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junho 29, 2019
Athos etc por Renata Reis e Victor Zaiden
Para além dos painéis em azulejo, exibidos com maior frequência, em Athos etc elencamos obras que evidenciam outros aspectos da prática do artista, no sentido de expandir o conhecimento sobre seus trabalhos. Nossa pesquisa buscou mostrar como Athos mantem um pensamento conceitual coeso, mesmo na diversidade material e técnica que caracteriza sua produção.
A inquietação sobre a forma, o estudo das cores e a influência de peças arqueológicas na composição dos trabalhos aqui exibidos são características que aproximam Athos a outros artistas modernos, que buscaram explorar os limites do espaço, expandir as barreiras das diferentes linguagens artísticas e propor intercâmbios e construções.
Uma visita detida ao legado de Athos Bulcão nos mostrou fragmentos de sua produção muito próximos às lembranças da infância carioca, entre batalhas de confete e corsos de carnaval. Mais do que a geometria celebrada na azulejaria dos espaços de Brasília, suas pesquisas artísticas deram forma a bichos, figuras humanas e vestimentas teatrais, criando uma atmosfera afetiva de fantasia e imaginação.
Orientação
Profa. Dra. Ana Avelar
Curadoria
Renata Reis
Victor Zaiden
Assistência de curadoria
Leticia Siqueira
junho 28, 2019
Nem natureza nem tempo... por Bené Fonteles
Nem natureza nem tempo...
BENÉ FONTELES
São muitas as perguntas. Felizmente, nenhuma resposta é o que nos provoca a obra de Lia do Rio que já atravessa um percurso de quatro décadas. Há nela uma imensa afinidade em transformar, ou transcriar a natureza em cultura, o que já faz há milênios nossa ancestralidade indígena. Lia tem um pé lúdico lá no terreiro das ocas na floresta primeva.
Ela seduziu-se pela efemeridade do que as árvores produzem com sua sabedoria mais que biológica a se comunicar na interdependência dos vasos comunicantes da floresta e espaços dos centros urbanos e com os que desfrutam de sua generosidade a não parecer só do reino vegetal. Lia sabe do íntimo desta cadeia interdisciplinar e é com ela que faz a arte melhor e mais instigante.
Lia faz com que as folhas em suas analogias, formas, estágios de permanência que não se fecham, se desdobram – otemponãopassa – são continuum na paisagem ao permear as mais diversas situações ocupar espaços naturais ou criados pelo humano. Ou sendo objetos de parede, tridimensionais, ou ainda, sendo queimadas e ao virarem cinzas, ocupar sacrários transparentes e, sozinhas, todo o vazio de uma galeria em potência de poesis rara.
Lia tem a coragem de não se importar em expor o que se diz efêmero no espaço museológico. Confere nobreza e leveza, que ganha na arte contemporânea no Brasil um lugar de relevância ainda não de todo reconhecido, mas por tudo, significativo e seminal.
A poética de Lia em instalações e vídeos, objetos e o que poderia se chamar “arte ambiental” foi editada, em 2014, no exemplar livro Sobre a Natureza do Tempo e aqui expostos nesta mostra antológica que demonstra seu pensamento sofisticado e pleno de significantes desenvolvidos nestas décadas para nos por em diálogo profundo com a grande ilusão que é o tempo.
Os Maias contemporâneos dizem: Tempo é Arte! Lia perverte a natureza e o tempo, a natureza no tempo e o tempo na natureza, para nos transgredir os conceitos com uma natureza que não lhe só é externa, mas que lhe é intima do feminino tão próprio à força matriz das mulheres que nos dão origem e que sabem que as folhas fazem mais que mera fotossíntese, e que também adubam os sonhos.
Ela vai ao âmago das coisas raras que, de tão ordinárias, Lia lhes confere a aura do extraordinário, de uma poesia que lhe dá poder de jóia como a folha que se bifurca, é duas, ou outra que está prenhe de quase sementes alojadas no dorso. A artista as acolhe em cúpulas/relicários, cria ambiências espirais de outras folhas para um percurso do corpo/olhar ao destino do precioso. Lia quer dizer que ali reside mais que uma curiosidade biológica: mora o sagrado gesto mutável da criação.
Sua relação com o tempo, não só metafórica, mas de uma poética vivenciada a máxima, e até mínimal potência, age com uma ética soberana ao lidar com os elementos naturais, para não falar do transitório, mas não só, Lia nos conta sobre o transcendente e do seu poder de transubstanciar a matéria até que ela seja só arte.
Ao conjugar a terra, pedregulhos, folhas e outros elementos em espaços de percurso nas cidades como Brasília, Rio de Janeiro ou Tóquio, dialogando com os trajetos não tão habituais do público pego de surpresa, Lia busca a força natural e matriz que existe em cada ser e da qual não pode negar, nem se afastar, pois é essencialmente sua natureza dentro e fora. Ela tem o poder angular, de nos lembrar do poder nutriz das sementes e das folhas, quando também coloca uma semente num suposto ostensório de acrílico transparente, a nos querer dizer quase igual o poeta anônimo do Nordeste: Existe um pomar oculto no coração da semente.
Lia nos faz recordar de toda história da Vida que nos faz e refaz generosa, mas às vezes impiedosa, e muito mais, que não é só fazer Arte. A artista nos faz mais humanos. E mais do que humanos, ela nos recorda que também somos divinos quando transmutamos a matéria da qual temos a plenitude do conhecimento, mas relegamos ao lugar do utilitário e do efêmero e não da sabedoria milenar praticada pelos aborígenes da Terra que tem os elementos como parceiros de um processo criativo.
Lia nos educa à percepção e à sensibilidade – é também professora de artes visuais – para irmos até aos movimentos e texturas muito íntimos dos micromundos e enxergar além e com acuidade crítica, o macro que por vezes nos apequena. Sábia, sabe sentir com outros olhos de quem não só apenas vê. Gauguin disse: Eu fecho os olhos para ver.
Lia nos guia, os cegos de linguagem poética perceptiva e sensitiva, para nos completar com o “olhar” sensorial e em suas obras, contemplar, buscar no Ser o que é imenso.
Bené Fonteles
Março de 2019
junho 25, 2019
Laura Lima - Balé Literal por Michelle Sommer e Victor Gorgulho
Laura Lima
Balé Literal
(em três atos simultâneos)
Onze anos separam Fuga (2008), a última exposição individual de Laura Lima na A Gentil Carioca – quando a artista transformou o espaço da galeria em um viveiro para 50 pássaros vivos – da apresentação Balé Literal (2019), trabalho inédito que conecta os dois prédios da galeria diretamente à encruzilhada através de uma engenhosa traquitana. O projeto, resultado de suas pesquisas com arquiteturas e seres vivos, é um organismo vivo que mobiliza dezenas de pessoas orquestradas pela artista. O acontecimento será no dia 29 de junho, a partir das 19 horas, e a exposição permanece em cartaz até o dia 30 de agosto de 2019.
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Em Balé Literal, os espaços internos e externos da galeria são configurados como a coxia de um teatro. O balé da artista é composto pela construção de um bestiário de coisas e pessoas em vai-e-vem: no lugar de bailarinos, tem-se obras, objetos, maquinaria, equipe, arquitetura, sonorização e iluminação; além do público que, como uma coreografia, circula através da triangulação que costura os dois prédios e a encruzilhada da A Gentil Carioca, com os seres invisíveis que lá habitam. As descidas, pausas e subidas deste balé são embaladas, a convite da artista, por uma sinfonia inédita especialmente composta por Ana Frango Elétrico.
Recorrendo ao dicionário, literal aponta para o que é ‘expresso, rigoroso, restrito’. Mas Laura Lima subverte e aponta o ‘literal’ para a ambivalência do termo: se a obra escapa de amarras conceituais clássicas, a literalidade cabe, aqui, como dimensão de uma produção que se afirma ao reconhecer, antes de tudo, aquilo que ela não é. Neste terreno instável e fértil, sua obra acaba por eleger como protagonista a guerrilha e o acaso - em suas múltiplas possibilidades e perigos. Na encruzilhada, cruzamentos orgânicos entre materialidades poéticas e desafios logísticos tecem o experimental, que contém erros, acertos e improvisos na potência do fazer fazendo.
Em contexto, durante o processo de construção de Balé Literal, fios soltos tocam-se para a elaboração de outras-novas linguagens, embaralhando a posição entre significados e significantes. Operadas em tríade, tem-se: 1. o desenvolvimento de um léxico imagético-textual de palavras (defenestrado, ritornelo, balaclava, ...); 2. impulsos ancorados em referências históricas (Bosch, Berkeley, Hilst, Tatlin, Marquês de Sade, ...) em conexão com a genealogia de trabalhos anteriores (Puxador, Dopada, Baile, Cinema Shadow, Mágico Nu, Notas de Rodapé, ...), e 3. a contextualização figurativa das obras bailantes (candelabro de coxinhas, chuva de peixes, mantos em co-autoria com outros artistas, como Fernanda Gomes, João Modé e Cabelo ...). Na tríade aberta à tradução e interpretação do outro, as reticências ... são operativas ativas da configuração proposta pela artista.
Se a arte e o espírito de sua época caminham lado a lado, os passos do Balé Literal de Laura Lima são marcações do nosso tempo ‘absurdado’, cambaleante, errante que configuram um léxico por vir. Entre contradições, o que há de literal na era das fake news, das visibilidades extremas, das narrativas deturpadas? Como negar a força do agora - em toda sua eloquência e vertigem? Convidados à bailar, nos resta contemplar ativamente o delírio, na produção da loucura e da lucidez da encenação da qual fazemos parte, para explodir coletivamente o instante. Afinal, a confiança é a balaclava.
Michelle Sommer
Victor Gorgulho
Laura Lima
Balé Literal (Literal Ballet)
(In three simultaneous acts)
Eleven years separate Fuga (Escape, 2008), the last solo exhibition by Laura Lima at A Gentil Carioca - when the artist transformed the space of the gallery into a nursery for 50 live birds - from the presentation of Balé Literal (Literal Ballet, 2019), an unprecedented work that connects the two buildings of the gallery directly at the crossroads through an ingenious contraption. The project, the result of her research with architecture and living beings, is a living organism that mobilizes dozens of people orchestrated by the artist. The event will take place on June 29, starting at 7:00 p.m., and the exhibition will remain until August 30, 2019.
In Literal Ballet, the inner and outer spaces of the gallery are configured as the aura of a theater. The ballet of the artist is composed of the construction of a bestiary of things and people in a back-and-forth: in place of dancers, there are works, objects, machinery, equipment, architecture, sound and lighting; as well as the audience that, like a choreography, move through the triangulation that ties the two buildings and the crossroads of A Gentil Carioca together with the invisible beings that live there. The descents, pauses and ascents of this ballet move rhythmically, at the invitation of the artist, to an unprecedented symphony specially composed by Ana Frango Elétrico.
Referring to the dictionary, literal points to what is 'expressed, strict, restricted'. But Laura Lima subverts it`s meaning and ‘literal’ turns out to be the ambivalence of the term: if the work escapes from classical conceptual ties, literality, here, becomes the dimension of a production that affirms itself by recognising, first of all, what is not. In this unstable and fertile terrain, her work ends up choosing guerrilla and chance as the protagonists - in its multiple possibilities and dangers. At the crossroads, organic crosses between poetic materialities and logistical challenges weave the experimental, which contains errors, successes and improvisations with the power of doing by doing.
In this context, during the process of the construction of Literal Ballet, loose threads touch the elaboration of other-new languages, shuffling the position between meanings and signifiers. Operated in triad, we have: 1. the development of an imagistic-textual lexicon of words (defenestrated, ritornelo, balaclava, ...); 2. impulses anchored in historical references (Bosch, Berkeley, Hilst, Tatlin, Marquis de Sade, ...) in connection with the genealogy of previous works (Puxador, Dopada, Baile, Cinema Shadow, Mágico Nu, Notas de Rodapé, …), and 3. the figurative contextualization of the dancing works (Chandelier of coxinhas, rain of fish, cloaks in co-authorship with other artists, like Fernanda Gomes, João Modé and Cabelo ...). In the triad open to translation and interpretation of the other, the ellipsis ... are active operatives of the configuration proposed by the artist.
If the art and spirit of her time go hand in hand, the footsteps of Laura Lima's Literal Ballet are markers of our 'absurd', wavering, wandering time that configures a lexicon to come. Among contradictions, what is literal in the era of fake news, extreme visibilities and misrepresented narratives? How can we deny the strength of the now - in all its eloquence and vertigo? Invited to dance, we have to actively contemplate the delirium, the production of the madness and the lucidity of the staging of which we are part, to explode the moment collectively. After all, trust is the balaclava.
Michelle Sommer
Victor Gorgulho
