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setembro 25, 2017
Agora somos todxs negrxs? por Daniel Lima
Agora somos todxs negrxs?
DANIEL LIMA
Sim, agora somos todxs negrxs! Artigo 14 da Constituição Haitiana de 1805, escrita a partir da única rebelião negra a tomar o poder na América, aponta para uma situação política em que lutamos pela expressão de uma voz historicamente silenciada. Aqui, essa voz canta a luta do quilombo urbano a atravessar todxs que foram e são excluídxs pelos poderes hegemônicos.
Não, agora não somos todxs negrxs! As instituições entenderam agora que os traumas da colonização existem? Entenderam agora a falácia do discurso da democracia racial? Não! Não somos todxs negrxs! Nós, negrxs, continuamos a viver como alvo de violência, silenciamento e exclusão. Não, não somos todxs negrxs. Esta é uma luta contínua por sobrevivência em que precisamos reconhecer as especificidades de uma trajetória afro-americana.
Sim, agora somos todxs negrxs! Poderíamos dizer que, na história da arte contemporânea brasileira, quase todas as exposições tacitamente se autonomearam “Sempre fomos todos brancos” — porque a presença negra no ambiente de arte contemporânea aqui sempre foi uma exceção. A exposição AGORA SOMOS TODXS NEGRXS? reúne parte da nova geração de artistas visuais negrxs brasileirxs. Uma geração marcada pelo amadurecimento da discussão sobre as questões raciais no Brasil e na América, e também pelo cruzamento com discussões sobre identidade de gênero e transgêneras.
Não, agora não somos todxs negrxs! Uma arte contemporânea produzida a partir da perspectiva da negritude que desafia as perspectivas de descolonização da América. Uma geração que se propõe a desconstrução do tríplice trauma da colonização (extermínio das populações nativas, escravidão e perseguição religiosa) por meio do poder micropolítico da arte, ao desabrigar estereótipos numa batalha por forças da vida contra forças de extermínio. Uma disputa para reconstruir nossa história e nosso mundo do nosso jeito.
X como atualização. X como afirmação histórica do não capturável. X como trama.
Daniel Lima
curador
Agora somos todxs negrxs?, Galpão VB, São Paulo, SP - 01/09/2017 a 16/12/2017
setembro 24, 2017
anoitecer, amanhecer: desalerta por Marco Veloso
anoitecer, amanhecer: desalerta
MARCO VELOSO
Após a transição efetuada através das armadilhas visuais, com a composição dos modelos de origem abrindo caminho por um espaço de trabalho antes compacto, meu desenho atual acontece, sincrônica e diacronicamente, em diferentes planos comunicáveis.
Por exemplo: um primeiro plano, no qual são geradas proto-imagens ainda não destinadas às suas formas finais; e, uma segunda dimensão, onde o traço aparece em suas linguagens próprias.
Ao mesmo tempo, os pré-esboços vêm somar-se ao campo de ação do grafismo, o qual, anteriormente, absorvia todo o trabalho.
Na verdade, o impulso racional e emocional separou-se do simples ato de desenhar.
De maneiras independentes, embora conjuntamente, os modos de compreensão e o gesto orientado constroem cada objeto esboçado e configurado.
Analogamente, vamos além da unidade fechada das paisagens abstratas (das tonalidades em carvão) e dos entrelaços característicos das armadilhas, das quais o olhar busca livrar-se.
Agora, os controles motores e visuais são conduzidos pelas motivações de modo a criarem figuras dinâmicas com espaços definidos.
Mas, também podemos dizer, de forma aparentemente contraditória, que as próprias composições preparam os meios físicos e, mesmo, conceituais para a tarefa que virá trazê-las à luz.
Este fato revela a nova importância que passa a ter o desenvolvimento de tais figurativos no andamento do trabalho.
Lembremos, ainda, que os desenhos não partem mais de modelos prévios, mas procedem de pré-esboços, de esboços de esboços.
28 de setembro de 2017
Marco Veloso
