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fevereiro 19, 2015

Em lugar do sol veio a neve por Glória Ferreira

Em lugar do sol veio a neve

GLÓRIA FERREIRA

Karin Lambrecht - Pintura e Desenho, Instituto Ling, Porto Alegre, RS - 25/02/2015 a 10/05/2015

Hoje mais conhecida por abrigar o World Economic Forum (WEF), reunindo a elite política e financeira mundial, além de ser uma famosa estação de esqui, a cidade de Davos, na Suíça, tornou-se no século 19 um destino popular para a recuperação de doenças pulmonares. Robert Louis Stevenson e Arthur Conan Doyle foram alguns de seus hóspedes ilustres. É em seu fictício Sanatório Internacional Berghof, que se desenrola um dos grandes romances da literatura mundial do século 20, considerado um Bildungsroman: A Montanha Mágica, de 1924, de Thomas Mann. E é um subcapítulo desse romance, “Neve”, que Karin Lambrecht transcreve em sua totalidade, em aquarela preta sobre cerca de cinquenta folhas de papel de seda, que são presas com alfinetes nas finas paredes da tenda de voal, presente na exposição Pintura e Desenho. A artista visa a que o espectador entre na tenda e se deite em seu acolchoado macio, de modo a ver a luz que passa através do pano e do papel de seda, até notar a caligrafia em preto. Fica tudo um pouco solto, o pano, o papel... O título desse trabalho, Eu Sou Tu, 2014, vem em uma singular legenda: escrita em um papel ofício sobre isopor, em uma caixa de acrílico transparente, e trazendo também transcrito o início do trecho do subcapítulo “Neve” de Thomas Mann:

“Cinco vezes por dia manifestava-se em torno das sete mesas o descontentamento unânime com o tempo que o inverno ia oferecendo esse ano.” [1]

“Porque Eu é um outro”, escreveu, em 1871, Rimbaud a seu amigo Paul Demeny, denunciando os que acreditam no significado falso da palavra eu. O “Eu Sou Tu” de Karin não só evoca o poeta francês, desmentindo a pretensão do eu individual, como embaralha as subjetividades, endereçando-se ao espectador de forma direta e radical.

Em “Neve”, o jovem Hans Castorp, albergado no Berghof, faz longos passeios de esqui nas montanhas nevadas, fruindo a solidão e o silêncio absolutos, “sob o terror secreto e sagrado que, durantes horas, dominara o seu coração” [2]. De repente, ele se vê sob uma brutal tempestade de neve, da qual se salva in extremis, após muitos sonhos e devaneios. Talvez essa radical experiência de Castorp na brancura da nevasca ecoe na branca luz da tenda Eu Sou Tu. “No final, acho que a realidade e o sonho se misturam: será verídico Hans ter se perdido? Na nevasca?” [3], assinala Karin.

Em suas preocupações estéticas e éticas, Karin concede um lugar especial à questão das cores, considerando que elas sintetizariam antinaturalismo e subjetividade, podendo ser utilizadas para fins sensoriais, morais e estéticos. Assim, a tenda de voal, de 200 x 200 cm e três metros de altura, na qual é possível deitar-se, também apresenta, segundo a artista, poderes curativos. A amiga e também artista visual Gisela Waetge um dia deitou-se por um tempo na tenda e depois “contou que sentiu uma energia muito positiva”, diz Karin. E conclui: “Isso me deixou tão emocionada, pois o trabalho trata de um lugar de cura!” [4] Essa preocupação não deixa de remeter a Joseph Beuys, a quem ela teve oportunidade de assistir por ocasião de uma palestra na Escola Superior de Artes Hochschule der Künste Berlin, onde estudou entre 1980 e 1982. Do artista alemão, Karin parece guardar o anseio por retomar a dignidade espiritual e simbólica da arte, o retorno ao mundo natural, à religiosidade e à transcendência.

Em acrílico sobre tela, as pinturas Encontro e Schattenwelt (mundo das sombras) apresentam grandes campos de cor e trazem a cruz, elemento recorrente na obra da artista. Símbolo universal muito antigo, utilizada por diversas culturas, crenças e religiões, a cruz, em geral, representa boa sorte a quem a carrega. Traz, assim, um universo de significações e simbologias, inclusive aquele mais arcaico, da cruz como signo de um objeto no espaço. Em texto sobre a cruz, Karin afirma: “Criar o mundo significa marcar o território, e a imagem dos cinco pontos da cruz é a base para a conquista da consciência da experimentação interna do espaço”. [5]

O desenho Sem título/desenho (das aldeias), realizado em papel com dobraduras e colagens em relevo, lembrando uma aldeia, e pigmento acrílico laranja, traz nas dobraduras uma espécie de brilho, criando um reflexo. No canto superior à esquerda, um bloco de papel traz escrito “São Mateus” na primeira página, e “Marie”, na segunda, encoberta pela outra. Tal evocação do Apóstolo e da Mãe de Cristo remetem, talvez, aos trabalhos da artista com sangue de carneiro, que por diversas vezes também faziam referências aos apóstolos, como, por exemplo, em Desmembramento, 2000 ̶ doze metros de lona de algodão puro, marcados pelo último esguicho de sangue de um carneiro, cercados por doze desenhos A1 com os nomes dos apóstolos de Cristo, neles impressos as vísceras e cortes da carne ovina para uso doméstico.

Em seus cinco outros desenhos, todos com o título Perdão, de 2009 e 2011, como em palimpsestos, Karin incorpora pedaços de tijolos de barro, do tipo tradicional, feitos de argila, adquirindo a cor avermelhada devido ao cozimento, amplamente utilizados para construção civil, artesanal ou industrial. Aqui, emprega-os pela primeira vez em seus desenhos. Elemento, contudo, comum em sua pintura, até por utilizá-los como marcadores contra o vento forte sobre a lona. Mas, assinala Karin: “Com o passar dos anos, comecei a associar o peso do tijolo com a sensação que a forma do tijolo deixa marcada. Como uma ausência do próprio corpo físico do tijolo”. [6] Em sua pintura, como é conhecido, o uso de sucata industrial, objetos variados, terra do seu jardim, chuva, tijolos e outros elementos, assume, como assinala Virginia Aita, “a tarefa de reconfecção do próprio conceito do que é pintar”. [7] Definindo-se como pintora em seus mais de trinta anos de prática, Karin tem conjugado experimentações espaciais e de outras ordens, além da permanente aspiração à transcendência.

Glória Ferreira é Doutora em História da Arte, crítica de arte, curadora independente e professora da Escola de Belas Artes/UFRJ e da Escola de Artes Visuais do Parque Lage.

NOTAS
1 Thomas Mann. Neve. in: A Montanha Mágica. (1924). Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2000. Tr. br. Herbert Caro.
2 Thomas Mann. Ibidem.
3 Karin Lambrecht. E-mail para a autora. Em 11/01/2015. Inédito.
4 Karin Lambrecht. Ibidem.
5 Lambrecht, Karin. The reasons for the cross. Texto cedido por Karin.
6 Karin Lambrecht. E-mail para a autora, em 12/01/2015. Inédito.
7 Virginia Aita. O grão / A textura do tempo ou a fenomenologia do pathos. Texto inédito.

Posted by Patricia Canetti at 9:53 AM