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julho 29, 2013

Dirnei Prates - Verdes Complementares por Mario Gioia

Dirnei Prates - Verdes Complementares

MARIO GIOIA

Dirnei Prates - Verdes Complementares, Palácio das Artes - Galeria Arlinda Corrêa Lima, Belo Horizonte, MG - 02/08/2013 a 01/09/2013

As paisagens fotográficas de Dirnei Prates poderiam se entintar de vermelho. Mas as 12 obras agora apresentadas no Palácio das Artes são composições em que o verde sobressai, com algum destaque também estendido ao azul do céu. Vistos agora em escala generosa, são lugares a priori imersos em tranquilidade. Mas, após visadas consecutivas, percebe-se que o fundo, algo granulado, revela uma outra origem. Algo gera ruído no conjunto dos trabalhos.

Verdes Complementares certamente tem um forte componente político. O artista gaúcho se apropria de fotografias publicadas em jornais populares, com forte acento para notícias sobre violência urbana e acidentes de trânsito, e as reinventa em sua produção. Elimina qualquer traço do fato em si. Assim, corpos feridos, metais retorcidos e atendimentos de policiais e bombeiros são deixados de lado. Os fundos recortados em detalhes quase a perder seu referencial geográfico _ campos, árvores e caminhos podem ser encontrados em quase todo local _ são retrabalhados em ampliações fotográficas, nas quais os grãos das imagens, a trazer à tona a origem da superfície do papel jornal, provocam um desconforto no observador, como a perguntar sobre a ‘veracidade’ do registro colocado à frente.

Prates conduz com habilidade todo o processo. Comenta de forma crítica o mundo espetacularizado e de circulação maximizada de aspectos mais íntimos do nosso cotidiano _ o que dizer de quem lucra ao ancorar de forma sensacionalista tragédias pessoais? _, mas, sem cair em abordagens sociológicas em excesso, termina por criar um corpo de obras formalmente rigorosas e que lidam de modo contemporâneo com questões como a crise da representação e a ‘realidade’ da imagem.

Um dos videoartistas mais interessantes do Brasil _ seus títulos, muitos deles em conjunto com Nelton Pellenz, ganharam exibições e prêmios diversos _ , Prates lança para a produção fotográfica procedimentos já utilizados em audiovisuais anteriores, como o seccionamento, a montagem, a narrativa em fragmentos, realizando, então, construções autorais para serem atentamente percebidas. É como se mixasse Douglas Gordon e Thomas Demand, mas com elementos pessoais de sua vivência rotineira. E não é aleatória que a criação dessas paisagens algo inexpressivas, enfadonhas, provoque diálogos insuspeitos com a tradição da pintura de paisagem feita por aqui. É como se a robustez da natureza retratada em óleos de pintores-viajantes, por exemplo, atualmente tenha se tornado um desmanchado e incompleto pano de fundo para um espírito de tempo bem mais conflitivo, de bordas e contornos nada claros. Verdes Complementares é uma série incômoda, mas Dirnei Prates e sua severa poética nos faz lembrar que o território da arte não é ambiente para sairmos ilesos.

Posted by Patricia Canetti at 9:17 PM

julho 16, 2013

PLAYGROUND (ou Bem vindos?) por Bruna Fetter

PLAYGROUND (ou Bem vindos?)

BRUNA FETTER

Rommulo Vieira Conceição - Qualquer lugar, Casa Triângulo, São Paulo, SP - 23/07/2013 a 17/08/2013

Duas gangorras separadas por uma parede. De um lado tijolos, do outro azulejos. Lâminas de vidro brincam de espelho e multiplicam essas mesmas gangorras que talvez no reflexo se encontrem por uma fração de segundos e voltem a se desencontrar logo em seguida. Um sobe-e-desce contínuo, sempre se repetindo a si mesmo, se multiplicando e voltando ao mesmo ponto. Em simultâneo, a grade vazada permite que enfim se veja além. Uma mesa, prateleiras, um banco de praça. Um embaralhamento do dentro e fora emerge. Afinal, de que lado estou?

Este tipo de aparente contradição é uma constante na obra de Rommulo Vieira Conceição, na qual cada elemento contribui para construir uma cena ao mesmo tempo em que desconstrói a referência que a contextualizaria. É como se dispositivos de micro localização dessem pistas parciais de onde estamos. A cada pista, elemento, camada de informação acrescida, as chances de nos situarmos são reduzidas. A não localização remete a um não-lugar.

Para o antropólogo francês Marc Augé um lugar seria um espaço identitário, de construção de relações, inclusive históricas. Em oposição, não-lugares seriam espaços onde as possibilidades de manifestações identitárias e de estabelecimento de relações pessoais não ocorreriam. Espaços de passagem standartizados, como elevadores, shopping centers e aeroportos. Espaços de circulação redundante, como as gangorras de Rommulo.

Para o artista esses não-lugares são formados a partir de fragmentos do comum, do rotineiro. O banal deslocado e revestido de pintura automotiva brilhante, duas pias num jogo abstrato sobre uma bancada de granito. São planos e mais planos, de diferentes formatos, texturas. Massas de cor numa construção pictórica brilhante que conforma espaços. Arte e vida se misturam numa brincadeira formal. Concreta.

As cores vibrantes que crescem para fora das superfícies planas dos desenhos monocromáticos ganham o espaço com solidez, tornam-se os próprios objetos. A decomposição da casa presente nesses desenhos caminha para um grau de abstração ainda maior. Do acabamento industrial passamos ao artesanal. Do desenho técnico ao manual. Linhas que delimitam espaços põem noções básicas de perspectiva em cheque. Veladuras novamente confundem o observador. Uma cadeira vermelha, um corredor, ladrilhos, tantos elementos. Um espaço vazio repleto de objetos que disparam informações sobre quem somos e como interagimos. Um campo social se apresenta e nos mostra que as camadas do cotidiano são mais complexas do que parecem a princípio.

E assim Rommulo Vieira Conceição nos conduz através desses espaços sobrepostos. Não é uma praça, um playground, um quintal ou uma casa. São todas essas possibilidades em aberto que nos aproximam e nos afastam do seu trabalho. Seu mundo de desordem equilibrada nos confronta com nosso ser, habitar, compartilhar ao mesmo tempo em que nos seduz com a beleza absoluta do banal.

Bruna Fetter

Posted by Patricia Canetti at 11:52 AM

julho 11, 2013

Was ist Kunst? – Mirrors of Production por Tobi Maier

Was ist Kunst? – Mirrors of Production

TOBI MAIER

Was ist Kunst? - Mirrors of Production, Galeria Jaqueline Martins, São Paulo, SP - 11/07/2013 a 17/08/2013

A exposição Was ist Kunst? – Mirrors of Production introduz a interrogação “o que é arte?” apresentando uma série de trabalhos feitos por uma seleção de artistas de Brasil e Europa. A mostra não tem a pretensão de responder a este questionamento. A história da arte moderna está repleta de esforços voltados a definir a noção de arte. Was ist Kunst? – Mirrors of Production procura ser um jogo descontraído que expõe a maneira como os artistas encaram a arte, desde uma perspectiva metafísica, estética e/ou histórica, ou bem, vista como um veículo de crítica institucional.

A questão de definir a arte tem também despertado muita atenção de outras esferas do conhecimentos como a literatura e da filosofia. No ensaio O que é literatura? de 1949, Jean-Paul Sartre comentava sobre a autonomia e comprometimento da arte. Sartre estava preocupado principalmente com os meios usados para se alcançar o fim, e escreveu que para ele “a obra de arte é um valor porque é um apelo”. Em seu recente livro O que é Arte? o filósofo norte-americano Arthur C. Danto parece concordar com Sartre quando define que “... uma coisa é considerada uma obra de arte quando carrega um significado”. Similarmente, esta exposição originou-se do interesse em conhecer o que as obras de arte têm a dizer, o que elas estão exortando, as histórias contadas por elas, ou em outras palavras, o mecanismo que elas operam.

No final dos anos 1990, durante uma entrevista com Jean Baudrillard na qual foi discutida sua relação com a arte, o sociólogo e crítico cultural francês argumentou sobre a “metafísica do objeto, da imagem”. Posteriormente ele escreveu sobre o Centro Pompidou, apelidou-o de monstro e afirmou “Beaubourg interessa-me, mas não estritamente como arquitetura, senão que enquanto objeto”. No que diz respeito à arquitetura e ao design, aparentemente a questão sobre qual é o significado e a motivação deles, também tem norteado o entendimento de Baudrillard. O título de esta exposição está então também relacionado com indagações tais como “O que tem ali?” e “Como é isso?” questionando a lógica tradicional objeto-sujeito que tem sido colocada em dúvida desde o minimalismo, e mais tarde, com o advento da chamada estética relacional.

A artista Andrea Fraser considera que a maior parte da arte que vê hoje é uma “produção cultural”. Enquanto a prática artística para ela “resiste, ou tem a intenção de resistir, funcionando como a cultura representativa de um grupo particular – quer seja os produtores, fruidores, ou compradores de arte...”. Dentro desse cânone da arte como uma prática socialmente engajada, a noção de resistência em arte encontra-se também presente quando a socióloga Chantal Mouffe considera a arte como uma plataforma de articulação que pode dar origem a novas subjetividades.

Os escritos de esses pensadores e artistas são algumas das ideias e referências que impulsionaram a concepção de esta mostra, num momento em que o mercado de arte brasileiro atingiu recordes históricos, e obras de arte já não são meramente admiradas por seu valor estético, senão que também são alvo de especulação financeira, sendo consideradas uma mercadoria em escala global.

O título da exposição remete então a um discurso de dentro da crítica de arte, porém numa versão mais literal ele se inspira na pergunta Was ist Kunst? (O que é arte?), que – colocada em alemão – é o título de duas séries de trabalhos, uma delas criada pelo artista sérvio Raša Todosijevic e outra pelo coletivo esloveno IRWIN. Na primeira, “Vítimas” – galeristas, trabalhadores de museus etc. – são interrogados a gritos: "Was ist Kunst?", deste modo Todosijevic formula uma crítica radical ao sistema da arte nos anos 1970. Durante essas performances Todosijevic ficava cada vez mais excitado enquanto as “vítimas” permaneciam indiferentes e totalmente passivas. Em Edimburgo em 1975 o artista questiona numa declaração em formato de manifesto: “Quem obtém lucro com a arte? E quem realmente ganha com ela?” Depois ele lista todas as profissões que direta ou indiretamente se beneficiam com a produção artística.

Um dos mais importantes projetos do grupo IRWIN em meados da década de 1980 foi Was ist Kunst?, que foi se desenvolvendo ao longo do tempo numa série de mais de cem pinturas a óleo emolduradas. Essas pinturas continham montagens de Agitprop (propaganda) socialista realista, e citavam temáticas da arte modernista eslovena da década de 1960. A isso, IRWIN soma figuras arquetípicas Laibach: trabalhadores metalúrgicos, veados, chifres de veado, machados, a imagem de uma pessoa tomando café, engrenagens, e uma cruz preta ao estilo Malevich. Os materiais usados nas pinturas são surpreendentes: sangue, alcatrão, pele animal, carvão, madeira, folha de ouro e outros metais, enquanto as pesadas molduras estão compostas por alcatrão preto, madeira ou carvão. Confundindo os limites entre realismo social e folclore, a coleção de obras evidencia as diferentes ideologias expressadas nas artes.

Ao entrar na galeria, o observador depara-se com os trabalhos de joalheria da artista Ula Johnsen. A decisão de incluir peças de joalheria numa exposição de arte contemporânea enfatiza radicalmente o questionamento apresentado no título do evento. As artes aplicadas têm sido frequentemente marginalizadas no discurso em torno da arte contemporânea, apesar de precoces tentativas de incluir esta prática tão importante nas bienais internacionais, como no caso dos laboratórios propostos por Vilem Flusser na 12° Bienal de São Paulo em 1973. A inclusão desses trabalhos na mostra questiona um aparente elitismo das mídias empregadas na produção de arte contemporânea, e ao mesmo tempo destaca o contexto da galeria como um espaço de comercialização de bens preciosos.

No mesmo espaço se apresenta Stockholm Ping-Pong Cultural Situation de 2006 do artista eslovaco Julius Koller. Ping-Pong Society é um projeto concebido por Koller em Bratislava em 1970. No lugar de uma exposição ele organizou um clube de pingue-pongue onde os visitantes podiam jogar. O trabalho aqui presente é uma das tantas mesas diferentes que o artista produziu durante toda sua vida. Ao longo da última década, os conceitos de Koller de anti-happening, anti-pintura, suas ações, objetos, textos, e o seu arquivo coletado desde os anos 1960, têm recebido merecida atenção. A exposição mostra também uma série de trabalhos relacionados com o UFO Gallery Ganek de 1981, uma galeria ficcional inacessível no maciço montanhoso dos Altos Tatra, resultante das expedições que Koller realizou com um pequeno círculo de amigos.

Durante um festival de arte no teatro municipal São Paulo em 1978, Regina Vater realizou o questionário O que é Arte - São Paulo responde e produziu mais tarde um livro de artista, com as respostas obtidas por parte do público. Em 1980 ela reutilizou o mesmo questionário durante um festival organizado por Charlotte Moorman em Nova York; as respostas coletadas nessa ocasião estão sendo publicadas aqui pela primeira vez. Na sua série X-range da década de 1970, Vater retrata o habitat de seus amigos artistas Paul Newman, John Cage, Lygia Clark, Vito Acconci e outros. Produzida no mesmo período, sua série Arte questiona a metafísica do objeto de arte, atribuindo esse status a uma bexiga rosa, um prato de sopa ou um pedaço de sabão de limpeza. Assim a artista usa estes objetos como parte de um discurso metafórico de critica a arte e seu ambiente.

Gastão de Magalhães é um dos protagonistas do movimento de arte postal brasileiro. O trabalho textual selecionado para integrar esta exibição foi realizado em 1972 e apresentado na 6° JAC (Exposição Jovem Arte Contemporânea) no MAC/USP. No texto, reproduzido aqui, por primeira vez no Brasil, depois daquela ocasião, Magalhães analisa as várias características da arte como um meio de “ação e conhecimento”, um “happening” ou “sequência rítmica”, “uma atividade lúdica” e “certamente uma atividade nada passiva”. A fotografia em preto e branco Isto é Arte, de 1975, retrata o artista com as letras A, R e T, parte de um jogo de letras plásticas usado para a alfabetização de crianças. Com as letras entre seus dentes, prestes a serem destruídas, a peça é também - segundo Magalhães – uma provocação proposital contra o regime ditatorial da extrema direita, que se encontrava no poder naquela época.

No andar de cima da galeria Hugo Canoilas e Viola Yeşiltaç apresentam uma nova série de pinturas e colagens produzida especialmente para este evento. Em Untitled (Sem título), 2012, Yeşiltaç trabalha com tinta vermelha no verso de um vinil vermelho, experimentando sobre uma superfície barata, reaproveitada, criando uma representação de um cenário tropical onírico, inspirado na sua recente visita ao Brasil.

Abrangendo diferentes mídias incluindo escultura, escritura e performance musical, Hugo Canoilas tem frequentemente questionado o significado da arte e sua relação com a vida. Em seu trabalho ele costuma citar líderes políticos ou outros artistas, como por exemplo, a pintura de Albrecht Altdorfer, The Battle of Issus, de 1528-29, ou a trágica imagem de Pieter Bruegel, The Blind Leading the Blind (A Parábola dos Cegos), de 1568, ou de Henrique Bernardelli (1857 – 1936), Últimos momentos de um Bandeirante, de 1932. Nas colagens produzidas para esta mostra a apropriação de imagens encontradas domina a superfície da tela, que aparenta ter sido cortada ou rasgada bruscamente.

Finalmente, a obra My World (Meu Mundo), de 2006, foi produzida pelo artista romeno Dan Perjovschi em colaboração com o artista e compositor sul-africano Mark Schreiber. Exibida no final do percurso expositivo, My World combina visceralmente os desenhos em preto e branco digitalizados de Perjovschi com as composições descontraídas, bem humoradas de Schreiber, criadas a partir do processamento dos sons eletrônicos registrados do ato de desenhar. No seu estilo espirituoso único Perjovschi retrata questões políticas (institucionais) iminentes e recorrentes e as realidades confrontadas por ele dentro e fora dos espaços expositivos.

Consequentemente Was ist Kunst? – Mirrors of Production é também, assim como toda exposição, um tributo que devemos à produção artística atual, ainda mais depois que o escritor e curador lendário, Seth Siegelaub, escreveu que a arte conceptual dividiria o mundo da arte em “dois tipos de pessoas: artistas e todo o resto.”

Tobi Maier

Paris, Maio 2013

Posted by Patricia Canetti at 1:24 PM