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abril 21, 2011

Uma vida derretendo o status quo, por Hilarie M. Sheets, The New York Times

Texto originalmente publicado no New York Times em 13 de fevereiro de 2011

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Lynda Benglis, ainda na vanguarda da arte
HILARIE M. SHEETS

LYNDA BENGLIS trilhou seu próprio caminho desde que pela primeira vez escolheu o mundo da arte de Nova York na década de 1960. Ela prolongou as action paintings [pinturas de ação] de Jackson Pollock no final dos anos 1960 vertendo, diretamente sobre o chão, poças de vertiginoso látex pigmentado e obscurecendo a distinção entre pintura e escultura. Ela desafiou a rigidez do minimalismo no início dos anos 1970 com seus fluxos de poliuretano endurecido emborcando-se para fora das paredes e se agitando em alusões ao corpo e à paisagem. Ela satirizou o machismo do mundo da arte e a maneira como se esperava que os artistas se autopromovessem em um sistema orientado pelo mercado expondo-se com um vibrador entre as pernas em um anúncio, pelo qual ela pagou, na Artforum em 1974, o que lhe rendeu tantos fãs quanto detratores.

Com ousadia e humor, ela levou suas idéias a extremos lógicos, de uma forma que tem sido muito influente para uma nova geração interessada em tudo que vai de performance a arte processual. A fotógrafa Cindy Sherman descreveu seu encontro na época da faculdade com o anúncio da Artforum, em toda a sua audácia, como "um dos momentos mais cruciais da minha carreira".

Laura Hoptman, uma curadora no Museum of Modern Art, que contribuiu para o catálogo que acompanha a retrospectiva de quatro décadas de trabalho da Sra. Benglis, aberta na semana passada no New Museum, no Lower East Side de Manhattan, disse: "Não há ninguém como Lynda. Há um traço de independência que a retira da multidão, seja ao posar nua no anúncio da Artforum ou ao colocar brilhos em seu trabalho no momento em que a austeridade do minimalismo era extrema". Sua rebeldia foi pelo menos tão evidente em sua experimentação formal ao longo dos anos quanto naquele único gesto escandaloso.

"Ela estabeleceu um projeto desde o início, que era explorar materiais, fossem metálicos ou de poliuretano ou borracha ou glitter, e testar os limites da escultura abstrata", afirmou a Sra. Hoptman. "Ela tem feito isso até agora."

Hoje em dia a Sra. Benglis, 69, move-se entre casas em Santa Fé (NM), East Hampton (NY), Nova York; Grécia (de onde é a família de seu pai) e Índia (país de seu companheiro de vida, Anand Sarabhai). A Sra. Benglis estava entusiasmada e falante em uma tarde recente no estúdio tornado escritório em Nova York que ela tem desde os anos 1970 na Bowery, 222, um edifício habitado ao longo dos anos por Mark Rothko e William Burroughs, entre outros. A maior parte do tempo recostada em seu sofá, ela se referiu ao espaço ao seu redor, repleto de obras antigas, como um "marcador de tempo" e relembrou que mantinha distância de Burroughs ao passar por ele nas escadas. "Eu não queria cruzar com ele", disse ela.

Nascida em Lake Charles (Louisiana), onde seu pai tinha um negócio de materiais de construção, a Sra. Benglis mudou-se para Nova York em 1964 depois de estudar pintura e cerâmica no Newcomb College, a faculdade de mulheres da Universidade Tulane em Nova Orleans.

O mundo da arte na Nova York de então era menor, e ela cedo conheceu artistas incluindo Barnett Newman, Andy Warhol e David Hockney. A Sra. Benglis tem sido uma testemunha e uma catalisadora das mudanças no clima artístico de Nova York, especialmente a primazia do minimalismo.

"Para mim ele era tão fechado e sistemático que não tinha nada a ver com arte, realmente", diz. Ela adotou a vasta escala e os materiais industriais preferidos por minimalistas como Donald Judd e Carl Andre, mas deixou seu derramamento de látex colorido insinuar gestos corporais, fluidos e topografias, e enrijecer como uma espécie de pele.

O maior destes trabalhos é Contraband, vertendo por quase 40 pés (12 metros, aproximadamente). Ele foi adicionado à versão do New Museum da exposição, em cartaz até 19 de junho, que fez paradas prévias na Holanda, Irlanda, França e na Rhode Island School of Design, em Providence. A Sra. Benglis fez originalmente a peça para a mostra Anti-Illusion (1969) no Whitney Museum. Ela então, depois que os curadores expressaram desconforto com a justaposição entre a paleta Day-Glo da sua peça e obras monocromáticas por Richard Serra e Robert Ryman, retirou-a da mostra.

Ela pode evocar uma vista da Terra de uma grande distância ("Nós tínhamos acabado de estar no espaço na época, olhando de volta para nós da Lua", afirma) ou a beleza amedrontadora de muitos derramamentos tóxicos. (Contraband era também o nome do rio da Louisiana onde estavam as manchas de petróleo.) Quase quatro décadas depois da controvérsia pública gerada pela sua remoção da obra, o Whitney adquiriu a peça para sua coleção permanente.

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Outra adição para a perna norte-americana da exposição é Phantom, um de seis ambientes que a Sra. Benglis fez em 1971 em lugares ao redor do país. Para cada mostra ela afixou armações de arame de galinheiro cobertas por plástico a uma parede e derramou baldes de espuma poliuretana vibrantemente colorida sobre elas. Uma vez enrijecido o material, ela removia as armações, deixando formas evocativas de fluidos de lava, crustáceos monstruosos e tsunamis petrificados cascateando no espaço expositivo.

Para Phantom, na Universidade do Estado de Kansas, a única das instalações a ter sobrevivido, ela adicionou sais fosforescentes aos pigmentos. Os cinco membros cantileverianos da obra foram reunidos no New Museum em uma sala escurecida, onde as formas radiantes parecem estar simultaneamente elevando-se e caindo.

A Sra. Benglis relembra que o crítico Robert Pincus-Witten desconsiderou estes trabalhos na época como teatrais. "Eu disse 'o que há de errado nisso?'." Seu trabalho gritantemente ornamentado nos anos 1970 embutia diversão no que ela considerava estética puritana e teorias feministas, mas ele também abarcava suas raízes. Seu amor pela decoração e o exibicionismo corporal era parte da cultura de Mardi Gras [festa carnavalesca anual de Nova Orleans] com a qual ela cresceu.

"Todas aquelas coisas que eu vestia –máscaras, fantasias– mais tarde influenciaram minhas idéias quando eu comecei a pensar na pintura como uma pele", diz a Sra. Benglis, que fez uma série de cabeças gigantes moldadas diretamente de carros alegóricos do Mardi Gras no final dos anos 1970. Os parques de diversão de sua infância, onde ela passeava em pequenos trens e coisas saltavam do escuro, desempenharam um papel na sua concepção de Phantom.

Ainda que diga que ficou contente por Phantom ter sobrevivido, ela o vê como uma relíquia do tempo. "Para mim parecia a maneira mais direta de fazer o que eu sentia que tinha de fazer, dado o contexto do pensamento que estava em voga", afirma. Através das décadas, conforme "teatral" deixou de ser um termo pejorative no mundo da arte, a Sra. Benglis continuou a trazer uma qualidade visceral para suas experimentações com vidro, vídeo, metais, cerâmicas, folha de ouro, papel e plásticos.

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Hoje em dia, afirma, ela está mais empolgada em seu trabalho com fontes, incluindo North South East West, instalada nos jardins do Irish Museum of Modern Art em Dublin na seqüência de uma versão da retrospectiva itinerante que aconteceu lá em 2009. A obra revive a forma de uma onda crescente moldada em bronze que ela utilizou na sua primeira fonte, feita para a Feira Mundial de 1984 em Nova Orleans.

Para Dublin ela fez ondas de bronze orientadas em quatro direções que pareciam dirigidas para dentro, com água de verdade jorrando do centro e pingando sobre as congeladas formas primordiais. "Havia algo de espectral nela naquele cenário irlandês", afirma. "Você sente o prateado, os ventos, o mar e a natureza em toda parte."

Judith Tannenbaum, que organizou a retrospectiva para a Rhode Island School of Design, disse que sente que a franqueza do trabalho da Sra. Benglis possui um amplo alcance. "Ela não é uma artista da performance, mas sua fatura ativa do trabalho é de alguma forma ainda aparente nele", afirmou. "Isso teve realmente muita influência sobre uma geração."

Enquanto a Sra. Hoptman diz que jamais chamaria a artista de "popular", seu impacto na arte contemporânea é inquestionável. "Qualquer um utilizando aquele biomorfismo corporal é benglisiano", afirma. "Quem quer que esteja sendo muito franco com sua sexualidade é benglisiano. O mundo girou, e Lynda ainda está aqui e ainda é vanguarda."

Posted by Juliana Monachesi at 1:20 AM