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dezembro 16, 2003

Hora de crescer – o diálogo

Hora de crescer - o diálogo

PATRICIA CANETTI

Termino o ano com um sentimento contraditório de termos solidificado este canal entre nós neste difícil 2003, mas com a sensação de que ainda nos falta implementar um diálogo mais largo e profundo entre as diferentes experiências da coletividade. Trabalhar com arte e cultura no Brasil é tarefa árdua. Promover a comunicação entre as diferentes linguagens que criamos, os diversos profissionais engajados na produção, difusão e comercialização destas e as variadas regiões do Brasil e do mundo, que formam este nosso contexto, para com isso efetivar trocas e parcerias mais férteis e duradouras, me parece cada vez mais complexo e fundamental para o nosso crescimento.

Fui assistir ao Trópico na Pinacoteca que reuniu no sábado, 29 de novembro, os críticos e curadores de arte, Adriano Pedrosa, Daniela Bousso e Lisette Lagnado para debater sobre a pertinência do formato dos salões de arte nos dias de hoje. Desde que fiquei sabendo da formação da mesa, observei que não havia a presença de artistas entre os debatedores, e que portanto, mais uma vez, teríamos uma discussão capenga sobre o assunto - focada nos interesses de quem estuda, trabalha e intermedia a produção, mas não nas necessidades de quem a produz. (Também em Porto Alegre, no seminário "Museus de arte: a experiência brasileira", quando curadores e diretores de instituições se reunem para discutir, entre outras coisas, o espaço para o experimentalismo dentro dos museus, um tema tão importante para a produção artística, a opinião dos artistas não se fez necessária.)

Por paradoxal que possa ser, o enfoque principal dado pelos palestrantes à transformação dos salões foi o da necessidade de haver um maior diálogo entre a produção de arte e a crítica. O diálogo proposto dizia respeito ao momento específico do acompanhamento da produção artística, mas deixava de fora o processo de avaliação desta produção. Com exceção da fala de Daniela Bousso que citou algumas iniciativas artísticas - como o Rés do Chão, o Canal Contemporâneo e o espaço experimental de Graziela Kunsch em São Paulo, que exercitam alternativas aos caminhos instituídos no circuito de artes - e colocou que os artistas deveriam participar do debate sobre novas formas de avaliação e incentivo da produção artística; o enfoque dado ao diálogo neste debate foi recortado de um contexto político maior - mesmo levando em conta o embate artista-crítico, o curador e a instituição, faz falta o olhar crítico dos artistas frente aos espaços institucionais. Se na contemporaneidade o fazer artístico se desdobra para além de conceitos, também em estratégias, e estas englobam não apenas a obra, mas transbordam em direção à recepção, ao coletivo e ao próprio circuito de arte, como entender um diálogo entre crítica e arte restrito a um único momento?

Adriano Pedrosa falou da experiência da Bolsa Pampulha de residência artística em Belo Horizonte, conceituada por ele para ocupar o lugar do antigo Salão na cidade. A nova iniciativa para avaliação e premiação da produção emergente focou seu interesse na produção artística de 12 artistas selecionados e no acompanhamento crítico por parte dos teóricos que os selecionaram. Com isso, a Bolsa proporcionou um diálogo que abrangeu desde o pensamento crítico da obra até o seu desenvolvimento em direção à exposição no MAP, passando pelas relações com a curadoria e a instituição, proporcionando ao artista selecionado o contato com estas várias fases dessa experiência institucional. Ele ressaltou que a Bolsa trazia aí uma diferença importante em relação aos Programas de Exposições, que ele considera muito próximos ao formato dos salões, que vem mantendo contato e diálogo superficiais com a produção de arte.

Contato e diálogo são temas que interessam muito ao Canal Contemporâneo por serem práticas essenciais à construção da rede. São peças da comunicação que perpetuam a formação de elos e vínculos que vão tecendo esta teia e aumentando a sua vascularização. São módulos individuais que se entrelaçam promovendo extensão e profundidade no espaço cibernético - "As relações são o espaço". A primeira opção fundamental para o Canal Contemporâneo foi a da escolha do maior conjunto a ser trabalhado, o contexto abrangente do circuito de arte contemporânea, que conteria inúmeros sub-conjuntos representando diferentes coletividades. Promover contatos e diálogos entre estes diferentes grupos, que normalmente não dividiriam uma exposição ou uma mesa de bar por não se perceberem como pares (os iguais para nós falam a mesma linguagem, dividem conceitos ou estratégias), por mais superficiais que fossem a princípio, configura a base desse espaço antropológico (ver conceito de Pierre Lévy em A inteligência Coletiva).

Contato e diálogo, tanto um quanto o outro precisam de apoio e troca para acontecerem, dando se em diferentes níveis e por camadas. Pensei sobre isso no início do espetáculo de Lia Rodrigues, "Aquilo de que somos feitos", quando fui assistí-lo no teatro Villa-Lobos, aqui no Rio. Ao ver os corpos nus se tocando, se servindo de apoio mútuo para mesclarem-se e construir novas formas humanas, percebi nesse diálogo silencioso de movimentos delicados a importância do outro na comunicação e no uso desta para a transformação e construção de novas propostas. Diferentemente de outros criadores da área de espetáculos, nós profissionais ligados às artes visuais e tecnológicas ainda engatinhamos no exercício do coletivo e suas práticas (como a do diálogo), sendo este aspecto uma desvantagem bastante significativa entre nós em relação às exigências da contemporaneidade.

Voltando ao debate, algumas colocações deixaram evidente a falta de contato entre os diferentes pontos de vista de nosso circuito (outra noção de coletivo). Enquanto artistas emergentes lidam com a realidade de um mercado incipiente que deixa aos defasados salões as tarefas de dar visibilidade à produção nacional e de julgar a sua qualidade, alguns críticos, como foi o caso de Lisette Lagnado, se perguntam o porque de existirem tantos salões e ainda não percebem a relação entre estes e o mercado, ou, como foi o caso de Adriando Pedrosa, não consideram o nosso mercado fraco, ou ainda, como foi o caso de Daniela Bousso, percebem um arrefecimento da arte aonde não existe a crítica.

A conclusão da mesa deste debate foi de que um novo modelo deveria nascer da mescla de várias experiências de salões, prêmios, bolsas, mapeamentos, programas de exposições, vivências e semanas de arte. A minha pessoal foi a de que precisamos urgentemente exercitar a nossa capacidade de diálogo que estimule as relações de alteridade partindo da percepção do outro e das diferenças.

Patricia Canetti é artista e criadora do Canal Contemporâneo.

Posted by Patricia Canetti at 2:00 PM