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fevereiro 5, 2020

Ximena Garrido-Lecca + Neo Muyanga na Bienal, São Paulo

Primeira individual da 34ª Bienal traz reflexões sobre a colonização na América Latina;

> Mostra leva ao 3º piso do Pavilhão exposição de Ximena Garrido-Lecca, cuja obra reflete sobre a história do Peru;

> Programação em 8 de fevereiro inclui performance musical inédita do sul-africano Neo Muyanga, com coro de 40 vozes e colaboração do coletivo paulistano Legítima Defesa e da artista Bianca Turner;

> A “dinâmica do ensaio”, do experimento, da tentativa e erro, um dos parâmetros que norteia 34ª Bienal, se antevê nesta primeira apresentação pública, revelando etapas da construção do projeto expográfico elaborado pelo escritório Andrade Morettin Arquitetos.

A 34ª Bienal de São Paulo – Faz escuro mas eu canto, abre no sábado, 8 de fevereiro, a partir das 9 horas, a primeira da série de três exposições individuais que introduzem parte dos temas que serão tratados retomados pela mostra principal, em setembro deste ano. A mostra monográfica de Ximena Garrido-Lecca (n. 1980, Lima, Peru) inaugura a série com 9 obras, entre instalações, fotografias e vídeos, que estarão expostas no 3º pavimento do Pavilhão da Bienal até 15 de março. Trata-se da primeira exposição individual no Brasil da artista, que trabalha entre Lima e Cidade do México e pesquisa a história do Peru e os impactos dos processos coloniais e suas consequências contemporâneas. No mesmo dia, às 11 horas, o sul-africano Neo Muyanga (n. 1974, Soweto) apresenta a performance musical inédita A maze in grace, que vai se espalhar por diversos pisos do Pavilhão, ao redor de seu icônico vão central.

Ximena Garrido-Lecca

Em sua obra, Garrido-Lecca parte com frequência de um estudo de técnicas e materiais empregados no artesanato, arte e arquitetura ao longo da história peruana. As instalações apresentadas na 34ª Bienal utilizam técnicas ancestrais de cerâmica e a tecelagem, além de materiais como cobre, barris de petróleo, óleo, madeira, arame, pregos e plantas. Um de seus trabalhos mais emblemáticos, Insurgencias botánicas: Phaseolus Lunatus [Insurgências botânicas: Phaseolus Lunatus], de 2017, é uma instalação com estrutura hidropônica em que são plantadas mudas de favas da espécie Phaseolus lunatus. Como as plantas irão crescer ao longo do ano, o público terá a oportunidade de acompanhar diferentes momentos da transformação da instalação, num movimento que de certa forma simboliza o da própria Bienal, que é inaugurada agora mas irá se ampliando, transformando e problematizando até dezembro. Para Garrido-Lecca, o gesto de cultivar as favas representa uma espécie de re-ativação simbólica do suposto sistema de comunicação da cultura Moche, uma civilização peruana pré-incaica que desenvolveu complexos sistemas hidráulicos de irrigação e que, segundo teorias, valia-se das manchas presentes nessas favas como signos para uma escrita ideogramática.

Outra obra de destaque é a instalação Proyecto país [Projeto país], que integra a série Paredes de progreso [Paredes de progresso], realizada pela artista entre 2008 e 2012, a partir de uma pesquisa sobre anúncios pintados em paredes de adobe na região do Vale Sagrado, no Peru. Erguidos segundo uma técnica construtiva tradicional, frequente pelo território rural do país, esses muros se tornaram suporte para slogans políticos e logotipos partidários, que vão desvanecendo até desbotar por completo, ou até a dissolução das próprias paredes, já que o adobe, quando exposto à intempérie, se desfaz pouco a pouco na paisagem. Proyecto país foi o nome de um pequeno partido político que participou das eleições peruanas em 2006, mas que acabou se retirando do pleito e desaparecendo devido à falta de seguidores.

Para criar a série de fotografias Divergent Lots [Lotes divergentes], Garrido-Lecca fotografou Pucusana, distrito litorâneo da província de Lima, por três anos (2010-2013). A artista documentou uma série de estruturas compostas originalmente por esteiras de bambu e postes de madeira, e que, ao longo dos anos, passaram a incorporar materiais como tijolos e concreto. Tais estruturas temporárias são construídas com o intuito de reivindicar a posse da terra nessas áreas, marcadas, desde a década de 1950, por um grande afluxo migratório de populações que deixam as regiões agrícolas andinas e buscam condições de vida e de trabalho melhores nas áreas de desenvolvimento industrial e urbano. A população migrante ocupa porções de terra e procura formas de sobrevivência frequentemente ligadas a setores informais da economia. O vídeo Líneas de divergencia [Linhas de divergência] documenta um momento recente das ocupações no entorno de Pucusana; as linhas marcadas com giz no deserto dividem terras já registradas em lotes e demarcam novos terrenos.

Carla Zaccagnini, curadora convidada da 34ª Bienal, explica: “começamos a 34a Bienal de São Paulo com esta série de obras de Ximena Garrido-Lecca. Obras que podem nos ajudar a enxergar as relações existentes entre a invenção da eletricidade, a extração do cobre, a demarcação da terra, a depredação do solo e a disseminação de povos. Porque sabemos que a arte pode nos dar ferramentas para lidar com momentos difíceis em que outras linguagens nos faltam ou falham”.

A exposição é realizada em parceria com o CCA Wattis (São Francisco, EUA), que, em 2021, vai receber uma individual da artista como parte das colaborações internacionais da 34ª Bienal de São Paulo.

Neo Muyanga – A maze in grace

No dia 8 de fevereiro, às 11 horas, acontece a performance inédita do compositor, artista sonoro e libretista Neo Muyanga, A Maze in Grace. À ocasião, um coro de 40 vozes vai ocupar os três andares do Pavilhão da Bienal, ao redor de seu vão central, cantando uma nova composição para a melodia da conhecida Amazing Grace [Graça sublime], frequentemente apresentada como um hino de rituais de luto público em diferentes partes da África, e que possui conotação política religiosa para a comunidade afro-americana nos EUA. O trabalho de Muyanga propõe a desconstrução e um novo olhar sobre a canção, composta, em 1772, por John Newton, um traficante de escravos britânico branco que se converteu e tornou-se um pastor anglicano abolicionista no final do século XVIII após uma série de experiências de quase morte. O coletivo teatral paulistano Legítima Defesa, que realiza ações poético-políticas de reflexão e representação da negritude, também participa da performance, assim como a artista Bianca Turner (n. 1984, São Paulo, Brasil), que assina o videomapping utilizado na obra.

Para além de sua realização no dia 8, que dá início ao programa da 34a Bienal de São Paulo, a nova obra de Muyanga se desdobra em outros dois momentos: a performance que, em julho, abrirá a 11a Bienal de Liverpool, instituição parceira na realização deste trabalho; e a instalação audiovisual que integrará a mostra coletiva da 34ª Bienal, em setembro. Composta a partir de seu país, a África do Sul, e com realizações no Brasil e Inglaterra, essa obra religa os vértices do chamado “triângulo do Atlântico”.

Segundo Paulo Miyada, curador adjunto da mostra, “é difícil imaginar uma forma mais propícia de abrir a programação de uma Bienal intitulada ‘Faz escuro mas eu canto’, pois Neo Muyanga relembra o quanto uma canção de esperança está marcada pela violência e pela crueldade e, então, reencanta sua sonoridade com elementos musicais e discursivos da história dos homens e mulheres negros brasileiros e africanos – justamente aqueles que protagonizaram e protagonizam a luta pela emancipação racial que dá sentido a essa canção”.

Poética do ensaio

Um dos aspectos norteadores do trabalho curatorial da 34ª Bienal é a noção de “ensaio”, que permite encarar o projeto como um processo, um espaço onde as coisas se apresentam sem a ambição de ser definitivas, amplificando a importância da ressignificação que surge das relações que se criam ao longo do tempo. É nesse sentido que a expografia da individual de Garrido-Lecca configura a primeira apresentação do projeto arquitetônico desta edição da Bienal, elaborado por Andrade Morettin Arquitetos. Segundo Jacopo Crivelli Visconti, curador geral da edição, “a arquitetura que abriga a primeira exposição é em si mesma um exercício, o gesto inaugural de uma construção que se estratificará e ganhará complexidade ao longo do ano. As obras de Ximena Garrido-Lecca e Neo Muyanga que se apresentam agora irão se carregar de outros significados ao entrar em relação com as de outros artistas, em setembro. Analogamente, o espaço que a arquitetura já delimita, mas que o primeiro movimento da exposição não ocupa, não é um espaço vazio: é um espaço em potência”.

34ª Bienal de São Paulo

Marcada pelo encontro e potencialização mútua entre projeto curatorial e atuação institucional, a 34ª Bienal de São Paulo enfatiza poéticas da “relação”, a partir de pensadores como Edouard Glissant e Eduardo Viveiros de Castro, e adota uma estrutura de funcionamento inovadora, que envolve a realização de mostras e ações apresentadas no Pavilhão da Bienal a partir de fevereiro de 2020 e a articulação com uma rede de 25 instituições paulistas. Quando o pavilhão for inteiramente tomado pela mostra, a partir de setembro de 2020, essas instituições promoverão, em seus próprios espaços, exposições de artistas que também participam da Bienal, enfatizando como a compreensão de uma obra é sempre influenciada pelas “relações” que se criam com as obras que a rodeiam e com o contexto onde é exposta. Com curadoria geral de Jacopo Crivelli Visconti e equipe curatorial composta por Paulo Miyada (curador adjunto), Carla Zaccagnini, Francesco Stocchi e Ruth Estévez (curadores convidados), a 34ª Bienal de São Paulo é intitulada “Faz escuro mas eu canto”, verso do poeta amazonense Thiago de Mello. Para as publicações, Elvira Dyangani Ose atua como editora convidada, e sua participação é uma colaboração com The Showroom, London.

Para José Olympio da Veiga Pereira, presidente da Fundação Bienal de São Paulo, “a 34ª Bienal acontece como fruto de um feliz encontro. Por um lado, há uma instituição que aposta na importância do diálogo e na potência de sua rica teia de parceiros. Por outro, encontra-se um projeto curatorial que se apropria da vocação e dos pontos fortes da instituição e da cidade de São Paulo ao propor o formato inédito desta edição. Nos tempos e espaços expandidos das mostras, espera-se multiplicar as possibilidades de contato e relacionamento com a arte, pois é em sua capacidade de transformação e abertura para o outro que residem a força e a motivação desta Fundação”.

Para as três exposições individuais, foram convidadas artistas em meio de carreira de diferentes origens e pesquisas, que têm em comum o fato de serem autoras de produções relevantes, complexas e instigantes: além da mostra de Ximena Garrido-Lecca, agora em fevereiro, será realizada em abril a mostra individual da brasileira Clara Ianni (n. 1987, São Paulo, SP) e, em julho, a exposição da fotógrafa estadunidense Deana Lawson (n. 1979, Rochester, NY). A abertura da mostra de abril será simultânea à apresentação de uma performance do argentino León Ferrari (1920-2013, Buenos Aires). Uma terceira performance acontece na abertura da grande mostra coletiva realizada no Pavilhão da Bienal, a partir de setembro: trata-se da obra inédita de Hélio Oiticica (1937-1980, Rio de Janeiro), A Ronda da Morte, concebida pelo artista em 1979.

Faz Escuro Mas Eu Canto

Encarado mais como uma afirmação que como um tema, o título da 34ª Bienal de São Paulo, “Faz escuro mas eu canto”, é um verso do poeta Thiago de Mello, publicado em livro homônimo do autor em 1965. Em sua obra, o poeta amazonense fala de maneira clara dos problemas e das esperanças de milhões de homens e mulheres ao redor do mundo: “A esperança é universal, as desigualdades sociais são universais também (...). Estamos num momento em que o apocalipse está ganhando da utopia. Faz tempo que fiz a opção: entre o apocalipse e a utopia, eu fico com a utopia”, afirma o escritor. Jacopo Crivelli Visconti completa: “por meio de seu título, a 34ª Bienal reconhece o estado de angústia do mundo contemporâneo enquanto realça a possibilidade de existência da arte como um gesto de resiliência, esperança e comunicação”.

Posted by Patricia Canetti at 5:02 PM