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agosto 11, 2017

Frestas - Trienal de Artes do Sesc em Sorocaba

A partir de 12 de agosto, “Frestas – Trienal de Artes” ocupa Sorocaba (SP) com obras que discutem a noção de verdade na arte e nos discursos midiáticos

Promovendo a descentralização dos polos de arte contemporânea no país, a 2ª edição do evento realizado pelo Sesc tem curadoria de Daniela Labra

Entre projetos comissionados, intervenções urbanas e performances, cerca de 160 obras de 60 artistas brasileiros e internacionais serão apresentadas no Sesc Sorocaba e em diferentes pontos da cidade do interior paulista

O Sesc abre no dia 12 agosto, em Sorocaba, a 2ª edição de “Frestas – Trienal de Artes”. Com o tema Entre Pós-Verdades e Acontecimentos e curadoria da crítica de arte Daniela Labra, o evento gratuito ocupará diversos pontos da cidade, localizada a 90 km de São Paulo, até 03 de dezembro de 2017.

“Além de promover o intercâmbio entre artistas locais, regionais e internacionais, Frestas contribui para a descentralização dos polos de arte contemporânea no Brasil ao proporcionar o acesso a diferentes formas de bens culturais ao público do interior paulista”, afirma Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo.

Entre projetos comissionados, performances, residências artísticas, intervenções urbanas e trabalhos feitos exclusivamente para a internet, a trienal apresentará cerca de 160 obras, produzidas por 60 artistas contemporâneos, de diferentes gerações e de 13 países, que discutem as ambiguidades presentes nas artes e as duvidosas verdades nos discursos midiáticos cotidianos.

“A proposta curatorial aponta caminhos para refletir acerca da impossibilidade de definir Verdade, tanto nas atuais narrativas políticas globais, sustentadas por redes de memes, falsos profetas e populismos midiáticos, como também na arte, cujas certezas sobre sua natureza regrada começam a ruir já no final do século XIX”, diz Daniela Labra, que definiu cincos eixos para a exposição: ambiguidades formais; transdisciplinaridade; performatividade; gênero e sexualidade; crítica social.

A mostra principal de Frestas acontece em uma área de 2.300 m2 construída especialmente para o evento no estacionamento do Sesc Sorocaba. Lá estarão trabalhos de renomados artistas brasileiros, como Wanda Pimentel. Representante da vanguarda da arte pop nacional, a carioca terá sua obra revisitada com relevos pintados e telas das décadas de 1960-70 pouco conhecidas, com temas urbanos e femininos. Também do Rio de Janeiro, o pintor Daniel Senise, expoente da “Geração 80”, realiza seu primeiro projeto utilizando a técnica metacrilato em fotografias. Sobre imagens do antigo refeitório dos funcionários da Estrada de Ferro Sorocabana, ele aplica objetos e resíduos retirados do próprio local, que permanece abandonado.

O duo brasileiro-suíço Dias & Riedweg desenvolveu uma videoinstalação inédita baseada no acervo do fotógrafo norte-americano Charles Hovland, que registrou fantasias sexuais de clientes que responderam seu anúncio em jornais nova-iorquinos entre 1970 e 1980. O mato-grossense Gervane de Paula critica de forma bem humorada a construção de símbolos do Pantanal frente a problemas da região, como a devastação agrícola e o tráfico de drogas. Em uma de suas obras, souvenires de onças, jacarés e frutas surgem ao lado de um grande cachimbo de crack, que no lugar de pedra de fumo tem tuiuiús prestes a serem queimados.

Ainda entre os brasileiros, Fabiano Marques investiga procedimentos da justiça, aludindo à infância vivida na cidade de Sorocaba durante anos repressivos da ditadura militar, Ricardo Càstro, da vizinha São Roque, criará um espaço com luzes, cores, cristais e mobiliário interativo, evocando um ambiente poético de energização e regeneração espiritual, e o paulistano Thiago Honório, traz o inédito tríptico “Alvo, Revolver e Bala”: um boneco em escala humana tem corpo constituído de bandejas de balas de coco, uma instalação com carcaças de pistolas antigas na altura das mãos do público e um palhaço cujo nariz é esticado até provocar um tenso sorriso.

O espaço expositivo também recebe destaques internacionais, como obras da fotógrafa norte-americana Francesca Woodman (1958-1981), com um expressivo conjunto de imagens que revelam força e urgência nos sujeitos retratados, muitas vezes, ela própria; a artista e médica legista mexicana Teresa Margolles, que criou uma coleção de joias em ouro 18K com estilhaços de bala ou vidro retirados de corpos de vítimas da guerra do narcotráfico em seu país; o alemão Michael Wesely, que desenvolveu uma técnica para registrar a passagem do tempo e exibe, em primeira mão, imagens captadas nas manifestações favoráveis e contra o impeachment de Dilma Rousseff; e o cubano Reyner Leiva Novo, que montará um grande e colorido painel com escovas de dentes usadas, trocadas por escovas novas com moradores de um bairro de Sorocaba.

Outros locais do Sesc também serão ocupados por Frestas. Na área expositiva no térreo do edifício principal, estará o “Departamento de Reclamações”, do coletivo norte-americano Guerrilla Girls. Realizado no ano passado na Tate Modern, em Londres, o trabalho das artistas feministas – que não revelam sua identidade e sempre aparecem em público com máscaras de gorila – convidam os visitantes a entrarem e registrarem qualquer tipo de queixa.

Na área externa, o anfiteatro ganhará diversos manequins pintados de verde cintilante que, por meio de efeito chroma key, são a base de fundo de um vídeo inédito do carioca Pedro França. Já na ponte estaiada que liga os dois prédios da unidade, o paulistano Daniel Lie construirá uma grande instalação ornamental com plantas naturais e a expressão “Passa Logo”, referente tanto ao local de passagem como a vida breve da obra e da humanidade. Até a fachada será usada como suporte para uma intervenção artística. O gaúcho Daniel Escobar negociou com cinco comerciantes da cidade a retirada de uma letra que anunciava o nome de seus estabelecimentos, formando com elas a palavra “Sonho” na frente do Sesc Sorocaba.

FRESTAS PELAS RUAS DE SOROCABA

Frestas carrega em seu título o sentido do nome Sorocaba, que, traduzido do tupi-guarani, significa o “lugar da rasgadura”. Por isso, a trienal não poderia ficar restrita às dependências do Sesc. Nesta edição, ela também estará em ruínas históricas, estabelecimentos comerciais e espaços públicos de grande circulação da cidade.

Maria Thereza Alves, brasileira radicada nos EUA, pesquisou vestígios de comunidades indígenas na região de Sorocaba, mas o único registro encontrado foi uma urna mortuária em um museu da cidade que não tem acesso ao público. Surgiu assim o projeto “Um Vazio Pleno”. O ceramista indígena Maximino Kalipety, de Dourados (MT), confeccionou réplicas da urna, que serão enterradas em 16 pontos no centro, de modo a reinserir a presença indígena na cidade.

O terminal de ônibus Santo Antônio foi o local escolhido pelo carioca Gustavo Speridião para seu projeto. Todos os dias, às 6h e 18h, os passageiros do local ouvirão uma gravação à capela do centenário hino “A Internacional”, ao mesmo tempo uma homenagem ao trabalhador e um irônico comentário sobre os fins das utopias e as ainda precárias condições trabalhistas de hoje. Já em uma praça em frente à rodoviária, o paulistano André Komatsu criará uma estrutura de biombos, como um labirinto, lidando com aspectos como público e privado, passagem e impedimento.

Um dos principais nomes de arte urbana no mundo atualmente, o grafiteiro NUNCA (Francisco Rodrigues da Silva), de São Paulo, utilizará a empena cega de um edifício no centro de Sorocaba para produzir um painel de 38 metros de altura, abordando o universo popular e jovem brasileiro. A carioca Panmela Castro terá um muro do histórico edifício da Secretária de Cultura para questionar o lugar da mulher na sociedade patriarcal e no grafite, além de realizar uma performance e instalação sobre estereótipos femininos, na unidade do Sesc.

No Jardim Botânico da cidade, o pernambucano Edson Barrus plantará uma muda de Imburana, cuja madeira é utilizada por artesãos de seu estado para esculpir imagens de santos. Por fim, em uma área na divisa entre Sorocaba e Votorantim, o mineiro Cleverson Salvaro construirá, durante residência artística, uma estrutura cuja forma está entre um muro e um portal, aludindo a discussões sobre território, fronteira e obras públicas inacabadas.

MAIS SOBRE FRESTAS E SEUS ARTISTAS

Desde a inauguração de sua sede, em 2012, o Sesc Sorocaba buscava um projeto capaz de retomar as atividades desenvolvidas em colaboração com os artistas da cidade na década de 1990, durante o projeto Terra Rasgada, em parceria com a Secretaria de Estado da Cultura. Frestas surgiu a partir dessa experiência. Intitulada “O que seria do mundo sem as coisas que não existem?”, a 1ª Trienal de Artes foi realizada entre outubro de 2014 e maio de 2015, com curadoria geral de Josué Mattos.

A edição “Entre Pós Verdades e Acontecimentos” tem Yudi Rafael como assistente de curadoria; a curadoria educativa é de Fabio Tremonte; a curadoria editorial de Ana Maria Maia e Júlia Ayerbe; o projeto gráfico de Julia Masagão; e o projeto expográfico do Estúdio Gru. Participam 42 artistas nacionais e 18 dos seguintes países: Alemanha, Argentina, Áustria, Cuba, Espanha, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Guatemala, Japão, México e Peru. Confira a lista completa neste link.

SOBRE A CURADORA

Nascida no Chile, em 1974, Daniela Labra se mudou com a família para o Brasil ainda criança. Curadora independente e crítica de arte, é Pós-doutora em Estéticas da Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Desenvolve projetos de curadoria, escrita crítica e pesquisa na área de artes visuais, com ênfase na produção contemporânea, e atua principalmente com temas ligados à arte brasileira contemporânea, performance arte e história social e produção cultural do Sul global.

Em parceria com a Galeria Vermelho, de São Paulo, Labra desenvolveu, em 2005, o projeto inicial da VERBO – Mostra de Performance Arte e tem entre as principais curadorias o Festival Performance Presente Futuro, Oi Futuro, RJ (2008-2010), o Festival Performance Arte Brasil, MAM-RJ (2011), a exposição “Depois do Futuro”, EAV – Parque Lage, RJ (2016), e “Das Virgens em Cardumes e da Cor das Auras”, no Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, RJ (2016-17).

Foi professora de Teoria e Arte Contemporânea na EAV – Parque Laje, no Rio de Janeiro, e de 2014 e 2016, colaborou como crítica de artes plásticas no jornal O Globo. Atualmente, reside entre Rio de Janeiro e Berlim.

SOBRE O SESC

O programa de artes visuais do Sesc São Paulo está presente em todas as unidades da rede e lida prioritariamente com as manifestações da arte contemporânea, tendo como alicerce fundamental propostas e dinâmicas educacionais. Contempla exposições relacionadas à Arte Brasileira, Arte Latino-Americana, Arte Internacional, Arte Popular, História das Artes Visuais, Arquitetura e Design, Ilustração e Quadrinhos e Fotografia. Além do programa de artes visuais, o Sesc oferece também atividades relacionadas as linguagens artísticas de teatro, dança, música, circo, cinema e literatura, ações relacionas ao turismo social, saúde, educação ambiental e programas especiais para crianças, jovens e idosos. A instituição conta ainda com o Portal SescSP, o SescTV, as Edições Sesc e o Selo Sesc, e diversas revistas. O Sesc desenvolve, assim, uma ação de educação informal e permanente com intuito de valorizar as pessoas ao estimular a autonomia, a interação e o contato com expressões e modos diversos de pensar, agir e sentir.

PROGRAMA DE ABERTURA

DIA 12 DE AGOSTO (SÁBADO): ABERTURA PARA O PÚBLICO A PARTIR DAS 10H
9h – Encontro no Sesc Pompeia (ônibus estacionará na R. Barão do Bananal)
9h10 – Saída do ônibus de imprensa do Sesc Pompeia
11h – Encontro no Mosteiro de São Bento para conversa da artista Maria Thereza Alves com as educadoras indígenas Eunice Martim e Poty Poran Turiba Carlos e percurso por monumentos da cidade
12h – Visita às obras de Frestas instaladas em diferentes pontos de Sorocaba
13h – Almoço no Sesc Sorocaba
14h – Performance de Miro Spinelli (e convidados): Gordura trans #16 / gordura localizada #6 / gordura saturada #3
15h – Performance de Panmela Castro: Femme Maison
18h – Saída do ônibus do Sesc Sorocaba com destino ao Terminal Rodoviário Barra Funda (pode ser remarcada para outro horário, caso haja interesse dos jornalistas)
18h – Performance de Deyson Gilbert: Faustrecht (trecho do 1º ato da ópera The Bitter Plums of Chelsea Manning)
19h – Palestra com Peter Pál Pelbart: Sobre Interstícios, criação e resistência

DIA 13 DE AGOSTO (DOMINGO)*
11h – Conversa com curadores Daniela Labra, Yudi Rafael, Ana Maria Maia e Júlia Ayerbe
13h – Performance de Panmela Castro: Femme Maison
14h – Performance de Miro Spinelli (e convidados): Gordura trans #16 / gordura localizada #6 / gordura saturada #3
15h – Palestra de Maria Thereza Alves, Erik Petschelies e Poty Poran Turiba Carlos: Um vazio pleno: projeto para Sorocaba
17h – Conversa com Marko Lulic

FRESTAS – TRIENAL DE ARTES | ENTRE PÓS-VERDADES E ACONTECIMENTOS
De 12 de agosto a 03 de dezembro de 2017 em Sorocaba
No Sesc Sorocaba - R. Barão de Piratininga, 555 – Jd Faculdade – Sorocaba/SP
De terça a sexta, das 9h às 21h30; sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h30
Entrada gratuita

Posted by Patricia Canetti at 8:33 AM