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junho 13, 2012
AQUI & LÁ [Here & There], projeto de Anna Maria Maiolino para a Documenta 13
Documenta 13, Kassel, Alemanha - 09/06/2012 a 16/09/2012
A dOCUMENTA (13) no Canal Contemporâneo
Anna Maria Maiolino vai ocupar uma casa com três pavimentos em Kassel, na rua: Auedamm, 18 A.
A instalação "Here & There" (Aqui & Lá) consiste de uma grande instalação de argila da série Terra Modelada, sons e vegetação, além do som da voz da artista declamando o poema Eu sou Eu. Este impresso em uma pequena publicação estará a venda na loja de dOCUMENTA13 junto com outras publicações e catálogos referentes à obra da artista.
A artista escreveu seu projeto "Here & There" (Aqui & Lá) para dOCUMENTA (13) em forma de auto- entrevista (a seguir).
AQUI & LÁ [Here & There] de Anna Maria Maiolino (auto-entrevista), em julho de 2011
1- Porque deu o titulo AQUI & LÁ?
Nomeio o trabalho instalado em dois espaços: o interior de uma casa e o jardim - o fora, com dois advérbios de lugar. São apropriados para nomear um trabalho de arte instalado em diferentes espaços. AQUI & LÁ ocupa três pavimentos de uma casa, o dentro e o fora que faz eco com o bosque adjacente ao jardim.
2- O que se articula com o símbolo desta casa, habitat por excelência?
Ocupando uma casa com um trabalho de arte, com seu significado de moradia e de lugar próprio do individuo e da família, o símbolo de vivenda permanece imanente na sua base, a estrutura. As experiências do viver servem como fundamentos e promovem algumas das metáforas apresentadas, sem serem as únicas, já que este trabalho de arte se constrói sobre múltiplos interesses, num exercício experimental de liberdade. (1) A obra se edifica sobre cinco pressupostos determinados pelos espaços:
1 - O térreo - lugar do ente operante.
2 - O porão - lugar do corpo ausente.
3 - O sótão - lugar da memória encontrada.
4 - O fora da casa - lugar da escuta no ar.
5 - A escrita - lugar de recolha do signo perdido.
3 - O que é o ente operante?
Refiro-me ao sujeito do trabalho, questão já evidente na instalação de argila da serie Terra Modelada. Pelo piso térreo entramos na casa e nos deparamos com o obsessivo acumulo de formas básicas produzidas em argila, modeladas pelas ações primeiras das mãos: à medida do homem, iguais e singulares, repetição e diferença. Entropia, registro de fadiga, de energia investida aguardam o espectador e é então que o sujeito - o ente operante - atinge a máxima potencia.
4 - Seria a apresentação de um rito?
Porque o processo se fundamenta nos primeiros gestos da mão, estamos diante de uma verdade original, que revela à argila as possibilidades de formas. Sob um regime de acúmulo de formas básicas iguais e diferentes repetidas, a matéria cosmogônica por excelência remete a rituais, a comemorações, ao convívio coletivo. É justamente apostando no regozijo do convívio que entrego ao espectador o resultado do processo prazeroso com a argila. Diante da fadiga, do trabalho, ele identificará a obra como sua e resgatará seu fazer do dia a dia. Aqueles gestos esquecidos, mesmo os do fazer banal, passam a ser celebrados como vitais ao sustento. Na identificação, artista e espectador são co-autores dos sentidos da obra. O ente operante é um e o outro. As mãos que trabalham sabem. A percepção é ativa. A imaginação nutre a percepção ativa. O corpo cogitante, sentiente, desejante é o que realiza a obra. Sem o corpo estamos em um campo de falta.
5 - De que forma o mito se associa às instalações de Terra Modelada?
Os gestos originários das mãos que realizam a obra são a repetição de gestos paradigmáticos, feitos desde a origem pelo homem, mas agora re-atualizados em estado de devir. A réplica do tempo primordial da criação do mundo associa o mito ao rito e o trabalho adquire magia que explica a vida, a realidade e os fenômenos da natureza. Portanto, AQUI & LÁ se fundamenta na origem e no princípio do trabalho - o humano labor - com o signo material.
6 - Nas formas elaboradas pela “mão que faz” há associação com o preparo do alimento?
AQUI & LÁ é um espaço real, não ilusório. É o que é apesar das associações possíveis. O significante modela-se em formas básicas e essenciais de argila. O corpus de Terra Modelada assenta-se na plasticidade de determinadas formas básicas da civilização da cerâmica (bolinhas e rolinhos), mas isto não reitera um sentido qualquer. Cada instalação é única e a mesma.
Entretanto o espectador, simetricamente, poderá imaginar pasta, dejetos, fezes. Seu labor é construir significados. Contudo, se a analogia não está no propósito, admito que todas as massas úmidas apresentem similaridades na elaboração e que facilitem essa correlação com as atividades do organismo humano, seu valor simbólico na formação de cada um. É o reconhecimento corpóreo pelo sujeito, a identificação da “obra física primal” e a adesão ao projeto estético. É o espectador que ressignifica a coisa fenomenológica dada.
O trabalho “das mãos que fazem” é do mesmo esforço que através dos tempos vem edificando a cultura. Ele expressa a “paciência sagrada” da repetição em qualquer faze. A “presença” da prazerosa fadiga conspira contra a produção massificante e mercantilista do trabalho da nossa sociedade industrial e de consumo.
7- O que acontecerá com a argila ao longo da apresentação da instalação?
Tudo aqui é efêmero e reciclável. A argila-terra não cozida utilizada cumprirá seu devir natural: desidrata, passa pela petrificação transitória, a decomposição dos volumes e retorna à condição de pó fértil. Voltar ao estado de pó não alude à morte, mas confirma a realização plena de seu projeto ecosófico. No entanto, se acrescentarmos água, teremos uma excelente massa para reiniciar trabalho.
8 - A argila é lúdica? O processo de repetição esgarça os sentidos?
Argila em cinco cores diferentes de terra modela as formas. Uma multiplicidade de bolinhas e rolinhos recobre obsessivamente toda a mobília: a cama, o sofá, poltronas, mesas, armários da cozinha e a sala de jantar. A argila é o corpo tornam-se UNO na intimidade da obra. Eu sou argila.
O significante é composto de signos reiterados. O ato de trabalhar vale por si mesmo. Esse trabalho das mãos estará sempre retornando ao principio como uma cantilena, um “ritornello”. No processo de repetição, na volta ao principio aparentemente sem propósito é que o trabalho se aproxima das brincadeiras infantis e dos ritos das civilizações primeiras. Compartilham uma linguagem arcaica e concreta que enfatiza as relações abstratas através de analogias e a correspondência de imagens. Linguagens que se constroem em presença das afeições do corpo, como a criança que experimenta a fenomenologia sensorial do jogo e que volta repetidamente ao seu inicio. A repetição leva à re-experimentação de um estado de plenitude à criança, “a mão que faz” e ao homem com seus ritos.
9 - Em que consiste a ocupação do porão?
O porão é o lugar do corpo ausente. É o lugar não-lugar. Longe da vista, ocupa a região mais profunda da casa. Guarda os alicerces fincados nas entranhas da terra. O porão é vital para a casa como arrimo de sua estrutura física, como o corpo é nosso sustento do cotidiano.
Diz-se que, onde há corpo há voz. Aqui, no porão inabitado, há voz. Uma arquitetura sonora do sujeito ocupa os espaços úmidos e misteriosos da casa. A voz do corpo ausente compõe uma topologia de primitivos sons pré-verbais até os gritos de prazer - gozo, pranto e gemidos, risos, suspiros e intervalos de silêncios ativos que tocam o indizível. Outros sons provenientes de outras partes do corpo revelam que o corpo é música.
10 - Como ocupas o último pavimento?
É o lugar da memória encontrada: o cheiro. O sótão ocupa a parte alta da casa perto do céu. Reencontro o perfume do pinho do jardim da minha infância. O projeto coincide com o mundo dos afetos. O cheiro possui uma verdade intrínseca, primitiva, louca e, sobretudo mágica, porque é rizomática, liga tudo com tudo. Aqui as linguagens do inconsciente e da inter-subjetividade enunciam o etéreo no espaço. Potencializam a memória e superam a razão histórica dos fatos recordados. No sótão o cheiro conduz a experiência entre teias de aranhas e o pó que redesenham o espaço e evidenciam o abandono e os tempos do passado. A poética do olfato sempre me fora a mais difícil.
Ao fim da escada que leva ao sótão, o patamar dá para quatro portas, cujos vãos estão tomados por uma camada espessa de galhos de alfazema. Essas paredes vegetais impedem a entrada nos quatro recintos e remetem a uma mata cerrada. O cheiro de alfazema impregna o ambiente, muda com o tempo ou mesmo se dissipa como a própria memória. No quarto interdito, guardo vestígios de minha mais cara memória pessoal de perda. Estou presente.
11 - Em que consiste o trabalho do bosque?
A paisagem de Kassel é ordenada, verde e tranqüila e diria quase monótona na sua beleza. Não se esqueçam nunca que eu venho dos trópicos. Na paisagem silenciosa até os pássaros piam baixinho, tão diferente da vida estridente da mata exuberante do Brasil. AQUI & LÁ traz esta sonoridade ao bosque de Kassel.
12 - Como assim?
Instrumentos não convencionais, artesanais que imitam vozes de pássaros e bichos da mata brasileira habitam a paisagem de Kassel. Cantos indígenas celebrarão a natureza da paisagem romântica alemã. Instrumentos sagrados de grupos indígenas ritualizam o lugar. A wora, flauta de bambu que emite o rugido do jaguar. Outras ecoam o canto do tucano ou o grito do bugio preto.
No Brasil os pios imitativos de canto de pássaros eram instrumentos populares de caça. Surgiram como um saber técnico sensível, mas que terminou a serviço de uma indiscriminada expropriação da natureza. Hoje, esse mesmo saber técnico foi revertido por ornitólogos para o conhecimento e a preservação da fauna. Também são usados como instrumentos terapêuticos (musicoterapia). A arte trata dessa inversão de um movimento entrópico. Esses pios, como o dos índios, celebram a vida na documenta.
13 - Existe uma relação sonora entre o som do bosque e o do porão?
O som do corpo ausente sai pelas janelas do porão que dão para o jardim para dialogar com a paisagem de sons do bosque. Um arranjo entre pausas e os sons formando um todo. A harmonia é o valor da música no convívio entre culturas e do homem com a natureza.
14 - Em que consiste o escrito em AQUI & LÁ?
No Caderno Poético intitulado: Eu sou Eu, recolho imagens e textos ao quais dou agora um novo corpo poético para a extensão, de modo obliquo e transversal, do espaço simbólico. Essa pequena publicação será vendida na livraria de dOCUMENTA (13).
Anna Maria Maiolino
Julho 2011
Anna Maria Maiolino, artista brasileira, vive e trabalha em São Paulo, Brasil. Nasceu em Scalea, Calabria, Itália em 1942. Imigrou para a Venezuela em 1954. Em 1958 entrou para a Escola Nacional Cristóbal Rojas - Caracas, Venezuela, no curso Arte Pura.
Em 1960 mudou para o Brasil. No Rio de Janeiro, ela participou de cursos livres de pintura e xilogravura na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Desde o início Maiolino integra-se à nova cultura participando da vida cultural do país.
Desde 1960, ela usa em seu trabalho diversos meios, tais como, instalação, desenho, escultura, performance, filme super 8, vídeo, fotografia, som.
Cores, palavras e cruzes por Glória Ferreira
Cores, palavras e cruzes
Texto da curadora Glória Ferreira para a mostra Karin Lambrecht - Cores, Palavras e Cruzes, Galeria Nara Roesler, São Paulo, SP - 17/06/2012 a 21/07/2012
“Não existe, afinal, um critério comum reconhecido para o que é uma cor, a menos que seja uma das nossas cores”, afirma Wittgenstein. O conjunto de telas que Karin Lambrecht ora apresenta resulta de intenso trabalho com cores, dissonantes, às vezes, como em um acorde musical, impregnando sua pintura de colorações que lhe são próprias. Como diz a artista, o fazer pictórico assemelha-se ao de um bailarino que, apesar do corpo treinado, nunca chega ao controle total, sempre enfrentando desafios. Desafios levados a cabo por ela, por exemplo, de ver a junção das cores ao criar dobras na tela, como espécies de calhas, que fazem passar cores distintas de um lado ao outro do quadro, estabelecendo marcas, meio sem controle, que se juntam às várias camadas de tinta.
Sem nunca ter deixado de pintar, de certa maneira o fato de Karin introduzir cores nunca antes utilizadas é uma espécie de retomada, após os Registros de sangue, realizados nos anos 2000. A esse processo emocionalmente forte, somaram-se situações de sua vida particular que lhe acentuaram a reflexão sobre a relação de vida e morte, passagem do tempo e separação ‒ “Pois breve é toda vida”, lembra-nos Fernando Pessoa. Assim é em Legendas para Bergman, trabalho constituído por frases do depoimento intimista do cineasta, aos 88 anos, sobre sua vida, infância, casamentos, filmes e sobre Fårö, em A ilha de Bergman. Sobre papel de seda, as legendas, compostas com letras recortadas, têm os Ts em papel de prata, o que, em alusão à cruz, remete ao mesmo pensamento melancólico: “Não houve um dia em minha vida em que não tivesse pensado na morte”, diz o diretor sueco, cuja história guarda traços da própria história familiar de Karin.
Suas preocupações estéticas e éticas se voltam para um possível poder curativo das cores, sem pretensão científica, contudo, ou a vulgatas da cromoterapia, mas pela liberdade de cada pessoa agir com suas próprias cores em função dos potenciais que elas têm ‒ a cor como equivalente plástico do pensamento e da emoção, podendo ser utilizada para fins sensoriais, morais e estéticos. A ideia de cura está no centro do objeto Cruz elementar, em papel e madeira, de forma meio triangular, com textos manuscritos ou marcados por carimbos e cruzes. Os desenhos Something, por sua vez, referem-se ao futuro da natureza intelectualizada no mundo natural. São aldeias, com pequenas cabanas, que giram em torno de São Mateus e de Maria ‒ testemunhas da Ressurreição e da Ascensão. Um dos desenhos traz a criação do mundo pendurada. São desenhos sobre desenhos, como contas ainda não pagas ‒ devedoras, talvez, em relação à condição humana…
A pintura, porém, é pura pintura, sem as interferências anteriores – como terra de seu jardim –, mantendo sempre as palavras e as cruzes. Palavras que às vezes se dissolvem sob as várias camadas de tinta ou se transmutam, como em “teia” para “veia”, tendo, contudo, sempre o T, evocando ainda uma vez a cruz, a morte, a cura, a doença.
Confeccionadas pela artista, as tintas, com pigmentos de várias origens, interagem com o cádmio verde, misturado, que vem juntar-se ao ultramarinho-rosa; o azul-paris mais o cobalto-turquesa, mais cádmio vermelho; ou ainda o lápis-lazúli e cores terrosas. Todas abstratas, com formas geométricas e pinceladas expressionistas e largas, as telas são de diversos tamanhos. As quatro grandes, feitas ao longo de vários meses, os pincéis parecendo querer voar pela necessidade de expansão, transmitem sensação de liberdade; nas pequenas, de processo mais rápido, mais sob seu controle, somam-se tinta, pastéis secos, carvão, com mudanças de tonalidades de uma para outra. Há algumas, de dimensões intermediárias, cujo tratamento pictórico remete igualmente à cor como matéria espiritualizada com suas polaridades e interações, garantindo a alta voltagem de sua pintura.
