|
|
novembro 28, 2019
Os 7 mares da pintura por Saulo di Tarso
Os 7 mares da pintura
“Um Quadro estranho e estranhos prisioneiros”.
Platão. A República. Livro VII.
Quando Édouard Manet visitou o Rio de Janeiro em 1849, ninguém poderia imaginar que a arte inventaria tantas tendências e movimentos, dividindo realidade figurativa e abstração, que o mundo se comunicaria em tempo real e que a pintura seria o ponto de partida para fotografia, cinema, vídeo redes mundiais de computadores. Que exatos 170 anos depois, na mesma cidade, estaríamos rediscutindo a pintura através de um artista para o qual as fronteiras territoriais não existem mais. É o caso de Walter Tada Nomura - Tinho, e os 7 Mares, no Paço Imperial.
Da “Alegoria da Caverna” de Platão (380 a.C.) ao princípio da câmara escura (1554), as invenções do livro (Pi Sheng em 1405 e Gutemberg em 1455), litografia (1796), a fotografia (de Angelo Sala à Joseph Niépce, entre 1604 e 1826), até que Hércules Florence, francês radicado no Brasil cunhasse o termo “photographie”, quando chegamos ao cinema (do cinetoscópio de Thomas Edison ao cinematógrafo dos irmãos Lumière, 1891 à 1895) e finalmente a rede mundial de computadores - internet - por volta de 1980.
Entre luz, eletricidade e telepatia, deixamos para trás o tempo lento das comunicações para falar em tempo real entre 8,7 bilhões de habitantes no planeta. Dentre todas as invenções a afirmação do psicólogo Hugo Mustemberg, um dos primeiros teóricos do cinema, já negava, em 1916, a possibilidade de efeito do movimento produzido no cinema resultar de fenômenos retinianos. Mustemberg, acreditava que tudo acontecia na fase neural do processo de percepção visual. A percepção de Mustemberg estava correta. É desta percepção ampliada ao modo coletivo de processos neurais que falam os 7 Mares de Tinho. Um tecido biodinâmico liga o espaço real as redes neurais coletivas, de indivíduo a indivíduo, de modo direto, através de relações antropológicas em comum. Liga quem leu, viu, ouviu, percebeu, vestiu, vivenciou e percorreu os espaços da vida através de uma determinada cultura e seus objetos que hoje vem sendo substituídos pelas redes digitais, como por exemplo os livros e skates que contém uma filosofia da mobilidade à parte.
Quem vê as pinturas de Tinho ativa a própria memória sobre aquilo que vê, amplia no mundo imediato a celebração de um universo da cultura material e dos costumes que integram diversas gerações e que vistas como ele pintou, recriam a força destas memórias culturais no presente. As pinturas de Tinho são ao mesmo tempo a descrição e a vida do tempo e do espaço e das relações, do limite entre culturas e mídias, por exemplo, livro e literatura, discos e sonoridade. São obras que elevam o ver para o estado de sentido e consciência.
Não podia se esperar menos de um artista que além de dominar a pintura tanto em termos realistas como abstratos, possui a experiência da rua, o domínio sintático e simbólico do universo da arte e do graffiti como circulação real da cultura contemporânea e seus objetos além da imaterialidade em diversas cidades do mundo. Fenômenos da nação global que espelham no minuto digital milhões de anos de vida do espaço real e topológico.
Ver a pintura de Tinho é levar a pintura para o lado de fora da pintura, como se não houvesse mais separação entre arte e realidade. Tinho simplesmente chegou ao lugar da obra em que arte é vida e vida é obra, sem distinguir o que ele viu daquilo que nós vemos. Ver sua obra é descobrir o oitavo mar, é perceber aquilo que nos liga diante de tudo aquilo que ele percebeu, criando uma série única, rara e singular da pintura recente, na qual estamos ele como artista e nós enquanto parte vida de sua própria obra, rompendo a mera espectatorialidade.
Realidade aumentada para o lado de dentro e de fora, simultaneamente. O modo de ver de um artista atual que não separa realidade natural e realidade abstrata e possibilita dizer que chegamos às bases da pintura do século XXI em busca das paisagens interativas e antropológicas.
Ao mesmo tempo que deixa o século XX para trás, esta arte nova, derivada diretamente das passagens urbanas, amplia nossas chances cognitivas no mundo real, onde a pintura funciona como “lugar de encontro” contrapondo as redes digitais na sua característica de realidade abstrata. Luz e não sombra da nossa própria existência, esta mostra possui o caráter singular e transgressivo da linha do horizonte encontrada por Manet, horizonte muitas vezes transcendidos pela Street Art que, como se vê, através das obras de Tinho, fez a pintura reencontrar com a pintura enquanto navegamos nosso olhar na composição dos 7 mares. Gens trouvé além do objet trouvé. Arte encontrada além da arte. Arte sem fronteiras conceituais, imaginárias e dialógicas. Um quadro semelhante e semelhantes livres.
Saulo di Tarso | artista visual, curador da mostra.
novembro 27, 2019
O ovo e a galinha por Ulisses Carrilho
O ovo e a galinha
Anna Bella Geiger, Claudia Andujar, Claudio Tobinaga, Cildo Meireles, Gabriela Noujaim, Ivens Machado, Jeane Terra, Jimson Vilela, Leandra Espírito Santo, Leticia Parente, Roberta Carvalho, Rubens Gerchman, Ursula Tautz, Waltercio Caldas
Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver o ovo nunca se mantém no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto o ovo há três milênios. – No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo. – Só vê o ovo quem já o tiver visto. – Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido. – Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo. Ver o ovo é impossível: o ovo é supervisível como há sons supersônicos. Ninguém é capaz de ver o ovo. O cão vê o ovo? Só as máquinas veem o ovo. O guindaste vê o ovo. – Quando eu era antiga um ovo pousou no meu ombro. – O amor pelo ovo também não se sente. O amor pelo ovo é supersensível.
(LISPECTOR, 1964, p. 55)
Em 1975, houve o primeiro Congresso Internacional de Bruxaria, em Bogotá, na Colômbia. Nesse congresso houve psicanalistas, antropólogos e diversos estudiosos do invisível. A autora ucraniana Clarice Lispector (1920-1977) foi convidada para a mesa "Literatura e Magia". A escritora preparou para esta palestra o texto "O Ovo e a Galinha", um conto.
Esta mostra O ovo e a galinha parte da metafísica no texto para investigar uma hipótese: a ideia de desejo não é um privilégio humano, opera também entre os objetos. Como num duplo fantasmático, trabalhos apresentam-se aos pares. Reflexos e distorções sublinham semelhanças num regime de coincidências, concomitâncias. Atrações insuspeitas. As imagens da história da arte não operam em regime de influência, são consideradas sobretudo imagens espectrais, como assombrações: ovo visto, ovo perdido.
Na prosa de Lispector, imagem, real, sensível e, sobretudo, o sentido se fazem distantes: todos escapam. O Ovo e a Galinha empresta seu título a esta mostra menos pela sua qualidade narrativa, por como o leitor é conduzido. Mas por seus sobressaltos, suas qualidades metafóricas, seu desassossego. A maneira como a autora percebe ovo e galinha convida o leitor a questionar a separação entre um e outro, como facilmente divisíveis. Como estratégia para exibir os trabalhos, os diálogos aqui apresentados buscam iluminar aquilo que os objetos partilham, em vez de preocupação com singularidades ou ineditismos.
Vem da mesa da cozinha da autora este modo de pensar o ovo. Ao deparar-se com uma obra é preciso olhá-la com atenção superficial para não quebrá-la. É preciso tomar o cuidado de não entendê-la. "Sendo impossível realmente compreender do ovo, sei que se eu entendê-lo é porque estou errado de alguma forma. Entender é a prova do erro".
curadoria de Ulisses Carrilho
