais sobre sua prática.

Segundo o biógrafo J. Toledo, em Flávio de Carvalho: o comedor de emoções, Oswald de Andrade assim o exaltou em 1930, à época do IV Congresso Panamericano de Arquitetura, no Rio de Janeiro. Na ocasião, Flávio de Carvalho apresentou um ensaio intitulado A cidade do homem nu, seu plano diretor para uma nova metrópole nos trópicos que seria destituída de Deus, propriedade e casamento, numa proposição extremamente ousada em um contexto cultural ultraconservador.

Flávio de Carvalho

Pintor, escultor, arquiteto, cenógrafo, designer, jornalista, escritor e dramaturgo, Flávio de Carvalho nasceu no Rio de Janeiro, em 1899. Reconhecido por investigações de vanguarda na arte performática, Carvalho usou seus muitos talentos e formas excêntricas e irreverentes de expressão para chocar a burguesia. Inovou ao adotar novas mídias, destacando-se por suas inovações no campo do teatro e suas performances artísticas, abrindo caminho para as novas tendências que se desenvolveram no Brasil a partir dos anos 1960.

Aclamado na Europa Ocidental, na URSS e nos Estados Unidos, seus retratos expressionistas de personalidades estão em acervos de importantes museus em Nova York, Paris, Roma, Moscou, além de São Paulo e Rio de Janeiro. Apesar de ter recebido atenção significativa da mídia ao longo de sua carreira, a obra de Carvalho constantemente se chocou com o conservadorismo dominante, em uma época em que não havia museus dedicados à arte moderna no país (o primeiro deles, o MASP, foi fundado apenas em 1947). Assim, materiais de arquivo e de documentação relevantes para a reconstrução de sua trajetória artística acabaram sendo dispersados em diferentes coleções públicas e privadas. A exposição apresentada na Almeida & Dale visa contribuir para a contextualização e reavaliação da obra de Flávio de Carvalho, e será acompanhada de um catálogo contendo textos inéditos que abordam temas significativos para uma melhor compreensão de seu papel fundamental na historiografia da arte brasileira.

Posted by Patricia Canetti at 3:03 PM

agosto 11, 2019

Somos muit+s: experimentos sobre coletividade na Pinacoteca, São Paulo

Mostra na Pinacoteca investiga a arte como prática coletiva

Experiências artísticas concebidas por Hélio Oiticica, Maurício Ianês, Mônica Nador e Jamac, Rirkrit Tiravanija, Tania Bruguera, Vivian Caccuri e o Coletivo Legítima Defesa são apresentadas em diálogo com a produção do alemão Joseph Beuys

A Pinacoteca de São Paulo, museu da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, apresenta, de 10 de agosto a 28 de outubro de 2019, a exposição coletiva Somos muit+s: experimentos sobre coletividade, que investiga a prática artística como exercício coletivo. Com curadoria de Amanda Arantes, Fernanda Pitta e Jochen Volz, a mostra apresenta experiências artísticas pensadas enquanto diálogos, diretos ou indiretos, com a produção de Joseph Beuys, um dos mais importantes e ativos artistas da segunda metade do século 20. Além dele, participam outros sete artistas/coletivos nacionais e internacionais: Hélio Oiticica, Maurício Ianês, Mônica Nador e Jamac, Coletivo Legítima Defesa, Rirkrit Tiravanija, Tania Bruguera e Vivian Caccuri.

Joseph Beuys (Krefeld, Alemanha, 1921 – Düsseldorf, Alemanha, 1986) cunhou o conceito de escultura social, com o qual defendia o entendimento de toda e qualquer atividade humana como prática artística capaz de estruturar e transformar seu próprio meio. O escultor social é, então, aquele que, valendo-se da linguagem, dos pensamentos, das ações e objetos, cria novas estruturas na sociedade. Para ele, a sociedade é a matéria-prima de sua obra, tal qual a pedra, a madeira ou a argila seriam para o escultor. Mergulhando nessa temática, a exposição articula um grupo de artistas cujas pesquisas têm se direcionado para a criação de espaços propícios à imaginação de novas formas de sociabilidade e modos de vida, tal como Beuys formulou.

Como eixo central da mostra, a curadoria apresenta um conjunto de obras de Beuys — incluindo vídeos, desenhos e colagens — com destaque para a instalação Honigpumpe am Arbeitsplatz [Bomba de mel no local de trabalho], 1974-1977, proveniente do Louisiana Museum of Modern Art, da Dinamarca, e que foi apresentada na documenta 6, em Kassel, Alemanha, em 1977. Durante aquela mostra, o artista instalou tubos ao redor da escada e corredores do Fridericianum (edifício principal do evento), através dos quais 150 quilos de mel fluíam com a ajuda de uma bomba motorizada. Apresentando o mel como símbolo do produto do trabalho coletivo e seu estado circulante como referência ao fluxo do organismo humano e à sociedade, a obra atuava como lugar de encontro para as atividades da Universidade Livre Internacional, escola alternativa de cooperação, fundada pelo artista em 1973. A obra é considerada, hoje, uma das mais proeminentes do artista alemão, tendo antecipado discussões em torno de criatividade, economia e democracia.

A compreensão da arte como prática coletiva que dissolve a autoria individual também se coloca na exposição. “A máxima ‘todo mundo é um artista´, talvez uma das mais conhecidas de Beuys, explicita a renúncia à unicidade da obra de arte correspondente à noção restritiva de autoria, mas também reivindica a compreensão de que a coletividade é capaz de reunir e potencializar a vontade e a capacidade criativa de diferentes indivíduos”, explica a curadora Amanda Arantes. Hélio Oiticica (Rio de Janeiro, 1937-1980) foi um dos principais artistas que se colocaram a experimentar essa noção, ao tornar o público participante e não mais espectador.

A obra Apropriação (Mesa de bilhar, d’après “O café noturno de Van Gogh”), de 1966, de sua autoria e exibida pela primeira vez na mostra coletiva Opinião 66, no MAM-Rio, é exposta agora, após quinze anos desde sua apresentação em São Paulo. Por meio dela, o artista introduz a ideia da arte como um jogo: “Todos, inclusive eu, descobrem o jogo, ou seja, o elemento ‘prazer’ do jogo. Isto sim, é importante: a obra é prazer, e como tal só pode ser livre (joga-se quando quer, ou se se sabem as regras do jogo, etc.). A participação não é a ‘da vida real’, como sói pensar, mas uma participação livre no prazer que é aqui realizada pela proposta de um jogo, talvez o mais interessante e mais clássico que exista (dos de ‘salão’)”, declarou ele certa vez sobre a obra em questão.

Para o curador Jochen Volz, “ao traçar o potencial das estratégias de Beuys e Oiticica e o legado de sua obra para a arte contemporânea, é possível perceber como sua linguagem, seu campo de ação para além dos espaços artísticos convencionais, como galerias e museus, suas teorias e ferramentas artísticas específicas tornaram-se importantes para as gerações seguintes de profissionais das artes. A presente exposição reúne uma constelação singular, mas que é uma entre as muitas constelações possíveis de artistas que, de forma consciente, relacionam-se com e ampliam as ideias de coletividade, de criação artística e do papel do artista como agente de mudanças”.

A dissolução da autoria individual também permeia a prática de Mônica Nador (Ribeirão Preto, SP, 1955) que, desde 2004, vem operando o Jamac – Jardim Miriam Arte Clube, um projeto dedicado a desenvolver soluções criativas para problemas culturais, com o auxílio dos moradores da zona sul de São Paulo. Especialmente para a exposição, a artista associou-se ao Projeto Educativo Extramuros, desenvolvido pelo NAE – Núcleo de Ação Educativa da Pinacoteca, em que seus participantes criarão composições a partir de suas próprias histórias, que darão origem a murais coletivos, estandartes e outras peças que comporão a exposição.

Maurício Ianês (Santos, SP, 1973), cujo trabalho performático é dos mais relevantes hoje no Brasil, apresenta Ágora, que propõe a construção coletiva de um espaço de diálogo e reflexão. O artista passará seus dias no espaço expositivo recebendo os visitantes para um café, uma conversa, a criação de um desenho etc. Usando seu próprio corpo e individualidade como matéria-prima, Ianês inverte, dessa forma, a equação de Beuys e oferece ao público a oportunidade de moldar conjuntamente novas estruturas de troca e relação.

Já Vivian Caccuri (São Paulo, SP, 1986) utiliza-se do som como ponto de partida para explorar a percepção e temas de natureza histórica, cultural e social. Por meio de objetos, instalações e performances, seu trabalho abre espaço para desfazer significados, narrativas e convenções aparentemente tão fixas quanto nossa própria estrutura cognitiva. Para a presente exposição, a artista partiu do instrumento musical e da forma triangular para criar a instalação sonora inédita Ode ao triângulo, apresentada como uma espécie de memorial, composta de elementos – parte deles pertencentes à Pinacoteca – ligados à música, à espiritualidade e, sobretudo, aos aspectos ritualísticos e coletivos da arte, que será ativada por performances musicais ao longo da exposição.

Um palco aberto, baseado na estrutura espiral Raumbühne [espaço de palco], termo definido pelo arquiteto e teórico Friedrich Kiesler, é o que propõe o artista tailandês Rirkrit Tiravanija (Buenos Aires, Argentina, 1961). Conhecido por trabalhos que requerem situações de troca social em espaços comuns, Tiravanija agora se apropria desse alicerce pensado para uma experiência teatral performática, que ficará à disposição para a livre utilização dos visitantes. Ali eles poderão se expressar, trazendo suas habilidades, talentos e vontades, seja em formato de oficinas e apresentações de dança e teatro, ou declamações de poesia e aulas de ioga. A obra receberá também as performances imersivas do grupo Coletivo Legítima Defesa, realizadas em parceria com o músico sul-africano Neo Muyanga e o curador brasileiro Thiago de Paula.

Beuys compreendeu também a produção artística como prática educativa, tendo afirmado uma vez que sua “maior obra de arte era ser professor”. “Além de aludir ao aspecto performático inerente a toda atividade docente, com essa afirmação o artista enfatiza a noção do artista como agente que propõe a expansão e o enriquecimento da esfera social”, comenta a curadora Fernanda Pitta. Relacionando-se a esse aspecto pedagógico de seu legado, Tania Bruguera (Havana, Cuba, 1968) investiga minuciosamente o propósito e as consequências da arte e desenvolve uma prática diversa, que ela denomina, em sua própria terminologia, ‘arte de conduta’ ou ‘arte de comportamento’ e ‘arte útil’.

Ela propõe, assim, a Escola de Arte Útil, que consiste em uma série de aulas a serem ministradas dentro do espaço expositivo até o encerramento da mostra, voltadas para a discussão desse conceito e das práticas a ele relacionadas. As aulas serão coordenadas pelo artista Fábio Tremonte e contarão com a participação de artistas, professores e especialistas, além de parcerias com universidades locais. O projeto visa debater o potencial da arte de mudar perspectivas e de alavancar o desenvolvimento e a mudança social, política e cultural.

Somos muit+s: experimentos sobre coletividade, portanto, propõe ao público conhecer ou revisitar múltiplos experimentos sobre coletividade para além dos limites físicos do museu. No ano em que a instituição prepara sua expansão para o novo edifício da Pinacoteca Contemporânea, a coletiva incorpora a intenção da Pinacoteca de pensar sua própria inscrição e papel enquanto agente transformador no bairro e na cidade.

CATÁLOGO

Somos muit+s: experimentos sobre coletividade é acompanhada de um catálogo ilustrado com imagens históricas e representativas das obras, introdução do diretor geral da Pinacoteca e cocurador da mostra Jochen Volz e texto da curadora Amanda Arantes. Inclui também ensaios assinados pelos pesquisadores Fred Coelho e Marcelo Campos, trechos do texto de Arnd Wedemeyer, escrito por ocasião da documenta 6, e biografias dos artistas. Apresenta ainda textos assinados por alguns dos artistas participantes: Hélio Oiticica, Joseph Beuys e Tania Bruguera, sendo os dois últimos publicados pela primeira vez em português. Português e inglês.

Posted by Patricia Canetti at 11:07 AM

agosto 9, 2019

Leilão Abact 2019 na Casa de Cultura do Parque, São Paulo

Associação Brasileira de Arte Contemporânea promove Leilão ABACT 2019, com as 30 obras doadas pelas galerias, em exposição a partir das 11h, no dia 10 de agosto.

13 de agosto de 2019, terça-feira, 20h30

Casa de Cultura do Parque
Av. Professor Fonseca Rodrigues 1300, Alto de Pinheiros, São Paulo
Visitação: 10 a 13 de agosto
Quarta a sexta, das 11h às 19h; sábado e domingo, das 10h às 18h

A Associação Brasileira de Arte Contemporânea – ABACT promove leilão de arte no dia 13 de agosto, terça-feira, às 20h30 na Casa de Cultura do Parque, reunindo 30 obras em diversos suportes, doadas por 29 galerias associadas. O Leilão ABACT 2019 será conduzido pelo leiloeiro Aloisio Cravo e sua exposição tem início no dia 10 de agosto, sábado, com a realização de uma mesa-redonda sobre várias formas de colecionismo de arte com Jessica Cinel e Juliana Sá, com mediação do professor, pesquisador e colecionador Miguel Chaia.

“O Leilão ABACT 2019 se soma a um conjunto maior de ações da associação para o custeio e o fortalecimento de sua missão na promoção da arte contemporânea brasileira tanto no Brasil quanto no exterior”, declara Luciana Brito (Luciana Brito Galeria), presidente da associação que reúne 46 galerias de arte em 7 estados brasileiros e no Distrito Federal.

Conheça a lista de obras disponíveis

Exposição das obras leiloadas
Abertura: sábado, 10 de agosto, às 11 horas, com Mesa-redonda sobre colecionismo
Convidados: Jessica Cinel e Juliana Sá, com mediação de Miguel Chaia
Visitação: 10 a 13 de agosto

Artistas participantes
Ana Mazzei, Bruno Vilela, Caio Reisewitz, Chiara Banfi, Dalton Paula, Daniel Senise, Denise Milan, Eduardo Haesbaert, Fabiano al Makul, Feco Hamburger, Frantz, Galeno, Heleno Bernardi, Isabelle Borges, Judith Lauand, Lais Myrrha, Laura Lima, Luiz Zerbini, Mano Penalva, Nelson Leirner, Pedro Varela, Roberto Burle Marx, Rodrigo Sassi, Santídio Pereira, Sergio Lucena, Silvia Mecozzi, Tatiana Stropp, Thomas Schönauer, Vanderlei Lopes e Vânia Mignone.

Galerias associadas participantes
Anita Schwartz Galeria de Arte, Galeria Athena, Galeria Berenice Arvani, Bergamin & Gomide, Galeria Bolsa de Arte, Carbono Galeria, Casa Triângulo, Central Galeria, Dan Galeria, Galeria Eduardo Fernandes, Galeria Estação, Fortes D’Aloia & Gabriel, Janaina Torres Galeria, Galeria Jaqueline Martins, Galeria Karla Osorio, Galeria Kogan Amaro, Luciana Brito Galeria, Galeria Luisa Strina, Galeria Lume, Galeria de Arte Mamute, Galeria Marilia Razuk, Galeria Nara Roesler, Portas Vilaseca Galeria, Galeria Raquel Arnaud, Sé, Silvia Cintra + Box4, Vermelho, Ybakatu e Zipper Galeria.

Parcerias: Embra Arts (Transportadora oficial), Casa de Cultura do Parque, Aloísio Cravo | Arte e Leilões, Chandon, Gocil – segurança e serviços, Affinité, Centrográfica e Tati Parente Bolos Orgânicos

Posted by Patricia Canetti at 5:30 PM

Pedro Motta na galeria Silvia Cintra + Box 4, Rio de Janeiro

A galeria Silvia Cintra + Box 4 tem o prazer de anunciar Jardim Impostor, mostra individual de Pedro Motta aberta de 15 de agosto a 14 de setembro de 2019. Em sua quarta exposição na galeria – Natureza Concreta (2008), Espaço Confinado (2013), Sobre a Natureza (2016) – Motta apresenta três séries que exploram o conceito de jardim: Jardim Oculto, Erva Daninha e Geração Espontânea. O título da exposição, Jardim Impostor, foi retirado de um dos textos do último livro do autor, Natureza das Coisas, editado pela Ubu Editora, em 2018.

Jardim Oculto (2019) está intrinsecamente relacionado às séries Sumidouro (2016) e Naufrágio Calado (2016-2019) que também abordam a temática de uma situação de falência, de ruína, de algo que se esvai. Neste trabalho, Pedro Motta potencializa seu imaginário para criar um jardim de esculturas, um jardim oculto em uma caverna calcária originária de uma série de processos geológicos de idades remotas. Mimetizadas no interior do Monumento Natural Estadual Peter Lund ¬– Gruta de Maquiné encontram-se esculturas de profetas feitas por Aleijadinho, na virada do século XVIII para o XIX.

A caverna é uma ruína espontânea, esculpida pela água e pelo tempo e, por si só, uma escultura produzida pela ação da natureza. Já os profetas foram esculpidos em pedra-sabão pelas mãos do homem. Neste jardim de esculturas, cultivado, pensado, elaborado pelo artista, duas narrativas distintas, de diferentes tempos e materiais rochosos se entrelaçam. Trata-se de uma paisagem construída, alterada, recriada. Essa narrativa fantástica dá a ver um novo mundo a ser descoberto, uma nova cultura que, de certa forma, também se encontra em situação de falência, como se acumulasse ruínas do passado em tempo e espaço recriados.

Em Erva Daninha (2019), Pedro Motta apresenta uma coleção dinâmica de plantas coletadas de um jardim íntimo e afetivo. Esse herbário fantástico é composto de ervas daninhas, plantas que nascem espontaneamente, muitas vezes indesejáveis e que podem interferir negativamente no espaço estético do jardim, que tende a ser um lugar aprazível, de deleite. Trata-se da catalogação de plantas de lido cotidiano e com estruturas específicas de interesse do artista, fotografadas com uma carga estética pictórica. A metodologia consiste em observar o crescimento e o desenvolvimento das ervas no seu próprio jardim. Posteriormente, o artista colhe essas plantas e monta arranjos florais distintos que são, então, fotografados em estúdio. Em seguida, as plantas são expostas ao tempo, no período de um a três dias, até que percam sua vitalidade. Depois, são refotografadas nas mesmas posições e condições de luz. Por fim, as imagens das plantas vivas e das secas são dispostas em um mesmo espaço, de modo que levem o observador a um jogo de associações, em busca da imagem correspondente.

Já a série Geração Espontânea (2019) parte de uma experiência realizada anteriormente que resultou nos objetos – plantas artificiais, pintadas de preto e expostas em caixas pretas – de Flora Negra (2015-2016). No trabalho atual, Motta também rearranja plantas artificiais, porém verdes, como se estivessem vivas, dentro de espaços confinados, caixas pretas que simulam ambientes carbonizados. Nessas molduras veladas abrem-se frestas por onde escapam diferentes espécies de plantas, fugindo do aprisionamento. Simbolicamente, a força vital da natureza rompe o confinamento, restabelecendo a possibilidade de vida, porém, de forma irregular, improvável, instável. Assim como as ervas daninhas que nascem em qualquer lugar, sem planejamento, essas plantas perfuram as superfícies das molduras, criam fissuras e ganham vida de maneira espontânea e incontrolável. A série dá continuidade à discussão da relação entre as intervenções das ações do homem e da natureza, presente em grande parte da produção do artista.

Pedro Motta (Belo Horizonte, 1977) graduou-se em desenho pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 2002. Iniciou sua atividade artística pesquisando as estreitas relações entre cidade e indivíduo. Entre suas principais exposições individuais destacam-se; Jardim Impostor, Galeria Silvia Cintra + Box 4 (Rio de Janeiro), Natureza das Coisas, Centro Cultural Fiesp (São Paulo 2019), Jardim do ócio, Galeria Luisa Strina (São Paulo, 2018), Naufrágio calado, Bendana-Pinel Art Contemparain (Paris, 2018), Estado da natureza, Câmera Sete (Belo Horizonte, 2016), Natureza das coisas, 9º BES Photo, Museu Coleção Berardo (Lisboa, 2013), Reacción natural, Centro de Exposiciones Subte (Montevidéu, 2011), e no 27º Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte/Bolsa Pampulha (Belo Horizonte, 2004). Também esteve em coletivas como Past/Future/Present, Phoenix Art Museum (2017); Feito poeira ao vento – fotografia na Coleção MAR, Museu de Arte do Rio (MAR-RJ) (2017); Les imaginaires d’un monde intranquille; Centre d’Art Contemporain de Meymac (2017); Soulèvements, com curadoria de Georges Didi-Huberman, Jeu de Paume (Paris, 2016); TRIO Bienal, Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro (CCBB RJ, 2015); 18º Festival Internacional de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil – Panoramas do Sul (São Paulo, 2013); 1ª Bienal de Fotografia do Museu de Arte Assis Chateaubriand (Masp, São Paulo, 2013); Panorama da Arte Brasileira, Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP, 2011); Peso y Levedad, Photoespaña, Instituto Cervantes (Madri, 2011); 2ª Bucharest Biennale (2006); e Fotografia Contemporânea Brasileira, Neue Berliner (2006).

Motta foi contemplado com o 6º Prêmio Marcantonio Vilaça (2017), a Bolsa ICCo/SP-Arte (2015), a residência Flora Ars+Natura (2013), o 9º BES Photo Museu Coleção Berardo (2011), o Prêmio Ibram de Arte Contemporânea (2011) e a Residency Unlimited/Nova York (2011). Seus trabalhos integram acervos de instituições como MAM-SP, MAM-RJ, MAM-BA, MASP, Sesc-SP, MAR-RJ, Museu Coleção Berardo (Lisboa), Centro de Fotografia de La Intendência de Montevideo, Musée d’Art Modern et Contemporain, Liége, Bélgica e Itaú Cultural. Em 2010, lançou o livro Temprano (Funarte), uma retrospectiva de mais de dez anos de percurso.

Posted by Patricia Canetti at 1:58 PM

Stephan Doitschinoff na Janaina Torres, São Paulo

Em diversos suportes, artista revela intensa pesquisa em torno de temas contemporâneos e universais, que abordam desde pós-verdade e consumismo até espiritualidade e religião

Reflexões acerca de temas polêmicos e tão caros ao mundo atual, como colonialismo, democracia, pós-verdade e o papel das plantas psicoativas na sociedade contemporânea conduzem a obra de Stephan Doitschinoff. Autor de uma arte energética, ele estrutura seu trabalho em um sistema de símbolos autorais de narrativa singular, com desenhos, pinturas, esculturas, vídeos e instalações. O artista, agora, abre as portas de seu universo onírico e convida o público a adentrá-las por meio da exposição Estaremos aqui para sempre, individual exibida a partir de 14 de agosto, na Janaina Torres Galeria.

Com curadoria de Daniel Rangel, a mostra reúne um conjunto inédito de trabalhos produzidos por Doitschinoff nos últimos cinco anos. São obras que evidenciam sua intensa pesquisa sobre a sociedade contemporânea a partir de ícones e símbolos autorais e ainda elementos advindos de diversas culturas e religiões, como o catolicismo, a umbanda e o xamanismo. “É uma obra com influências surrealistas, uma escrita visual carregada de informações criptografadas por uma literatura fantástica imagética acerca da contemporaneidade”, pontua o curador, que participará de um bate-papo com o artista no dia 31 de agosto, das 16h às 18h, na Galeria.

Um dos destaques da exposição é a instalação Interventu (2017), obra comissionada por Rachael Thomas, curadora do Museu de Arte Moderna da Irlanda (IMMA), onde o artista foi convidado a fazer uma residência de dois meses. O título e o conceito do trabalho têm origem em uma pesquisa de Stephan em torno da prática votiva e os diversos tipos de ex-votos, objetos oferecidos a santos e divindades em troca de uma graça. O artista utilizou ex-votos originais de Juazeiro do Norte, Ceará, e de outros objetos relativos a esta prática, para criar um grande altar. Parte da instalação que compôs a exposição original poderá ser vista agora no Brasil, na Janaina Torres Galeria. É o caso de Palma Votiva, um ex-voto gigante construído pelo artista a fim de aludir à mão da divindade que desce do céu, abrindo a realidade, pronta para intervir por seus fiéis. A obra é materializada com uma mão suspensa produzida em latão e peças esculpidas por repuxo, fundição, corte e solda. Em sua palma, estão incrustados 18 símbolos recorrentes no trabalho de Doitschinoff, quase todos autorais, como a Foice com Mariposa, o Intestino Coroado e a Escada de Degraus Tortos.

A série de esculturas de ex-votos em parafina compõe a parte inédita desta exposição. Entre as peças, os visitantes poderão ver os livros nos quais foram esculpidas em relevo imagens de psicoativos como o ayahuasca, o cogumelo Psilocibe cubensis, o cactos Peyote (Lophophora williamsii) e a planta Morning Glory (Ipomoea). “Plantas, fungos, extratos vegetais e animais com propriedades psicoativas estão profundamente arraigados às práticas espirituais, medicinais e ritos de passagem de povos nativos que tiveram sua população e sua cultura marginalizada, dando lugar à lei, à cultura e à tradição do conquistador”, pontua Doitschinoff.

A vídeo-performance Marcha ao Cvlto do Fvtvrv (2018), criada para a exposição Above, So Below: Portals, Visions, Spirits & Mystics, comissionada pelo IMMA, conta com a participação especial de Iggor Cavalera (Sepultura, Cavalera Conspiracy, Mixhell), Laima Leyton (Mixhell, Soulwax), Donna McCabe (A Ritual Sea) e da escola de samba dublinense Masamba. O vídeo é parte da série Cvlto do Fvtvrv, obra multimídia no formato de uma “seita-igreja” com muitos dos seus possíveis elementos áudio-visuais: ícones antropomórficos de divindades, manifestações, hinos, publicações, uniformes, medalhas, cartões de identificação, balcão de adesão e voluntariado.

A exposição ainda traz quatro desenhos, como Três Mundos (110cm x 75cm, 2019) e O Homem Apropriado (110cm x 75cm, 2019) e quatro pinturas, com destaque para a tela As Virtudes da Idolatria (230cm x 194cm, 2018), em que corpos e cabelos de figuras humanas formam uma estrutura geométrica, como uma espécie de mandala ou estrela, em alusão ao símbolo do Cvlto do Fvtvrv. A obra traz símbolos, ícones e referências recorrentes no trabalho do artista, como velas e oferendas, que remetem à pesquisa em torno das maneiras através das quais as pessoas procuram se comunicar ou acessar outras dimensões e o mundo espiritual. Outro destaque, Panoptic Wave (230cm x 180cm, 2017), tem composição inspirada na série de símbolos e ícones criados pelo artista para a instalação 3 Planets – Panoptic Wave, desenvolvida em parceria com o educativo do Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Posted by Patricia Canetti at 11:27 AM

Korakrit Arunanondchai na Jaqueline Martins, São Paulo

Em projeto especial, Galeria Jaqueline Martins apresenta instalação do artista tailandês Korakrit Arunanondchai, simultaneamente à sua participação na 58ª Bienal de Veneza. A apresentação é a segunda etapa de um projeto compartilhado com a galeria Carlos/Ishikawa, Londres. No início do mês, a galeria inglesa recebeu uma exposição de Ana Mazzei, artista representada pela Galeria Jaqueline Martins.

Artista visual e cineasta, Korakrit Arunanondchai (Bangkok, 1986) vem ganhando fama internacional ao utilizar-se de diversas mídias para contar histórias que com frequência questionam nossa relação com o hibridismo cultural que tenciona a sociedade contemporânea. Dentro desta pesquisa, o artista desenvolve trabalhos que unem ficção e realidade, oferecendo ao observador instalações e vídeos sinestésicos protagonizados tanto por amigos e familiares do artista, quanto por personagens e mitos do imaginário oriental.

A videoinstalação apresentada na exposição, with history in a room filled with people with funny names 4, trás ao público homenagens e questionamentos ligados ao poder do tempo e da memória humana. Utilizando-se de cenas que combinam documentário e especulação autoral, o artista aborda a crescente contradição entre a subjetividade necessária para contextualizar as imagens que compõe nossa memoria e a racionalidade da tecnologia que criamos para armazena-la. O que acontece com nossas memórias quando são guardadas em máquinas impessoais? Poderiam elas ganhar novas significados, influenciados pela tecnologia que as protege?

Ao longo do vídeo, uma atmosfera de sonho mostra o artista acompanhado por animais e visitando reservas naturais e templos budistas. Apesar de retratados com frequência, espaços religiosos aparecem aqui mais como templos de um suposto falso moralismo do que como casas de salvação. Clipes de recentes manifestações políticas também são mostrados pelo artista. Nestes momentos de tensão, tendemos a retornar aos nossos corpos, à experiência urgente do presente. Todos estes espaços e elementos contribuem para que o vídeo tenha uma temporalidade vaga e incerta, questionando a contagem de tempo rígida e burocrática que compartilhamos como sociedade produtiva.

O trabalho de Arunanondchai participa este ano da 58ª Bienal de Veneza, assim como da Whitney Biennial em Nova York e da Bienal de Singapura. O artista participa também de importantes exposições institucionais na Secession, Viena, e no Hamburger Banhoff, Berlim.

Posted by Patricia Canetti at 10:46 AM

agosto 7, 2019

Walter Goldfarb no Midrash, Rio de Janeiro

Walter Goldfarb abrirá individual que marca sua trajetória de 25 anos e celebra uma década de atividades do Midrash Centro Cultural, no Rio

Por ocasião da celebração dos 10 anos do Midrash, o artista Walter Goldfarb foi convidado a expor seu trabalho numa individual, que será aberta no dia 12 de agosto, às 19h. Voltado ao debate e ao ensino de temas relacionados às tradições judaicas, o centro cultural reformista, fundado e dirigido pelo rabino Nilton Bonder, prima pela busca por significados e referências, a partir da literatura, da arte, história, psicologia e política.

Com curadoria de Vanda Klabin, a exposição A menina, a chuva de amoras e outras h(H)istórias ocupará os quatro andares do arrojado edifício no Leblon, que tem projeto premiado do arquiteto Isay Weinfeld. Na fachada do prédio, uma trama composta por letras em hebraico se sobrepõe à alvenaria, formando sempre a palavra “Midrash”, que significa “extrair sentido”.

A exposição

Um rosto alusivo à figura materna é esboçado na lona crua, ao lado de uma mulher e um jovem (apropriado da pintura de Rembrandt) transformados em imagens rendilhadas que remetem a uma certa melancolia. “A menina, a chuva de amoras e outras h(H)istórias” - pintura que dá título à exposição e que levou um ano para ser produzida - homenageia as filhas (Lia e Manuela) e a mãe do artista, Judith Goldfarb, sobrevivente do Holocausto, nascida na Lituânia e transportada aos nove anos de idade com toda a família para o campo de concentração de Stutthof.

As amoras - construídas com botões de galalite vintage sobre um fundo pictórico impressionista, que evoca Monet - aparecem quase despercebidas, como chagas que brotam da epiderme sangrada da figura materna. Um suposto jardim desencarnado que desabrocha em meio à devastação, preso à fibra dos bordados, trazendo à superfície a vibração de um crepúsculo esmaecido e remoto.

Ao formar uma imagem concreta de sua mitologia pessoal e uma ordem constitutiva de sua realidade, Walter Goldfarb nos transmite um fervilhar de imagens em narrativa figurada, que vasculham as profundezas de seu inconsciente. Ele nos confronta com uma familiaridade nada confortável, que traz a turbulência do seu mundo pessoal.

Essas temáticas vieram à tona a partir de interesses específicos que o artista já manifestava em sua pintura e se apresentam como uma extensão natural de sua atuação, complementando e rebatendo as inquietações geradas no embate cotidiano com a tela. Seu trabalho carrega alguns fundamentos da historiografia judaica num diálogo intermitente com o cristianismo e sua atuação circunscreve-se na escritura hebraica e na transmissão da história de seus pais.

Com curadoria de Vanda Klabin, a exposição que seguirá em cartaz até 30 de setembro apresenta 24 obras de diferentes fases, entre pinturas, esculturas, assemblages, serigrafias e uma instalação, que revelam um diálogo constante com a literatura, a música, o teatro e a pintura da Renascença ao Modernismo.

A produção do artista carioca é marcada pelas telas de grandes dimensões e pelas técnicas incomuns. Suas pinturas são construídas a partir de lavagens e raspagens químicas de centenas de bastões de carvão e densas camadas de laca aplicadas na tela através de seringas. As tintas são produzidas no ateliê e diversas técnicas de bordado fazem parte do exercício laborioso de Goldfarb. O repertório de matérias vai desde fragmentos de lápide a miniaturas em ferro de confinadores de gado provenientes de circuitos de trens elétricos.

“A pintura de Walter Goldfarb transformou-se em um campo fértil de pesquisa e inovações, ao instrumentalizar o discurso religioso e os heróis míticos do legado da cultura semita, singularizando as suas experiências biográficas e espaços pessoais transpostos para infinitas estruturas e métricas visuais. Ao adentrar no núcleo de sua poética, percebemos que ela incide no seu caráter híbrido e numa pluralidade de linguagens”, comenta a curadora Vanda Klabin.

“A grandeza e profundidade do trabalho de Walter Goldfarb bastaria, mas somos brindados com uma temática que costura passado e futuro, particular e universal, através da peça matriz que dá título e tom à mostra. Essa chuva de vida a lavar e renovar a História de seus horrores, hoje em tempos intolerantes e sectários, retrata em Holocausto e Holograma os potenciais de nossa natureza. Enfim um evento especial, já que nada é mais celebrativo do que o encontro entre qualidade e sentido”, comenta Bonder.

O artista

Atualmente Walter Goldfarb desenvolve a série “Vamos Todos Cirandar”, que tem por referência as experiências estéticas brasileiras e a relação antropofágica das criações dentro da arte contemporânea, incorporando-as em um campo híbrido que vai além da linguagem particular da música de Heitor Villa Lobos, da literatura de Monteiro Lobato e do teatro de Maria Clara Machado, propondo-se a uma linguagem mais universalizada na arte.

A obra de WG integra importantes acervos institucionais e grandes coleções do Brasil (MAM-RJ e Museu Nacional de Belas Artes) e do mundo (Museu de Arte Moderna e Contemporânea de Lisboa / Coleção Berardo – Museu de Arte Moderna de Miami / PAMM, Perez Art Miami Museum). O artista participou de coletivas e individuais em diversas países, como Itália, Alemanha, Espanha, Portugal, México, Chile e EUA (Nova York, Los Angeles, Miami). Foi nomeado em 2010, pela The Latin Recording Academy®, o Artista Visual do 11th Annual Latin GRAMMY® Awards.

Mais sobre o artista (por Lisette Lagnado, Paulo Herkenhoff e Reynaldo Roels)

>> Trecho do texto ‘Pintura e Ética’, da crítica e curadora Lisette Lagnado:

“Abordar o trabalho de Walter Goldfarb exige de imediato que o comentário se situe num jogo intermitente entre a santidade da criação e a reflexão crítica. Como pintar hoje, sobretudo telas dedicadas à vida religiosa como premissa para valores humanistas?... Walter Goldfarb torna atuais a tradição da pintura e a memória da Shoah (Holocausto Judeu) – ambas heranças incontroversas – na tentativa de inscrever uma consciência existencial e política dentro da linguagem. Somente assim, o depoimento pessoal transpõe os limites do sujeito e torna-se elemento estrutural do trabalho.”

>> Trecho do texto “O Decálogo”, de Paulo Herkenhoff, para a individual D+Lirium Camaleônico, de Walter Goldfarb, no Museu Nacional de Belas Artes | RJ, em abril 2010:

“Para indicar um modo de pensar a pintura de Walter Goldfarb levantou-se um decálogo... Toda a arte é um significante à espera da projeção do significado pelo sujeito do olhar (G. C. Argan).
1. Arderás; 2. Não dirás - Calar-te-ás; 3. Desejarás; 4. Errarás; 5. Não morrerás; 6. Verás; 7. Escutarás; 8. Despenderás e economizarás; 9. Não esquecerás 10. MANDAMENTO ÑAO REVELADO”

>> Trecho de textos selecionados de Reynaldo Roels, editados pelo MAM-RJ:

“Os trabalhos de Goldfarb estabelecem uma relação complexa entre modos esperados e inesperados de construir a pintura. Todos os meios materiais para se executar uma pintura são na realidade um modo de contar uma história, e um modo muito pessoal, em que a tapeçaria adquire um pouco o mesmo papel que teve no passado. Começando com sua própria história (incluindo meios-tons psicanalíticos), ele tece seus comentários sobre a história de arte em um jogo sofisticado entre subjetivo e objetivo, seus próprios fantasmas e o peso de uma tradição que repousa nos ombros de todo artista.“

Posted by Patricia Canetti at 3:50 PM

agosto 6, 2019

Eduardo Montelli na Ecarta, Porto Alegre

Além da abertura da mostra, acontece a segunda etapa do projeto de curadoria educativa para professores e público interessado

O projeto expositivo Como faremos para desaparecer, do artista Eduardo Montelli, ganha abertura na Galeria Ecarta, na sexta-feira, 9 de agosto, às 19h, apresentando gifs, vídeos, fotografias e performatividades realizadas entre 2008 e 2019.

A mostra tem curadoria de Charlene Cabral e explora ambiguidades e estranhamentos dos processos contemporâneos de subjetivação, de forma especial sobre a relação entre os sujeitos e a produção de múltiplos registros de si orientados por padrões mercadológicos, publicitários e espetaculares. O trabalho de Montelli parte da pergunta “como nos tornamos o que somos?”, conduzindo a vivências, registros, lembranças, verdades e ficções. Chamamos de sujeito o ser resultante da relação corpo a corpo com outros indivíduos e com os dispositivos que estruturam as vidas das pessoas. Espetáculo, controle, consumo e invenção. Que tipos de subjetividades se desenvolvem em uma sociedade imersa na cultura da imagem e da hiperexposição? É factível ainda pensar em termos de dualidades entre público e privado, pessoal e político, cotidiano e poético?

As janelas audiovisuais de Montelli – formadas pela justaposição de imagens buscadas, produzidas ou esbarradas – são compostas em um tipo de operação baseada na seleção de imagens e na composição de relações entre elas. “Só que, junto a isso, o artista se coloca como protagonista dessa trama de simulacros, atuando ele próprio para uma câmera que, em outra ponta, alcança uma audiência espontânea dia após dia”, sinaliza Charlene. Seguidores, usuários, espectadores: nós. Que, por nosso lado, também somos atores exibindo-nos na mesma mídia de massa a que assistimos.

Antes da abertura acontece a segunda edição do Encontro de Engajamento para Professores, das 16 às 18h, com bate-papo e visita mediada. O encontro integra o projeto de curadoria educativa da Ecarta com presença do artista e da curadora, além de Claudia Hamerski, responsável pelo projeto educativo, e do coordenador da Galeria Ecarta, André Venzon. As inscrições são gratuitas e podem ser realizadas online.

Eduardo Montelli (Porto Alegre/RS, 1989)
Artista e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, da UFRJ. Investiga, por meio de pesquisa artística e teórica, a influência de documentações, narrativas e outras formas de "inscrição de si" no modo como as pessoas vivem e como são reconhecidas socialmente. Participa de exposições e eventos de arte desde 2010 com destaque para a quinta edição do Prêmio Energias na Arte, no Instituto Tomie Ohtake (SP); Filmes e Vídeos de Artistas, na Fundação Iberê Camargo (RS); Abre Alas 10, na galeria A Gentil Carioca (RJ); e 65º Salão de Abril, no Centro Cultural Banco do Nordeste (CE), no qual foi premiado.

Charlene Cabral (Caxias do Sul/RS, 1981)
Curadora independente, pesquisadora e artista. Mestranda na linha História, Crítica e Teoria da Arte no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da ECA, na USP, e bacharel em História da Arte pela Ufrgs. Tem estudos em fotografia pela GrisArt Escola Internacional de Fotografía, em Barcelona (Espanha). No campo editoral independente, é criadora da Meteoro Edições e idealizadora da feira de publicações Folhagem. Em 2018, recebeu o Prêmio Açorianos Incentivo Jovem Curador, oferecido pela Secretaria da Cultura da Prefeitura de Porto Alegre/Aliança Francesa/Institut Français. Conta com pesquisas relacionadas aos conceitualismos das décadas de 1960 e 1970, publicação e imagem na arte contemporânea.

Posted by Patricia Canetti at 10:19 AM

Palavras Somam: Beth Moysés no MAB FAAP, São Paulo

A artista apresenta – a partir de 8 de agosto - mostra individual composta por vídeo e fotografias que registram performance desenvolvida em Madri, na Espanha

A exposição de longa duração Palavras Somam, em cartaz no MAB FAAP, possui um Núcleo Especial no qual quatro artistas convidados se revezarão ao longo no ano. Após Walmor Corrêa e Lívia Aquino, que ocuparam o espaço no primeiro semestre, agora é a vez da artista Beth Moysés apresentar suas obras, que poderão ser apreciadas pelo público a partir de 8 de agosto.

Com curadoria de Laura Suzana Rodríguez, a exposição “Palavras Somam” joga luz sobre a presença e a potência da palavra nas artes visuais, reunindo obras do acervo do MAB FAAP e de artistas convidados que dialogam com essa temática.

Beth Moysés – que trabalha desde 1994 com o tema da violência de gênero e do amor romântico – reunirá na mostra um vídeo e fotografias que registram a performance que a artista realizou em Madrid, na Espanha, para a 14.ª edição do Festival Internacional de Performance “Abierto de acción” (Aberto de ação), na Feira de Arte Jaén.

Denominada Palavras Anônimas, a performance contou com a participação de um grupo de mulheres que andou pelas ruas vestidas de branco, com capuzes que cobriam o rosto. A ideia era que ocultassem suas identidades, reproduzindo o que muitas mulheres fazem quando sofrem humilhações, vexames, maus-tratos e violações. Mas, em um determinado momento, essas mulheres se libertam e mostram ao público seus braços com frases que retratam o desejo de mudança e superação.

Beth Moysés é uma importante artista com uma consolidada trajetória internacional. Suas obras são feministas e com fortes tons poéticos. É formada em Artes Plásticas pela FAAP, com mestrado em Artes pela Unicamp.

Depois de Beth Moysés, a artista que ocupará o espaço, a partir de outubro, será Rosana Paulino.

Posted by Patricia Canetti at 9:38 AM

agosto 5, 2019

Delson Uchôa e José Patrício na Amparo 60

Na quinta-feira, dia 8 de agosto, os artistas Delson Uchôa e José Patrício inauguram a exposição Pictoria, com curadoria de Julya Vasconcelos, na Galeria Amparo 60, a partir das 19h. Essa é a primeira vez que os dois consagrados artistas nordestinos realizam uma exposição juntos. A ideia de colocar as obras dos dois em diálogo foi da galerista Lúcia Costa Santos, que, há anos, representa os dois no Recife.

A proposta inicial era fazer esse confronto entre duas visões de mundo distintas, mas que são resultado de um mesmo contexto cultural e geracional. “São dois artistas muito importantes, da mesma geração, que se projetaram bastante. Cada um tem sua forma de nos mostrar uma explosão das cores”, diz a galerista.

Julya Vasconcelos selecionou seis obras de cada artista, colocando-as em diálogo. Segundo ela, ambos fazem uso de módulos em seus trabalhos e também de materiais que, para o senso comum, não seriam matéria-prima ideal para produções artísticas. “Estes materiais, em sua maioria pouco valorizados, funcionam como pigmentos não tradicionais que geram nos dois o que podemos chamar de uma investigação a respeito das possibilidades de objetos-pigmentos e da construção, também, de uma expansão do conceito de pintura. A mostra Pictoria explora esse universo da cor em ambos”, explica a curadora. A conversa entre os artistas se desenrola justamente encima desses três eixos que os aproximam: os módulos, os materiais pouco valorizados e a pintura expandida.

Segundo Delson, trata-se de uma exposição de pinturas, mas que nem sempre o pincel e a tinta estão presentes. A seleção da curadora é formada por um apanhado redondo: pinturas planas, pintura objeto, díptico sobreposto, fotografia como suporte para a pintura expandida e um vídeo de José Patrício – que está sendo produzido especialmente para a mostra. “É a pintura que migra por variados suportes... fala da sua condição carnal, materialidade e essência querendo repovoar Arte Contemporânea. São dois pintores, isso nos aproxima, no mais é o corpo do Nordeste”, sintetiza Delson.

A pintura, a geometria e a cor vinculadas aos materiais e às expressões mais características da cultura popular do Nordeste são questões que claramente interessam aos dois. “Uma certa identidade brasileira e nordestina nos une. Acho que os nossos trabalhos apresentam uma síntese entre o universal e o regional. Nossa pesquisa visual, de teor experimental, faz uso de procedimentos não convencionais para a criação artística. Para sintetizar, no que eu chamaria de complementaridade, destaco o caráter apolíneo do meu trabalho e o caráter dionisíaco do trabalho de Delson”, pontua Patrício.

De fato, Delson Uchôa costuma ser visto como um artista que desenvolve uma pesquisa mais intuitiva e dada aos improvisos, enquanto José Patrício costuma ser encarado como um artista mais cerebral. Para a curadora, essas distinções deixam a conversa ainda mais interessante. “Acho que a conexão entre os dois dá a ver os caminhos mais tortuosos que ambos traçam nos seus processos, bebendo aqui e ali tanto nas precisões quanto nas imprecisões. Vejo um diálogo rico”.

Posted by Patricia Canetti at 1:50 PM

Thiago Barbalho na Marilia Razuk, São Paulo

Thiago Barbalho apresenta Correspondência, sua primeira exposição individual na Galeria Marilia Razuk, composta por três trabalhos principais em desenho de dimensões variadas em que utiliza lápis de cor, grafite, spray, óleo, aquarela, pastel oleoso e marcador sobre papel, além de uma pequena escultura que dá nome à exposição.

Thiago estudou filosofia e começou sua carreira como escritor, tendo publicado um romance, ensaios, poesia, um livro de contos, e fundado uma editora independente. O artista colocou em crise os limites da linguagem escrita, abandonou a literatura e passou a se dedicar primordialmente ao trabalho visual. Ao dar preferência ao desenho, Thiago exercita o gesto pictórico enquanto superação dos limites da palavra para produzir uma literatura explodida, sem hierarquias, composições extremamente intricadas, porém não planejadas, nas quais uma multiplicidade de imagens, símbolos e campos de cor se fundem umas nas outras para criar superfícies vibrantes ininterruptas.

O artista utiliza o conceito de antropotécnica, do filósofo Peter Sloterdijk, enquanto autoconstrução instituída pela espécie humana, para entender o desenho como uma tecnologia permanente e ancestral. Sua pesquisa em busca da relação da consciência com a realidade toma o desenho como um resultado celebrativo da presença humana e sua capacidade de fazer escolhas (simbolizada na ação deliberada de um traço feito no papel). Fruto de pesquisas tanto de filosofia da mente quanto do amplo repertório artesanal produzido pelos povos nativos da América do Sul, o desenho de Thiago funciona como o cruzamento da consciência e do tempo.

O resultado do seu trabalho questiona o que é um ato deliberado (um traço, um rabisco) no mundo atual, ao mesmo tempo em que se recusa a se submeter a uma razão apenas, ainda que deixe pistas de símbolos em profusão a partir de narrativas fragmentadas, articuladoras de referências que vão de história a alta e baixa cultura, de filosofia a vida cotidiana.

Posted by Patricia Canetti at 10:04 AM

Alexandre Canonico na Marilia Razuk, São Paulo

Alexandre Canonico apresenta Buraco, sua segunda individual na Galeria Marilia Razuk. A exposição inclui uma série de trabalhos de parede e uma instalação nos quais o artista emprega as noções de vazio, falta, supressão e desmonte como elementos centrais na construção das obras. Valendo-se de uma economia de materiais, os trabalhos se estruturam a partir da negociação entre as partes que os constituem e do contraste entre materialidades distintas.

Alexandre Canonico cursa, atualmente, uma pós-graduação na Royal Academy, em Londres. Exposições recentes incluem Standstill (Kubik Gallery, Porto, 2019); Premiums: Interim Projects e Serpent and Shadow (ambas na Royal Academy, 2019).


bu·ra·co
(origem duvidosa)
substantivo masculino
.
abertura ou rotura em qualquer superfície
.
espaço vazio no interior de um sólido
.
escavação ou declive acentuado no solo
.
cova; cavidade
.
orifício; furo
.
em diversos jogos (golfe, bilhar inglês, etc.), cavidade onde deve ser colocadas as bolas
.
lugar no interior de um tronco, no solo, etc., que serve de abrigo ou esconderijo a certos animais; toca
.
ANATOMIA designação atribuída a diferentes canais ou orifícios anatómicos
.
FÍSICA num semicondutor, sítio onde se dá a ausência de um eletrón, levando ao deslocamento de outro eletrón de uma região vizinha o que provoca um aparente movimento de carga positiva
.
figurado casa pequena
.
figurado lugar isolado
.
figurado sentimento de falta, perda ou vazio
.
figurado situação desagradável ou embaraçosa
.
figurado problema; dificuldade

Posted by Patricia Canetti at 10:00 AM

agosto 4, 2019

Sérgio Sister na Nara Roesler, São Paulo

Viewing Room - Planejamos lançar novos espaços de exposição online a cada três meses, que servirão de complemento às nossas exposições físicas e lançaremos também algumas exposições online independentes que servirão como um quarto espaço da galeria, dando visibilidade internacional e diversificada aos nossos artistas.

A Galeria Nara Roesler | São Paulo apresenta Imagens de uma juventude pop – pinturas políticas e desenhos da cadeia, quarta individual de Sérgio Sister na sede paulista da galeria. Acompanhada de texto de Camila Bechelany, a mostra reúne pela primeira vez, um número significativo de obras pouco conhecidas pelo público, – produzidas entre 1967 e 1971 –, incluindo desenhos realizados nos 19 meses em que o artista esteve detido no Presídio Tiradentes, em São Paulo, durante o regime militar (1964–1985).

Fazem parte da exposição cerca de 35 desenhos, em sua maioria em tinta aquarela, giz pastel e caneta hidrográfica sobre papel, em diferentes dimensões e formatos. Bastante coloridos, com traços caricaturais e psicodélicos, os desenhos funcionavam, à época, como uma documentação do cotidiano prisional. Eram, segundo Sister, “uma espécie de crônica para registrar o que se passava entre nós. Procurava criar símbolos gráficos e cores, com anotações sobre choques elétricos, a tranca, a porrada [...].” Hoje, por outro lado, a produção é vista pelo artista como uma importante ferramenta de recuperação de sua própria identidade e de apropriação de um espaço espiritual durante um período de trevas.

Sem expectativa de liberdade e deslocado dos papéis desempenhados fora da prisão – Sister era estudante de Ciências Sociais e também atuava como jornalista –, o artista passou a desenhar todos os dias depois de receber da Bela, sua esposa e então namorada, uma caixa de crayon e um caderno de desenho. Mais tarde, graças ao convívio diário com artistas e arquitetos no presídio de Tiradentes, – como Alípio Freire, Carlos Takaoka e José Wilson, Sérgio Ferro, Rodrigo Lefèvre, Julio Barone, Carlos Henrique Heck e Sérgio Souza Lima –, formou-se ali uma espécie de grande atelier, com uma prolífica troca de ideias e materiais. Foi neste momento que Sister, em contato com diversas questões teóricas trazidas pelos novos companheiros, passou a pretender com seus desenhos uma ligação maior com o mundo da arte.

É a primeira vez que uma ampla seleção destes desenhos será exibida em uma exposição. Antes disso, alguns deles participaram das mostras Pequenas insurreições, no Centro Cultural São Paulo – CCSP (1985); Caros amigos, no Memorial da América Latina, São Paulo (2008) e mais recentemente, da exposição AI-5 50 anos – Ainda não terminou de acabar, no Instituto Tomie Ohtake, São Paulo (2018).

Anteriores à produção de Tiradentes, as 15 pinturas sobre tela presentes na exposição – realizadas entre 1966 e 1967 –, trazem particularidades que denotam uma forte influência da pop-art. Ao contrário do pop norte-americano, que tinha a banalização da imagem como ponto de partida e voltava sua atenção aos objetos comuns do cotidiano, a assimilação do movimento no Brasil refletia a tensão existente em decorrência do regime militar imposto no país. Como outros artistas de sua geração, Sérgio Sister se apropriou intuitivamente da agressividade e ironia inerentes ao pop para dar vazão à questões sociais e políticas.

Simultaneamente à exposição, a Galeria Nara Roesler irá lançar seu Viewing Room, um espaço de exposições online, onde os visitantes poderão descobrir e colecionar obras selecionadas exclusivamente para esta plataforma. Para seu lançamento, a Galeria selecionou 15 obras recentes e em pequeno formato de Sérgio Sister que estarão disponíveis somente para venda online.

Sérgio Sister (n. 1948) nasceu em São Paulo, Brasil, onde vive e trabalha. Nos anos 1960, estudou pintura em cursos livres na Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP, em São Paulo, e em 1974 graduou-se em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, onde inicia a pesquisa de mestrado no Departamento de Ciência Política. Representante da Geração 80, seu processo criativo resulta em variadas densidades de pintura e diferentes sobreposições ou predominâncias cromáticas. Como desdobramento das questões de sua pintura, Sister também faz peças tridimensionais, caso das séries Caixas, iniciada em 1996, além de Pontaletes, a partir de 2006 e Ripas, 2009.

Participou das 9ª e 25ª edições da Bienal de São Paulo (1967, 2002). Exposições coletivas recentes incluem: A linha como direção, Pina Estação, São Paulo, SP, Brasil (2019) The Pencil is a Key: Art by Incarcerated Artists, The Drawing Center, New York City, NY, USA (2019); Géométries Américaines, du Mexique à la Terre de Feu, Fondation Cartier pour l’art contemporain, Paris, França (2018); AI-5 50 anos – Ainda não terminou de acabar, Instituto Tomie Ohtake (ITO), São Paulo, Brasil (2018); MAC USP no século XXI – A Era dos Artistas, Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP), Brasil (2017); Sala de encontro – Dentro, Museu de Arte do Rio (MAR), Rio de Janeiro, Brasil (2017).

Exposições individuais incluem: Sérgio Sister, Kupfer Gallery, Londres (2017); Pintura com ar, sombra e espaço, Galeria Nara Roesler | Rio de Janeiro, Brasil (2017); Sergio Sister: Malen Mit Raum, Schatten und Luft, Galerie Lange + Pult, Zurique, Suíça (2016); Expanded Fields, Nymphe Projekte, Berlim, Alemanha (2016); Ordem Desunida, Galeria Nara Roesler, São Paulo, Brasil (2015); Sérgio Sister, Pinacoteca do Estado, São Paulo, Brasil (2013) e Sergio Sister, Galerie Emmanuel Hervé, Paris, França (2013).

Suas obras fazem parte de acervos como os do Museu de Arte Moderna de São Paulo; Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro; Pinacoteca do Estado de São Paulo; Centro Cultural São Paulo; e Instituto Figueiredo Ferraz.

A Galeria Nara Roesler é uma das principais galerias de arte contemporânea do Brasil. Representa artistas brasileiros e internacionais, estabelecidos e em início de carreira, e conta com sedes em São Paulo, Rio de Janeiro e Nova York. Fundada em 1989 por Nara Roesler, a Galeria fomenta o desenvolvimento e a difusão dos trabalhos de seus artistas através de um consistente programa de exposições, sólidas parcerias institucionais e diálogo constante com curadores de destaque no cenário artístico contemporâneo. Desde 2002, a galeria desenvolve anualmente o projeto Roesler Hotel, que tem como objetivo promover o diálogo entre as comunidades artísticas nacional e internacional, convidando curadores e artistas a realizar experimentos em seu espaço.

Posted by Patricia Canetti at 4:43 PM

Vincent Ciantar na Marcelo Guarnieri, São Paulo

A Galeria Marcelo Guarnieri apresenta a primeira exposição individual de Vincent Ciantar (1912 - 1989) na sua sede de São Paulo. É a primeira vez que as fotografias de Ciantar são expostas desde 1965, sendo algumas delas inéditas. As ampliações foram feitas pelo próprio fotógrafo, uma parte delas no Brasil na década de 1960, outra parte na década de 1950 no exterior. As imagens apresentadas na mostra foram feitas nas cidades de Londres, Cairo, Paris, Chipre e Rio de Janeiro.

Cidadão inglês nascido no Egito*, Vincent Ciantar foi um fotógrafo estabelecido no Brasil a partir da década de 1960. Trabalhou para revistas, empresas e indústrias e desenvolveu, em paralelo, um trabalho autoral que circulou pelo Egito, Brasil e Inglaterra enquanto esteve vivo. Contemporâneo de Cartier Bresson, Vincent Ciantar também encontrava no ambiente urbano situações para suas fotografias: eram comerciantes, casais apaixonados, pombos, transeuntes e crianças que tinham suas imagens capturadas em plena ação. Além das imagens de rua, Ciantar se utilizava da expertise da fotografia técnica adquirida em seus empregos formais para explorar, em seu trabalho autoral, o lirismo da fotografia em estúdio, compondo natureza-mortas com jarros e flores. Durante o período em que viveu no Egito, o fotógrafo não deixou de registrar a monumentalidade das pirâmides e esfinges, assim como a vastidão do deserto.

De 1929 a 1943, Vincent Ciantar trabalha no Banque Nationale d’Egypte, organizando e chefiando o setor de microfilmagem durante aqueles últimos 8 anos. Sua primeira atuação como fotógrafo profissional se dá em 1943 como fotógrafo de guerra na britânica Royal Air Force (RAF), obtendo duas condecorações pelos serviços prestados: a "África Star" e a "Reference Medal". Em 1955 realiza sua primeira grande exposição na Galeria de Arte do Cairo, "Exposition des Oeuvres Photographiques de Vincent Ciantar", sob o patrocínio do Banque Nationale d’Egypte. No mesmo ano, desenvolve trabalhos de reportagem para a empresa PHOTO – PRODUITS GEVAERT, sediada na Bélgica e com filial no Cairo. No ano seguinte, chefia o Departamento Fotográfico de “The Egyptian Economic & Political Review”. Em 1957, durante o processo de ruptura com a Grã-Bretanha, o governo militar de Malta expulsa os cidadãos britânicos de seu território, levando Ciantar a mudar-se para Londres. Lá trabalha com fotografia artística e industrial, tendo sua foto “The Wanderer” premiada no “Twenty-Ninth Exhibition – The London Salon of Photography”. A partir de 1959 se estabelece no Brasil, trabalhando inicialmente como repórter fotográfico na Bloch Editores e posteriormente como autônomo, entre os anos de 1960 e 1966. Neste período apresentou a exposição “With my Camera in London”, na Sociedade Cultura Inglesa. Entre 1967 e 1975, passou pelas empresas: Kelson’s; Hoffmann Bosworth; Tubulares Mills e Gilette do Brasil, realizando diversos trabalhos técnicos em fotografia. Entre 1974 e 1979, trabalhou para a Schering – Indústria Química e Farmacêutica, realizando trabalhos fotográficos para a revista Schering. Entre 1979 e 1983, realizou trabalhos fotográficos para Furnas – Centrais Elétricas.

*Vincent Ciantar tinha a nacionalidade inglesa por ser filho de malteses, sendo Malta, na época, colônia britânica.

Posted by Patricia Canetti at 12:53 PM

Arte Atual: Éder Oliveira, Regina Parra e Virgínia de Medeiros no Tomie Ohtake, São Paulo

A oitava edição do programa Arte Atual, realizado pelo Instituto Tomie Ohtake por meio de seu Núcleo de Pesquisa e Curadoria, reúne os artistas Éder Oliveira, Regina Parra e Virgínia de Medeiros em torno de reflexões acerca do retrato como gênero pictórico e como forma de reconhecer e atribuir uma identidade ao retratado. O título da exposição - Jamais me olharás lá de onde te vejo - remete a uma frase do psicanalista francês Jacques Lacan empregada no livro 11 de O Seminário denominado Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Segundo a equipe curatorial, o próprio ato de retratar também permeia as questões da mostra, partindo de diferentes abordagens e linguagens. “É possível, por intermédio dos trabalhos, discutir parâmetros de como os artistas constroem os limites entre o "eu" e o "outro", e delimitam relações de afinidade e de distinção. Mais do que isso, os trabalhos presentes explicitam como os artistas convidados se valem da figura humana como uma de suas ferramentas para abordar a violência que imputamos ou a que são imputados nossos corpos, os limites e rastros do tempo e a noção do corpo como um lugar de resistência”, escrevem Diego Mauro, Luana Fortes, Priscyla Gomes e Theo Monteiro, do Núcleo de Pesquisa e Curadoria.

A obra de Éder Oliveira é reconhecida pela pintura de retratos coloridos em diferentes escalas e em suportes que variam de telas a muros de cidades. O artista paraense se apropria de imagens majoritariamente masculinas do caderno policial de jornais, para investigar sobre o que se entende como homem amazônico ao mesmo tempo em que traz à tona os altos índices de violência no norte do Brasil. Se até pouco tempo atrás Oliveira retratava só figuras, recentemente tem adicionado texto às suas pinturas, que tendem a vir acompanhadas de citações literárias que servem como comentários sobre as situações por ele representadas.

Já Regina Parra, traz no retrato um processo de desconstrução mitológica sobre si. Apesar de usar autorretratos fotográficos para escolher quais imagens pintar, a artista não considera os resultados como autorretratos. Com uma trajetória que já passou bastante pelo teatro, Parra afirma que empresta seu corpo para experimentar posições, movimentos e enquadramentos. Em Jamais me olharás lá de onde te vejo, a artista exibe uma série de pinturas e de neons, todos tendo como pano de fundo as peças Dias Felizes (1961) e Eu Não (1972) do dramaturgo e escritor irlandês Samuel Beckett.

Virginia de Medeiros, por sua vez, propõe uma nova montagem para a série Alma de Bronze (2016-2018), realizada a partir de sua convivência com lideranças femininas da Frente de Luta por Moradia (FLM) do Movimento Sem Teto do Centro (MSTC), iniciada com sua participação no Programa de Residência Artística Cambridge e posteriormente transmutada para a Ocupação 9 de Julho, onde exibiu uma primeira montagem do trabalho, que também foi exposto no Centro Cultural São Paulo (CCSP). Para o Instituto Tomie Ohtake, o projeto ganha um formato mais aberto e experimental que pretende servir como espaço para debates e conversas acerca dos acontecimentos mais urgentes do MSTC, com uma programação a ser definida de acordo com as demandas do movimento. A nova montagem, de caráter instalativo, traz retratos em vídeo de doze importantes líderes femininas da Ocupação 9 de Julho, ao som de uma percussão de Beth Belli, regente de tambores do Ilú Obá de Min, que ressoa como um alerta e apenas cede o volume para as conversas que lá acontecerão.

O programa Arte Atual, criado pelo Instituto Tomie Ohtake em 2013, busca alimentar pesquisas artísticas experimentais, para criar possibilidades de aprimorar e enriquecer a pesquisa de cada participante. Para isso conta com a parceria de galerias para a produção das obras, desenvolvidas por meio de diálogos entre a equipe curatorial do Instituto Tomie Ohtake e os artistas convidados. O programa já contabilizou sete exposições: Estranhamente Familiar (2013); Medos Modernos (2014); E se quebrarem as lentes empoeiradas? (2015); Da banalidade (2016); É como Dançar sobre Arquitetura (2017), Fábula, frisson, melancolia (2017) e Fratura (2018). Nesta oitava edição, as galerias Millan, Nara Roesler e Periscópio tornaram possível sua realização.

Éder Oliveira (Timboteua, PA, 1983) Vive e trabalha em Belém do Pará. Licenciado em Educação Artística - Artes Plásticas pela Universidade Federal do Pará. Pintor por ofício, desde 2004 desenvolve trabalhos relacionando retratos e identidade, tendo como objeto principal o homem amazônico. Entre bolsas e premiações, destacam-se o Prêmio Pipa - Voto Popular Exposição (2017), Lingener Kunstpreis 2016 (Alemanha), Rede Nacional Funarte Artes Visuais (2015), Prêmio Seiva Projetos Artísticos (Fundação Cultural do Pará, 2015), Bolsa Funarte de Estímulo à Produção em Artes Visuais (2014). Possui trabalhos em acervo de instituições como Centro de Arte Dos de Mayo - Madrid, Fundação Clóvis Salgado, Fundação Marcos Amaro, Itaú Cultural, Kunsthalle Lingen - Alemanha, MAC Rio Grande do Sul, Museu Casa das Onze Janelas, Museu de Arte de Belém e Museu de Arte do Rio.

Regina Parra (São Paulo, SP, 1984) vive e trabalha em São Paulo. Mestre em Teoria e Crítica da Arte pela Faculdade Santa Marcelina (orientação de Lisette Lagnado) e bacharel em Artes Plásticas pela Faap (orientação de Paulo Pasta). Nos últimos anos, realizou exposições individuais na Galeria Millan (SP), Pivô (SP), Centro Cultural São Paulo (SP), Paço das Artes (SP), Fundação Joaquim Nabuco (PE) e Galeria Leme (SP).

Virginia de Medeiros (Feira de Santana, BA, 1973) vive e trabalha em São Paulo, SP. Mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal da Bahia. Em 2014 foi premiada no 18o Festival de Arte Contemporânea Sesc-Videobrasil com a Bolsa na Residency Unlimited em Nova York. Seus trabalhos foram expostos em numerosas ocasiões, entre elas, Behind the Sun-Prêmio Marcantônio Vilaça, HOME, Manchester, Reino Unido; MAR Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro, Brasil, 31a Bienal de São Paulo, São Paulo: Como procurar coisas que não existem; Rainbow in the Dark , SALT Galata, Istambul; Salón de Belleza [Beauty Salon], Utopian Pulse – Flares in the Darkroom, Secessão de Viena, Viena, Áustria; 27ª Bienal Internacional de São Paulo Como Viver Junto; Itinerários, Itinerâncias: 32o Panorama de Arte Brasileira, MAM-SP; 2ª Trienal de Luanda “Geografias Emocionais, Arte e Afectos – Projeto 3 Pontes, Espaço Palladium, Luanda.

Posted by Patricia Canetti at 10:25 AM

agosto 2, 2019

Roberto Magalhães e Carlos Vergara na Mul.ti.plo, Rio de Janeiro

Em exposição na Mul.ti.plo, dois expoentes da arte contemporânea brasileira criam obra em conjunto

Roberto Magalhães e Carlos Vergara, dois expoentes da arte contemporânea brasileira, amigos há décadas – desde os tempos da “Nova Figuração” com os companheiros de ofício Antonio Dias e Rubens Gerchman – vão apresentar uma exposição em conjunto. A mostra Paralelos abre no dia 6 de agosto, na galeria Mul.ti.plo Espaço Arte, e fica em cartaz até 25 de setembro. Ao todo, são cerca de 20 trabalhos, ligados sob o fio do desenho e da obra gráfica. Os dois artistas criarão em conjunto novos trabalhos. A ideia é fazer com que a obra de dois artistas que seguiram carreiras paralelas com traços autorais muito fortes e absolutamente distintos possa se tocar pela primeira vez, em um horizonte improvável.

Para criar essas obras, o espaço da galeria se transformará em ateliê. Os dois artistas terão à disposição telas. Em cada uma, será traçada uma linha divisória: um desenha e pinta a parte de cima e outro a de baixo. Depois, eles invertem a ordem. “Não se trata de uma competição, mas de um desafio criado por eles mesmos como um gesto de respeito e admiração um pelo outro”, diz Maneco Müller, sócio da galeria.

Pioneiros da nova figuração brasileira, participantes da icônica exposição Opinião 65 (no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1965), Roberto e Carlos Vergara se conheceram ainda na adolescência, tiveram protagonismo cedo, desenvolveram longa carreira nas artes visuais e sempre foram muito próximos. Ao mesmo tempo, suas criações são definitivamente distintas. Até no temperamento são diferentes: Vergara é expansivo, enfático, agitado, veemente, esportista; Roberto é silencioso, introvertido, calado, contido e observador de tudo. Ainda assim, há um silêncio misterioso que os une em torno da transcendência ou “na busca do inefável”, como diz Vergara, que, em sua trajetória de "pintor viajante", sempre traz como pretexto as trilhas misteriosas dessa busca divinal. Magalhães, por rumo muito diverso, sempre esteve mergulhado nas questões místicas e suas obram falam de um mundo etéreo. “Minha arte é a busca e a expressão da subjetividade”, explica ele.

Na exposição, Vergara traz obras de duas séries: “Coração”, de técnica mista sobre papel, entre impressão, aquarela e pigmento, e outra chamada “Natureza Inventada”, com desenhos de uma viagem do artista a Serra da Bodoquena (MS). São trabalhos recentes, de média proporção.

Entre os trabalhos de Roberto, a maioria é inédita e outros são praticamente desconhecidos. São obras sobre papel, em técnica mista (bico de pena e aquarela). “Meus trabalhos têm uma conotação mística, esotérica, tema que eu persigo desde a década de 70. Sou um estudioso do assunto”, diz o recluso artista, que na semana que antecede à exposição, retorna de uma região desértica e isolada no noroeste da Argentina para onde foi meditar e desenhar.

“O primeiro nome que pensei para essa exposição foi Paralelos, depois tive uma ideia: por que não ‘Roberto Carlos’? Roberto Magalhães e Carlos Vergara!”, diverte-se este, feliz com a oportunidade de trabalhar ao lado do velho amigo. “Eu me dou com o Roberto desde 1959. Frequentava a casa dele, na Rua Farani, que era uma espécie de república de artistas. Fizemos muita coisa juntos, exposições, mas temos caminhos, interesses, ideias e métodos de trabalho muito diferentes. Isso, entretanto nunca nos afastou. Sempre tivemos ótimo convívio”, disse Vergara. “Apesar de certa ansiedade para saber como ficarão os nossos improvisos, vai ser inusitado... E divertido. É um grande prazer dividir essa exposição com o Vergara”, diz Roberto.

Mas a ideia de reunir a dupla na exposição vai muito além de uma crônica entre dois personagens das artes plásticas brasileiras. Segundo Maneco, essa é uma mostra a ser contemplada com calma e concentração. “É necessário repousar o olhar em cada trabalho para que a exposição possa ser absorvida com toda a sua intensidade”, finaliza ele.

ROBERTO MAGALHÃES

Roberto de Oliveira Magalhães (Rio de Janeiro, RJ, 1940). Pintor, desenhista gravador. Realiza seu aprendizado artístico com as atividades profissionais iniciadas precocemente: primeiro, na gráfica do tio (desenho de rótulos e propagandas); em seguida, fazendo capas de livros e discos e desenhos publicitários. Frequenta cursos da Escola Nacional de Belas Artes (Enba), como aluno livre, em 1961. No decorrer da década de 1960, participa de diversas coletivas, no Brasil e no exterior: em 1962, expõe desenhos a nanquim na Galeria Macunaíma, anexa à Enba; em 1964, realiza sua primeira individual de xilogravuras, na Petite Galerie, Rio de Janeiro; no ano seguinte, recebe o prêmio de gravura da 4ª Bienal de Paris. Segue para a capital francesa, em 1967, depois de ganhar o prêmio viagem ao exterior no 15º Salão Nacional de Arte Moderna (SNAM), em 1966, com a xilogravura Édipo Decifra o Enigma da Esfinge. Em Paris, expõe com Antonio Dias (1944), na Galeria Debret, em 1968. Estudos de ocultismo, teosofia e, sobretudo, a aproximação ao budismo a partir de 1969 levam-no a residir por quatro anos no Centro de Meditação da Sociedade Budista do Brasil, quando interrompe a atividade artística. Em 1975, recomeça o trabalho com arte por meio de exposições individuais de desenho e pintura no Rio e em São Paulo, e de aulas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ). Integra coletivas de gravuras e desenhos, na década de 1980. Em 1992, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), do Rio de Janeiro, organiza uma retrospectiva dos 30 anos de produção do artista, a maior dedicada a sua obra.

CARLOS VERGARA

Carlos Augusto Caminha Vergara dos Santos (Santa Maria, Rio Grande do Sul, 1941). Gravador, fotógrafo e pintor. Na década de 1950, transfere-se para o Rio de Janeiro e, paralelamente à atividade de analista de laboratório, dedica-se ao artesanato de joias, que são expostas na 7ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1963. Nesse mesmo ano, volta-se para o desenho e a pintura, realizando estudos com Iberê Camargo (1914-1994). Participa das mostras Opinião 65 e 66, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ). Em 1967, é um dos organizadores da mostra Nova Objetividade Brasileira, que procura fazer um balanço da vanguarda brasileira. Atua ainda como cenógrafo e figurinista de peças teatrais. Nesse período, produz pinturas figurativas, que revelam afinidades com o expressionismo e a arte pop. Durante a década de 1970, utiliza a fotografia e filmes Super-8 para estabelecer reflexões sobre a realidade. O carnaval passa a ser também objeto de sua pesquisa. Atua ainda em colaboração com arquitetos, realizando painéis para diversos edifícios, empregando materiais e técnicas do artesanato popular. Em 1972, publica o caderno de desenhos Texto em Branco, pela editora Nova Fronteira. Durante os anos 1980, volta à pintura, produzindo quadros abstratos geométricos, nos quais explora, principalmente, tramas de losangos que determinam campos cromáticos. Desde o fim dos anos 1980, emprega pigmentos naturais e minérios, com os quais produz a base para trabalhos em superfícies diversas. Em 1997, realiza a série Monotipias do Pantanal, na qual explora o contato direto com o meio natural, transferindo para a tela texturas de pedras ou folhas, entre outros procedimentos.

Posted by Patricia Canetti at 4:25 PM

agosto 1, 2019

Caetano de Almeida na Luisa Strina, São Paulo

Depois de Rembrandt, Soutine. Depois de Rembrandt e Soutine, Francis Bacon. Carcaça (2019), de Caetano de Almeida, presta tributo a esta curiosa tradição da natureza-morta, a do fascínio pela pele esfolada do animal depois do abate. Mais do que um comentário sobre vanitas ou a crueza da morte, os pintores que se dedicaram à representação detalhada do boi dissecado provavelmente contemplavam a própria existência em um momento de inflexão. A respeito de Rembrandt, pelo menos, isso é documentado: o artista retratou o boi durante um período difícil de sua vida. Envolvido em dívidas, no início da década de 1650, Rembrandt mergulhou mais fundo em problemas financeiros e, finalmente, em julho de 1656, requereu falência. Sua casa e posses foram vendidas, e ele se mudou para um bairro de classe trabalhadora, relata a historiadora da arte Lisa Deam, que se questiona, em seguida:

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“Rembrandt se sentiu despojado e esfolado quando pintou o boi morto? Essa imagem representava uma maneira de ele expressar a crueza da falência ou da remoção de seu sustento? O artista pode ter vislumbrado sua própria mortalidade em seu boi abatido, mas ele também continuou a pintar versões mais promissoras de si mesmo. Em seu autorretrato de 1658 na coleção Frick, Rembrandt aparece como um cruzamento entre um artista da Renascença e um rei magistral. No contexto do tema do memento mori holandês, esta pintura sugere uma inversão do movimento aparentemente inevitável em direção à morte e à decadência: a renovação da carne é possível, afinal de contas, o retrato parece afirmar.”

Caetano de Almeida não considera a sua tela Carcaça um autorretrato, mas, assim como Rembrandt hipoteticamente pôde se transmutar de boi esfolado em mestre ou rei poderoso da Renascença, uma mudança importante é evidente nesta obra de 2019. Uma transformação está em curso na produção de Caetano de Almeida há algum tempo, e já foi notada em ensaio do teórico Tadeu Chiarelli, publicado ano passado por ocasião de uma mostra individual do artista no Rio de Janeiro:

“Nessa nova safra de obras chamam a atenção uma determinada tela – Behavior – e alguns desenhos, aqueles da série Física. Em Behavior é notável como, ao lado do micro relevo vertical produzido por Caetano – e que cobre toda a superfície da tela, subvertendo-a –, o artista deixa se expandir, de leve, uma tinta em tom de vermelho. Lógico que Caetano até tenta controlar o discreto transbordamento de cor, mas, a tinta, insidiosa, acaba percorrendo seu curto trajeto até esvair-se, sem deixar-se brecar pela ação do artista. Como resultado, temos uma tela que é um relevo que sangra. O que significa que, de repente, a pura virtualidade das pinturas de Caetano fica comprometida por uma pintura que se nega como pintura (é um relevo), que parece jogar-se na realidade tridimensional, sangrando.”

Chiarelli prossegue discorrendo sobre a novidade das incisões nas aquarelas da série Física e dos furos reais que Caetano obtém pressionando um cigarro aceso sobre o papel, nos desenhos intitulados Maços. Para o crítico, essas perfurações conferem aos trabalhos “uma corporeidade mais de objeto do que propriamente de pinturas” e transformam “o espaço bidimensional em ‘coisa’ atravessada pelo real”. Os três conjuntos de obras recentes, portanto – Behavior, Física e Maços – indicam uma guinada na pesquisa do artista, devido à valorização da materialidade das coisas, evidente, na exposição de 2019 na Galeria Luisa Strina, na obra Lenticular (2019), que é um desdobramento de Behavior. Chiarelli finaliza seu ensaio apontando que a materialidade “está ali como que registrando o início de uma transformação no trabalho do artista, [que] poderá ganhar novos e inesperados rumos.”

Novos rumos marcam a décima-primeira exposição individual de Caetano de Almeida na Luisa Strina. O mais evidente deles é o abandono da racionalidade matemática que define as suas pinturas dos anos 2000 em diante. Outro aspecto da ruptura é a violência de que estão agora carregadas as obras que aludem à “palhinha brasileira”. Nas duas obras que retratam a trama de palha, a violência está nos rasgos (O Museu Invisível, 2019) – os pedaços simbolicamente arrancados da trama – ou no estiramento da pele do boi (Carcaça, 2019). É como se o artista trafegasse da cultura tropical do mobiliário “refrescante” para a cultura glacial das roupas e tapetes usados para aquecer ambientes e corpos em regiões geladas. O que essas pinturas têm de frieza, uma nova série de obras – e pensamento – compensa pela saturação. Pac Man, Construção e Caverna (todas de 2019) parecem falar de um mundo virtualizado e criptografado, como se retratassem algum fluxo de informação decodificado em cores e formas. A intenção de Caetano, entretanto, é a mesma daquela que guiou a construção de Carcaça: dialogar com a história da arte.

Caverna se inspira na construção de espaços escuros cercados de luminosidade por Courbet. “Tenho fascínio pela forma como ele criava um buraco escuro o mais claro possível no meio da tela”, comenta Caetano. Após o Jantar no Ornans (1849), O Ateliê do Pintor (1855) e Depois da Caça (1859) são algumas das obras que vêm à mente. Já Construção tem uma biografia associada ao mesmo tempo à tecnologia e à arqueologia, pois nasceu da observação de fragmentos de um afresco romano descoberto em um castelo na França, que, ainda nas primeiras fases de restauro – após ter sido identificado, sob muitas camadas de história e revestimentos – podia ser observado apenas através de pequenos recortes quadrados e retangulares na superfície da parede de pedra. “Os furos permitiam entrever aqui uma voluta, ali uma planta, anjinhos nos cantos, tudo submerso num tom verde acqua. A imagem do mural com recortes ficou na minha cabeça por muito tempo”, conta.

Unindo tudo, finalmente, estão os furos, rasgos, vazios, que fazem lembrar dos cortes reais feitos anteriormente pelo artista. Reais ou virtuais (representados), os buracos falam de sofrimento e decadência, o que na exposição culmina na tela Cruzeiro do Sul (2019), constelação da qual, na trama (no duplo sentido de enredo e de urdidura) de Caetano de Almeida, as estrelas foram arrancadas. A principal referência da história da arte neste conjunto recente de trabalhos, confessa o artista, é mesmo a do Salto no Vazio, de Yves Klein. Acontece que, assim como em Rembrandt, onde se vê decadência também se pode enxergar renovação. “Essa viagem é o que quero propiciar: a beleza está na viagem, não no destino”, completa Caetano.

SOBRE O ARTISTA

Nascido em 1964, em Campinas, Caetano de Almeida vive e trabalha em São Paulo. Entre suas exposições individuais recentes, destacam-se: 11R Gallery, Nova York (2017); Galeria Luisa Strina, São Paulo (2016); ‘Coffret’, Instituto Figueiredo Ferraz, Ribeirão Preto, Brasil (2015); Galerie Anne Villepoix, Paris, França (2015); Eleven Rivington Gallery, Nova York, EUA (2013); Andreas Thalmann Gallery, Zurique, Suíça (2013); Galeria Luisa Strina, São Paulo, Brasil (2012).

Exposições coletivas recentes incluem: ‘Por aqui tudo é novo’, Centro de Arte Contemporânea Inhotim (CACI), Brumadinho (2016); ‘A Cor do Brasil: de Visconti a Volpi, de Sued a Milhazes, Museu de Arte do Rio (MAR), Rio de Janeiro (2016); ‘O Estado da Arte’, Instituto Figueiredo Ferraz, Ribeirão Preto (2016); ‘0 to 60: The Experience of Time through Contemporary Art’, North Carolina Museum of Art, Raleigh (2013); ‘Law of the Jungle’, Lehmann Maupin Gallery, Nova York (2010); ‘Ponto de Equilíbrio’, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo (2010).

Coleções das quais seus trabalhos fazem parte incluem: Museum of Fine Arts, Boston; Museu de Arte Moderna de São Paulo; Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro; Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo; Coleção Gilberto Chateaubriand; Coleção Marcantônio Vilaça; Coleção João Carlos Fiqueiredo Ferraz; North Carolina Museum of Art, Raleigh; Acervo Banco Itaú; Associação dos Amigos da Pinacoteca do Estado; Centro de Arte Contemporânea Inhotim; Instituto Tomie Ohtake; Peter Stuyvesant Foundation; Rehabilitation Institute of Chicago; e New York Presbyterian Hospital.


After Rembrandt, Soutine. After Rembrandt and Soutine, Francis Bacon. Carcass (2019) by Caetano de Almeida renders tribute to the odd tradition of still life, to be fascinated by an animal’s flayed skin after slaughtering. More than just a comment about vanitas or death’s cruelty, the painters that dedicated themselves to a detailed representation of a dissected ox were probably contemplating their own existence in a moment of bewilderment. At least in Rembrandt’s case this is documented: the artist painted the ox during a difficult time in his life. At the beginning of the decade of 1650, overwhelmed by debts, Rembrandt went deeper in financial trouble and, finally in July 1656, he filed for bankruptcy. His home and belongings were sold, and he moved to a working class neighborhood, as the Art Historian Lisa Deam tells, who, shortly after, asks:

“Did Rembrandt feel stripped down and flayed when he painted the dead ox? Did this image repre­sent a way for him to express the rawness of bankruptcy or the peeling away of his livelihood? The artist may have glimpsed his own mortality in his slaughtered ox, but he also continued to paint more hopeful versions of himself. In his 1658 Self-Portrait in the Frick Collection, Rembrandt appears as a cross between a Renaissance artist and a magisterial king. In the context of the Dutch memento mori theme, this painting suggests a reversal of the seemingly inevitable movement toward death and decay: renewal of the flesh is possible after all, the portrait seems to state”.

Caetano de Almeida doesn’t consider his painting Carcass a self-portrait, but, as Rembrandt could hypothetically transmute from a flayed ox into a master or a powerful Renascence king, an important change is clear in this 2019 work. A transformation has been happening in Caetano de Almeida’s production for some time, and it has been made noticed in the essay by the theoretician Tadeu Chiarelli, published last year at the occasion of the artist’s solo show in Rio de Janeiro:

“In this new crop of works, a certain canvas – Behavior – and some watercolors, those of the Física series, cause a stir. In Behavior, it is noteworthy how, by the micro vertical relief produced by Caetano – and that covers up the whole surface of the canvas, subverting it -, the artist lightly allows the expansion of a red tone paint. Evidently Caetano tries to control the discrete overflow of the color, but the insidious paint ends up following its short path until it vanishes, without being stopped by the artist’s action. As a result, we have a canvas that’s a bleeding relief. Which means that, suddenly, the pure virtuality of Caetano’s works is jeopardized by a painting that denies itself as painting (it’s a relief), that seems to throw itself into tridimensional reality, bleeding.

Chiarelli goes on talking about the innovation of incisions in the watercolors in the Series Física (Physics) and the actual holes that Caetano produces when pressing burning cigarettes onto the paper, in the drawings named Maços (Packs). For the critic, these perforations give the work “a physicality closer to object than to painting” and change “the bidimensional space of ‘a thin’ crossed by reality”. The three recent groups of works, namely – Behavior, Física (Physics) and Maços (Packs) – indicate a sheer in the artis’s research, because of the objects’ materiality appreciation, apparent in the Lenticular (2019) work shown at Luisa Strina Gallery, which is an unfolding of Behavior. Chiarelli closes up his essay pointing that materiality “is there as a record of the artist’s transformation start in his research, [which] could have new and unexpected directions.”.

Caetano de Almeida’s eleventh solo exhibition at Luisa Strina is marked by new directions, the most obvious one being the renouncement of mathematical rationality that has defined his paintings since the year 2000. Another aspect of the rupture is the violence imbedded in the works that make reference to the Brazilian rattan. In the two works that depict the rattan weft, violence is present in the cuts (The Invisible Museum, 2019) – the pieces are symbolically torn from the weaving – or in the stretching of the ox’s skin (Carcass, 2019). It seems as if the artist moved from the tropical culture of the “cooling” furniture to the clothes and rugs culture used to keep rooms and bodies warm in icy regions. Although this paintings are filled with a certain cold aspect, a new series of works – and thought – is otherwise compensated with saturation. Pac Man, Construction and Cave – all from 2019 – seem to speak of a virtualized and encrypted world that portrays a sort of information flow decoded in colors and shapes. However, Caetano’s intention is the same as the one which guided the construction of Carcass: to dialogue with art history.

Cave (Caverna) was inspired by the construction of black spaces surrounded by light as in Coubert’s practice. “I am fascinated by the way he created a dark hole as clear as possible in the middle of the canvas” Caetano observes. After Dinner at Ornans (1849), The Painter’s Atelier (1855) and After the Hunt (1859) are some of the paintings that come to mind. On the other hand, Construction (Construção) has its biography connected to technology and archeology, as it has come to life after the artist observed a roman fresco fragment unveiled in a French castle that, during the first stages of restauration – after being identified under many layers of history and coatings – could be observed only through small square and rectangular cuts on the stone wall surface. “The holes allowed glimpses of a volute here, there a plant, cherubins on the corners, all submerged in a dark acqua shade. The image of the mural with cuts remained in my mind for a long time”, Caetano tells us.

Finally, linking all together, there are the holes, cuts and empty spaces that reminds us of actual cuts made by the artist in the past. Actual or virtual (represented), the holes address the suffering and decay that in the exhibition culminate on the painting Crux (2019), a constellation from which weft (in a double meaning of warp and plot) Caetano de Almeida snatched the stars from. The artist admits that the main reference to Art History in this set of recent works is the Leap into the Void by Yves Klein. As with in Rembrandt’s case, where as one can see decay, one can see renewal also. “This is the trip that I want to facilitate: beauty is in the trip, not in the destination”, Caetano adds.

ABOUT THE ARTIST

Born in 1964, Campinas, Caetano de Almeida lives ans works in São Paulo, Brazil. Recent solo exhibitions include: 11R Gallery, New York (2017); Galeria Luisa Strina (2016); ‘Coffret’, Instituto Figueiredo Ferraz, Ribeirão Preto (2015); Galerie Anne Villepoix, Paris (2015); Eleven Rivington Gallery, New York (2013); Andreas Thalmann Gallery, Zurich (2013); Galeria Luisa Strina, São Paulo (2012).

Recent group shows include: ‘Por aqui tudo é novo’, Centro de Arte Contemporânea Inhotim (CACI), Brumadinho (2016); ‘A Cor do Brasil: de Visconti a Volpi, de Sued a Milhazes, Museu de Arte do Rio (MAR), Rio de Janeiro (2016); ‘O Estado da Arte’, Instituto Figueiredo Ferraz, Ribeirão Preto (2016); ‘0 to 60: The Experience of Time through Contemporary Art, North Carolina Museum of Art, Raleigh (2013); ‘Law of the Jungle’, Lehmann Maupin Gallery, New York (2010); ‘Ponto de Equilíbrio’, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo (2010).

His works are part of the following collections: Museum of Fine Arts, Boston; Museu de Arte Moderna de São Paulo; Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro; Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo; Coleção Gilberto Chateaubriand; Coleção Marcantônio Vilaça; Coleção João Carlos Fiqueiredo Ferraz; North Carolina Museum of Art, Raleigh; Acervo Banco Itaú; Associação dos Amigos da Pinacoteca do Estado; Centro de Arte Contemporânea Inhotim; Instituto Tomie Ohtake; Peter Stuyvesant Foundation; Rehabilitation Institute of Chicago; and New York Presbyterian Hospital.

Posted by Patricia Canetti at 3:09 PM

Brian Griffiths na Luisa Strina, São Paulo

“Faço esculturas porque elas se abrigam no mundo conosco, como nós. São inanimadas e ainda assim nos definem. O ser e as coisas parecem sempre misturados. Sou atraído por como pensamos com as coisas e como as coisas pensam. No ateliê, negocio entre o que quero e o que as coisas precisam. Isso geralmente é uma sitcom. Considero a escultura um ato social, uma investigação social, um tipo de narrativa rebelde coletiva. Preocupo-me com a maneira como minha escultura difere de objetos em circulação geral como mercadorias e quais relações e valores essa diferença estabelece. Faço uma arte que é cheia de contradições, falibilidade e sentimentos – algo propositalmente cansado, como uma alternativa para o brilhante e recém-saído da caixa. Eu estou fazendo um lugar para nós, para o humano.” [Brian Griffiths, 2019]

[scroll down for English version]

Taking Sides
, a quarta exposição individual do artista com a Galeria Luisa Strina, apresenta duas séries diferentes de trabalhos: No No to Knock-Knocks, versões de um personagem escultórico de Brian Griffiths, e AIR SIGNS, uma série de fotografias de Brian Griffiths e Frank Kent.

No No to Knock-Knocks é uma figura tragicômica: um macho caucasiano assemelhado a um boneco nu, que parece não saber que suas cordas – se alguma vez o seguraram – foram decisivamente cortadas. Careca, cego e com sua pintura cor-de-rosa e corpo de madeira mostrando sinais de desgaste, este pequeno performer interpreta o seu papel aos tropeços.

Em seu livro Puppet: An Essay on Uncanny Life (2011), Kenneth Gross escreve que “o boneco serve como um embaixador ou peregrino do mundo das coisas para os seres humanos”. É um objeto “que tem uma educação, que aprendeu a agir”. Os não-tão-fantoches de Griffiths são performers ambíguos, provocando tanto a risada como a simpatia. Objetos materiais, em vez de corpos vivos, eles estão fadados a subir ao palco, apesar da implausível rigidez de sua atuação, de se comunicar apenas por meio de sua própria matéria aborrecida.

Em Taking Sides, esse personagem aparece para se divertir, tirar uma soneca ou talvez fingir-se de morto; pontuando o espaço como uma história em quadrinhos rotineira. Esse impulso para desacelerar, para demorar-se, pode ser lastreada a tradições do absurdo, em particular à obra de Samuel Beckett, em que a ação tende a estacionar. Este pequeno personagem também tem um toque do artista de vaudeville nele – ele interpreta a comédia de pastelão com grande brio e consegue evocar charme e pathos pelo viés do fracasso.

As posturas da figura e as fixações rudimentares falam de seu potencial de improvisação em andamento; essas obras de arte admitem a perspectiva de sua própria reformulação. Seu tempo parece expansivo, sua situação, mutável; no entanto, esse arquétipo de “homem comum” está perdido e cego acerca de sua situação e dos problemas de tais ideias universais automáticas – e artificiais.

Brian Griffiths e Frank Kent compartilham um ateliê, eles dividem o estúdio exatamente no meio, eles tomam partido. Fizeram juntos obras fotográficas chamadas AIR SIGNS. Estas são uma série contínua de trabalhos esculturais que são apresentados como fotografias. É uma colaboração que apresenta objetos de seu estúdio e, ocasionalmente, da vida dos artistas.

AIR SIGNS valoriza a abordagem improvisada de arranjos formais e a celebração da vida e da arte. Objetos são exibidos, posicionados e colocados em ação dentro de um cubo de madeira. Essa estrutura constante achata as três dimensões e direciona o foco, cria um espaço para isolar e examinar as coisas do dia-a-dia. O palco de veludo torna-se uma superfície dramática e ostensiva que sustenta os objetos acompanhando a luz e a atividade de forma incontrolável.

Essas imagens oscilam satisfatoriamente entre documento e sonho, a razão e a intuição; silenciosa e insistentemente, sugerem imagens de pensamentos com formas estranhas, ou balões de texto. Esses quadros também estabelecem estrutura e ordem – enquanto objetos, ações e o próprio processo fotográfico, tentativas de romper. Tal como acontece com todas as molduras ou fronteiras – elas privilegiam e ignoram (tomando partido de novo) – apresentam um mundo e não o mundo, admitem que a realidade não é algo exterior, mas algo que compomos a cada momento, com uma constante interpretação de fato e ficção, objetiva e subjetiva.

As obras de AIR SIGNS estabelecem um diálogo histórico de arte com outras esculturas fotografadas, como Involuntary Sculptures, de Brassaï, as radiantes fotos de estúdio de Brancusi, fotografias de Peter Fischli & David Weiss de equilíbrio de objetos do cotidiano (Série Equilibrium), imagens de objetos cotidianos de Gabriel Orozco (como Cats and Watermelons, 1992), Marcel Broodthaers (como Daguerre’s Soup, 1974).

A prática de Griffiths sempre negociou as histórias e as linguagens da escultura e seu duplo, o objeto – ele utiliza a posição de que a escultura não pode mais significar algo específico, mas sim indicar uma objetividade polimorfa.

“Brancusi articulou o estúdio em torno de groupes mobiles (grupos móveis), por meio de categorias de escultura, bases e pedestais. Kent e eu criamos estratégias de agrupamento mais relaxadas e abertas, em que as abordagens podem ser reconfiguradas diariamente. Isso resulta em imagens mudando de atitude, do literal e óbvio ao magicamente obscuro; na fotografia Power, History and Comfort (2019) todas as cadeiras do nosso estúdio são agrupadas. Por este arranjo simples o trabalho passa a falar de diferentes espaços, atividades (trabalho e lazer) e períodos do design; em Germany to Spain, England back to Germany (2019), uma série de objetos verdes está alinhada e o título mapeia absurdamente as origens dos objetos; em European Magic (2019), uma bicicleta voa pelo estúdio iluminado pelo anoitecer”, analisa Brian.

SOBRE OS ARTISTAS

Nascido em 1968, em Stratford-upon-Avon, Inglaterra, Griffiths vive e trabalha em Londres, Inglaterra. Mostras individuais recentes incluem: Vilma Gold, Londres (2016); BALTIC Centre for Contemporary Art, Gateshead (2015); Tramway, Glasgow (2014); Galeria Luisa Strina, São Paulo (2012). Exposições coletivas recentes incluem: Voyage, Berjamin & Gomide, São Paulo (2017); Nuit Américaine, Office Baroque, Bruxelas (2014); Folk Devil, David Zwirner, Nova York (2013); British Art Show 7: In the Days of the Comet, Hayward Gallery, Londres e itinerância (2010-11); Rude Britannia: British Comic Art, Tate Britain, Londres (2010).

Nascido em 1982 em Londres, UK, Frank Kent vive e trabalha em Londres. Frank Kent estudou na Royal Academy Schools, Londres, e Nottingham Trent University. Exposições anteriores e obras comissionadas incluem: New Works, mostra individual na Fold Gallery, Londres, 2017; Green backrests for lectures and other events, projeto para a Royal Academy Schools, Londres, 2015; Site & Situ, residência de três meses na Surface Gallery, Nottingham, UK, 2011; Visual Delusions, exposição individual na galeria Bend In The River, Gainsborough, UK, 2011.


“I make sculpture because it sits in the world with us, like us. It is inanimate and yet defines us. Self and stuff seem always mixed up. I am drawn to how we think with things and how things think. In the studio I negotiate between what I want, and what the things need. This is often a situational comedy. I consider sculpture a social act, a social investigation, a type of unruly collective storytelling. I am concerned with how my sculpture differs from objects in general circulation as commodities, and what relations and values this difference sets up. I make art that is full of contradictions, fallibility and feelings – something that is unremarkably tired, as an alternative to the shiny and box- fresh. I am making a place for us, for the human.” [Brian Griffiths, 2019]

Taking Sides, the fourth solo show of the artist with Galeria Luisa Strina, present two different series of works: No No to Knock-Knocks, versions of a sculptural character by Brian Griffiths, and AIR SIGNS, a series of photographs by Brian Griffiths and Frank Kent.

No No to Knock-Knocks is a tragi-comic figure: a naked, puppet-like Caucasian male who seems not to know that his strings – if they ever held him up – have now been decisively cut. Bald, blind, and with his pink paintwork and wooden body showing signs of wear and tear, this little performer clunks through his part.

In his book Puppet: An Essay on Uncanny Life (2011), Kenneth Gross writes that ‘the puppet serves as an ambassador or pilgrim to human beings from the world of things’. It is an object ‘that has got an education, that has learned to act’. Griffiths’ not-quite-puppets are ambiguous performers, eliciting both laughter and sympathy. Material objects rather than living bodies, they are fated to take to the stage despite the implausible ‘woodenness’ of their acting, to communicate only through their own dull matter.

In Taking Sides this character turns up to hang-out, to nap, or possibly play dead; punctuating the space like an uneventful comic strip. This impulse to slow down, to linger, can be traced to absurdist traditions, in particular Samuel Beckett’s work were action tends to stall. This little character has also a touch of the vaudeville entertainer about him – he plays the slapstick comic with great panache and manages to evoke charm and pathos through failure. The figure’s postures and rudimentary fixings speak of their ongoing improvisatory potential; these artworks admit the prospect of their own reshaping. His time seems expansive, his situation changeable; yet this ‘everyman’ archetype lost and blind to his predicament and the problems of such ‘man-made’ self-serving universal ideas.

Brian Griffiths and Frank Kent share a studio, they split the studio directly down the middle, they take sides. They have made photographic works together collectively called AIR SIGNS. These are an ongoing series of sculptural works that are presented as photographs. It is a collaboration that presents objects from their studio, and occasionally, from the artists’ lives.

AIR SIGNS values improvised approach to formal arrangements and the celebration of life and art. Objects are displayed, positioned and pressed into action within a wooden cube. This constant framework flattens three- dimensions and directs focus, it creates a space to isolate and scrutinize everyday things. The velvet stage becomes a dramatic and ostentatious surface which holds the objects whilst uncontrollably tracking light and activity. These images shift satisfyingly somewhere between a document and dream, reason and intuition; they quietly, but insistently, suggest image into oddly shaped thoughts, or speech bubbles.

These frames also establish structure and order – as objects, action, and the photographic process itself, attempts to disrupt. As with all frames or borders – it privileges and ignores (taking sides again) – it presents a world not the world, it admits that reality is not something outside, but something we compose every moment, with a constant interpretation of fact and fiction, objective and subjective.

These works enter into art historic dialogue with other photographed sculptural works of Brassaï Involuntary Sculptures, Brancusi’s radiant studio photos , Peter Fischli & David Weiss photographs of balancing of everyday objects (Equilibrium Series), Gabriel Orozco’s imaging of everyday objects (like Cats and Watermelons, 1992) , Marcel Broodthaers (like Daguerre’s Soup, 1974). Griffiths’ practice has always negotiated the histories and languages of sculpture and its doubleganger, the object – he utilizes the position that sculpture can no longer signify something specific, but rather to indicate a polymorphous objecthood.

Brancusi articulated the studio around groupes mobiles (mobile groups), through categories of sculpture, bases, and pedestals. Griffiths and Kent have set up a more relaxed and open grouping strategies where approaches can be reconfigured daily. This results in pictures shifting attitude, from the literal and obvious to the magically obscure; in the photograph Power, History and Comfort (2019) all the chairs from the artists’ studio are collected together. Through this simple arrangement the work starts to speak of different spaces, activities (work and leisure) and periods of design; in Germany to Spain, England back to Germany (2019) an array of green objects are lined up, the title absurdly maps out the objects origins; in European Magic (2019) a bike flies through the dusk lit studio.

ABOUT THE ARTISTS

Brian Griffiths (b. 1968, Stratford-upon-Avon) lives and works in London. His recent solo exhibitions include: Vilma Gold, London (2016); BALTIC Centre for Contemporary Art, Gateshead (2015); Tramway, Glasgow (2014); Galeria Luisa Strina, São Paulo (2012). Recent group exhibitions include: Voyage, Berjamin & Gomide, São Paulo (2017); Nuit Américaine, Office Baroque, Brussels (2014); Folk Devil, David Zwirner New York (2013); British Art Show 7: In the Days of the Comet, Hayward Gallery, London and touring (2010-11); Rude Britannia: British Comic Art, Tate Britain, London (2010).

Frank Kent (b. 1982) lives and works in London; he studied at Royal Academy Schools, London and Nottingham Trent University. Previously shows and commissions include: New Works, solo exhibition at Fold Gallery, London, 2017; Green backrests for lectures and other events, commission for Royal Academy Schools, London, 2015; Site & Situ, three-month residency at Surface Gallery, Nottingham, UK, 2011; Visual Delusions, solo exhibition at Bend In The River, Gainsborough, UK, 2011.

Posted by Patricia Canetti at 3:00 PM