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agosto 12, 2019

36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão no MAM, São Paulo

36ª edição do Panorama da Arte Brasileira promete redefinir o conceito de "sertão"

Exposição bianual do MAM São Paulo acontecerá de 17/08 a 15/11, com curadoria de Júlia Rebouças

No segundo semestre, entre 17/08 e 15/11, o MAM São Paulo realizará, com o patrocínio máster de Água AMA e Bradesco e o patrocínio da Movida Aluguel de Carros, a nova edição do Panorama da Arte Brasileira. "Sertão" é o título e o conceito proposto pela curadora Júlia Rebouças para articular o 36º Panorama, do qual participarão 29 artistas e coletivos, e que tem assistência curatorial de Maria Catarina Duncan. Após um extenso processo de pesquisa e viagens por diversas regiões do Brasil, incluindo cidades como Cachoeira (BA), Recife (PE), Brasília (DF), Florianópolis (SC), São Paulo e a região do Cariri cearense, a curadora convidou artistas que se relacionam com o conceito, entendendo a própria arte como “sertão” – em sua instância de experimentação e resistência –, contestando, portanto, o viés restritivamente geográfico facilmente associado à palavra. Sertão é apresentado nesta exposição como um modo de pensar e de agir, que tem a criação artística como um de seus importantes aspectos definidores.

“Não há empreendimento, monumento ou manifestação que consiga simbolizar inteiramente sertão. Há sempre uma condição-sertão que funda outra existência e que não se deixa confinar. Se o imaginário de um certo senso comum trata sertão como vazio, aridez, aspereza ou indigência, a ele confrontam-se as acepções de vitalidade, força, resistência, experimentação e criação, gestadas a partir de uma ordem de saberes e práticas que desafia o projeto colonial em suas reiteradas tentativas de submissão. De forma alusiva, sertão refere-se a um só tempo à arte e ao estado da arte”, explica Júlia.

A necessidade de reelaborar a história brasileira, uma repactuação social, espiritualidade, identidade de gênero, lutas antirracistas e a relação com o meio ambiente são algumas das questões que aparecem nas instalações, fotografias, pinturas, vídeos, esculturas e projetos deste Panorama. Os artistas selecionados estão em início ou meio de carreira, com produções que apontam para territórios especulativos que dão sentido à ideia de sertão, além de artistas com trajetórias mais extensas, que apresentam obras que merecem ser revisitadas à luz dos debates propostos.

36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão

Estratégias de criação não hegemônicas e novas tecnologias sociais aparecem em diversos trabalhos que serão encontrados na exposição. Ana Lira é um exemplo, com sua produção de fotografias e publicações que tratam de processos de construção coletiva. No projeto que desenvolve para Sertão, acompanha o trabalho de agricultores e agricultoras experimentadores do semiárido nordestino. Raquel Versieux, artista e professora radicada no Crato (CE), propõe encontros de saberes tradicionais em dinâmicas realizadas na região do Cariri. Maxim Malhado, artista baiano, apresenta esculturas que se relacionam com tecnologias de construção popular. Gabi Bresola e Mariana Berta discutem as possibilidades de relacionar o campo da arte com outras atividades humanas e matrizes de conhecimento, como a agricultura.

Ana Vaz, em sua filmografia, questiona territórios e geografias a partir do encontro entre ficção e história. Para Sertão, Mabe Bethônico, que costumeiramente trabalha com arquivos e documentos históricos, propõe um debate sobre as cercas como conceito e estrutura político-culturais. O Coletivo Fulni-ô do Cinema fala da luta constante pela resistência do povo fulni–ô em seu território de origem, no semiárido pernambucano. Santídio Pereira, por meio de xilogravuras de grande dimensão, retrata espécies nativas da caatinga, recriando imaginários.

A vertigem da vida contemporânea aparece nas pinturas e instalações de Regina Parra, enquanto o artista Daniel Albuquerque recorre a obras tridimensionais para se referir ao corpo humano e seus rituais de prazer e de intimidade. Paul Setúbal reflete sobre a arqueologia da violência, tensionando a relação de objetos de poder com o corpo. O artista Raphael Escobar, que desde 2009 atua com educação não formal em contextos de vulnerabilidade social, como a Fundação Casa, Projeto Quixote e a organização Craco Resiste, em seu trabalho questiona narrativas que criam apagamento e estigmatização dos grupos atingidos. Já Vânia Medeiros, ao tomar cadernos de desenhos como instrumentos de mediação, convida trabalhadores da construção civil e prostitutas a retratar suas realidades de vida e trabalho, refletindo sobre elas.

A obra de Gê Viana parte de populações segregadas historicamente, como indígenas, mulheres e pessoas LGBT, criando novas escrituras políticas por meio de fotoperformances e colagens. Vulcânica PokaRopa, artista e pesquisadora, constitui um arquivo que debate a invisibilidade de pessoas trans, travestis e não-binárias em espaços institucionais, ao passo em que Rosa Luz, artista travesti que transita entre a música e as artes visuais, trata dos enfrentamentos sociais dos corpos dissidentes. Mariana de Matos faz a poesia encontrar as artes visuais para discutir a necessidade de desestabilizar narrativas hegemônicas, enquanto Randolpho Lamonier especula sobre modos de vida que produzem exclusão e as insurgências cotidianas. Maxwell Alexandre problematiza o conceito de “patrimônio” e chama atenção para práticas experimentais que desafiam circuitos estabelecidos.

Antonio Obá, por sua vez, discute sobre a identidade negra e a violência impetrada pelo racismo estrutural, em pinturas, esculturas e instalações. Dalton Paula acessa a história brasileira para reinscrever narrativas sobre a presença negra e sua cultura, que foram apagadas dos registros oficiais. Ana Pi, coreógrafa, trata em sua obra das memórias da diáspora negra, que são repercutidas em gestos e corpos que dançam. Desali, artista da periferia da cidade de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, apresenta um conjunto de pinturas e fotografias desenvolvidas há mais de dez anos, que retratam seu cotidiano.

Gervane de Paula usa o humor crítico para debater injustiças sociais e ambientais. Lise Lobato, artista paraense, parte da cultura marajoara para falar de civilizações amazônicas, ao passo em que Luciana Magno, também de Belém, discute a capacidade de resiliência da natureza diante das investidas de projetos infraestruturais danosos. O ambiente natural em conflito com projetos de vida global e urbanidade aparece em obras como a de Michel Zózimo, que desenvolve desenhos e esculturas sobre a relação entre cultura e natureza. Os trabalhos de Cristiano Lenhardt também acontecem por meio de diferentes observações do entorno, usando suportes como vídeos, instalações, fotografias, desenhos e gravuras. Por meio de sua prática, o artista incorpora o mistério e diferentes cosmovisões em suas obras.

O Panorama conta ainda com a participação de coletivos como a Rádio Yandê, rádio inteiramente indígena produzida desde 2013, com uma programação que tem como objetivo atuar na informação de populações indígenas, além de contribuir para a formação de não-indígenas. Este é um importante canal também para a difusão da produção musical e cultural contemporânea de diversos povos indígenas, o que inclui uma vasta gama de artistas de hip-hop.

Arquitetura e identidade visual

Para desenvolver a expografia da mostra, Júlia Rebouças convidou o estúdio Risco, que apresentou um projeto que toma como base a ideia de uma paisagem topográfica, em que convivem múltiplas manifestações. Ao invés de segmentar as salas de exposição, em salas ou corredores, os arquitetos Tiago Guimarães, Humberto Pio e Marcelo Dacosta criaram uma estrutura que “brota do chão” e que propõe um uso inteiramente novo para os painéis cenográficos disponíveis no MAM: por meio de sobreposições e empilhamentos horizontais são criados módulos de diferentes alturas, que têm as superfícies externas tomadas pelas obras.

O design do 36º Panorama, por sua vez, está a cargo de Elaine Ramos, que desenvolveu uma identidade visual mutante, a partir da reelaboração de códigos, tipografias e escrituras que evocam “sertão” como um modo de enunciar sempre em transformação.

Artistas que integram o 36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão

1- Ana Lira (Caruaru - PE, 1977. Vive no Recife)
2- Ana Pi (Belo Horizonte, 1986. Vive em Paris)
3- Ana Vaz (Brasília, 1986. Vive em Lisboa e em Paris)
4- Antonio Obá (Ceilândia - DF, 1983. Vive em Brasília)
5- Coletivo Fulni-ô de Cinema (Águas Belas - PE)
6- Cristiano Lenhardt (Itaara - RS, 1974. Vive em São Lourenço da Mata - PE)
7- Dalton Paula (Brasília, 1982. Vive em Goiânia)
8- Daniel Albuquerque (Rio de Janeiro, 1983. Vive no Rio de Janeiro)
9- Desali (Contagem - MG, 1983. Vive em Contagem - MG)
10- Gabi Bresola & Mariana Berta (Joaçaba - SC, 1992 / Peritiba - SC, 1990. Vivem em Florianópolis)
11- Gê Viana (Santa Luzia - MA, 1986. Vive em São Luís)
12- Gervane de Paula (Cuiabá, 1961. Vive em Cuiabá)
13- Lise Lobato (Belém, 1963. Vive em Belém)
14- Luciana Magno (Belém, 1987. Vive em São Paulo)
15- Mabe Bethônico (Belo Horizonte, 1966. Vive em Genebra e Belo Horizonte)
16- Mariana de Matos (Governador Valadares - MG, 1987. Vive no Recife)
17- Maxim Malhado (Ibicaraí - BA, 1967. Vive em Massarandupió - BA)
18- Maxwell Alexandre (Rio de Janeiro, 1990. Vive no Rio de Janeiro)
19- Michel Zózimo (Santa Maria - RS, 1977. Vive em Porto Alegre)
20- Paul Setúbal (Aparecida de Goiânia - GO, 1987. Vive em São Paulo)
21- Radio Yandê (Rio de Janeiro, 2013)
22- Randolpho Lamonier (Contagem - MG, 1988. Vive em Belo Horizonte)
23- Raphael Escobar (São Paulo, 1987. Vive em São Paulo)
24- Raquel Versieux (Belo Horizonte, 1984. Vive no Crato - CE)
25- Regina Parra (São Paulo, 1984. Vive em São Paulo)
26- Rosa Luz (Gama - DF, 1995. Vive em São Paulo)
27- Santídio Pereira (Curral Comprido - PI, 1996. Vive em São Paulo)
28- Vânia Medeiros (Salvador, 1984. Vive em São Paulo)
29- Vulcânica PokaRopa (Presidente Bernardes - SP, 1993. Vive em Florianópolis)

50 anos de Panorama

O Panorama da Arte Brasileira teve sua primeira edição em 1969 e foi idealizado como forma de o museu recompor seu acervo e voltar a participar ativamente do circuito artístico contemporâneo. A princípio evento anual, o Panorama passou a ser realizado a cada dois anos a partir de 1995, contando até o momento 35 edições.

Parcerias

O 36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão procurou ampliar seu tempo e espaço de atuação por meio de parcerias estratégicas: com a Festa Literária Internacional de Paraty, serão promovidas duas mesas de debate convidando um participante da Flip e um participante do Panorama, com a mediação de Júlia Rebouças e Fernanda Diamant, curadora da 17ª edição da Flip; com o Auditório Ibirapuera, vizinho do museu, foi organizada uma programação musical a partir dos conceitos trabalhados no Panorama para o dia 18/08, dia seguinte à abertura no MAM; e, com a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, novos debates acontecerão em setembro e outubro, promovendo o encontro entre artistas, psicanalistas e o público.

Irmãos Campana na loja mam

O estúdio Campana, dos irmãos Fernando e Humberto Campana, que celebra em 2019 seus 35 anos de trabalho, ficará a cargo da curadoria da loja mam durante o período do Panorama, com o patrocínio do Iguatemi São Paulo. O trabalho dos Campana incorpora a ideia da transformação, reinvenção e integração entre o artesanato e a produção em massa, oferecendo um design com identidade própria, mixando a individualidade dos materiais à preciosidade das características comuns no cotidiano brasileiro, como as cores, as misturas, o caos criativo. A partir do olhar único dos irmãos Campana, que contam com um extenso trabalho de pesquisa da cultura vernacular nordestina presente em suas coleções, os visitantes poderão vivenciar um novo espaço da loja mam e encontrar peças cuidadosamente selecionadas que trabalham com o conceito expandido de sertão.

AMA: levando água potável ao semiárido brasileiro

Colocar o sertão em foco possibilitou que o 36º Panorama da Arte Brasileira firmasse parcerias com propósitos que vão muito além do simples apoio financeiro. Um dos patrocinadores, a Água AMA, água mineral da Cervejaria Ambev, tem 100% de seu lucro revertido para projetos de acesso à água potável no semiárido brasileiro. A mostra é uma oportunidade para que o público conheça um produto que, aos poucos, está ajudando a transformar a realidade de muitos brasileiros vivendo no semiárido – clima presente em regiões comumente associadas ao tradicional imaginário de sertão. Já são mais de 26 mil pessoas beneficiadas pelos projetos que AMA financia, em todos os nove estados que compõem o semiárido no Brasil. Este ano, a marca atingiu R$ 4 milhões de lucro, recurso integralmente revertido para iniciativas de acesso à água potável. Iniciativas como o patrocínio ao Panorama da Arte Brasileira permitirão um crescimento ainda maior desses números.

Apoio ao Panorama e ao público de fora de São Paulo

A agência de viagens Flytour, além de ter se tornado agência apoiadora do Panorama, habilitou para o MAM um portal em que os interessados em adquirir passagens e pacotes de hospedagem para viajar a São Paulo e conferir pessoalmente o 36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão contarão com descontos especiais.

Equipe do 36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão

Curadoria – Júlia Rebouças (Aracaju, 1984. Vive entre Belo Horizonte e São Paulo) curadora, pesquisadora e crítica de arte. É curadora do 36o Panorama da Arte Brasileira, Museu de Arte Moderna – SP, em 2019. No mesmo ano, realiza a curadoria de Entrevendo, mostra antológica de Cildo Meireles, a ser inaugurada no Sesc Pompeia – SP, em setembro. Foi co-curadora da 32a Bienal de São Paulo, Incerteza Viva (2016). De 2007 a 2015, trabalhou na curadoria do Instituto Inhotim, Minas Gerais. Colaborou com a Associação Cultural Videobrasil, integrando a comissão curadora dos 18o e 19o Festivais Internacionais de Arte Contemporânea SESC_Videobrasil, em São Paulo. Foi curadora adjunta da 9a Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, em 2013. Realiza diversos projetos curatoriais independentes, dentre os quais destacamos a exposição Entrementes, da artista Valeska Soares, na Estação Pinacoteca, São Paulo, de agosto a outubro de 2018, a mostra MitoMotim, no Galpão VB, São Paulo, de abril a julho de 2018 e Zona de instabilidade, com obras da artista Lais Myrrha, na Caixa Cultural, São Paulo, em 2013. Graduou-se em Comunicação Social/ Jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco (2006). É Mestre e Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal de Minas Gerais.

Assistência curatorial – Catarina Duncan (Rio de Janeiro, 1993. Vive em São Paulo) curadora e programadora cultural. Formada em Culturas Visuais e História da Arte pela Goldsmiths College, University of London (2010 - 2014), foi assistente curatorial da 32a Bienal de São Paulo (2015 - 2016), do ‘Pivô Arte e Pesquisa’ (2014-2015) e das exposições ‘Terra Comunal Marina Abramovic’ no Sesc Pompeia (2014), entre outros. Coordenou a programação pública da obra ‘Cura Bra Cura Té’ de Ernesto Neto na Pinacoteca (2019). Participou de diversas residências artísticas, entre elas a 'Residents Art Dubai' (2019) com curadoria de Fernanda Brenner, e ‘Lastro’, na Bolívia e Guatemala (2015-2017), ao lado da curadora Beatriz Lemos. Assinou a curadoria das exposições '⦿' na Galeria Leme (2018), 'Somos Muitxs' no Solar dos Abacaxis (2018), 'Oráculo Piedoso' de Martin Lanezan na Galeria Sancovsky (2018), ‘Travessias Ocultas – Lastro Bolivia’ no Sesc Bom Retiro (2018), Fio Corpo Terra' no espaço Saracura (2017). Integrou o coletivo TerreyroCoreográfico (2015 - 2016). Atua como representante do programa COINCIDENCA da fundação suíça para cultura Pro Helvetia no Brasil.

Arquitetura – Estudio Risco. Inaugurado em 2007, o estúdio Risco é um coletivo formado por artistas de trajetórias variadas e interesses múltiplos. Presta serviços de arquitetura, cenografia, expografia, desenho de produto, desenho gráfico e videografia. Hoje é formado por Humberto Pio, Juliana Amaral, Marcelo Dacosta e Tiago Guimarães. Nos últimos quatro anos, desenvolveu o desenho de mostras de arte como: “O que os Olhos Alcançam - Cristiano Mascaro” (Sesc Pinheiros, 2019), “Arte-Veículo (Sesc Pompeia, 2018)”, “Estou Cá” (Sesc Belenzinho, 2016-7), “Sempre Algo Entre Nós” (Sesc Belenzinho, 2016), “Potlatch: Trocas de Arte” (Sesc Belenzinho, 2016), “Provocar Urbanos” (Sesc Vila Mariana, 2016), “Arno Rafael Minkkinen: O corpo como evidência” (Sesc Jundiaí e Sesc Vila Mariana, 2016) e VI Mostra de 3M de Arte Digital (Fundição Progresso, Rio de Janeiro, 2015).

Design – Elaine Ramos (São Paulo, 1974) é designer atuante na área cultural e sócia da editora paulistana Ubu. Foi, por 11 anos, diretora de arte da editora Cosac Naify, onde também coordenou a edição dos títulos sobre design. É co-organizadora da Linha do tempo do design gráfico no Brasil, foi co-curadora da exposição Cidade Gráfica, no Itaú Cultural em São Paulo e é membro da Alliance Graphique Internationale (AGI).

Posted by Patricia Canetti at 3:35 PM