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maio 27, 2013
A fé como diálogo por Eduardo Romero
A fé como diálogo
EDUARDO ROMERO
Pode-se dizer que a Fé é a ação firme de confiança sobre algo que dispensa a necessidade de comprovação/aprovação. Podemos ainda, afirmar que a Fé é a abstinência da Dúvida e que, portanto, a Fé não é uma crença ou aposta, pois estas últimas podem se deixar contaminar pela Dúvida. É sob o simbolismo da Fé que a obra de Izidorio Cavalcanti repousa. Não se trata da Fé religiosa ou ligada a questões dogmáticas, mas sim, ao ato artístico como o caminho ao diálogo. Correlato a isso, temos a imagem do peregrino que corresponde ao indivíduo que faz de sua existência um constante diálogo em busca da purificação, percorrendo uma jornada por diversos caminhos e que faz da Fé o artifício do desapego ao presente.
Com a Fé de um peregrino errante, Izidorio Cavalcanti busca proporcionar a partir de suas telas, objetos e performances, o lócus de diálogo que o aproxima do público habituado ou não com a Arte. Esta constatação é percebida na obra Nego – Branco sobre Branco, performance e produção coletiva concebida durante o Projeto Residências em Fluxo que o artista realizou em João Pessoa em 2010, uma parceria do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães – MAMAM/PE e Usina Cultural Energisa/PB.
Para esta mostra oferecida pela Galeria Dumaresq, Izidorio apresenta o registro da performance que compõe a obra acima citada e que consiste na produção por parte do artista da bandeira do Estado da Paraíba com cal branco. Em sua condição de peregrino, Izidorio Cavalcanti que é pernambucano, se apropria da bandeira-manifesto paraibana. A história dessa bandeira é conhecida; o preto significa o luto em homenagem ao ex-governador do Estado, João Pessoa, assassinado em 1930 e o vermelho a cor da Aliança Liberal que foi o ajuntamento dos opositores à candidatura de Júlio Prestes à presidência da República em 1929. A palavra NEGO está gravada em letras brancas e deriva do verbo Negar na primeira pessoa do singular do presente do indicativo, afirmação feita por João Pessoa ao negar o sucessor indicado por Washington Luís, presidente do Brasil na época.
Carregada de significados e cores fortes, a bandeira paraibana ganha do artista uma versão purificada com o branco da cal. Em algumas culturas, o branco está associado à transformação, um momento limite de renovação, seja de morte ou renascimento. O branco é o liame que liga o início e o fim, o próprio processo de peregrinação e de Fé na caminhada.
Ainda como resultado desse diálogo, em Nego – Branco sobre Branco, Izidorio Cavalcanti oferece densos e alvos blocos de papel onde convida o público a dilacerá-los e separá-los para posteriormente, uni-los novamente por uma colagem/costura.
Nesse sentido, o ato de Fé do artista peregrino se completa na teia tecida em conjunto com o público que imerso na brancura do papel, obtém camadas de sobreposições sem tons. Os sobretons monocromáticos do branco sobre branco remetem a não distinção entre indivíduos. A não distinção do indivíduo nesse processo não significa a perda de sua individualidade, pois a trama alva é construída no gesto único de cada participante.
A trama alva de papel, linha e cola, pode ser interpretada simbolicamente como o tecido social que é formado dialogicamente pela pulsão individual e a organicidade coletiva. Em relação a isso, a imagem do peregrino como eterno estrangeiro por conta de sua condição errante, vivencia a dupla realidade de prossecução e de ruptura; o tempo peregrino se insere e se arreda constantemente aos meios sociais que cruzam sua caminhada... O peregrino Izidorio Cavalcanti nos oferece essa condição estrangeira em Nego – Branco sobre Branco: invadir o branco do papel e rompê-lo em fragmentos para reconstruí-lo, ou melhor, para dar continuidade a uma nova unidade feita de partes suturadas. Não seria esta uma metáfora de nossa dinâmica sociocultural? Não estaríamos fadados também, a eterna condição de estrangeiros em nossa terra-pátria? Não é verdadeiro que às vezes sentimo-nos estranhos em nosso próprio lar? Que o dia a dia nos obriga a rejuntar os fragmentos da vida para criar um novo todo existencial?
Mais importante que o estranhamento estrangeiro é a experiência do peregrino de continuar o caminho tecendo junto, talvez aqui a qualidade primeira de sua busca, ou seja, da afirmação da condição universal do Homem em sua profunda diversidade. Não estaria o peregrino Izidorio atestando essa busca ao proporcionar ao público em sua heterogeneidade a tecelagem de sua obra/caminho?
O tecer junto associado ao branco reaparece no vídeo Capela de São Izidorio Cavalcanti realizado durante o Programa de Residências Artísticas da Fundação Bienal de Cerveira – Portugal em 2012. Nesta ação, o artista encara o desafio de pintar de branco uma capela abandonada na cidade de Vila Nova de Cerveira e mais uma vez, a trama alva se desloca e ultrapassa fronteiras estrangeiras (Brasil/Portugal).
Por fim, o que move o peregrino é a Fé no devir. O horizonte da caminhada não significa um obstáculo, mas antes, a promessa de novos diálogos. Longe da domesticação dogmática, Izidorio Cavalcanti pautado na Fé, acredita que a Arte em seu labor individual durante o processo criativo possa tomar novos rumos em sua materialização quando feita de maneira coletiva. Parece-me ser esses os votos de Fé do peregrino.
Eduardo Romero
Antropólogo. Professor do curso de Design/CAA/UFPE. Artista Visual.
maio 26, 2013
O Mar Verterá Meu Coração Selvagem por Luciana Paiva e Matias Monteiro
O Mar Verterá Meu Coração Selvagem
LUCIANA PAIVA E MATIAS MONTEIRO
Arte ambiental de Allan de Lana, na Galeria de Arte do SESC Maranhão
Aonde termina a experiência do turista, persevera a experiência do viajante. A viagem talvez seja um exercício da paisagem que persiste. O turista é atormentado pela transitoriedade de sua experiência; vale-se de toda a sorte de dispositivos para reter suas imagens, guardar seus relatos. O viajante sabe que a viagem prossegue, que é interminável. Para ele, não há ponto de retorno ou desfecho que o conduza a um lar apaziguador, ambiente seguro de sua cotidianidade. Viajar seria, de fato, desestabilizar o cotidiano. Ao viajante cabe a experiência singular de seu percurso, aferir a paisagem como deslocamento de seu corpo, fazer do trajeto uma transformação física. O viajante atravessa e é atravessado pela paisagem percorrida em suas minúcias. A visão vedutista é substituída pela experiência mínima, a particularidade que faz do detalhe uma topografia oculta, em que cada fenômeno ínfimo pode repercutir em proporções astronômicas.
Allan de Lana opera um olhar do viajante; um olhar liberto da imagem como instância essencialmente visual. Para ele, a imagem não pode ser reduzida a um único sentido, mas projeta-se em um fluxo contínuo, um turbilhão de acontecimentos e experiências sensoriais. Aqui, a mecânica dos fluidos, a engenharia de uma profusão artrópode, a monumentalidade de um brinquedo ou a propagação sonora se expandem pelo espaço expositivo.
Em sua nova série "Universos Líquidos: Mergulho para a Nuaninfa, Marremoto, Marremanso", somos convidados a experimentar esse ambiente fluído (podemos supô-lo profundo, por vezes abissal), uma fisiologia líquida, epidermes solúveis. A confluência dessas águas (texturas líquidas, imagens visuais e sonoras) revela um equilíbrio tênue, a perpétua tensão rumo a dissolução. O som do litoral (Entorno do Mar) alude a esse território impreciso, cambiante, vacilante, esses universos em pleno transbordar, incontido.
O tema da zona limítrofe imprecisa está também presente na obra “Por favor, não ultrapasse a linha branca!”. Nela, o artista joga com o posicionamento físico do espectador apropriando-se dos elementos formais convencionais do espaço expositivo. A linha branca, como elemento que delimita a aproximação máxima de uma obra, torna-se elemento gráfico e seu título-aviso reforça seu caráter delimitador. Neste contexto, a transgressão é inevitável, a subversão passa a ser condição do deslocamento. O fato de esse jogo inscrever a linha de contenção entre uma pedra e um pequeno avião de brinquedo reforça a malícia pueril da proposta.
Também o enxame gráfico de insetos, sugerindo composições gráficas ou notações musicais, insere-se em um contexto alusivo, próximo daquela disposição que faz, da montanha, pedra ou, do joguete plástico, uma aeronave. O interesse por insetos alados é recorrente na produção de Allan e desde o princípio revelou-se por meio de um interesse gráfico por sua forma (migrando de desenhos e aquarelas para o carimbo, transformando sua forma em uma espécie de símbolo gráfico) com ênfase na mecânica-articulada de sua fisiologia e na tensão entre a delicadeza de sua estrutura física e a agressividade de seus mecanismos de defesa. O enxame flui, escorre em uma coreografia vertiginosa onde desenhos e sons fundem-se em uma única imagem ruidosa.
Em suas pesquisas, Allan de Lana articula uma espécie de intuição científica, manifestação de seu olhar em viagem, que exige dele uma profunda dedicação e rigor: uma precisão processual conciliada com a manutenção de certa precariedade própria das minúcias do mundo. Sua obra é, acima de tudo, investigativa, porque parte de uma observação meticulosa dos fenômenos do mundo; porém, sua ação nos insere em um mapeamento fluido e cambiante do espaço, onde imagens, sons e significados são como substâncias em estados transientes que podem, portanto, ser alterados.
Luciana Paiva e Matias Monteiro*
* Luciana Paiva e Matias Monteiro são artistas visuais, pesquisadores e mestres em Arte na linha de Poéticas Contemporâneas, pela Universidade de Brasília (DF), além de atuarem como arte-educadores na Faculdade de Arte Dulcina de Moraes (Brasília/DF) e na Fundação Bienal (São Paulo/SP), respectivamente.
