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março 20, 2019
Compreensão do AR (ou E = M2) por Laerte Ramos
Compreensão do AR (ou E = M2)
LAERTE RAMOS
A exposição Compreensão do AR (ou E = M2) apresenta um conjunto de obras do artista plástico caçapavense Egidio Rocci (1960 - 2015). Na exposição, o espectador passará por uma experiência imersiva na poética do artista. Além dos objetos dispostos no espaço, uma projeção de vídeos-slides de fotos de estudos de Rocci e um breve documentários sobre sua produção podem ser vistos em um espaço reservado e convidativo.
Egídio propõe, com sua pesquisa, a transformação - ou a elevação - de objetos que outrora tiveram função e propósito como utilitários, - móveis, criados-mudos, bancos, estantes, prateleiras-, ou simples pedaços de madeira. Estes objetos aleatórios, ao cruzarem com o caminho de Egídio, eram retirados dos depósitos de móveis antigos e usados onde muitas vezes estiveram esquecidos por anos, e ressignificados e elevados à condição de obras de arte em museus, galerias e centros de cultura. O filtramento, ou processo criativo do artista em questão, revela ao espectador estruturas escondidas nos objetos de madeira, seja através da eliminação, desmonte parcial ou incorporação de elementos escolhidos de forma precisa pelo artista, compartilhando, assim, seu modo de relacionar-se com o mundo. Egídio assume um papel de intérprete no diálogo entre a madeira e o metal, entre móveis com cara de casa de vó e móveis de escritório, entre o design e a arte, entre o descartado e o encontrado e ainda, entre o esquecido e o lembrado.
O olhar do artista e seu objeto de interesse ficam perceptíveis nos slides projetados em uma das paredes do espaço expositivo. Uma grande parte deles traz fotos tiradas da janela de seu atelier no Edifício Sta. Branca situado na Avenida Duque de Caxias, em São Paulo entre os anos de 2010 e 2012. Outra parte traz fotos tiradas da sua própria residência, no 8o andar de um edifício em São José Dos Campos, com sua máquina Fujifilm - Finepix HS10 HS11. No vídeo-slide, é possível perceber que mesmo diante de uma janela fixa e de uma paisagem pacata e simples, Egídio organiza seu olhar e convida aos detalhes de seu encantamento: uma conversa entre urubus, camisetas de times de futebol secando ao sol, pessoas andando na rua carregando sacolas de supermercado. Todas estas cenas que passariam despercebidas ao olho comum cativam o olhar do artista e se transformam em objeto de interesse profundo de Egídio. É possível perceber a riqueza de elementos que um mesmo local oferece no dia-a-dia de cada um. Em dado momento, percebe-se, finalmente, que aqueles que ficam nas janelas com suas almofadas aos cotovelos por horas a fio, têm razão para fazê-lo: os dias são todos diferentes e há muita beleza em apreciar o tempo.
E = M2, ou “Egídio por metro quadrado”, é uma referência às estruturas esculturais manipuladas por ele que ocupam áreas com inúmeras memórias de objetos antigos. Memórias estas que foram renovadas em seu ateliê trazendo enigmas a serem desvendados pelos espectadores de seus trabalhos. Correr os olhos, como que em raio-x, pelas estruturas das obras de Egídio proporciona uma compreensão diferente do ar que envolve as esculturas. Os ambientes que tiveram como principal função, a guarda, passam a desvendar o espaço que antes, apenas o ar compreendia. O cheiro de guardado se esvai, gavetas são travadas ou descartadas e o conteúdo de seus trabalhos torna-se parte do imaginário de quem os vê, expondo, cada um, seus próprios guardados.
Tensão Relações Cordiais por Tadeu Chiarelli
Tensão Relações Cordiais
TADEU CHIARELLI
Esta exposição tem uma dimensão experimental, uma vez que se comporta como um texto que se inscreve num e a partir de um texto já dado: a Coleção Regina Pinho de Almeida, a partir da qual ela é concebida e estruturada.
Tensão Relações Cordiais não é uma exposição que busca representar a Coleção, ser um instrumento que a legitime para alça-la a uma hipotética exemplaridade (o que a tornaria mais uma mostra desse tipo que, já banal no exterior, vem sendo explorado cada vez mais no Brasil). Pelo contrário: partindo da Coleção, entendida como um texto ainda em processo, um texto que se constitui pelo gosto de sua proprietária, mas, da mesma forma, pelas circunstâncias que emolduram e moldam esse gosto (história pessoal, afinidade entre colecionadora e artistas, oportunidades mercadológicas, “achados” entre o bizarro e o esplêndido etc.), Tensão Relações Cordiais literalmente ilumina cada obra em particular (daí a opção por uma iluminação pontual, que valorize cada obra exposta, e não por uma iluminação que clareie objetos e espaço “democraticamente”, conferindo-lhe falsamente um sentido unidirecional), não propriamente para “esclarecê-las” para o público, mas para visibilizar suas tensões internas em relação com as outras obras de seu entorno.
A exposição se apresenta como uma caverna em que cada obra se comporta como o vestíbulo de uma galeria subterrânea e, simultaneamente, como uma superfície refletora, impossibilitando qualquer “passagem”, forçando o/a visitante a não se esquecer do aqui e do agora.
Que o/a visitante não espere uma exposição de viés cronológico, que “arrume” aquele conjunto de peças dentro de uma ordem, quer do que se convencionou chamar de “História da Arte”, quer do que poderá vir a ser um dia a Coleção Regina Pinho de Almeida. E nem mesmo busque encontrar uma exposição concebida a partir de “analogias de linguagem”. Sem dúvida, poderão ser encontradas conexões mais ou menos óbvias (dependendo de cada caso) entre uma obra ou outra, mas elas não se articularão no espaço com essa pretensão.
Tensão Relações Cordiais ao se inscrever na escrita anterior da Coleção, ao mesmo tempo em que alarga os sentidos do texto que lhe deu origem, agrega a ele o sentido de incômodo em que se vive hoje no país.
Se o texto Coleção Regina Pinho de Almeida escreve a si mesmo enquanto se inscreve na vida cotidiana de sua responsável última, a exposição será tecida a partir de obras que funcionarão como substantivos alocados, “contextualizados” para e pela própria mostra: a galeria da Casa do Parque propriamente dita, mas, da mesma forma, os acessos arquitetônicos que para ela confluem (daí a imagem de “caverna”).
Nesse espaço, as obras formarão um novo texto, uma reescrita (sem nenhuma pretensão de corrigir o enunciado da Coleção e muito menos de ser “a” reescrita definitiva do texto “original”) que coloca em suspensão e em suspeição o previsível de qualquer exposição de arte: induzir a um único sentido, direcionando o olhar e a mente do/da visitante a uma explicação do que é ou do como poderia ser uma exposição concebida e produzida a partir de uma determinada Coleção.
No fundo (da caverna?) o que está por trás desta proposta é singela: apresentar a Coleção Regina Pinho de Almeida como um fenômeno. Um fenômeno que se constitui na vivência de seu próprio vir a ser e que a ele deverá ser incorporado. Uma metáfora da Coleção, mas da mesma maneira, uma metáfora do que pretende vir a ser a própria Casa do Parque: um texto que se constrói na própria constituição de seu vir a ser.
Tadeu Chiarelli – Janeiro, 2019
