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novembro 19, 2004
Arte? É, arte!

Trabalho de Vito Aconcci, realizado em São Paulo: abrigo para sem-tetos
Arte? É, arte!
RUBENS PILEGGI SÁ
Considerar arte ou não algum evento ou situação, ou mesmo um quadro, um mural, qualquer coisa, simples ou sofisticada, feita, inclusive, para ser arte, é uma tarefa quase impossível, ou, no mínimo paradoxal. O que determina que algo venha a ser ou não arte, não é nem pode ser um carimbo de algum especialista ou instituição garantindo a qualidade do produto, como se isso fosse o fim das discussões.
Objetos considerados arte no passado, podem ser vistos, hoje, muito menos valorosos do que eram em sua época. O mesmo valendo para muito do que hoje não se dá valor, mas que amanhã pode se tornar obra-prima. Por exemplo, um quadro de Van Gogh.
Obviamente não precisamos nos encher de entulho, esperando ficar ricos mais tarde. Ainda mais porque depois da década de 1950, muito da arte, ou do que passou a ser considerado arte, não tem mais a ver nem com objetos, quadros pintados ou esculturas. E foram surgindo movimentos como a arte conceitual, arte desmaterializada, poéticas processuais, arte que só se sabe dela por registros fotográficos e, muitas vezes, só por ouvir falar. Mais, o próprio artista começou a falar do seu trabalho, sem esperar que um crítico o fizesse por ele (isso quando a autoria era assumida!).
Arte, vida e experimentação se tornaram quase uma fórmula para ações que, muitas vezes, tinham (e continuam tendo) mais a ver com protesto político, ação social, deslumbramento com a tecnologia, do que, propriamente, pelo que era até então considerado Arte (no sentido de "ciência do belo").
Exemplos é que não faltam, como a ação "4 dias e quatro noites", de Artur Barrio, feita em 1970, em que o artista saiu pelas ruas do Rio de Janeiro, andando, até perder toda a sua resistência. Sem registros de fotos ou vídeo, Barrio só foi começar a falar dela a partir de 1978.
Outro exemplo foi no evento Artecidade, há dois anos atrás, quando o artista Vito Aconcci criou um abrigo para sem-tetos debaixo de um viaduto, em São Paulo. Outro exemplo, ainda: dias atrás houve uma manifestação em São Paulo, em que vários manifestantes trocaram as placas da Av. jornalista Roberto Marinho, por Av. jornalista Wladimir Herzog - uma vítima da repressão da ditadura militar no país, que se tornou símbolo de resistência democrática. É possível chamar esses exemplos de arte?
A Bienal Internacional de São Paulo deste ano apresenta dois casos, no mínimo curiosos, dentro desse debate. Um é o próprio Barrio, que utiliza um barco cuja cor da vela remete a uma pintura do suprematista Mondrian, um dos principais expoentes da pintura da primeira metade do século passado. O curioso, no caso, é que depois de reconhecido como um artista radical e contestador, Barrio passe a mostrar referências da história da arte no que vem fazendo ultimamente, como uma reverência que parecia negar no início. Sinais dos tempos?
O outro caso fica por conta de uma dupla de artistas da Noruega, cujo trabalho consiste em ajudar a implementar em comunidades urbanas e rurais carentes, ações como: criação de áreas verdes, plantação de hortas orgânicas, plantas medicinais, recuperação de áreas ambientais degradas, projeto de plantação hidropônica, consciência ambiental, etc. Na sala reservada a esses artistas, quem quiser pode pegar um jornal que é mais parecido com um manual de manuseio da terra do que, propriamente, um "objeto artístico". É um trabalho, enfim, de conscientização. E, de qualquer forma, arte tem a ver com isso, também.
Há pessoas que dizem que o trabalho dos noruegueses não passa de prestação de serviço social, usando a arte como pretexto. Outras não vêem nada de negativo em se usar a arte como pretexto para realizar qualquer tipo de tarefa. Afinal, entre a reverência à história da arte e rompimento com as formas tradicionais já realizadas, a arte não vai deixar de ser o que é, ao mesmo tempo o que representa ser, independente do debate conceitual que se fizer em torno dela.
Porque, ao se apropriar de certos acontecimentos, reais ou não, banais ou raros, tudo pode estar investido, magicamente, de potencialidade artística, de invenção, de fantasia, de matéria lúdica. Mesmo um texto aparentemente objetivo ou científico. Mesmo uma foto jornalística. A descrição de um fenômeno. Uma manifestação de rua. Ficando livre, cada um, para interpretar como quiser e puder aquilo que lhe é dado aos sentidos.
