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setembro 5, 2019
Bispo do Rosário: as coisas do mundo por Ricardo Resende
Bispo do Rosário: as coisas do mundo
RICARDO RESENDE
Dizem que Arthur Bispo do Rosário ouvia vozes que o ordenava a organizar o mundo. E, nessa tarefa de dar conta das coisas terrenas, preparou também uma obra para o Juízo Final que carregou ao longo da vida, como se fosse uma condenação. Um trabalho autoral, único, que serviu de testemunho da sua experiência pessoal, religiosa, filosófica e, claro, manicomial (não foi pouco tempo: passou 50 anos entre idas e vindas de manicômios, depois de ter sido diagnosticado como esquizofrênico).
Seria sua obra um testemunho dessa passagem pela Terra, um luto diante da finitude do corpo e da impossibilidade de uma vida plena fora dos muros do hospício? Foi uma condição que lhe foi imposta pela sociedade, claro, descrente de suas visões religiosas alucinadas.
Um artista: é assim que devemos identificá-lo, mesmo não considerando ele próprio que o que fazia seria arte. É certo, Bispo organizou a seu modo um mundo, como uma necessidade para se apegar à vida, e deu a isso, sem querer, forma de arte. Desfiava os uniformes azulados usados no hospício e, com os fios, delicadamente mumificava seus “pertences”. Assim, criou cerca de 900 peças; todas partes de um imenso “xadrez”, em que retratou a poética do cotidiano humano, da vida fora e dentro de um dos maiores polos manicomiais do país, a Colônia Juliano Moreira, no que era, à época, os cafundós do Rio de Janeiro, atual Jacarepaguá.
Organizava essas coisas, serializando-as, como se estivesse na linha de produção de uma fábrica – de tecidos, quiçá. Refiava, costurava, bordava e recobria com linha azul. Catalogou insistentemente os objetos, nomeou-os minuciosamente, em clara intenção de museificá-los, preservá-los para gerações do futuro.
Esse mesmo arquivo de objetos que organizou foi recatalogado no grande Manto da Apresentação (s.d.). Toda a obra está ali bordada, adornando luxuosamente a roupa requintada que, como rei, iria vestir para o encontro com Deus. Também como o profeta Noé, Bispo construiu seu Grande Veleiro (s.d.), onde guardaria tudo aquilo que queria preservar do mundo material dos homens, no fim dos tempos, no outro grande dilúvio que se abateria sobre as terras e oceanos.
Esta exposição pretende criar um diálogo de Bispo do Rosário com o espaço expositivo da Fábrica de Arte Marcos Amaro (FAMA). Este em que, antigamente, funcionava a Fábrica São Pedro de tecidos, fundada em Itu, em 1910. E cuja produção se destacou em pouco tempo – já em 1912, operava com mais de 150 teares; em 1944, contava com 2 mil operários e foi a que mais empregou na cidade nesse setor.
Cresceu para os lados: são hoje mais de 20 mil metros de área construída. E, apesar de esse palco do trabalho operário ter tido suas atividades encerradas em 1990, prenunciando novos tempos e em meio à abertura do mercado têxtil para os chineses, a história da fábrica não se apagou. Em 2017, a FAMA inaugurou uma nova era de ocupação para os velhos galpões em estado ruinoso. Agora, os prédios guardam não só a memória do lugar, mas também abrigam arte. Um acervo que vem se avolumando a cada dia.
Em Bispo do Rosário: as coisas do mundo, a seleção de trabalhos de Bispo observou o gesto de serializar, organizar e multiplicar como prática artística, tal qual se via na indústria têxtil, quando os operários é que “produziam” as coisas que seriam usadas no cotidiano. Canecas, pentes, gravatas, sapatos, sandálias, chapéus e roupas; são essas as coisas organizadas por Bispo em suportes que lembram as vitrines dos camelôs de ruas, vendedores ambulantes que se espalham pelas ruas das cidades do país com seus mostruários de mercadorias a serem vendidas.
Vitrines que fazem um paralelo entre o expediente controlado do operário braçal, conduzido a repetir gestos e ações serializadas por horas a fio, e o dia a dia dos pacientes dos manicômios. Como a história que Bispo viveu na Colônia Juliano Moreira, refazendo gestos diária, insistente e compulsivamente por décadas, até sua morte na cidade do Rio de Janeiro. Foi diante dessa condição asilar que Bispo inventou seu próprio espaço de viver, uma fuga da normatividade que rege a vida humana nesses lugares, a fábrica, o hospício e fora deles.
É esse universo que se pretende apresentar ao público do interior paulista Bispo do Rosário, o artista não artista, aquele que nega sua condição de criador. Uma mostra de 50 trabalhos que indicam a sua insistência de pertencer ao mundo da produção, criando coisas da vida cotidiana. Também a sua maneira de nos contar da sua passagem pela vida terrena.
Bispo do Rosário: as coisas do mundo também cria um diálogo de Bispo do Rosário com quatro artistas da coleção da FAMA. São elas: Louise Bourgeois, Carmela Gross, Nazareth Pacheco e Sonia Gomes. Em comum, têm o gesto de costurar e construir coisas da mesma maneira como fazia o sergipano. Mulheres que se acostumaram a tecer o mundo.
Ricardo Resende
Curador
Fábrica de Arte Marcos Amaro - Itu
Sonia Andrade - Às contas por Katia Maciel
Sonia Andrade - Às contas
KATIA MACIEL
As contas chegam todos os meses impressas em pequenos papéis lacrados trazidas pelo carteiro condenado a ser o portador das más notícias. Não apenas as esperadas, mas aquelas inacreditáveis como a de luz ou a do IPTU desprovidas de qualquer sentido contábil.
Às contas, bem estas são outras. São aquelas que a artista carioca Sonia Andrade juntou por 50 anos e nos apresenta, todas de uma só vez, como raios aterrados no Museu de Arte do Rio de Janeiro. Sonia reuniu suas contas de gás, luz, água, esgoto, telefone fixo, celular, televisão à cabo, internet e ancorou-as literalmente. Correntes suspensas içam os papéis em blocos a nos acenar os custos de uma vida inteira iluminadas por fios de luz na imensa sala escura. Um filme kafkaniano na infinitude e incompletude de um processo. Sonia uma das primeiras artistas da videoarte nos revela com um flash nossa imagem mais contemporânea. A dívida. Atenção à altura. Não alcançamos o topo, estamos soterrados, muito abaixo do cume do metal suspenso. Nosso corpo não é a medida para a enormidade dos avulsos e logo olhamos para cima, mas estamos no rés do chão. Deleuze nos anunciava no seu texto sobre a sociedade de controle, seremos números e agora nem mesmo isso.
Sonia me diz. Não esperava. Duas pessoas choraram.
É para chorar e muito porque não temos como estar fora desta obra. Cada um de nós está preso e içado por estas correntes como escravos do mais perverso sistema financeiro que já existiu, pós-mercantil, pós-produtivo, um capital sem lastro real ou existente, flutuante e aterrador.
A instalação Às contas de Sonia Andrade é um oceano de derivações. É construção de imagem, é pesquisa de arquivo, é forma escultórica, é poesia e é um tapa na cara dos mercados, todos eles, que afundam corpos e almas sem jogar botes salva vidas.
setembro 3, 2019
Elvis Almeida - Estrada nebulosa sem olhos de gato por Pablo León de la Barra
Elvis Almeida - Estrada nebulosa sem olhos de gato
PABLO LEÓN DE LA BARRA
A Galeria Mercedes Viegas apresenta Estrada nebulosa sem olhos de gato, segunda individual de Elvis Almeida na galeria. A exposição reúne 18 pinturas inéditas do artista, e tem sua abertura no dia 6 de agosto. Infiltrada pelo grafite, a sinalização urbana e o comércio popular, “Estrada” explicita uma arquitetura em movimento, seduzida por curvas hipnóticas e atacada por cores vibrantes.
Estação de Ramos. Bairro dividido em dois pelos trilhos da linha de trem, e separado da antiga praia de Ramos e da Baía de Guanabara pela construção da Avenida Brasil na década de 1940. Grafites nas colunas da estrada elevada. Em uma parede, o escrito pintado a mão, NEM ELEIÇÃO NEM INTERVENÇÃO MILITAR! REVOLUÇÃO JÁ! UNIDADE VERMELHA. As letras são apagadas pelos empregados da estação. Casas do final do século XIX e edifícios Déco dos anos 20/30 indicam que o bairro já viveu tempos melhores. Um grande cinema estilo Déco abandonado. A uma distância próxima, pode se ver o teleférico do Complexo do Alemão, desativado há três anos. O estúdio que Elvis Almeida compartilhava com outros grafiteiros na Rua Uranos ficava quase em frente a estação. O som da rua e o ruído contínuo dos trens levando trabalhadores ao centro e de volta para casa é parte do cotidiano do artista. A fachada de um prédio próximo está coberta de azulejos que formam desenhos geométricos, estes pichados por cima de maneira aleatória. Estas duas camadas coexistindo na mesma superfície, uma racional, ordenada, e a outra, urbana, com ritmo próprio, pareceriam oferecer a mesma sobreposição de diferentes ordens que acontece na pintura de Almeida. Ramos é o bairro onde Almeida nasceu, cresceu e vive, ali foi onde seus pais se estabeleceram quando migraram do Nordeste. A relação com a estética do contexto imediato poderia ser um dos muitos pontos de entrada para entender a pintura de Almeida. A cultura popular urbana que se manifesta nas fachadas e nas decorações das casas, lojas e botecos. A relação entre diferentes camadas de decoração e informação que produzem uma estética urbana popular que Almeida rearranja, enaltece e incorpora com humor e como forma de resistência, que possibilitam que a pintura de Almeida seja tão carioca sem replicar os clichês post-bossa nova da carioquice. Qual é a mudança radical que aconteceu nos últimos 10 anos no Rio, que permitiu a uma nova geração de artistas da periferia carioca, que não pertencem a Zona Sul, ter acesso aos sistemas de arte e cultura do Rio? Dentro do momento político atual do Brasil, com o desmoronamento dos sistemas de educação e cultura (entre muitas outras coisas), torna-se ainda mais urgente a presença das vozes diversas que questionam as narrativas dominantes e dão visibilidade a realidades mais complexas.
As pinturas de Almeida não tem títulos, portanto não existem chaves de entrada para o espectador que procura uma única leitura a partir do título da obra. Isto obriga ele/a a olhar o trabalho para decifrar o que acontece em cada tela, criando assim a possibilidade das pinturas serem interpretadas de maneira autônoma, de serem batizadas pelo espectador. As abstrações produzem diferentes significados dependendo da pessoa que as olha. Eu me arrisquei no exercício de dar nomes, ou títulos, a algumas telas: Paisagem Guignard Século XXI, White Horses ou Os cavalos do Apocalipses Carioca, Quatro luas com lágrimas sobre o Rio de Janeiro ou Olhos de gato na obscuridade de Guanabara, Momentos perdidos no tempo como lágrimas na chuva, Quarta-feira de cinzas, Pinball Intergaláctico ou Show de Bola, Brasil 3000 ou Matrix encontra Tron encontra Bola Preta, Fogo na Churrasqueira Pop Portátil, Doble mantra com centros deslocados, O país invisível.
Da mesma maneira, tento listar os diferentes elementos dentro de uma pintura na intenção de ir além da superfície e entrar dentro delas. Estrela verde, lágrimas rosas, lágrimas negras, bandeirinhas de festa junina, repetição de linhas verticais em vermelho e rosa. Explosões. Um Sol sobreposto quase invisível. Círculos concêntricos de diferentes tamanhos e tonalidades, na metade superior os círculos se duplicam, a estrutura radial que os gera também, dois sóis, duas sombras, realidades múltiplas, no fundo uma outra camada de padrões geométricos irregulares. Quatro estruturas sobrepostas, uma lembra uma grade de janela, outra uma explosão interna, a terceira está formada por círculos, a quarta feita por linhas paralelas horizontais. Cores ácidas, cores fluorescentes, cores brilhantes e cintilantes. Pinturas onde as cores são constitutivas e resistem a ideia de que a cor é só decorativa. Pinturas criadas no momento, de maneira quase automática, sem regras externas ou um sistema organizador escolhido a priori. Elementos dentro delas que se propagam como um vírus, reproduzindo-se de formas aleatórias e contaminando a tela. Repetição de padrões que parecem iguais mas cada um é diferente, figuras que o artista encontra em suas derivas pela rua: círculos, estrelas, gotas, pílulas, e outras formas que se multiplicam e são ressignificadas, criando novas conversas entre os diversos elementos.
Imagens que poderiam parecer momentos de êxtases na roda de samba ou pagode, no desfile ou bloco de Carnaval, ou lembranças de jogos e brincadeiras de Festa Junina Nordestina. Uma estética surgida em uma feira de diversões ou um circo intergaláctico. Confete pós-festa, antropofagia popular, vômito de purpurina intergaláctica. Pinturas quase autogeradas onde a saturação de símbolos produz um clímax. Pinturas que abrem janelas a outras dimensões e realidades. Pinturas produto de uma explosão onde tudo coexiste: o biológico, o geológico, o mecânico, o cibernético e o virtual. Conexões entre diferentes sistemas operativos, todos com vida própria, cadeias de DNA, células em reprodução, circuitos elétricos, circuitos de informação, maquinarias pós-industriais, mensagens telepáticas. Cortes transversais através da pele ou camadas geológicas do planeta, vulcões ou epiderme humana em explosão. Viagens cósmicas, campos de energia, estrelas supernovas, buracos negros. Desaparição de qualquer sistema de ordem e controle a favor de um caos anárquico e vertiginoso.
Pinturas pequenas em caixinhas de doce de buriti. Pinturas onde a tela é construída a partir da adição de elementos. Pinturas feitas com estêncil ou carimbos. Pinturas construídas com processos de transferências. Pinturas feitas com sobras e restos de outras telas. Pinturas onde você tenta não usar o pincel. Pinturas onde você tenta pintar sem ser pintor. Pinturas feitas nas telas onde você limpa o pincel. Pinturas feitas sobre superfícies de madeira unidas ao chassi por parafusos visíveis. Pinturas como as tatuagens em seu corpo, onde os diferentes símbolos coexistem (a diferença que em seu corpo a representação é figurativa e nas telas é abstrata). Sua pintura não nega sua origem de grafiteiro e desenhista de quadrinhos. Sua pintura é punk: Punk Abstrata, Neo-Neo-Concreta Pós-Sensível Punk, Carioca Punk de Carnaval, SambaFunkPunkBoogieWoogie da Avenida Brasil. Pinturas que falam da experiência de viver em uma cidade fragmentada e segregada. Pinturas que fazem visível o paraíso, purgatório e inferno que é o Rio de Janeiro.
As pinturas de Almeida poderiam existir para além da história, mas sem dúvida existe nelas uma presença subconsciente da história da arte. Poderíamos falar em diálogos imediatos, por exemplo, com Beatriz Milhazes, no uso das camadas e referências ao carnaval, ou com Luiz Zerbini, no uso do cor e referências tropicais. Mas os diálogos poderiam cruzar épocas mais distantes. Formas que parecem montanhas nos lembram de Alberto Guignard, bandeirinhas de festa junina que piscam o olho para Alfredo Volpi; geometrias em verde e rosa que lembram a série ‘Mangueira’ de Ivan Serpa; intestinos que lembram a obra visceral de Antônio Dias; um processo de repetição com origem na gravura que dialoga com estratégias similares na obra de Anna Bella Geiger; padrões kitsch e luzes de neon que lembram a série ‘Olho de guará’ da Lygia Pape na década de oitenta. Se os artistas neoconcretos em seu manifesto publicado no Rio de Janeiro em Março de 1959 propuseram erradicar na produção de arte uma postura mecânica e resgatar a dimensão sensorial da obra, o trabalho de Almeida vai além da dicotomia mecânica/sensorial e produz um novo manifesto a partir de novos fluxos entre as formas abstratas, a tela, a matéria pictórica, o artista, o espectador e o contexto urbano, cultural e social.
No momento atual, onde vivemos em meio a uma constante saturação de imagens, as pinturas de Almeida não pretendem representar esta saturação, mas funcionam como anti-imagens. Um grupo de screen savers que permitem o fluxo contínuo de imagens múltiplas e às vezes contraditórias, e que atuam como forma de resistência a essa constante saturação. Pinturas que funcionam como mantras que nos desconectam da realidade para que possamos voltar a nos conectar com essa realidade a partir de uma nova tomada de consciência. As pinturas de Almeida estão em um constante movimento interno, se abrem e multiplicam, se ativam quando são olhadas. Dentro do espaço de exposição, os elementos transitam e circulam entre pinturas, se contaminam e nos contaminam criando um campo magnético de energias e ressonâncias. Nesse sentido, as telas pintadas por Almeida estão vivas e contém dentro de si uma energia vital da qual precisamos hoje para poder iluminar de maneira coletiva essa estrada muito obscura e nebulosa na qual se transformou a Avenida Brasil.
Pablo León de la Barra, Rio de Janeiro, Agosto de 2019.
setembro 1, 2019
Lição doméstica por Ana Prata
Lição doméstica
ANA PRATA
Vivemos um tempo de autoritarismos, de maneira latente ou manifesta. Lidar com esta realidade não está fácil, até mesmo atividades rotineiras e banais parecem ter seus sentidos postos à prova. Há quem diga que a arte tem que apontar caminhos, encontrar respostas, que ela tem esse papel. Eu acho que a arte não TEM QUE nada, arte é um espaço de liberdade, sem obrigação alguma. A arte PODE muitas coisas, inclusive apontar caminhos, e podendo ser tanto, ela não impõe obrigações a priori, nem para o artista, nem para o público. É muito bom que cada um tenha interesses e necessidades variadas, mesmo quando pertencem à mesma identidade de gênero, classe social, raça e etnia, orientação sexual, território, escola, família, etc. Que a linguagem possa ser um caminho para devires múltiplos e sem regras pré-estabelecidas.
Leandro Muniz, Marcelo Pacheco e Thomaz Rosa se articularam para fazer uma exposição de curta duração no ateliê de um deles. Os artistas estão no começo de suas trajetórias e, além da prática artística, exercem outras ocupações. Chamaram a exposição de Featuring celebrando a parceria, já que são três contemporâneos fazendo essa parceria pontual. E o nome tira onda também, é sério mas não é, estilo super star (como nos feats da música pop).
Eles começaram como quem arruma sua casa, organiza e cuida do que é seu, um gesto que eu entendo como muito necessário para os dias de hoje. Um trouxe seus “varais”, panos azuis com padrões que lembram estampas para pijama ou lençol, clarinho e monótono. Nos tecidos ele insere suas pinturas em retângulos, pinturas abstratas, flores, o céu, entre outras ideias que nascem do desejo. São gestos relativamente simples, que num segundo momento lidam com outras questões, como usar o espaço, como dividir, como traçar percursos na escala de um cômodo. Estas ações me fazem pensar no trabalho doméstico, aquele que os "homens de negócios" entendem como limitado, sem influência, inútil, completamente apartado do espaço público.
O segundo artista decidiu fazer um toldo, porque vem olhando a beleza das faixas, e tem se dedicado, no seu tempo livre do trabalho, a pintar faixas e abstrações geométricas. O toldo é um trabalho novo que foi construído para a exposição, caso chova poderemos ficar ali embaixo, se não chover, poderemos olhar, deve ser um pouco torto, o que é bom de olhar. Tem também um pedaço falso de toldo, que é no fundo só uma pintura.
O terceiro mostra pinturas, estas são uma pequena coleção de objetos para serem dispostos no espaço. São objetos para aguçar a percepção. Algumas têm outros objetos colados ou apoiados, coisas pequenas, como pregos, que estavam fáceis ao alcance da mão; têm relações cromáticas marcadas e premeditadas, são quase escultura por vezes, ou parecem o que não são, como uma folha de caderno ou a superfície lunar. Outras são pintura de céu, eu penso que uma pintura de céu de alguma forma está sempre carregada de tantas outras e infinitas tentativas de pintar o céu, acho que trazem essa lembrança.
O céu, por sinal, parece ser o protagonista nesta exposição. Lembramos dele pela memória que o varal traz, pelo toldo, e pelas próprias representações pictóricas. É interessante como fazeres que parecem domésticos nos apontam para o céu azul, onde não tem deus, nem presidente; onde não há ninguém, mas é o teto do nosso mundo comum, um limite visível, limite apenas visível.
Cada um também vai pintar uma camiseta de papietagem, esculturas pintadas. Camisetas servem para sair e para ficar em casa, camisetas são de banda, de protesto, são propaganda, podem ser arte. Camiseta é um objeto comum, não dura para sempre e isso é bom.
Ninguém sabe exatamente onde está o front da batalha dos dias de hoje, e parece que temos muitos inimigos de fato, existem sérios projetos de destruição em curso. Talvez seja de grande valia fazermos uma lição doméstica e identificar nossos desejos, e começar por eles, aqueles que nos movem a traçar caminhos; cada um sabe do seu teto, o tamanho da sua casa, que pode ir do corpo ao céu, do micro ao macro.
Queria dedicar este texto às mães deles três, que não conheço, mas sei que elas foram boas e eles as amam. E, por fim, escrever Lula Livre, para que não nos esqueçamos da nossa história.
Ana Prata
agosto de 2019
