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novembro 16, 2017
Texto de Fernanda Gomes
tantos planos de exposição! gosto de imaginar e projetar, mais ainda porque sempre sai diferente. cada exposição inclui muitas outras, vividas durante todo o processo.
a exposição é o melhor campo de provas, onde as possibilidades se expandem. e a dimensão pública traz uma tensão complementar à soltura do fazer em casa. traz a necessidade de acabar, até no sentido mesmo de acabamento, definir a versão final de vários provisórios, em cada detalhe. exige síntese e precisão.
(a exposição estaria para o atelier como a escrita para o pensamento?)
as exposições que faço na galeria luisa strina são onde mais naturalmente atualizo minha prática, são extensão direta do atelier. é a melhor e mais difícil situação para mostrar meu trabalho, mais difícil porque melhor.
uma exposição sempre foi para mim um modo único de avançar com a investigação, absolutamente necessário para todos os processos, principalmente o mental. o ato excita o pensamento.
uma exposição é o momento concentrado, retroprospectivo. o presente inclui passado e futuro, são quase simultâneos no instante.
uma exposição vai além da reunião de obras. o conjunto é mais do que a soma das partes. uma exposição é mais do que uma obra em si, é uma entre infinitas possibilidades. positivamente incompleta, se prolonga na imaginação. é fim e sem fim, começo e continuação.
fernanda gomes, outubro 2017
Fernanda Gomes, Galeria Luisa Strina, São Paulo, SP - 24/11/2017 a 20/01/2018
so much exhibition planning! i like to imagine and project, even more because it always comes out different. each exhibition includes many others, lived during the process.
the exhibition is the best scenario for testing, where possibilities expand. and the public dimension brings a complementary tension to the ease of doing at home. it brings the need to finish, even in the sense of finishing, to define the final version of several provisionals in every detail. it requires synthesis and precision.
(would the exhibition stand for the atelier as writing for thought?)
the exhibitions that I do in galeria luisa strina are where I most naturally update my practice, they are a direct extension of the studio. is the best and most difficult situation to show my work, the harder because the better.
an exhibition has always been for me a unique way of advancing with research, absolutely necessary for all processes, especially the mental. the act excites the thought.
an exhibition is the concentrated, retroprospective moment. the present includes past and future, are almost simultaneous in the instant.
an exhibition goes beyond the works assembly. the set is more than the sum of the parts. an exhibition is more than a work in itself, it is one among infinite possibilities. positively incomplete, it lingers in the imagination. it is end and no end, beginning and continuation.
fernanda gomes, october 2017
Fernanda Gomes, Galeria Luisa Strina, São Paulo, SP - 24/11/2017 til 20/01/2018
novembro 14, 2017
Explosão Fixa por Eder Chiodetto
Explosão Fixa
EDER CHIODETTO
José Patrício - Explosão Fixa, Instituto Ling, Porto Alegre, RS - 23/08/2017 a 18/11/2017
O dom de iludir a percepção visual até que a faculdade do olhar imante e reordene poeticamente a lógica e o sentido das coisas está na raiz da construção meticulosa de cada obra de José Patrício. Ao lançar mão de estratégias eminentemente formais e aritméticas, que desdobram e revigoram de forma vertiginosa os preceitos do projeto construtivista, o artista recifense cria um lugar original no campo da arte, na fronteira entre a pintura, o desenho e a assemblage.
Nesse processo, Patrício sequestra dos objetos industriais feitos em série, como botões, pregos, dados e peças de quebra-cabeça, suas funcionalidades no mundo para, então, inseri-los numa ordenação lúdica que visa exaurir e transpassar a objetividade matemática que eles obedecem ao serem assentados no plano.
Nosso olhar vagueia na vã tentativa de apreender a unicidade de cada parte, pois logo é tragado pela voragem resultante do conjunto, que em geral se organiza das bordas para o centro ou vice-versa. Outras vezes, os quadrados ou os retângulos do suporte que comportam tais combinações nos dão a clara sensação de que estão a ponto de implodir seus limites físicos para expandirem-se ao infinito.
São lúbricos e sensuais esses símbolos em permanente movimento que deslizam e embotam o nosso campo sensório. Uma explosão que, paradoxalmente, ao ser fixada na tela, rebela-se com sua condição estática. Uma explosão fixa que se expande em espirais que não cessam jamais. Vertigem óptica.
A esse conjunto de obras que perpassam a trajetória artística de Patrício, soma-se agora uma seleção de fotografias inéditas exibidas pela primeira vez nesta exposição do Instituto Ling. Aqui temos uma nova postura do artista. Ao sair do ateliê, onde trabalha incessantemente na construção de suas obras, para percorrer o mundo como um andarilho errante que porta uma máquina fotográfica, seu olhar se volta para a cultura popular, as vitrines e momentos de tensão entre forma, luz e arroubos cromáticos.
Se nas obras que o artista cria a partir de objetos industrializados observamos um rigor metódico que, ao ser exaurido pela repetição, as precipita para o encontro com o acaso poético, nas fotografias o movimento parece se dar ao contrário: é o acaso, ou até mesmo o caos do mundo, que em determinados momentos oferta aos olhos desse curioso fotógrafo instantes fortuitos em que uma improvável harmonia conecta elementos díspares. Como escreve o poeta Octavio Paz: “A luta se resolve no poema, com o triunfo da imagem que abraça os contrários sem aniquilá-los”.
Esse triunfo da imagem, que expande os limites do próprio objeto, pode ser observado também na instalação "Espelhamentos" (2017), que Patrício criou a partir da observação da maneira como um camelô organizava os espelhos para vendê-los em sua improvisada banca na rua. Os caminhos labirínticos pelos quais comumente se aventura nossa visão ao deparar-se com as obras mais conhecidas de Patrício encontram na expressão popular o seu leitmotiv.
"Espelhamentos" é também uma metáfora precisa do jogo fotográfico. Ângulos, pontos de vista, reflexos e diluição das fronteiras entre objeto e representação e entre imagem e imaginação saltam com vigor surpreendente a partir do posicionamento dos espelhos, que visa criar um circuito de olhares rebatidos.
Deambulando entre o acaso da lógica e a lógica do acaso, Patrício nos apresenta um transbordamento do sentido racional que tende a enclausurar e a embotar a nossa compreensão sensível do mundo. Suas obras reivindicam uma acepção menos dogmática e mais lúdica da nossa relação com o entorno visível e nem sempre palpável. Um exercício libertário, uma nova e inspiradora forma de ser e estar no mundo.
Eder Chiodetto
