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julho 4, 2016

O método e a métrica por Marcus de Lontra Costa

O método e a métrica

MARCUS DE LONTRA COSTA

Carlos Scliar - Da reflexão à criação, Caixa Cultural - Unidade Barroso, Rio de Janeiro, RJ - 06/07/2016 a 21/08/2016

Ao longo de seis décadas de produção ininterrupta e abundante, Carlos Scliar nos legou um extraordinário patrimônio cultural composto por suas gravuras, desenhos e pinturas. Nenhum outro artista, talvez, sintetize de maneira mais evidente os desafios, os desejos e os dilemas da ação e da estratégia modernista no Brasil.

Filho de imigrantes, homem da fronteira, desde cedo o nacionalismo foi o elemento que estruturou a identidade de Carlos Scliar. A sua sólida formação cultural e sua precoce sintonia com os anseios e as expectativas do mundo surgido após a revolução socialista de 1917, garantiram ao jovem Scliar destaque na imprensa e na vida intelectual da capital gaúcha. Diferentemente dos artistas brasileiros que tinham na França a sua referência e, muitas vezes, o seu espelho, Scliar compreendeu o espaço de construção artística moderna por meio dos filmes e gravuras expressionistas alemães. Toda a sua trajetória artística teve como origem a sua sensibilidade gráfica: clareza de composição, disciplina no processo artesanal e síntese de mensagem que faz de cada obra um meio de comunicação direta e efetiva com o seu público.

Carlos Scliar é o artista do método e da métrica. A linha é o elemento que organiza a sua aventura artística; a partir dela, de seus vetores, ele constrói formas, acrescenta cores, desenvolve a sua poética particular. Para ele, o Brasil é assunto permanente: em busca das névoas do passado encontrou-as (e se encontrou) entre as montanhas. Gaúcho, acabou por se tornar o mais mineiro de nossos artistas. Em busca da luxúria tropical, encontrou nos barcos e nas marinhas de Cabo Frio a placidez e a luminosidade que perseguia. Soube entender, como poucos, a sutil relação entre a invenção e a permanência. Soube resistir à tentação da novidade e permanecer fiel e coerente ao seu ideal de vida e de mundo. Cabe-lhe perfeitamente a máxima de Drummond: “Mais do que moderno, quero ser eterno”.

A exposição “Carlos Scliar: da reflexão à criação” permite ao público carioca reencontrar-se com obras de um dos grandes mestres da arte brasileira. O trabalho curatorial consistiu na difícil tarefa de selecionar imagens, na vasta iconografia de Carlos Scliar, que sintetizassem a sua trajetória profissional, regida por um intenso espirito humanista em sua busca de harmonizar as criações da natureza e as criações do ser humano. Por isso, flores, vegetais e frutas são expostos de maneira harmônica com uma metalurgia inicial, bules, lamparinas, frascos e lampiões. O barroco brasileiro foi constantemente visitado por Scliar numa atmosfera de concórdia e clareza gráfica.

Homem do seu tempo Scliar participou intensamente da vida nacional e viveu e conviveu com os grandes desafios da arte moderna no Brasil e no mundo. Nos anos 50, impôs-se a disciplina do desenho e da gravura, caminhando corajoso na contra maré dos movimentos abstratos. A partir dos anos 60 definiu os objetos de sua construção artística. O espaço cubista, a clareza da composição, a articulação cromática sofisticada entre os elementos pictóricos são por vezes definidos por formas geométricas, por recursos gráficos oriundos da pop-art e também por movimentos de matéria e cor que encontram identificação com os grandes mestres impressionistas do século XIX. Assim, a pintura de Scliar busca referencias na história da arte para construir uma obra poética e sensível que reflete a capacidade brasileira de se apropriar de informações variadas, várias épocas, várias etnias, várias culturas, e com isso construir uma identidade própria original e provocadora. O reencontro, portanto, com as obras desse grande mestre brasileiro, é também a identificação com imagens que formam o nosso olhar, a nossa maneira de ver, sentir e interpretar o mundo. Neste momento marcante para a vida nacional e em especial para cidade do Rio de Janeiro - que Carlos Scliar tanto amou - é motivo de satisfação e orgulho podermos apresentar ao publico que nos visita por ocasião dos Jogos Olímpicos, uma trajetória artística que reflete e representa o que temos de mais verdadeiro.

Posted by Patricia Canetti at 3:12 PM