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abril 2, 2016
Zé Carlos Garcia: Ganimedes por Raphael Fonseca
Zip’Up: Zé Carlos Garcia - Ganimedes, Zipper Galeria, São Paulo, SP - 04/04/2016 a 30/04/2016
O cenário dos acontecimentos é o Monte Ida, na atual Turquia, a sudeste da cidade de Tróia. Zeus se encanta com um príncipe, filho do rei da Dardânia, de nome Ganimedes e que trabalha nos rebanhos de seu pai. O rapaz é comumente representado nas artes visuais como portador de um corpo atlético, mas não exageradamente musculoso, aparentemente na virada entre a adolescência e a primeira fase adulta.
Deslumbrado com a visão pastoril desse efebo, Zeus decide tomá-lo para si por meio de uma águia – há fontes que afirmarão que o próprio deus se transforma nela e outras dirão que ele invoca o animal. Tirado da esfera familiar da Dardânia, Ganimedes é levado para a companhia de Zeus e é o novo responsável por servir vinho aos deuses. Como agrado ao rapaz e benfazejo ao seu inconsolado pai, Zeus atribui ao jovem a imortalidade. A narrativa greco-romana sobre Ganimedes pode ser interpretada como um exemplo do poder de arrebatamento de uma imagem em diversas esferas: estética, geracional, sensual e sexual.
A presente exposição de Zé Carlos Garcia dialoga com este mito. É possível aproximar a pesquisa do artista, com uma trajetória de cerca de dez anos, à mutação entre o humano e o animal vivenciada por Zeus. As esculturas e objetos gerados por ele se encontram por diversas vezes entre o reconhecimento estrutural de móveis e anatomias animais, e o estranhamento proporcionado pela plasticidade dilacerada dos corpos estranhos que se instauram. De uma antiga cadeira de madeira saem penas de um pássaro e da trama de palha de outro móvel brota um pequeno inseto. Os fazeres artesanais e da zoologia se encontram e geram imagens que parecem em transformação perante os nossos olhos.
Para a ocupação da sala destinada ao projeto Zip'Up, o ponto de partida do trabalho foi o encontro entre o corpo humano e os limites arquitetônicos dados pelo espaço; trabalhar a partir de site specifics é algo que tem interessado cada vez mais ao artista. A imagem de uma estrutura tridimensional suspensa e composta pela variação cromática de penas pretas emergiu perante os nossos olhos. Uma vez a observar a confecção da peça, parecia difícil distanciá-la de um grande pássaro preto que, por fim, nos remeteu à história de Ganimedes.
Em vez de fugir das garras desse resquício de pássaro, desejamos que os espectadores se entreguem ao seu chamado e explorem seu movimento através de uma postura física ativa. Congelada no tempo pelas mãos de Zé Carlos, esta imagem pede uma lenta fruição de sua sensação de encarceramento, deixando incerto o seu movimento de pouso ou ascensão instaurado pela sua presença.
Convidamos o público a, mais do que se colocar ficcionalmente no lugar do jovem raptado, subverter a fonte e recodificá-la a partir de suas visões particulares da soma entre desejo e posse. Tal atitude é dialógica ao gesto do artista de deslocar o material orgânico e criar uma narrativa que pede diferentes começos, meios e fins.
Espera-se que o pássaro enviado ao Monte Ida pouse em São Paulo sendo um pouco de urubu, um pouco de pavão e outro tanto de corvo; que o fantasma da imortalidade de Ganimedes volte à sua terra-natal e que as imagens, sejam elas artísticas ou carnais, sigam a nos atiçar e nos jogar nesse lugar movediço entre a paixão e a violência.
abril 1, 2016
Ricardo Rendón: Memória possível por Jacopo Crivelli Visconti
Ricardo Rendón - Memória possível, Zipper Galeria, São Paulo, SP - 04/04/2016 a 30/04/2016
Para a instalação de 2006 intitulada Wall Work (Drill Work), Ricardo Rendón furou repetidamente uma parede de drywall, até deixar quase perfeitamente visível sua estrutura interna. Em obras mais recentes, como bem sabe quem acompanha o trabalho do artista mexicano, os furos tornaram-se algo parecido a uma marca registrada, uma intervenção eminentemente “autoral”, e, portanto, devida e imediatamente reconhecível, como a fita azul de Edward Krasinski, ou, em outro contexto, as garrafas de Giorgio Morandi. Pode ser útil retomar um trabalho como Wall Work (Drill Work), um dos que inauguraram o modus operandi de Rendón, porque são nessas primeiras experiências que a relação com o universo da construção civil, e mais especificamente com o fruto de um fazer manual, quase operário, é mais explícita e direta, e permite entender melhor os desdobramentos posteriores.
Em textos e declarações sobre seu trabalho, o artista tem enfatizado exatamente a relação com o aspecto manual, do qual ele reconhece tanto o lado prático quanto um valor por assim dizer filosófico: “Parece-me que a execução do trabalho constitui um momento de profunda reflexão pessoal, um instante de concentração”. É por isso que se torna tão importante, na economia do trabalho e para a sua correta compreensão, a presença constante dos rastos da performance do artista, como as sobras de material, a serragem e a poeira que se acumulam no chão ao furar, e ali são deixados.
Parece possível afirmar, então, que o ato de furar a parede, ou qualquer superfície, foi escolhido por Rendón como estratégia primordial porque permite uma visão “através”. Não se trata apenas de enxergar para além do primeiro plano, mas de “ver” a espessura desse plano, reconhecendo, por exemplo, na parede branca, o fruto de um trabalho físico, com sua acumulação de esforço e conhecimento, e não apenas o convencional muro branco da galeria de arte, noção no fundo abstrata e portanto, contraditoriamente, quase intangível.
A análise de um outro trabalho da década passada, Puerta Cerrada (2007), confirma a interpretação de que o que move a prática de Rendón é um esforço constante por descobrir e destapar conflitos de natureza social, apontando para a relação idiossincrática entre o que fecha a visão e o que deveria deixar ver através. Nesse caso, o artista construiu no Parque México, na Cidade do México, um cubo de tijolos, do tamanho de um quarto ou pequena casa, sem nenhuma abertura, mas com desenhado o contorno de uma porta e três janelas, a sugerir exatamente a potencialidade (ou a necessidade) de furar a estrutura.
A partir dessas considerações, é possível ler nos trabalhos que integram agora a exposição na Zipper uma nova virada na trajetória de Ricardo Rendón. Contra o pano de fundo de uma visão social que continua bastante clara na maneira como o ato do trabalho físico é entendido, o artista parece voltar a enfatizar o valor escultórico da sua produção. Evidentemente, as obras de Rendón nunca deixaram de ser propriamente escultóricas, ocupando, de maneira ineludível, o espaço expositivo, mas o que vemos aqui é uma nítida preocupação com questões específicas da escultura, notadamente o tratamento do peso, ou a maneira como o peso da peça não é acessório, mas central na constituição do trabalho. Ao suspender fragmentos de chapas de pedra e de madeira, Rendón coloca essas questões em pauta, ao passo que sugere um diálogo com referentes da história recente da escultura ocidental, como a série das Gravitaciones de Eduardo Chillida, entre outras possíveis referências, que justifica a sua reivindicação de um papel central para a escultura no panorama artístico contemporâneo.
março 31, 2016
Arte e vida no movimento das águas por Miguel Chaia
Arte e vida no movimento das águas
MIGUEL CHAIA
Sandra Cinto - Acaso e Necessidade, Casa Triângulo, São Paulo, SP - 07/03/2016 a 02/04/2016
Ela dá voltas em torno das suas técnicas, suportes, narrativas, esgarça as fronteiras entre pintura e desenho e, ainda, amplifica seu trabalho ao pensar arquitetonicamente, visando estabelecer diálogos com o espaço expositivo e, mesmo historicamente, quando incorpora ao trabalho os acontecimentos ocorridos no lugar geográfico da exposição.
MOVIMENTO LÍQUIDO
Agora, março de 2016, uma experimentação ocorre: a água e as ondas não são apenas metáforas nos trabalhos de Sandra Cinto, não apenas signos visuais – agora, a água, enquanto elemento natural, é incorporado pela artista e, também, faz-se presente nas suas qualidades físicas e na potência do seu movimento segundo a lei da gravidade. A água é veículo de pigmentos, ela mancha o suporte e deixa-se escorrer para formatar amplos planos azuis.
A mostra Acaso e necessidade permite recuperar uma série de questões já adiantadas em períodos anteriores, relativas à experimentação de linguagem e à reflexão existencial.
Dois fatos podem ser lembrados para fundamentar uma nova perspectiva de trabalho da artista. O primeiro deles é um trabalho que utiliza uma banheira, na qual Sandra Cinto desenhou e jogou água até certo nível no interior do objeto (de 1999, mostrado na Galeria Tanya Bonakdar, em Nova York). Depois dele, a artista produziu instalações com uma pia com a torneira pingando, “Abrigo impossível”, 1999, na Bienal do Mercosul.
O segundo fato marcante, para se chegar à atual exposição, foi uma temporada experimentada pela artista, no final de 2015, no Japão, onde manipulou tecidos e papéis embebidos em água e pigmentos. O japonismo volta agora enquanto vivência cotidiana com a cultura do país.
Duas grandes pinturas, 2016, de 300 cm por 750 cm, trazem a representação de um lençol de água azul que se esparrama por quase toda a área da tela, como se fosse uma cachoeira suave, formada pela queda do líquido com pigmento. Por traz dessa caída da água, vestígios de montanhas e picos elevados de rochas. A mancha azul, feita pela água para fazer a representação de si, sofre a gravidade e deixa-se tombar. Por sua vez, as rochas da terra se elevam num sentido contrário ao da gravidade. Duas forças se contrapõem, duas direções opostas estabelecem o ritmo de cada tela. O controle construtivo da artista tenta sempre direcionar o fluxo do líquido colorido, mas a água tem potência para seguir direções próprias. O acaso e o inesperado fazem parte da realização dessas telas, tanto quanto o acaso e o inesperado fazem parte da vida. Neste atual processo, Sandra Cinto tem de enfrentar as contingências – tanto na arte, quanto no seu cotidiano. Cabe à artista tentar obter sucesso na sua ação, lidando com as contingências. Subjugar-se à força da natureza, porém insistindo na potência do fazer artístico.
A mancha – cor – azul é que dará as indicações para o (des) aparecimento do desenho das rochas, é ela que delimitará o espaço a ser ocupado pelas canetas. Manchas e linhas, numa dança graciosa e íntima de esconder e entrever. Caberá à artista saber ver e escutar as manchas, descobrir as possibilidades abertas por elas e assumir a coautoria do trabalho. Estabelece-se, assim, uma estratégia artística para reunir o acaso posto pelo fluxo azul da água e a livre decisão de escolha da artista. Apresentam-se, assim, duas vontades para ocupar o plano e construir o espaço e para solucionar as relações entre cheio e vazio.
Pouca área sobra na parte superior das pinturas. O céu é uma faixa parcimoniosa, agora sem as nuvens, uma vez que elas se tornaram líquidas e passam a constituir a generosa cortina azul que ganha a proeminência nas telas. As áreas ocupadas e os pedaços em branco estabelecem valores pictóricos que atraem demoradamente o olhar. Se anteriormente as ondas do mar eram agitadas e revoltas, agora a cachoeira azul é lisa, transparente e calma. As pinturas ganham uma forte feição monocromática. Elas abrem lugar para o olhar afetuoso. Essas duas pinturas, colocadas frente a frente, expressam a lentidão do fazer e da fruição. Somos colocados diante de paisagens, em grandes panorâmicas, que oferecem um tempo lento: o azul convida a perscrutar; o movimento da cor esparramando-se para baixo é tranquilizador; e as pequenas partes de terra rochosa são riscadas com maior delicadeza.
Cabe indicar, para futuros estudos, que uma boa parte da obra de Sandra Cinto se presta a ser analisada a partir dos conceitos de vida líquida e vida em fragmentos, conforme colocações de Zygmunt Bauman, autor contemporâneo de vasta bibliografia.
Se, na fase anterior, uma visão trágica emergia, com a volúpia barroca das ondas em vigorosos movimentos, agora, nesta exposição, os três trabalhos convidam ao sossego da reflexão. Esse aspecto está explicitado na branca escultura-instalação “A ponte”, 2016, de mais ou menos 700 cm por 110 cm, tendo, de um lado, um cavalinho de brinquedo e, na outra ponta, uma cadeira de balanço. De um lado o lúdico e o infantil, do outro a solidão e a maturidade, talvez a velhice. “A ponte” constata o tempo cíclico e alerta para as permanentes travessias na arte e na vida. Convém lembrar que a ponte é um signo e uma forma recorrente na obra de Sandra Cinto, possíveis ou impossíveis de serem atravessadas, mas sempre presentes e inevitáveis. A ponte diz respeito a uma necessidade dos vivos em suas andanças e aventuras à beira dos precipícios, retomando Nietzsche.
Os trabalhos de Sandra Cinto pulsam a vontade de viver, reconhecendo seus limites e contingências. Numa formulação de Friedrich Nietzsche, essa vontade está apoiada numa proximidade da arte como jogo do artista e da criança, construindo e destruindo a inocência e fazendo da arte um meio de brincar consigo mesmo. A ponte, muitas vezes presente nos trabalhos de Sandra Cinto, carrega consigo essas possibilidades de construção e destruição. Ainda, a partir desse filósofo, pode-se considerar que a arte de Sandra Cinto é permeada por sensações, tendo por base um livre lirismo pessoal. E se a fase das ondas agitadas possui um tom dionisíaco, agora, em 2016, suas pinturas, desenhos e objetos aproximam-se de algo apolíneo. Cada vez mais a obra de Sandra Cinto vem reafirmando a potência de viver.
Há nessa artista uma verdade onírica que, entre outras possibilidades, pode ser rastreada, por ora, pela presença da água na produção dos seus trabalhos – seja a representação da água, seja o uso do elemento natural água. Gaston Bachelard, referindo-se à água e aos sonhos, escreve que esse líquido é um elemento poético, presente nos nossos arquétipos. Assim, deve-se considerar que as questões que envolvem a água, permitem uma maior aproximação com o mundo e melhor conhecimento da realidade. A água, que ao se olhar tinge nosso ser com uma melancolia especial, relaciona-se a interesses orgânicos, ao bem-estar e à libido.
Na obra de Sandra Cinto, continuando com Bachelard, em seus devaneios de artista–criança, a água, sempre presente, poderosa, preciosa e seminal é canalizada para a arte para criar um outro mundo, para pensar a mesma vida.
¹ Miguel Chaia - professor do Departamento de Política da PUC-SP, pesquisador do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (Neamp), autor de artigos e livros sobre arte e arte brasileira.
