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agosto 17, 2015

Antes era só o vão por Francisco Dalcol

Antes era só o vão

FRANCISCO DALCOL

Os trabalhos de Antônio Augusto Bueno parecem atravessados por algo que não lhes pertence, mas ao mesmo tempo os constitui. Esse aparente desacerto vem de uma indisciplina do artista, no sentido de uma postura interessada na liberdade de experimentar no trânsito entre linguagens, sem se prender a uma ou outra, intercambiando constantemente técnicas e procedimentos.

Nas obras que integram a nova série “Antes era só o vão”(1), pintura é também gravura, assim como escultura é desenho, e gravura é pintura. Os inversos também, pois um está sempre no outro, formando zonas de indefinição. E ao se contaminarem, trazem como recompensa a descoberta, com todas as aberturas e possibilidades que os momentos de incerteza ensejam.

A montagem da exposição na Mamute busca tirar força desses rebatimentos, do ir e vir que se estabelece entre as obras e as diferentes modalidades artísticas que as compõem, propondo ao espectador, a partir da disposição dos trabalhos, algumas relações visuais; umas mais imediatas, outras menos explicitadas.

A instalação na entrada da galeria ocupa o pequeno espaço vago ao lado da escada. Se antes era só um vão, há agora ali a tentativa de transformar esse não lugar em uma situação. Realizado especialmente para esta mostra, o trabalho é composto por gravetos que Antônio Augusto recolhe e estrutura em forma de armações, filiando-se a uma série de outras obras de viés escultórico que tem realizado ao longo de sua produção. É como se ele desenhasse o objeto no espaço, vendo nos galhos as linhas do desenho, mas também as manchas, quando reunidos como espécie de grandes maços e ramalhetes.

As salas expositivas do andar de cima apresentam as novas pinturas e gravuras da série “Antes era só o vão”. Nas telas em grande formato, as manchas carregam um aspecto de vestígios ancestrais, como marcas de um tempo passado. Também lembram os troncos das árvores do quintal do Jabutipê, o ateliê na antiga casa que Antônio Augusto mantém em uma rua ainda silenciosa no Centro Histórico de Porto Alegre. Remetem ainda às paredes rachadas, descascadas e fraturadas que permanecem em pé no casarão em ruínas próximo ao Jabutipê onde foi gravado o vídeo do qual vem o título desta exposição.* De algum modo, essa visualidade do entorno cotidiano do artista está impregnada nessas pinturas.

Mas nada seria assim sem a bem-vinda intromissão da gravura. Nessas pinturas, está plasmado um processo alongado e pausado, fruto de um procedimento experimental. Sobre a massa de pigmentos e tinta acrílica, o artista sobrepõe betume em algumas áreas. Esse material, muitas vezes usado nos processos de gravura, vira tinta também, compondo novas manchas. As camadas acumuladas são frequentemente raspadas, em um gesto de adição e subtração de matéria, e também cavoucadas, como nos procedimentos de incisão da gravura. É um processo não imediato, que leva dias, como o tempo de espera que muitas vezes a gravura demanda. E nesse transcorrer, que permite um olhar mais vagaroso e, por isso, reflexivo, as dúvidas advindas sempre dão a ver possibilidades a serem testadas e encaminhadas.

Pode-se pensar nesse sentido as gravuras da série. Pela primeira vez, Antônio Augusto apresenta em público um conjunto representativo de trabalhos gráficos, essa modalidade artística de tanta tradição e relevância histórica na arte gaúcha. Novamente, interessa ao artista a margem experimental, aqui oferecida pela gravura em metal e pelo tempo próprio a seu processo. Isso começa nos modos com que explora o desenho sobre as matrizes, passa pela alquimia de ácidos e outros materiais aplicados nas placas como se ele as estivesse pintando, e chega à etapa de impressão, cujas primeiras provas sempre levam o artista a refazer o percurso do processo em busca de novos efeitos. Assim, a imagem final fixada sobre o papel é antecedida por uma série de testes e experimentos. O que se obtém são resultados sobrepostos e acumulados. Ao fim, continua sendo gravura, mas também desenho e pintura. E ainda escultura. Se na instalação os gravetos se articulam como linhas no espaço, na gravura se dá o oposto, com as linhas do desenho se tramando como se fossem elas os gravetos.

Em um olhar atento, é possível perceber que, ao longo da série “Antes era só o vão”, evidencia-se um aspecto central que perpassa a totalidade da obra de Antônio Augusto de um modo tão pessoal: o gosto pela artesania e pelo vagar que lhe é inerente, opções que, ao serem assumidas pelo artista, ganham certo caráter político em tempos tão apressados e automatizados como os nossos. Tempos esses dos quais apartar-se conscientemente significa não só um ato de resistência, mas um gesto autêntico e singular de se colocar no mundo.

(1) “Antes era só o vão” é um trecho do texto de Luís Filipe Bueno que integra o vídeo apresentado na exposição.

Posted by Patricia Canetti at 2:38 PM